13.7.15

Thiago, olhar múltiplo agora a partir das estrelas

O ano era 2009. Em uma empreitada musical reuni alguns amigos a fim de receber Herbert Vianna e Mestre Vieira para um encontro fechado num estúdio em Belém. Um momento daqueles precisa mais que o meu registro de documentarista, chamei Ismael Machado, amigo e um dos melhores captadores de momentos do nosso jornalismo brasileiro, para cobrir o feito. 

Não veio só, trouxe um jovem fotógrafo, Thiago Araújo, e foi assim que o conheci, já pronto pra tudo, como bem diz o artigo abaixo. Depois passei a encontrá-lo  em diversas ocasiões em que envolviam teatro, música, cultura popular. E como os artistas também gostavam de vê-lo ali com sua câmera. Diziam: "ele é o melhor pra fotografar teatro", por exemplo. Mas tinha muito mais talento que isso. 

Em 11 de julho, por uma fatalidade, ele nos deixou, mas não passou despercebido, como pessoa, artista, profissional e amigo, nesta vida. A seguir o texto analisa o fotógrafo, a partir de sua entranhas, talento, ousadias e experimentos de vida. Agradeço a oportunidade em publicar.

Por Ismael Machado*

Certa vez, ao elogiar as fotos de um colega, Paula Sampaio disse que não tinha habilidade para fotografar esporte. Paula Sampaio talvez seja uma das mais admiradas e talentosas repórteres fotográficas que atuam na Amazônia. Mas expôs, humildemente, uma pequena deficiência, se podemos definir dessa forma.

É pensando nessa frase, que diz muito sobre os nossos múltiplos interesses, que o trabalho fotográfico de Thiago Araújo, morto no último dia 11 de julho, deve ser analisado. O mundo atual, que deveria ser pautado pela diversidade de cores e olhares, muitas vezes se fecha em especializações. Como se disséssemos ‘esse é o meu caminho e só sei trafegar por ele’.

Entre fotógrafos e amigos, o 'self` é dele
Thiago Araújo não tinha formação acadêmica. Mas tinha o principal. Um olhar genuinamente curioso sobre as coisas que o rodeavam. E essas coisas eram tantas, que o mundo precisava parecer ser engolido por ele em doses cavalares.

Belém tem uma tradição de fotógrafos acima da média. Um jeito de olhar que parece ser único. Alguns fotógrafos que por aqui estiveram, como Carlos Silva, diz que o lance do clima e da umidade força a ter um jeito de pensar a fotografia de forma especial.

Há quem fale da luz, do clima, da proximidade do rio com a cidade, da floresta logo ali. Tudo isso tem, logicamente, sua própria razão de ser no universo intrincado da fotografia. Mas não dá para ignorar que somos o que vivemos, sonhamos, amamos. Levamos isso para uma jornada interior dentro de nosso próprio trabalho.

Thiago Araújo cresceu num ambiente economicamente pobre, mas rico de possibilidades. O antagonismo do mundo estava dentro dele. A violência estava no quintal de casa, mas ali também estava a riqueza da cultura afro, com o sincretismo religioso fervilhando de cores.

A música pop se tornou uma referência constante, mas ao lado dela, a cultura mais popular, o apelo do que nos simboliza como representações, que nos mostra ao mundo. Crescido na ótica da geração mangue-beat que soube catalizar tudo ao redor e devolver o absorvido sob um novo enfoque, Thiago foi engolindo tudo, num velho conceito antropofágico, tão caro aos modernistas e tropicalistas.

Foto copiada do Facebook de Thiago
Isso tudo se reflete no exercício fotográfico feito por ele. O excelente repórter fotográfico Tarso Sarraf diz que foi um espanto ver aquele ‘moleque’ chegar, com a cara e a coragem e pedir uma oportunidade no jornal, munido apenas de uma máquina fotográfica compacta.

Sarraf diz que desde o início Thiago foi impulsivo. A pauta teste era policial, num ambiente perigoso. Pois Thiago conhecia aquele ambiente. E agarrou a chance que teve. Poderia ter se conformado com aquilo. Afinal, o olhar pode ser domesticado e direcionado.

