22.3.11

Entrevista: Gilda Maia revela parte da história da música erudita em Belém

"Ode a uma Nobre Pianista”, biografia da pianista Helena Maia, hoje com 73 anos, uma homenagem pela contribuição da artista para a música erudita feita em Belém. O livro sai pela Paka-Tatu, com apoio cultural da Escola de Música da UFPA. O lançamento será nesta quinta-feira, 24, na Igreja de Santo Alexandre, às 19h30.

Escrito pela própria filha, Gilda Maia, em parceria com Líliam Barros, o livro apresenta ao leitor o processo de formação e atuação musical de Helena Maia, e transforma em documento histórico a vida e a obra da pianista.

Nascida no ventre de uma família onde a música era o caminho quase natural de seus rebentos, Helena Maia trouxe consigo o sobrenome Nobre, que tem ainda na família homens e mulheres que ajudaram a construir a história da música erudita paraense no final do século XIX e início do século XX. 

“Há muito preconceito em relação à pesquisa, as pessoas dizem: ‘Ah, você vai fazer um livro sobre a tua mãe? Mas se eu e Líliam não tivéssemos feito, quem iria fazer? O importante da pesquisa é fazer algo que te toque, porque você faz com vontade, com amor. E o professor Armando [Alves Filho, editor do livro] foi tocado. Ele comprou a ideia. Foi feito por uma pessoa querida [ele foi meu professor de História], que valoriza as coisas daqui. Então, as coisas foram se encaixando. Eu sempre quis homenagear a minha mãe de alguma forma e esse livro é a concretização de um sonho”, afirma Gilda Maia.

Lenita acompanhadora oficial Irmãos Nobre 14 anos
Conheci Gilda, pessoalmente, no ano passado, quando ela e alguns amigos do mestrado em arte e mais um grupo de artistas e jornalistas organizavam uma ação para homenagear os Irmãos Nobres. E pesquisando a história de sua mãe, Gilda Maia acabou conhecendo mais ainda a emocionante história dos irmãos Ulysses e Helena, os quais sua mãe Lenita, aos 14 anos, já acompanhava ao piano.  Portadores de hanseníase, eles moravam em uma casa que ficou conhecida como Gaiola Dourada por enclausurar os “Uirapurus Paraenses”. 

Gilda conta que desta casa, a partir de 1931, os Irmãos Nobre só saiam da clausura através das ondas do rádio da PRC-5 (a Rádio Clube do Pará – “a rádio que canta e fala pela planície”), a qual passou a instalar dentro desta casa seu aparato radiofônico e transmitir para seus ouvintes os Festivais Lítero-Musicais dos Irmãos Nobre.

“Dizem as crônicas da época, que a cidade parava para ouvir Helena e Ulysses na noite dos Festivais Radiofônicos dos Irmãos Nobre. As salas desta casa, na Trav. Campos Sales, ficavam repletas de convidados e a rua Campos Sales fechava, interditada pelas pessoas que da rua assistiam a tudo através das janelas da mesma casa”, disse-nos Gilda em uma das reuniões do grupo.

A idéia era realizar um cortejo carnavalesco pelos arredores da casa no bairro da campina, como forma de chamar atenção para a atual situação de abandono em que se encontra a ex-residência dos Nobres, uma casa de fachada róseo-clara localizada à travessa Campos Sales, entre as ruas O´de Almeida e Aristides Lobo, ao lado de um casarão verde, que fica na esquina da Aristides.

Orquestrada UFPA (regida por Nivaldo Santiago) Teatro Paz
“Esta casa, juntamente com as personalidades de Helena Nobre e Ulysses Nobre, são marcos, que simbolizam a história e o movimento musical de Belém de uma época. Memória que pretendemos divulgar e difundir, informando a sociedade atual”, afirma. A ação acabou não acontecendo, mas abriu caminhos para outras idéias que só agora começarão a colocados em prática.

O livro é dividido em cinco períodos da vida da pianista: “A Nobre Lenita”, que narra a saga da Família Nobre e destaca-se a importância dos irmãos Ulysses e Helena Nobre para a cena cultural e artística de Belém; “Lenita em recital”, no qual estão os principais momentos da carreira da pianista e do aprendizado do instrumento.

Em “Tocar meu conjunto: um ato de amor”, ela fala do talento de Lenita na arte de tocar a Música de Câmera. Em a “Orquestra Juvenil do SAM” (Serviço de Atividades Musicais), traz o momento em que Helena atuou como professora, além de ter ajudado a fundar a Orquestra e finalmente em “Lenita entre Nós”, as autoras destacam o perfil artístico de Helena Maia e o papel exercido por ela na música paraense. Além disso, feliz com o lançamento do livro, Gilda Maia diz que se descobriu pesquisadora. Ela conversou com o Holofote Virtual sobre esta experiência e de seus futuros projetos na pesquisa, que inclui a construção de um site em homenagem aos irmãos Nobres.

Gilda Maia
Holofote Virtual: Como é revirar o baú da própria mãe para contar a sua trajetória?

Gilda Maia: O interesse em escrever a biografia de minha mãe foi a vontade em homenageá-la ainda em vida. Vê-se que muitos artistas e intelectuais costumam receber apenas homenagens póstumas. Acredito que é muito importante a sensação de alegria em serem homenageados. E isso eu e Líliam quisemos proporcionar à pianista Helena Maia (minha mãe). Presenciei a maioria das entrevistas realizadas com Helena Maia e transcrevi a maioria delas também.

Holofote Virtual: Quais foram tuas principais fontes de pesquisa além das entrevistas com a própria Helena? Você se deparou com surpresas?

Gilda Maia: Além das entrevistas com Helena Maia, foram utilizados recortes de jornais, programas de concertos, fotos, depoimentos de pessoas que conviveram com ela, o currículo de Helena Maia e o álbum de recortes da carreira artística de Helena Maia.

