21.1.19

Amazônia Tan Tan grava compositores do Salgado

Almirzinho Gabriel
O estúdio itinerante idealizado e produzido por Almirzinho Gabrial pesquisou, interagiu e gravou com músicos compositores que vivem na zona do Salgado paraense. O resultado está no DVD homônimo que será apresentado o público, em meio a um coquetel e um bate papo, nesta quinta-feira, 24, às 19h, no Centro Cultural Sesc Boulevard. O evento marca também o lançamento do site oficial do projeto (amazoniatantan.com.br), onde será possível acessar o material. A entrada é gratuita e há 80 vagas no local. 

“Interagimos musicalmente com os mestres locais com a ideia de tocarmos juntos, construindo novos arranjos e texturas. O produto cultural que lançamos agora disponibiliza ao público todo o material captado no interior com músicas tradicionais e saberes da região em mini documentários e clipes. A música é o fio condutor do trabalho, mas junto a ela aparecem a dança, a poesia e os costumes locais”, explica Almirzinho Gabriel, idealizador do projeto.

“O Salgado paraense é riquíssimo, tem grandes compositores, mas muitos ainda são desconhecidos. É o verdadeiro berço musical de sucessos paraenses”, continua Almirzinho Gabriel. Também músico e compositor, ele possui discos gravados como “Tribos Submarinas” (1983), “Na Boca do Peixe” (1992) e “Tzandai Vida Boa” (2008). E trabalhos instrumentais inéditos, como o “Tintió”, com repertório autoral de chorinhos; e “Num Guita”, disco de guitarradas gravado com o Trio Manari.

O projeto foi selecionado pelo edital Natura Musical 2016 com apoio da Lei Semear. “Acreditamos na força do Natura Musical para conectar pessoas, valorizar a criatividade brasileira e revelar a diversidade de cada região do país”, diz Fernanda Paiva, gerente de Marketing Institucional da Natura. “O programa já circulou por 22 estados, apostando em talentos locais. No Pará, por exemplo, o edital já ofereceu recursos para 48 projetos da música, como Aíla, Felipe Cordeiro, Luê, Arthur Nogueira, Strobo Sammliz e Lia Sophia”, complementa. 

Uma roda de bate papo com os compositores

Antonio Rabequeiro
A programação de lançamento conta com a participação do idealizador do projeto, o músico e compositor Almirzinho Gabriel, além dos mestres, músicos e compositores que participaram das gravações. O público terá chance de conversar diretamente com eles para entender como foi o processo o resultado dessa experiência, além de conferir os vídeos, que também estão disponíveis no site oficial.

À procura de mestres da cultura popular, Almirzinho encontrou com Lázaro, carpinteiro e compositor, na Vila dos Pescadores em Ajuruteua, um grande contador de histórias e improvisador. Começou a compor aos 14 anos, mas não toca nenhum instrumento, faz a música da cabeça. 

Também conversou e gravou com o Antônio Rabequeiro, músico auto didata, que aprendeu a tocar rabeca ainda criança, sob luz de lamparina. Atualmente ele é um dos mais requisitados rabequeiros da região, particpando de várias Marujadas, como Vila Fátima, Primavera, São Joao de Pirabas, Quatipuru, Boa Vista, e ajuda na de Bragança. 

Alex Ribeiro
Alex Ribeiro, de Capanema, é o mais novo da turma. Jornalista e historiador, vive em Bragança. Traz como principais influências Raul Seixas, Luiz Gonzaga, Elvis Presley, Jackson do Pandeiro e Roberto Carlos. O artista também se inspira no realismo fantástico de Gabriel Garcia Marques, na poesia de Fernando Pessoa e Leminski, entre outros.

E também gravou com Tatu, nascido no Amapá, mas veio estudar em Belém e acabou indo parar em Bragança, onde mora até hoje e é reconhecido como um exímio tocador de cavaco. Outro compositor encontrado pelo estúdio, foi Veloz, comandante de barco de pesca, nascido na Vila do Araí, a 50 km de Augusto Correia, ou Urumajó, e que recebeu este apelido pela agilidade com que navega e pesca.