Thiago não se deixou domesticar. A pauta podia ser cultural, policial, esportiva, ambiental etc. Ele sabia olhar de forma diferente para o que era diverso. E ia perpetuando outro traço, que também define os bons. Misturava profissão e paixão, tarefa e amizade. E nesse intrincado caminho, construía uma boa reputação. Um exemplo claro disso: as primeiras fotos da cantora Luê foram produzidas por Thiago. Acompanharam os primeiros releases. O crescimento de ambos em concomitância consolidou uma antiga amizade e mais trabalhos vieram nesse escopo.

O mesmo se deu com as fotos de shows do Festival Se Rasgum. Thiago tornava-se figurinha fácil não só em plena pauta, mas também nos bastidores. As fotos registram mais do que shows. Captam uma atmosfera de celebração.

Luê, sob as lentes de Thiago
Há quem possa argumentar que fotos culturais são mais simples de fazer. Engano. É preciso sensibilidade, gosto, entender o que está ali à sua frente. Deixar-se envolver, embrenhar-se num mundo sutil. Thiago fazia isso, embora sem a menor sutileza.

Algumas das melhores fotos do Arraial do Pavulagem são, sem demérito de outros fotógrafos, de Thiago Araújo. Mas nisso ele também praticava esse lado. O de não só fotografar, mas beber toda a fonte do Pavulagem. Gostar daquilo, daquele universo, estar inserido nele.

Isso pode, para alguns, ser totalmente o oposto da ideia de isenção, de estar neutro. De olhar de fora. Mas essa frieza não gera nada. Como querer que o outro sinta, se eu mesmo não sinto nada? Se não me envolvo, se não mergulho, como esperar que do outro lado, alguém faça o mesmo?
Nas reportagens, Thiago exercitava a tolerância e a paciência. 

À afoiteza dos primeiros tempos, soube capitalizar o aprendizado ao lado de fotógrafos como Raimundo Pacó, Marcelo Lélis e Tarso Sarraf, por exemplo, amigos e parceiros. Esperar pelo melhor momento, ouvir as entrevistas, entender a pauta. Depois disso, aí sim, mergulhar na foto. Extrair dela o que ela tem de melhor a oferecer ao leitor.

Thiago sabia aproveitar a luz e o movimento. De forma até intuitiva, aprendeu a fazer com que uma foto contasse bem a história proposta. A técnica, nele, veio depois da experiência sensitiva, de saber captar internamente o que via.

Pavulagem pelo olhar e coração do fotógrafo
Da nova geração de fotógrafos, pós Miguel Chicaoka, Luiz Braga, Ary Souza e Paula Sampaio, para ficar em quatro exemplos muito simbólicos, Thiago teve a percepção de ser uma mistura bem equilibrada de urbano e ‘ribeirinho’.  Não refugiou-se no olhar exótico e por vezes ‘aquoso’ que nossas referências culturais carregam, mas também não olhou para isso com desdém e preconceito.

Esse caminho é tortuoso porque pode levar a extremos. Mas no caso dele, a fotografia refletiu exatamente o que Thiago era. O mundo é um imenso parque de diversões, cheio de cores e luzes, contrastes e histórias. Mas também repleto de perigos e armadilhas. 

O importante, ao se analisar as fotografias deixadas como legado de Thiago Araújo em tão pouco tempo, é que nele a tradição e a modernidade (ou pós-modernidade, se assim preferirmos) em nenhum momento são conflitantes. Ao contrário, andam de mãos dadas com carinho. Não deixa de ser um bom legado. Poucos o conseguem em tão breve tempo.

* Ismael Machado é jornalista premiado e escritor

2 comentários:

Octavio Cardoso disse...

Como diz Ismael, Thiago era tudo isso: versátil, curioso, intenso, apaixonado, alegre. Vai deixar saudade.

marcelo lelis disse...

Sem dúvida, ter "fome" pelo que se faz é inegavelmente um diferencial. Via isso nele.