Este álbum foi feito por sua tia-avó Helena Nobre (cantora lírica paraense da primeira metade do século XX). Fiquei surpresa com cada documento encontrado. Na época, estavam dispersos nas gavetas e armários da casa de minha mãe.

Através destes documentos e das conversas com Helena Maia, conheci profundamente a vida desta pianista, que eu ainda não conhecia, pois minha relação com ela era dentro da informalidade de minha casa e no relacionamento de mãe e filha. A grandiosidade desta profissional e o carinho que a sociedade tem para com ela me encantaram. Passei a admirá-la ainda mais após esta pesquisa.

Helena e Luis Cuevas, do trio camerístico da UFPA
Holofote Virtual: Qual foi teu maior prazer nessa jornada?

Gilda Maia: Além de conhecer uma Helena Maia que ainda não conhecia, me descobri como pesquisadora. A partir deste trabalho, passei a produzir vários outros. Atualmente, estou fazendo um site sobre os Irmãos Nobre, meus tios bisavós Helena e Ulysses Nobre, cantores líricos da época da borracha.

Holofote Virtual: O que você conta sobre eles no livro?

Gilda Maia: Abordo brevemente sobre sua carreira artística (Helena e Ulysses Nobre), sobre seus pais e irmãos também músicos, sobre sua casa localizada à travessa Campos Sales (batizada de Gaiola Dourada) e sobre os Festivais Radiofônicos dos Irmãos Nobre promovidos pela Rádio Club do Pará PRC-5.

Holofote Virtual: Há algum tempo havia uma vontade tua de chamar atenção para esta casa onde eles moravam, na Campos Sales, hoje abandonada. Em que pé ficou este assunto?

Gilda Maia: Ainda não se fez nada. E do jeito que as coisas andam, provavelmente será mais uma casa pertencente ao Patrimônio Histórico de Belém que irá ao chão. Infelizmente, isso tem acontecido com frequência na cidade e ninguém toma nenhuma providência. 

Esta casa é símbolo de parte da história da música da cidade de Belém, mas o descaso existe e está lhe degradando, não demorará muito para virar pó, como as casas que existiam ao seu lado esquerdo, hoje local utilizado como estacionamento de uma loja de Belém. Isso é muito preocupante, pois a história e a memória representam a identidade de uma cidade. Esquecer ou não conhecer essa memória é não se reconhecer nessa história.

1ª apresentação da Orq. Juvenil do SAM, em 1974
Holofote Virtual: Belém tem uma história forte ligada a música erudita. Você também atua nesta área. Como você vê o momento atual do ensino da música erudita aqui?

Gilda Maia: Vários trabalhos têm sido realizados em Belém, como Festivais de Ópera, Orquestras e inúmeros recitais de música de Câmara e música Solo. No entanto, viver como músico aqui, ainda não traz uma estabilidade como em outras cidades brasileiras. Hoje, músicos paraenses só têm duas alternativas, ou ir buscar campo de trabalho mais estável e digno em outras localidades ou trabalhar como professores de música.

Holofote Virtual: O que vocês esperam com o lançamento deste livro?

Gilda Maia: Esperamos, além de homenagear a pianista Helena Maia, divulgar, difundir e dar acesso à sociedade em geral sobre esta parte da história da música de Belém.

21.3.11

"Ser Estar" inicia atividades do Sesc EnCENA


Através do Projeto “SESC EnCENA” entra em cartaz o espetáculo “Ser Estar”, do Grupo Cia. Cênica SESC Pará. As apresentações acontecem nesta terça, 22, e quarta, 23, no Teatro Universitário Cláudio Barradas.

Fomentar o circuito cultural do estado Pará é uma missão do Serviço Social do Comércio (SESC). Para as artes cênicas, o SESC iniciará as atividades do “SESC EnCENA”, projeto itinerante que vai levar espetáculos de teatro e dança para o interior e para a capital do Pará.

Ao ter em mente esta idéia, o SESC vai reunir no projeto algumas das companhias de teatro e dança mais importantes do estado, são elas: Cia. Brac, Grupo In Bust, Grupo In Sombra, Grupo Circo Mágico, Cia. Ribalta, Grupo Teatro do Ofício, Grupo Em Pé na Rede, Cia. Cênica SESC PA, Grupo Parafolclórico do SESC, Grupo de Ballet do SESC, Cia. Regular e Grupo ECOART.

Para iniciar as atividades do projeto, a Cia. Cênica SESC PA encenará o espetáculo “Ser Estar”, que é um romance surrealista que retrata as transformações vividas pela personagem Clara. Ela almeja perder suas inseguranças com as escolhas já tomadas na sua meia idade, passando por conflitos internos na busca de segurança e definição da sua persona étnica e moral.

O espetáculo é dirigido por Lindemberg Monteiro e por Flávio Lima. “Ser Estar” foi concebido na linguagem Dança-Teatro na fusão experimental da Dança contemporânea com o Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski. 

Serviço
Espetáculo Ser Estar. No teatro Cláudio Barradas (Rua Jerônimo Pimentel, 546, esquina c/ D. Romualdo de Seixas). Terça, 22, e quarta, 23, a partir das 19h30, com entrada franca. Ao final do espetáculo, haverá um bate-papo com a platéia.

(Com informações da Ascom-Sesc-PA)

Seminário Narrativas Discentes discute produção artística universitária

A arte do século XXI tem se mostrado cada vez mais híbrida, onde as diversas linguagens dialogam entre si, tornando-se uma arte plural. 

O uso das novas tecnologias permite uma forma de produzir arte que antes não era possível ou pensável. Os artistas contemporâneos têm agora uma maior liberdade para criar e isso exige do espectador um olhar diferente.