O projeto apresenta ainda Ticó, um dos mestres do grupo “Quentes da Madrugada”, o principal grupo de Santarém Novo, município que mantém uma tradição secular de carimbó na região. Também do carimbó, o projeto traz Ladainha, pescador de Cafezal, que além de um excelente tocador de maracas, também é artesão e confecciona o próprio instrumento. 

Tatu
As últimas gravações foram realizadas com Kzam, responsável por manter na ativa uma das manifestações mais antigas e populares da comunidade de Santarém Novo, a brincadeira dos “Pretinhos". Organizada desde o início do século passado, tem como característica particular a relação com a cultura dos negros que foram trazidos para a região como escravos.

O projeto teve direção de fotografia de Renato Chalu da Jambu Filmes, coordenação de produção de Fagner Yanomani, criação gráfica de Bina Jares e Filipe Almeida, edições de video de San Marcelo e Eduardo Costa, edições de audio de Thiago Albuquerque e participação dos músicos convidados.

Serviço
Lançamento “Amazônia Tan Tan” no Centro Cultural Sesc Boulevard
Local: Centro Cultural Sesc Boulevard – Av. Blvd. Castilhos França, 522/523, Campina, Belém – PA 
Data: 24 de janeiro, quinta-feira
Horário do show: 19h
Ingressos: Entrada franca
Capacidade: 80 lugares
Classificação Indicativa: Livre

Sobre Natura Musical

Kzan , de Santarém Novo, e Almirzinho Gabriel
Natura Musical é a principal plataforma de patrocínio da marca Natura. Desde seu lançamento, em 2005, o programa investiu R$ 132 milhões no patrocínio de 418 projetos - entre CDs, DVDs, shows, livros, acervos digitais e filmes. O último edital do programa neste ano selecionou 50 projetos em todo o Brasil, entre artistas, bandas e coletivos.

Os trabalhos artísticos renovam o repertório musical do país e são reconhecidos em listas e premiações nacionais e internacionais. A plataforma digital do programa leva conteúdo inédito sobre música e comportamento para mais de meio milhão de seguidores nas redes sociais. Em São Paulo, a Casa Natura Musical se tornou uma vitrine permanente para a rica e pulsante produção musical brasileira.

Mais informações:
91 98134.7719

16.1.19

Vida é Sonho para ouvir digital e no Sesc Boulevard

Fotos: Rogério Folha
Você acha que já viu este show e não está enganado. "Vida é Sonho" já foi apresentado outras vezes em Belém, mas nunca como você vai ver nesta quinta-feira, 17, quando o cantor e compositor Renato Torres o lança nas plataformas digitais, pela manhã e, às 19h, ao vivo, no Centro Cultural Sesc Boulevard. 

O lançamento conta com a participação de vários artistas colaboradores do projeto, que nasceu da necessidade de fazer escoar uma parte da volumosa produção do músico, mas que acabou gerando e realizando muitos outros sonhos. Gravado entre 2015 e 2018, o disco traz camadas instrumentais na percussão de João Paulo Pires, os baixos de Rubens Stanislaw, os pianos de Rodrigo Ferreira, os bandolins de Diego Xavier, além dos violões de Renato Torres, vozes, participações. 

São 10 parcerias diferentes de três gerações da música paraense, em 12 canções. Da velha guarda, há parcerias com Ronaldo Silva, Jorge Andrade e Edir Gaya. Da geração do compositor, parcerias com Valéria Fagundes, Henry Burnett, Paulo Vieira e Dionelpho Jr. E ainda da novíssima geração, como a mineira Alice Belém e Daiane Gasparetto.

O show de lançamento vai contar com a participação de alguns deles. O palco terá Armando de Mendonça, Camila Honda, Carol Magno, Dionelpho Jr, Jade Guilhon, Valéria Fagundes e Daiane Gasparetto, todos acompanhados pela “Banda do Sonho”, com João Paulo Pires (percussão), Rubens Stanislaw (baixo), Diego Xavier (bandolim, percussão e vocais) e Rodrigo Ferreira (teclado). 