Foi pensando na atual perspectiva artística que o Centro Acadêmico de Artes Visuais (CAAV) elaborou o Projeto Seminário Narrativa Discentes: Conexões em Arte, um espaço que permite que os alunos do Instituto de Ciências da Arte (ICA) da UFPA e de outras instituições divulguem e discutam de forma crítica a atual produção experimental discente.

Serviço
O evento ocorre no período de 17 a 20 de maio com mostras artísticas, comunicações, conferências, mesas-redondas e apresentação de trabalhos que podem ser submetidos até o dia 10 de abril. Maiores informações e inscrições: www.narrativasdiscentes.blogspot.com

Fonte: Lorena Claudino, da Assessoria de Imprensa da DAC/PROEX

18.3.11

“Encontro das Águas” reúne Sebastião Tapajós, Simone Almeida e Trio Manari

Pintura do artista Apolinário, exposta no Mascote (Santarém-PA)
O violonista Sebastião Tapajós e a cantora Simone Almeida se apresentam pela primeira vez juntos, nesta sexta-feira, 18, e sábado, 19, no Teatro Margarida Schivasappa, do Centur. O espetáculo tem participação especial do Trio Manari, o contrabaixista Adelbert Carneiro e o pianista Edgard Matos.

Por Avelino V. do Vale*

Ouvido por telefone, da cidade natal, Santarém, no oeste do Pará, onde reside desde 1997, Sebastião Tapajós informou que o repertório do show “Encontro das Águas” tem duas composições inéditas, ambas de autoria dele, em parceria com outros dois paraenses, Billy Blanco e Paulo André Barata, cada um parceiro em uma das músicas.

O violonista conta que as duas composições tiveram uma mesma fonte de inspiração: o Ver-o-peso. E revela que considera o Ver-o-peso um lugar encantador desde que conheceu Belém, onde residiu, ainda jovem, nos anos 60, em dois períodos, o primeiro, tendo se mudado de Santarém para desenvolver estudos de Teoria Musical, o segundo, após concluir a formação acadêmica em violão, em Lisboa e em Madri.

De título Ver-o-peso, uma das duas músicas de Sebastião Tapajós que no show com a cantora Simone Almeida são mostradas pela primeira vez em público tem letra. A letra foi criada por Billy Blanco, compositor radicado no Rio de Janeiro que é o mais antigo dentre os poucos parceiros letristas de Sebastião Tapajós, por sua vez, um compositor de poucas músicas letradas, que, na maioria, têm Billy como autor das letras.

Parcerias com Paulo André Barata e Billy Blanco (foto: Bruno Pellerin).
Ver-o-peso é uma das músicas que Simone Almeida e Sebastião Tapajós interpretam juntos. É, também, um dos números em que aos dois se somam no palco do teatro do Centur, o contrabaixista Adelbert Carneiro, o pianista Edgar Matos e o Trio Manari.

A outra composição inédita do show Encontro das Águas é intitulada Manhãs no Ver-o-peso. Trata-se de uma música instrumental, ou seja, sem letra. Ela é tocada apenas por Sebastião Tapajós, ao violão solo. Segundo o solista, Manhãs no Ver-o-peso foi criada por ele e por Paulo André Barata quando de recente estada dele, Tapajós, em Belém, durante uma das visitas que costuma fazer ao amigo e compositor belenense, na residência deste.

Anteriormente, Sebastião Tapajós e Paulo André Barata já eram parceiros em duas composições musicais: a primeira, um samba-enredo, feito com outros autores, para a escola de samba Acadêmicos da Pedreira, música em que o violonista diz ter tido “uma participação muito pequena, para atender ao convite do Paulo André, lá pelos anos 90”; a segunda, do ano 2000, a canção-choro Quebranto, que tem letra de Avelino do Vale.

Simone Alveida, romântica e eclética.
Simone Almeida apresenta repertório diverso

É evidente nesse repertório a versatilidade como intérprete vocal que ela desenvolveu ao longo dos 15 anos de carreira, que comemora este ano. Além da versatilidade, o repertório vocal do espetáculo indica outro forte componente da identidade artístico-musical dela, o de intérprete do cancioneiro amazônico, que ela tem contextualizado como cantora do amor em várias dimensões, favorecida por um timbre vocálico ao mesmo forte e suave.

Simone Almeida brinda o público do show desta sexta e sábado, no Teatro do Centur, com interpretações de duas músicas de Sebastião Tapajós que ela faz pela primeira vez: uma, a de Ver-o-peso, a inédita dele e de Billy Blanco, outra, a de um dos sucessos do violonista, Igapó, que não tem letra.

A cantora interpreta Igapó fazendo vocalize, em trilha sonora que se prenuncia uma das mais bonitas do show. O estilo romântico tem um dos principais momentos na performance vocal de Simone Almeida no espetáculo quando ela interpreta o maior sucesso discográfico dela, a canção Meu Grande Amor, composição de Eudes Fraga.

Meu Grande Amor será música título de um CD comemorativo de 15 anos de carreira a ser lançado pela cantora em 2011, além de um disco de louvores, intitulado O Amor Maior.

A versatilidade de Simone Almeida transparece tanto da diversidade de autores quanto da diversidade de gêneros musicais que ela interpreta. Eudes Fraga está presente no repertório com outra música além de Meu Grande Amor, uma composição com letra de Joãozinho Gomes.

Os outros autores interpretados pela cantora vão de Waldemar Henrique, referência em música da Amazônia brasileira, até uma criação do grupo Abuela Coca, do Uruguai, passando por Ruy Baldez e Chico Sena, dentre outros.

A música uruguaia é interpretada por Simone Almeida com letra em Português, em versão de título Caminhando, feita por Fernando Dako, guitarrista e compositor, que é marido dela, e, como ela lembra com perceptível satisfação, tem sido o diretor artístico dos mais recentes shows que ela realizou.

Diversidade de gêneros musicais - Simone Almeida interpreta canções, marabaixo  e até o que o contrabaixista Adalbert Carneiro denomina "ritmos afro-amazônicos e carimbó-choro", este, uma fusão que só tem precedentes em composições de Sebastião Tapajós, com registro pelo violonista no CD Choros e Valsas do Pará.

Algumas das músicas do show no Teatro Margarida Schivasappa estarão no CD comemorativo Meu Grande Amor. A cantora conta que esse disco será uma coletânea de interpretações dela que ela própria selecionou dos repertórios de vários CDs, dentre eles os dois discos solos que já fez, Recado, de 2003, e Quando Teu Amor Chegou em Mim, de 2007.

Juntamente com faixas pinçadas desses CDs solos, estará no CD coletânea, já em fase de finalização, músicas gravadas por ela em CDs de vários intérpretes. Dentre esses discos de onde transporá faixas avulsas em que canta estão um CD com músicas da programação 5ª Cultural, do Banco da Amazônia, e dois da série Uirapuru, da Secretaria de Cultura do Pará – Secult/PA, sendo um destes o CD de composições de Galdino Penna e outro o CD de composições de Antonio Carlos Maranhão.

Manari toca Suíte das Amazonas, com Tapajós.
Noite percussiva - O Trio Manari, constituído pelos percussionistas Márcio Jardim, Nazaco Gomes e Kléber Benigno, tem participação especial no show Encontro das Águas. 

Os três destacam-se em um número que fazem com Sebastião Tapajós, um trecho da Suíte das Amazonas, de autoria do violonista, e que dá título a um CD já gravado, a ser lançado, disco tripartite do solista santareno, do trio de percussionistas e do contrabaixista Ney Conceição.

No show, o Trio Manari toca, também, em músicas que Simone Almeida canta acompanhada por Adelbert Carneiro, no contrabaixo, Edgar Matos, no piano, e, em alguns números, por Sebastião Tapajós, ao violão.

*Avelino V. do Vale é jornalista e compositor (avelino.vanetta@gmail.com)

17.3.11

Nando Lima apresenta seu teatro “Trans-Tecnológico”

Internet, câmera, personagens virtuais do Secod Life, projeção de imagens, música, msn. Tudo o que  você puder imaginar em termos de tecnologia, como extensão do homem, pode ser visto na ciberperformance “Morgue Insano and Coll”, de Nando Lima, em cartaz, nesta quinta-feira, 17, às 21h, no Espaço Reator.

Quando Augusto, o personagem de M.i.C. - Morgue Insano and Cool, inicia o espetáculo, acorda em uma sala onde ele está só, no escuro, deitado em uma maca de aço. 

No silêncio ele senta e ouve sua própria respiração. Nos seus dedos sente algo amarrado, é uma etiqueta com seu nome e a hora de sua morte.  O estado de “Odisseu” deste personagem, e o percurso entre ambientes reais, imaginários, e digitais, é o que coloca a performance em movimento. 

As discrepâncias entre os estados da mente e do físico, e entre o espaço da encenação e espaço cotidiano são determinantes na carpintaria dramatúrgica, já que nas apresentações, durante a performance, alguns dos participantes - atores e não atores - estarão na sua residência mantendo o contato “online” com o personagem Augusto, e por conseqüência, o público presente ao local da performance.

 O processo de criação deste trabalho performático requer maiores esforços, pois além de exercícios mais tradicionais do treinamento técnico para o ator, como condicionamento físico, voz, respiração, sensibilização, é preciso dominar os recursos da tecnologia envolvida nessa criação, para que se possa, através do computador, controlar a manipulação do Avatar no Second Life, manusear “câmera em tempo real” e “chat” no Windows Live Messenger.

Conceber este construto é um recorte no trajeto de Nando Lima, artista que por 25 anos vem atuando nas mais variadas funções: como artista visual, performer, cenógrafo, dramaturgo, diretor, produtor artístico, e agitador cultural, construiu um rizoma que se finca em todo e qualquer terreno passível de construção de imagens e com ênfase no território teatral. Aqui, vamos, além disso, adentrar no pomar dos frutos proibidos do teatro “Trans-Tecnológico”, e da análise que disseca o cerne da criação, para além da casca brilhante do espetáculo.

Programado para ficar estas três quintas de março em cartaz, Morgue Insano and Cool será apresentado hoje (17.03) mas retornará em breve ao Estúdio Reator, espaço que vem abrigando nova experiências teatrais em Belém. 

Este ano, já apresentou “À Sombra de Dom Quixote”, do coletivo Miasombra, e continua em cartaz neste final de semana, o híbrido “Red Bag”, espetáculo que mistura linguagens do teatro com bonecos, performace e projeção de imagens, sempre às sextas e sábados, às 21h30.

Serviço
Morgue Insano and Cool. Nesta quinta-feira, 17, às 21h, no Estúdio Reator – Trav. 14 de Abril, 1053, entre Magalhães Barata e Gov. José Malcher. Ingresso R$ 20,00, com meia entrada para estudantes e artistas. Informações: 8129-5349/ 8112-8497. Apoio Cultural: Coletivo Produtores Criativos, Holofote Virtual e Intimídia. 

Sob nova direção Núcleo de Produção Digital do Pará deve ganhar novos rumos

O realizador e publicitário Afonso Gallindo acaba de assumir a coordenação do NPD-Pará a convite do Instituto de Artes do Pará, um dos gestores do núcleo e onde o mesmo é sediado desde a inauguração.

A notícia foi bem recebida entre os realizadores, mas também criou expectativas quanto à nova gestão, já que desde que foi criado, com objetivo de fomentar a produção e criação na área do audiovisual, festejado pela classe, em 2006, o NPD vem construindo uma trajetória cheia de bons e maus momentos.

Durante estes anos, conseguiu realizar, em parceira com a gerência de artes plásticas e visuais do IAP, inúmeros cursos, oficinas e workshops voltados as mais diversas linguagens do audiovisual, dando um gás e tanto ao que o instituto já vinha fazendo, antes de 2006, ao investir na realização de cursos voltados as mais diversas linguagens culturais, inclusive as de cinema.