É o primeiro disco solo autoral de Renato Torres, que iniciou o projeto em 2012, incentivado por amigos como o violonista e compositor Henry Burnett e a cantora e instrumentista Iva Rothe. “Eles diziam que eu devia mexer nesse volume de composições que tenho”, diz Renato que na época estava atuante com o Clepsidra, banda autoral, com pegada do rock e do experimental. “Muita coisa que eu compunha e que tinha outra via, outra cara, eu decidi trabalhar e dar um formato, tendo o violão em seu papel primordial nos arranjos centrais”, comenta Renato Torres.

O músico bateu um papo com o blog. Falou das inúmeras tentativas de financiamento para a gravação do disco e de como as dificuldades o levaram a criar o Guamundo, seu home stúdio, onde já foram gravados trabalhos de outros artistas, como Sonia Nascimento, Les Rita Pavone, Henry Burnett e mais recentemente o novo disco de Lucas Guimarães e o primeiro de Edir Gaya.  Inquieto como já dissemos outra vez aqui, enquanto gravava Vida é Sonho, ele também lançou um livro de poemas, o Perifeeéico (Ed. Verve, 2014).

Holofote Virtual: É intenso e longo o percurso do Vida é Sonho. Foram várias tentativas de financiamento por lei de incentivo e programas de editais. Quando e como você realmente decidiu gravar em sua própria casa?

Renato Torres: Foi um processo longo mesmo, vai fazer sete anos em abril. Depois de decidir apostar no trabalho solo fiz shows e escrevi o projeto do disco na Lei Semear. Consegui a carta durante dois anos, mas não consegui captar. Em 2013 tentei o Natura Musical,mas também não consegui, ao que parece o orçamento ficou alto.

Não consegui e entrei em crise, desacreditando e achando que meu trabalho não tinha interesse. Foi um par de semanas assim até que resolvi me erguer. Olhei para o lado, vi que tinha equipamentos ali e disse, quer saber, eu vou gravar esse disco, eu sei fazer isso. Comecei a gravar, subi algumas para a internet e as pessoas ouviram e começaram a perguntar onde eu estava gravando. Era em casa e foi como nasceu o Guamundo, pois gravei vários artistas dessa mesma cena independente. 

Em 2014 eu também lancei meu livro de poemas o Perifeérico, que é também um filhote do Vida é Sonho. Também tentei financiamento coletivo, fui fazendo pequenas apresentações, a última em 2017, já falando em financiamento afetivo e assim lancei um ‘promo’ com três canções. No final de 2018 é que realmente fechamos o disco.

Holofote Virtual: Houve outras dificuldades, além do quesito financiamento?

Renato Torres: Diversos altos e baixos, participações cotadas que tiveram de ser substituídas (Dulci Cunha não pôde gravar flauta transversal em "Manhã de Janeiro", e foi substituída por Jade), outras que surgiram ao longo do processo (decidi chamar Camila e Carol pra gravar depois de suas últimas participações no "Vida é Sonho" em palco).

Os vocais do álbum seriam feitos pelo Diego, mas por questões de agenda, eu mesmo acabei gravando todos. Por conta de ser uma autoprodução onde estou envolvido em todas as fases do processo diretamente (compus, toquei, cantei, arranjei, dirigi, mixei e masterizei), o processo precisou necessariamente dessa oxigenação de tempo, pra que eu pudesse compreendê-lo e levá-lo a cabo até o fim. O Rodrigo Ferreira, a Carol Magno, e os meninos da banda de uma maneira geral auxiliaram no processo dando opiniões, e me ajudando a ouvir o disco sob diferentes perspectivas.

Holofote Virtual: Nossa, uma saga e tanto. E como ficou o repertório do disco, do que fala esse trabalho?

Renato Torres: O conceito e o repertório são os mesmos desde o inicio. Mudaram poucas musicas, teve apenas uma do primeiro repertório que saiu, mas o disco versa sobre a necessidade que temos da arte no cotidiano, para transformar, a dureza do dia a dia, em sonho, magia e encantamento, e que promove encontro. É a canção funcionando como esse vetor que possibilita a gente viajar nessa máquina do tempo, que leva a gente para texturas, ambientes e memórias, nessa função imprescindível da poesia, ainda mais agora nesse tempo escroto de muitos absurdos acontecendo no país. O disco representa a necessidade que temos de afirmar esse lugar de encontro e celebração.

Holofote Virtual: E como vocês pretendem transpor essa atmosfera do disco, na apresentação ao vivo?

Renato Torres: No espetáculo ao vivo apresentamos a dissolução da barreira entre artistas e público. Acontece nessa figura do Brincante, que é um alter ego que eu visto e que sou eu mesmo, e que chamo de Renato Torres Superlativo, o eu lírico que vai para o palco, dialogando com a performance dos artistas convidados e com a plateia. O show tem poesia, canção e muita performance.

Holofote Virtual: O que caracteriza o álbum em seu conjunto estético musical?

Renato Torres: O álbum dialoga essencialmente com a tradição acústica da música popular brasileira, construída em torno do violão de cordas de nylon como instrumento preferencial dos compositores do cancioneiro popular.  A ele se aliam os timbres do piano (evocando a música clássica), bandolim (de origem lusa), baixo elétrico (oriundo da música pop norte-americana) e a percussão (que estão na base cultural formativa da música brasileira).  

Outro traço determinante do álbum são os arranjos vocais, que se referendam nas atmosferas da música mineira, latino-americana e gitana. Por fim, as canções valorizam especialmente a palavra, por serem as letras poemas musicados, ou seja, as palavras vieram antes das melodias, ou no mínimo simultaneamente.

Holofote Virtual: De alguma forma, o álbum traz em sua essência também a musica amazônica?

Renato Torres: Em "Vida é Sonho" eu afirmo como em nenhum trabalho anterior uma estética musical que se embebe de texturas e determinados ritmos amazônicos que considero fundantes, como o boi bumbá, por exemplo, que já se apresenta na canção de abertura "Eu que não sei de nada".  Essa canção, aliás, determina de cara o universo poético da canção popular e do artista popular onde o trabalho todo se apoia. Evidentemente, não faço concessões a nenhuma emulação gratuita de nenhuma expressão dita "típica", ou explicitamente "folclórica", pelo fato simples de eu ser um compositor e músico da Belém urbana. 

O trabalho, desta forma, traz todo o meu referencial da música brasileira, com todo seu arrojo e apuro musical (confirmado pela competência dos instrumentistas que gravaram este trabalho comigo), entregando as sutilezas e belezas da música amazônica, expressas especialmente pela percussão. Em última análise, como venho dizendo há anos em entrevistas, minha música é paraense e amazônica, mas não se compromete em ser nem ufanista, nem em deitar-se confortavelmente em nenhum lugar-comum. Estou comprometido com minha visão artística, e creio que "Vida é Sonho" expressa bem isso.

Holofote Virtual: Foram sete anos para conseguir chegar ao disco físico, que aliás ainda chegará em mãos, não é isso?

Renato Torres: O disco sairá pelo selo Na Music. Era pra estar aqui, mas quando enviamos já beirava final de ano e teve recesso, enfim, atrasou. Quando chegar devemos fazer um novo show, provavelmente no Núcleo de Conexões Na Figueredo. Nesta quinta-feira, porém, já vamos acordar ouvindo tudo no Spotfy, Deezer, Apple Music.

Obra inédita sobre migração portuguesa no Pará

O historiador Antonio Valente Guimarães e sua obra 
‘De Chegadas e Partidas: migrações portuguesas no Pará (1800-1850)’ estuda as dinâmicas migratórias portuguesas para o estado do Pará entre os anos de 1800 a 1850, os deslocamentos, as redes e trajetórias pessoais e familiares dos migrantes. O livro, do historiador Antônio Valente Guimarães, será lançado nesta sexta-feira, 18, no Cabana Clube, em Barcarena. 

O período escolhido pelo autor é marcado por acontecimentos que envolveram o processo de independência, a adesão do Pará e a Cabanagem, movimentos políticos marcados fortemente pelo antilusitanismo. Para o professor Lenon, como é conhecido em Barcarena (PA), o lançamento na Vila dos Cabanos, é uma grande oportunidade para conversar com professores, estudantes, moradores, que também chegaram ao Pará no processo migratório. 