Depois de receber a primeira parte do material de sua estrutura, contendo equipamentos de câmera e som, o NPD lançou o regulamento de utilização destes, em produções de curta duração. Em 2008, mais de 20 roteiros foram inscritos e o resultado da seleção foi divulgada no blog da ABDeC-PA, parceira do NPD.

No ano seguinte, o núcleo enfrentou dificuldades em manter as ações com a mesma freqüência, com exceção da sessão do cineclube Alexandrino Moreira, que se tornou tradicional às segundas-feiras. 

Afonso Gallindo
Em 2010 veio finalmente uma boa notícia. O núcleo recebeu do Ministério da Cultura (MinC), uma ilha completa de edição de imagens e som. 

Afonso Gallindo assumiu a coordenação nesta quarta-feira, 16, e diz que começou a estudar, junto à presidência e à gerência de artes plásticas e audiovisuais do IAP, uma estratégia de ação imediata para o NPD, com perspectivas de já se ter alguma atividade em abril.

Outra conversa é prevista com a categoria. De acordo com Gallindo, o contrato do edital que implantou o NPD terminou e tudo deverá ser revisto. “Vamos discutir de que maneira podemos garantir a estrutura antiga funcionando dentro do Instituto de Artes do Pará. A intenção é ouvir as pessoas e chamar a classe para discutir”, diz.

A implantação do NPD, em Belém, foi resultado de edital do Ministério da Cultura/Secretária do Audiovisual (SAV) - Projeto OLHAR BRASIL que prevê gestão compartilhada entre Estado e Sociedade Cívil. Por isso, o edital pede gestores que, no caso do Pará, foram o Instituto de Artes do Pará (IAP) e a FUNTELPA e também os co-gestores, a ABDeC Pará - Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-metragistas - Secção Pará, Fotoativa e o ICA - Instituto de Ciências da Arte – UFPa.

O retorno das atividades do NPD vem sendo aguardada, principalmente pelos artistas que atuam no audiovisual. Além das oficinas, agora com a ilha de edição, o núcleo também poderá apoiar os realizadores uma das fases mais caras de um filme, a sua finalização.

Atuando no movimento audiovisual paraense, desde final dos anos 1980, Afonso Gallindo participou da retomada da Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas do Pará, em 1998, integrando sua diretoria ou seu conselho, desde então.

Atualmente, na ABD Nacional, ocupa o cargo de Diretor de Regionalização. Com seu histórico de participação no movimento local, boa relação e articulação nacional que possui, podem ajudá-lo a realizar um bom trabalho, principalmente se  conquistar, como é esperado, novas parcerias e retomar as antigas, além de receber o precioso apoio do IAP.

O Instituto de Artes do Pará também lançou nesta quarta seu edital de 2011 para bolsas de Criação, Experimentação, Pesquisa e Divulgação Artística. Há novidades. Saiba mais, no site da instituição, aqui.

16.3.11

Entrevista: Elza Lima revela as novas Amazonas em exposição premiada pela Funarte

O imaginário que cerca a vida real da mulher ribeirinha, na Amazônia, é o objeto de pesquisa da fotógrafa Elza Lima, na exposição “O Lago da Lua ou Yaci Uaruá - As Amazonas do rio mar” , aberta desde o dia 17 de fevereiro, na Galeria de Arte do CCBEU (Padre Eutíquio), onde fica até o dia 31 de março. 

Quem visita a exposição encontra 44 imagens, em grandes formatos, tendo logo à entrada,  duas fotografias e um trecho da filmagem feita sobre o Espelho da Lua. Ao final, uma foto retrata a imagem que interpreta a carta do viajante espanhol Francisco Orellanas, pintada em uma parede de Terra Santa, um dos municípios visitados pela fotógrafa.

Elza Lima não expõe individualmente em Belém desde os anos 90. “Não gosto muito de exposições. É um nervoso grande expor para quem tu conheces, na tua terra”,  explica-se. A mostra  atual faz parte do projeto homônimo premiado no ano passado pela Funarte. Elza foi uma das vencedoras do XI Prêmio Funarte Marc Ferrez, na categoria Documentação Fotográfica/Registro das Transformações do Cotidiano na Sociedade.

Parte de uma geração que fez a história da fotografia paraense dar uma volta de 180 graus, a fotógrafa admira a mais nova turma que hoje se espalha pelo estado, mas principalmente, em Belém, onde tudo começa nos anos 1980. 

A exposção fica aberta até dia 31 de março
“A nova geração da fotografia é uma delícia, acho todos eles antenados com o mundo, já nasceram com acesso às novas tecnologias, dominam a internet, enfim, tudo o que sonhamos na minha época, quando desejávamos ter contato e saber o que outros artistas estavam fazendo e isso tudo eles conseguem hoje”, afirma.

Além de tecnologia, para atravessar o universo da fotografia, é necessário por os pés na estrada ou navegar, sim, é preciso. E foi isso que ela fez. Para buscar as imagens desta nova exposição, Elza Lima atravessou vários municípios navegando o rio Nhamundá, localizado no Baixo Amazonas.

Partiu de Oriximiná e passou pelas cidades de Nhamundá, Juruti, Faro e Terra Santa, onde está o “Espelho da Lua” e, supostamente, o local em que aconteceu, em 1542, o encontro dos exploradores Francisco Orellanas e Gaspar Carvajal com as lendárias Amazonas.

O projeto também terá como resultado um curta metragem, filmado pela também fotógrafa Luciana Magno, novíssima geração, e dirigido pela cineasta Priscila Brasil. A previsão é que ele seja apresentado ao público até o final deste ano.

Algumas semanas antes de abrir sua exposição, Elza Lima conversou com o Holofote Virtual. Falou de sua trajetória e da experiência de expressar a região e seus mistérios, através de sua fotografia, capturando, em belas imagens, a essência feminina da Amazônia. Leia a entrevista.

Elza Lima
Holofote Virtual: Já fazia muito tempo que você não realizava um exposição individual aqui em Belém. Quando aconteceram as últimas?

Elza Lima: A última individual foi 1995, na Galeria Theodoro Braga, em paralelo com a mostra do artista plástico Armando Queiroz. Eu havia passado uma temporada na Suíça e retornei com a exposição. O Armando Queiroz mostrava trabalhos que faziam uma interpretação da Alemanha.

Antes disso, fiz “Nunca haverá um país como este”, na Galeria Rômulo Maiorana, quando ainda situava-se em frente à Estação das Docas de hoje. Sempre acabei fazendo outras individuais, mas fora daqui, onde eu geralmente não tenho tanto tempo.

Holofote Virtual: Você também participa de encontros e mostras coletivas dentro e fora do Brasil. Com são estas experiências?

Elza Lima: Em novembro de 2010 expus no Japão, durante um grande encontro de fotografia, mas não pude ir até lá, pois estava em Caiena, realizando uma palestra e uma exposição. E lá também foi um grande encontro. Fiquei encantada com fotógrafos que vieram de vários lugares. Conheci vários deles e até fiquei com vontade de trazê-los para alguma ação aqui.

Na exposição, a fotografia da pintura em Terra Santa
Holofote Virtual: A tua pesquisa pelos rios da Amazônia começa quando e como?

Elza Lima: O primeiro prêmio que eu ganhei com este é tema foi o da Bolsa de Criação Artística do Instituo de Artes do Pará, há sete anos. Foi a minha primeira viagem para esta região. Mas já tenho 25 anos navegando pelo rio Amazonas. 

Cada afluente, cada riozinho que eu descubro é como se eu desvendasse seus mistérios e tivesse sobre eles novos olhares, em perspectivas que antes não tinha nem pensado. São estes desdobramentos do rio têm me proporcionam estes projetos.

O do Nhamundá nasceu de uma viagem que fiz ao Equador, onde fui dar palestra sobre os fotógrafos da Amazônia. Fiz um levantamento desde a história dos viajantes até chegar aos da fotografia de hoje e descobri que a Amazônia é extremamente visual, que ela nasce com esse símbolo da visualidade.

Nesta palestra do Equador me levaram para o local de onde Orellanas e Carvajal partem e descobrem o rio Amazonas. Isso me despertou para o seguinte: não conhecemos a história da descoberta do rio Amazonas. A carta que relata a viagem do Orellanas é linda. Eis que surge a idéia: se estes exploradores tivessem feito esta mesma viagem, hoje, quais seriam estas Amazonas que eles encontrariam?

Holofote Virtual: Eles não poderiam mais fazer isso, mas você realizou parte deste percurso. Conta o que fostes encontrando pela frente.

Elza Lima: Fiz a primeira viagem e detectei que a Amazônia é muito matriarcal. Delimitei o rio Nhamundá, afluente do amazonas, porque dentro dele existe o Espelho da Lua, que é exatamente o lugar do encontro entre o Orellanas e as Amazonas. Queria ver como se encontra a lenda e as mulheres que hoje vivem lá.

Fiz várias viagens e foram deslumbrantes. Há sete anos, a primeira entrevistada que eu encontrei foi uma mulher andando a cavalo no rio e a historia dela é muito louca.

Holofote Virtual: O que te chamou tanto atenção?

Elza Lima: Descobri Nhamundá, o rio que separa os estados do Pará e Amazonas. Nesta cidade eu descobri a maior mulher pescadora do lugar. Ela era casada com um filósofo em Manaus, mas não deu certo e ela resolve ir para o município e começou a pescar. A história e a imagem dela estão na exposição.

Em 2010, quando retornei, não a encontrei, pois ela estava em Manaus, mas me disseram que ela já duplicou a frota de barcos. Junto com esta pescadora, tem várias histórias de mulheres vivendo sem homens, criando seus filhos, vivendo com muita garra e revelando como é viver na Amazônia. Mas não é só lá. Existe também a Amazonas da cidade. Aliás, foi uma sequência de mulheres interessantíssimas.

Holofote Virtual: O que você vai fazer com tantas histórias?

Elza Lima: Todas as histórias estão gravadas. As primeiras ainda estão em fita de vídeo cassete, sem qualidade de som. Mas vi que se trata de um campo muito maior e com o prêmio da Funarte eu quis voltar também para consolidar minhas pesquisas e as primeiras impressões que eu tive desses lugares. Depois de sete anos, eu fui atrás das mesmas pessoas e não as encontrei mais.

Holofote Virtual: Como exatamente você construiu a pesquisa sobre a leda das Amazonas para fazer um paralelo com os dias atuais?

Elza Lima: Esse projeto, desde o inicio, tinha sido enfocado de uma forma que eu pudesse brincar com o real e o imaginário. Pesquisei muito de como surgiu a lenda das Amazonas e como ela se dividiu e se espalhou pelo mundo, desde os gregos. Quais os pintores focaram este tema etc. E então durante este tempo, mergulhei na pesquisa e na história dos viajantes que discutiram a veracidade ou não da lenda e seus desdobramentos.

Em todo este processo eu percebo que há uma ligação que atravessa o tempo. E aí quando eu volto agora encontro a maior seca da Amazônia dos últimos 100 anos e é um impacto. Foi um choque ver o rio tão baixo. Eu vi outra realidade, dois tempos do rio e a dificuldade do povo em sobreviver. O rio é a vida deles, de onde retiram e por onde escoam os alimentos que chegam até lá, como a merenda escolar que não chega para as crianças.