A história das migrações pelo mundo revela personagens incríveis, exemplos inspiradores de vida que carregam lições. É o caso do português Fortunato Alves de Souza que migrou para o Brasil nos anos 1830. Ele se estabeleceu no Pará, onde adquiriu imóveis nas cidades de Belém e Barcarena. Não foi fácil iniciar a vida em terra estrangeira, mas o migrante que chegou aqui pobre voltou rico para Portugal.

Fortunado é uma das figuras centrais da obra, que está dividida em quatro capítulos e tem um farto documentário histórico. A pesquisa foca na questão da migração de portugueses que fugiram de pressões políticas ou da pobreza e encontraram vida nova em Belém e Barcarena em um período de crescimento na região. Mas a época estudada (1800-1850) é marcada por conflitos no Pará, sendo o principal deles a Cabanagem, movimento popular que toma o poder no estado, por meio da luta armada.
Em meio aos fatos políticos, econômicos e sociais da época, os migrantes portugueses exercem um papel importante no estado. Fortunado, por exemplo, participou na capital da fundação da Associação Comercial do Pará e do Grêmio Literário Português. O Professor Leno fez um levantamento de mais de 1300 nomes de lusitanos que chegaram por aqui nessa época.

“Estudar migração é procurar entender essas lógicas que mobilizam os indivíduos ao logo do tempo”, explicou o pesquisador. “No caso da minha tese, é mostrar uma série de indivíduos portugueses em busca de fazer fortuna e viver outras experiências”, completou Leno, ao dizer também que o livro aborda um tema contemporâneo e conta histórias de sucesso e de fracasso.
  
Filho de Barcarena, o autor se dedicou intensamente a conhecer melhor a vida do homem que herdou propriedades no estado como o antigo Casarão do Cafezal, que foi demolido no município. “Talvez ele seja esse indivíduo que conseguiu realizar o sonho do migrante: fazer sucesso, carreira e fama em dois países”, finalizou Leno. Fortunato “foi um indivíduo que teve uma vida longa e deixou rastros”.

Serviço
Lançamento do livro De Chegadas e Partidas – migrações portuguesas no Pará. Nesta sexta-feira, 18, às 20h, na Sala Vip do Cabana Club – Vila dos Cabanos – Barcarena. O preço do livro custa R$ 60,00.

(Holofote Virtual, com informações da assessoria de imprensa da prefeitura de Barcarena - Márcia Ferreira e Evandro Santos)

Os diálogos para uma política cultural de Estado


A nova cara da Secult (foto da página de Úrsula Vidal)
No final da semana passada, a nova secretária de cultura do Estado, Úrsula Vidal, anunciou em sua equipe nomes que trazem em seu histórico a luta por políticas culturais de Estado. Alguns têm atuação artística na capital, na cena nacional e  experiências em projetos artísticos e ações em outros municípios. Outros já atuaram em gestões públicas de outros governos.

É o caso do ator, escritor e autor Adriano Barroso, um dos mais ativos críticos a gestão de Paulo Chaves. Ele assume pela primeira vez um cargo público, ao contrário do artista plástico Armando Sobral, que já atuou na extinta Fundação Curro Velho, em gestão do PSDB, entre 2001 e 2006, e dos músicos Allan Carvalho, que esteve na Secult na gestão não tão bem sucedida do PT, e Junior Soares, que estava no quadro de gestores do PSDB, na Fundação Cultural do Pará, nos governos do Jatene.

Ainda da área das artes plásticas, está Emanuel Franco, que traz experiência da gestão privada, de quando dirigiu a Galeria de Arte da Universidade da Amazônia, a Unama. Do audiovisual, está o cineasta Januário Guedes, e o produtor, diretor e militante do áudio visual Afonso Gallindo, que sempre foi um grande articulador desta cena. Da produção criativa, temos as militantes da cultura Tainah Jorge e Lorena Saavedra, mas ainda faltam nomeações, assim como há outros nomes confirmados como Joyce Cursino e Márcia Carvalho, jornalistas, e José Maria Zehma Reis, que traz sua experiência na cultura popular, o cantor lírico Daniel Araújo, e o produtor Sérgio Oliveira. Confiram todos os nomes e suas funções no site da Secult.