Holofote Virtual: Pra gente encerrar. Você é fruto de uma geração que revolucionou, pode-se dizer assim, a história da fotografia paraense. Como você lê tudo isso?

Elza Lima: A história da fotografia aqui é interessante. Para mim foi um aprendizado, fizemos o coletivo, tivemos avanços. Vejo o Luiz Braga valorizando a fotografia como instrumento de sobrevivência, o fazer fotográfico.

Depois tem Miguel Chikaoka, com a escola de fotografia e a criação de um público que interpreta o fazer fotográfico. Isso foi um ganho e tanto, chamar o público para discutir fotografia, estética, temáticas, o que ele retoma nos dias atuais, com o Café Fotográfico (Fotoativa).

Além deles, tem muita gente como o Paulo Santos, a Leila Jinkigns e tantos outros. Esta geração mais antiga, do fotojornalismo, da foto arte, preparou o terreno para os novos e acho maravilhoso ver agora todos convivendo. 

15.3.11

Novo filme de Márcio Barradas tem pré-estreia em Mosqueiro

A Mairí Produções, em parceria com Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema – APJCC - e Cineclube Amazonas Douro, neste sábado, 19, às 20h, o inédito "Os Comparsas", de Marcio Barradas.  

A projeção será no Espaço Praia Bar (Praça Matriz em Mosqueiro). Na ocasião serão exibidos ainda os filmes "D. Juan", de Mateus Moura e "Coração Roxo", também de Marcio Barradas. A classificação indicativa é 18 anos e a entrada franca. O texto a seguir é do crítico e cineclubista Miguel Haoni

O cineasta alemão Fritz Lang apresentou, no conjunto de sua obra, uma idéia particular: em determinado momento a realidade sempre consegue ser pior que o pior dos pesadelos. 

Ele também dizia que num mundo sem Deus, a única forma de atingir o cognitivo das platéias era através da dor física. E esta era sempre resultado da violência.

Inspirado pelos mesmos princípios, o cineasta paraense Marcio Barradas destila este "Os Comparsas", mais novo capítulo de seu "Ciclo mosqueirense", também composto por "A Poeta da Praia", "O Mastro de São Caralho" e "O Filho de Xangô".

Cenas no Ver-o-Peso
 Adaptado da história em quadrinhos do alemão Matthias Schultheiss (que por sua vez é a releitura do conto "Os Assassinos", do também alemão Charles Bukowski), "Os Comparsas" encontra suas raízes germânicas ao compor sua plasticidade sobre o conflito luz x sombra, tão caro à vanguarda expressionista dos anos 20.

O protagonista Pedro, por exemplo (interpretado pelo econômico e expressivo Solano Costa), atua como um oficial reformado da República de Weimar. Apesar do deslocamento descompassado, nunca senta de costas para a porta, nem deixa uma dama acender o próprio cigarro em público.

A gratuidade da violência, um dos aspectos mais reais da condição humana, surge no filme como o cruzamento estéril do humor negro na arte exploitation e a vulgaridade das páginas policiais. Tudo alinhado sob o rigoroso olhar da câmera.

Os planos fixos e os cortes rápidos dão a sensação de correr com os olhos as amareladas folhas dos quadrinhos pulp, nos quais o filme se inspira. Apesar do realizador conduzir praticamente sozinho todo o processo com uma criatividade gritada, o resultado é de um distanciamento claustrofóbico. "Os Comparsas" é um mergulho gelado no mar de sangue, um idílico passeio no inferno.

Miguel Haoni, no elenco
Na última parte do filme, desenrola-se um tour de force entre a selvageria do crime e a plácida indiferença da casa - esta, um dos principais personagens da narrativa. Aqui os inserts tão comuns no cinema de Barradas atingem um paroxismo quase eisensteiniano: cinema como resultado criativo do choque de imagens.

Marcio Barradas, neste "Os Comparsas", mais uma vez nos relembra o óbvio: na pequena ou grande produção, o cinema só existe quando dá forma a uma visão forte. Fugindo da tecnocracia e do acanhamento, Barradas ousa interessar-se pelo cinema. Por mais absurdo que isso esteja.

Extremo Norte convida Carlos Correia Santos

Programação festeja os 25 anos de trajetória do autor que, hoje, reúne prêmios em nível regional, nacional e internacional

O Instituto Cultural Extremo Norte realiza, nesta quarta, dia 16, a partir das 20h, no Espaço Cultural Bar São José Liberto, o encontro literário No Princípio Era o Verbo. 

O convidado especial é o escritor Carlos Correia Santos, que, em 2011, comemora 25 anos de carreira literária. A programação tem entrada franca. Responsável por várias ações de fomento à arte poética, o Extremo Norte tem defendido, nos últimos anos, o ideal de promover integração entre escritores e público leitor através de saraus, rodadas de bate papo e seminários.

A entidade foi criada em 2009 e é fruto do Movimento Literário Extremo Norte que congrega diversos autores paraenses e desenvolve atividades diversas no cenário cultural de Belém desde fevereiro de 2004. 

A diretoria conta hoje com os poetas Rui do Carmo, na presidência, e Rita Melém, na vice-presidência. Um dos colaboradores do Instituto, o também poeta e letrista Renato Gusmão explica: “Queremos mostrar a qualidade da nossa literatura. Realizamos esse e outros projetos, como o Palavra do Escritor e o Canoa de Sonhos”. A trajetória de Correia servirá como ferramenta para mais uma dessas iniciativas.

Um concurso de colégio foi o marco inicial de uma história que hoje contabiliza vários prêmios regionais, nacionais e internacionais. “Foi em 1986. Eu tinha onze anos. Resolvi participar de uma iniciativa criada pelos meus professores de redação e literatura. 

Quem escrevesse o melhor poema ganharia um prêmio singelo: o trabalho seria afixado na biblioteca da escola. Acabei vencendo. Considero esse, portanto, meu primeiro prêmio como escritor. O poema foi colocado no quadro da biblioteca. A maioria dos colegas não sabia que eu era o menino que tinha criado aqueles versos. Então, eu me sentava perto do poema e fica observando as pessoas reagirem ao que tinha posto naquele papel. Percebi que eu podia me comunicar com as pessoas através das letras. Nunca mais parei”, conta Carlos, hoje poeta, contista, dramaturgo e romancista.

Situações peculiares não faltaram ao longo do caminho. Aos 16 anos, em busca de alternativas incomuns para começar a se sustentar, tornou-se trovador de aluguel. “Hoje, isso parece muito engraçado. Inventei um serviço de poesias personalizadas. As pessoas me procuravam, contavam suas histórias, amores, perdas, tentativas de conquistas, homenagens para datas especiais e eu transformava isso em poemas particularizados que eram embalados em saquinhos de crochê feitos pela minha mãe. Eu acabava funcionando como um psicólogo poético. Deu tão certo que virei notícia não só aqui em Belém, mas na mídia nacional. A revista Raça Brasil, por exemplo, fez uma matéria comigo”, relembra.

Mas a aposta na lírica exclusivamente artística logo tomou seu devido lugar e Correia passou a conquistar láureas respeitáveis. Venceu o Prêmio Dalcídio Jurandir 2008, na categoria romance, com a obra "Velas na Tapera", concurso de vulto nacional criado para celebrar o centenário do romancista Dalcídio Jurandir. É autor do premiado livro de poemas “O Baile dos Versos”, obra que ganhou especial saudação da Academia Brasileira de Letras, em 1999. Também são de sua autoria as obras “Poeticário” (poemas), “No Último Desejo a Carne é Fria” (coletânea de contos), “Nu Nery” (teatro), Ópera Profano (teatro / Prêmio Cidade de Manaus) e “Batista” (teatro).

Dramaturgia - Como escritor na área de artes cênicas, coleciona importantes láureas como a tripla classificação no Edital Estadual de Fomento às Artes Cênicas 2008, da Secretaria de Cultura do Estado do Pará (Prêmio Cláudio Barradas) com os espetáculos “Adoro Theodoro”, “Duelo do Poeta com Sua Alma de Belo” e “Uma Flor Para Linda Flora”, o Prêmio IAP de Edições Culturais Categoria Dramaturgia (2008), o Prêmio IAP de Literatura Categoria Teatro (2004), o Prêmio Funarte de Dramaturgia por três anos consecutivos (2003, 2004 e 2005), o Prêmio Funarte Petrobras de Fomento ao Teatro (2005), o Prêmio Funarte Petrobras de Circulação Nacional (2006) e o Edital Seleção Brasil em Cena do Centro Cultural Banco do Brasil.

Incluídos no Catálogo da Dramaturgia Brasileira da renomada autora Maria Helena Kühner (iniciativa detentora do Prêmio Shell), seus textos teatrais já ganharam diversas montagens e já foram apresentados em Belém, São Luís, Natal, Recife, Camaçari, Piracicaba, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Suas peças já foram traduzidas para o francês e espanhol. Importantes artistas brasileiros, como Stella Miranda (que interpretou a síndica do humorístico "Toma La, Dá Cá", de Miguel Falabella, exibido na TV Globo), já assinaram direção de suas obras.

Em 2009, foi o autor vencedor da categoria dramaturgia, com o texto “Não Conte com o Numero Um No Reino de Numesmópolis”, do III Concurso Literatura para Todos, promovido pelo Ministério da Educação entre autores do Brasil e da África. É o dramaturgista do projeto Solo de Marajó, que marcou o retorno aos palcos do ator e diretor Cláudio Barros. A montagem do monólogo, inspirado na obra do romancista paraense Dalcídio Jurandir, contou com a direção de Alberto Silva Neto.

No cinema, foi agraciado com o Prêmio do Edital Curta Criança do Ministério da Cultura. Também violinista e letrista, Correia é parceiro de importantes nomes da música nortista, como Nilson Chaves e Lucinha Bastos. Gestor e Produtor de Eventos Culturais, formado pela Universidade da Amazônia, já coordenou diversos e bem sucedidos projetos de fomento à leitura na região Norte, como o “Café com Verso e Prosa” e o “Estrada de Letras”. Já foi colaborador, com seus contos, do jornal O Estado do Acre e dos sites BV News (Roraima), Amapá Digital (Amapá), Manaus On Line (Manaus), Madeira On Line (Rondônia) e Timor On Line (Timor Leste).

Serviço
Projeto No Princípio Era o Verbo, do Instituto Cultural Extremo Norte. Convidado especial: Carlos Correia Santos. Nesta quarta, dia 16, às 20h, no Espaço Cultural Bar São José Liberto: Praça Amazonas com Cesário Alvim (antigo Carpe Diem). Entrada franca.

14.3.11

Black Soul Samba está de volta sempre às sextas

Quem avisa é o dj Eddie Pereira. A Black Soul Samba está de volta e desta vez, com residência no bar Palafita, na Cidade Velha.

Nesta sexta, 18, além de uma noite dançante, proporcionada pelo repertório do Dj's residentes Eddie Pereira, Uirá Seidl, Fernando Wanzeller e Kauê Almeida, a programação inclui projeção de vídeo-arte.

Para as próximas, sempre às sextas-feiras,  com exceção do dia 1º de abril, quando não haverá festa, serão convidados outros Dj’s e bandas parceiras  e ainda será realizado um bazar black.

Criada com objetivo de levar ao grande público um som próprio da cultura negra, em todas suas tendências, as festas da Black Soul Samba vêm sendo realizadas desde 2009, sempre marcadas por grandes encontros de DJs da cidade.

O Palafita fica ao lado do Píer Casa das 11 janelas. O ingresso custa R$ 5,00, até 23h e após, R$ 10,00. Nesta sexta-feira, 18 de março.