Depois da euforia causada nas redes sociais, com a apresentação dessa equipe, e dos eventos festivos da Cabanagem, no dia 7, e do aniversário de Belém, em seus 403 anos, no sábado, 12 de janeiro, a ação mais esperada  e aguardada pelo público de artistas e produtores foi tomada pela secretaria. Nesta terça-feira, 15, Úrsula Vidal e equipe, em uma ação conjunta realizada pelas redes sociais, convocaram um encontro os fazedores de cultura, para ouvir as categorias e anunciar suas novidades.

O convite está feito para esta sexta-feira, dia 18/01/19, às 18h, no Teatro Gasômetro, localizado no Parque da Residência. O próximo passo talvez seja ir aos municípios, uma vez que a gestão deve se intensificar também nas demais cidades paraenses, evitando a concentração da ações apenas na capital, uma reivindicações que já está sendo feita também pelas redes sociais. Por enquanto, quem estiver fora de Belém, poderá acompanhar pelas redes sociais, pois haverá transmissão pela página da secretaria no facebook.

Definições e espera de outras nomeações na área cultural

Monumento da Cabanagem: ação imediata de recuperação
Ainda há área ligadas à cultura indefinidas, mas em notícia divulgada nesta manhã pelos veículos de imprensa da família Barbalho, está confirmada na Fundação Carlos Gomes, a volta da professora Glória Caputo, após 22 dois anos de uma gestão que foi uma das mais elogiadas e que abraçava ações em todos o estado.

Para a Funtlepa, a Cultura Rede de Comunicação, até ontem sem nenhuma chefia, parece que também já foram nomeados dirigentes, segundo postagem desta manhã, do radialista Fabrício Rocha, funcionário da rádio cultura. De acordo com ele, assumem a presidência, Hibert Nacimento (Binho Dilon), a direção da rádio, Nonato Cavalcante, e Vanessa Vasconcelos, a direção da TV.

Helder Barbalho ainda divulgou nomes para a Fundação Cultural do Pará, responsável pela gestão da  Lei de renúncia fiscal, Lei Semear, e os incentivos diretos da micropolítica dos Editais SEIVA, implementados na gestão de Dina Oliveira.  A fundação também detém o controle sobre os espaços Casa das Artes (IAP) e Curro Velho, antes instituições independentes, que foram extintas pelo governo Jatene, mais um dos grandes golpes dados na área cultural. 

Dois espaços que ficaram à deriva neste últimos anos e que merecem atenção da gestão que vier. Vale lembrar que no extinto IAP havia um núcleo do "Pará Criativo", que foi desmantelado, e o Núcleo de Produção Audiovisual NPD, que chegou a ser coordenado por Afonso Gallindo, no primeiro governo de Jatene, e que hoje está também sucateado.

A ex-fundação Curro Velho manteve como pôde suas oficinas, mas há muito tempo que vem perdendo sua função de ator social em um dos bairros mais pobres de Belém, a Vila da Barca. Tudo isso merece um olhar mais cuidadoso. Tomara que haja com estes espaços, a mesma e imediata preocupação que houve em recuperar o monumento da Cabanagem, que sabemos, foi inaugurada no governo de Jáder Barbalho,  pai de Helder, e senador reeleito.

Do Sarau Multicultural às expectativas de uma nova gestão


Jorge André (foto de sua página no FB)
Buscando dialogar sobre a situação atual da cultura em níveis municipal, estadual e federal, o blog conversou com o produtor e ativista cultual Jorge André, que produz uma das cenas de maior resistência da cidade, o Sarau Multicultural do Mercado de São Brás. Ele diz que mesmo com o cenário de perseguição institucionalizada visto no Governo Federal, acredita que no âmbito local as coisas sejam diferentes, ao menos na esfera estadual.  



“Anseio ver ainda mais ativistas envolvidos na discussão sobre caminhos a seguir, cobranças sobre as medidas adotadas nas gestões passadas, participação na construção de politicas públicas inclusivas e, principalmente, respeito à cultura popular, fomento, transparência e democratização administrativa”, diz. As expectativas por mudanças na gestão estadual dos recursos da cultura são grandes.

Na esfera estadual, o ativista diz que espera ver uma profunda mudança no modo como os recursos, espaços e modelo de gestão foram conduzidos ao longo de toda a história do Pará. "Nunca tivemos ativistas diretamente engajados no fazer cultural conduzindo a Secretaria de Cultura, salvo o período em que o professor Edilson Moura assumiu o cargo, vale ressaltar”, diz Jorge André.

Já na administração municipal de cultura as coisas são mais nebulosas. Voltando ao Mercado de São Brás, onde além do Sarau Multicultural, da "Batalha" de São Brás (cena Hip Hop), das rodas de capoeira, dança de rua, skate e quadrilhas juninas, também observamos um dos momentos de maior abandono em sua história. 

“O mercado está abandonado tanto em sua estrutura física, quanto na ausência total ou precária manutenção e limpeza, perseguição a permissionários que se insurgem em denunciar as arbitrariedades administrativas da SECON, órgão da prefeitura responsável pela administração e com a ausência da Guarda Municipal, que já teve inclusive um posto avançado no local, porém hoje nem rondas faz naquela praça de grande circulação e recorrente incidência de casos de violência urbana”, relata Jorge André.

No terceiro ano do segundo mandato seguido do prefeito Zenaldo Coutinho Jorge, Belém vê seu patrimônio cultural sucumbindo, a Lei Tó Teixeira sendo desmantelada e o edital lançado no segundo semestre do ano passada, por sua formatação mais voltada às ações sociais, deixando do lado de fora  inúmeros projetos culturais.

“Aguardo a execução das duas sentenças de cassação do mandato do atual prefeito, que cometeu crimes eleitorais, realiza uma gestão inexplicável que abandona a cidade, permitindo a deterioração de patrimônios históricos, desperdiça nosso poderoso potencial cultural, econômico, turístico e de desenvolvimento humano, gerando o crescimento da pobreza, da violência, a perda de memorias e saberes, sem esquecer diversas outras mazelas que transversam a situação”, aponta Jorge André.

Pois bem, o ano está só começando e já há muitas novidades, mas nenhuma tão animadora quanto a mudança de paradigmas que se espera na Secult Pará. É preciso literalmente virar as chaves que abrem as portas da secretaria de cultura de estado ao público, aos artistas aos gestores da economia criativa.

Os artistas, agora gestores públicos, deverão colocar à frente de seus projetos pessoais e suas carreiras, os interesses coletivos para que efetivamente se construa uma política de estado, que deixe seu legado após o mandato. Vamos aguardar o que a secretaria de cultura vai dizer, colher e compartilhar, mas os fazedores de Cultura também precisam propor, participar, fiscalizar e cobrar. Estamos querendo ver a roda girar. 

14.1.19

Diego Wayne lança o livro "Coração de Unicórnio"

Poesias fazem mais que contar histórias.  Captam em palavras e sentimentos, sons, gestos, suspiros de amor e gritos de revolta. Diego Wayne se despe dos trajes cinzentos nos quais a sociedade tenta vesti-lo e pinta a pele com as cores da imaginação. Mostra como o preconceito, a desigualdade e a homofobia podem ser discutidos e combatidos com riso e versos fortes. "Coração de Unicórnio" será lançado nesta quarta-feira, 16, às 19h, no Café com Arte.

Por Francisco Weyl, 
Carpinteiro de Poesia

Lembro exatamente o dia em que conheci o poeta Diego Wayne. Foi num Sarau poético, em Bragança do Pará, há cinco anos. Sentei ao seu lado, fiz uma fotografia, juntos, para recordação. Olhar esta imagem, agora, é pensar no seu universo histórico. Ela evoca um significado para a nossa alma de artista. Ao conhecer este jovem, tomei contacto com a sua poesia.

E ao ouvi-lo recitar poemas autorais, imaginei-lhe diversas estradas. Seu olhar, sua pele, sua lucidez, seus sonhos, tudo se atravessava em seus versos. Cada linha, lida, com a dimensão de muitas vidas, sentidas. Nas entrelinhas, o seu silêncio, e a sua timidez de ser que sabe ouvir, mais do que falar.

Não dissemos muita coisa naquela ocasião. Mas a poesia nos uniu, aos nossos corpos e nossos espíritos. Foi amor platônico, à primeira vista. E uma poética paixão visceral. Falávamos de coisas banais e filosofávamos quando nos encontrávamos. Entre um e outro café, ou abraço, a ideia de publicar um livro brotava como a ponta de um iceberg, cujo Mar oculta o quase infinito sólido que é um pensamento líquido.

E cada vez que Diego W. lia seus poemas, mais ele se enchia de coragem de trazer à luz o concreto de sua obra. Revelar sua mensagem de e por amor, em livro. Sim, de amor, porque é em nome do Amor que Diego W. escreve. E sua pena é tão leve, que, quando ele escreve, ou recita sobre o amor entre dois homens, ou entre duas mulheres, o leitor flutua, e se eleva – para além dos preconceitos.

O jovem Wayne é por isso mesmo um poeta de afeto, e de combate. Como poeta, não diz, sugere. E assim ele faz com que entremos em sua casa, em seu quarto, e deitemos em sua cama. E então escutamos a sua doce voz de jovem-menino, que é como um canto, apaixonado. Diego participou de uma Coletânea, editada pela Para.Grapho, junto com outros poetas bragantinos (2016).

Ao ver seu texto grafado, para além do objeto-livro, DW vislumbrou ainda novos horizontes. Seus poemas são curtos, mas intensos. E têm a simplicidade de pessoas comuns, que súbito se identificam com os seus versos. Pessoas que amam um amor às vezes considerado proibido.

Um amor que sofre dos males, mas que não sente as dores do mundo. Um amor sublime que supera o preconceito e afronta os desalmados. Um amor pulsante, e colorido. Amor divertido, traduzido em sorriso, que desconhece o perigo. Diego W. fez da poesia a razão de ser deste Amor que ama sem fronteiras.

Com seus versos, ele rompe cercas, e ocupa territórios. E com seus gestos e palavras, ele se engaja nas causas nobres de seu tempo-espaço, em simultâneo. E foi assim que deu asas ao “Coração de Unicórnio”, seu primeiro livro-solo, editado pela Rico (2018).

Bem humorado, retirou os textos do armário, e os recolocou de volta, em tomo. E os lança ao espaço das redes virtuais, pelas quais media o envio e a venda de seu livro-produto. Assim como os unicórnios são animais míticos, o poeta é um místico que revela as vozes que falam ao inconsciente, e que são ouvidas, desde o Big-Bang, este som universal, e atemporal.

E, quando não traduz, o poeta dá sentido à sua própria metafísica. Com o seu “Coração de Unicórnio”, Wayne adentrou vales e florestas do imaginário. Atravessou a estranha névoa que encobria o Amor Homoafetivo. E se banhou nas águas de um encantamento que apenas as paixões humanas podem sentir. 

Professor e estudioso, DW transporta consigo esta magia que é a de escrever poesias. E por ela, transmuta a existência, a sua própria, e a de seus leitores. Ou daqueles que o ouvem recitar, um poema, ou narrar, uma experiência de vida. Porque o Amor, como a Poesia, são feitos de um mesmo coração de Unicórnio.

Serviço
"Coração de Unicórnio" será lançado nesta quarta-feira, 16, às 19h, no Café com Arte - Trav. Rui Barbosa, entre Nazaré Braz de Aguiar.

Railídia e Paulo Godoy apresentam "Canto de Casa"

Railidia /Foto: Osmar Moura
De passagem por Belém, a cantora Railídia  canta a saudade do Pará, acompanhada pelo violão sete cordas de Paulo Godoy. O show “Canto de Casa” será realizado nesta quinta-feira, 17, no Barzin, às 21h. Vendas de mesa antecipada, pelo fone 98134.7719. Ou mesa compartilhada R$ 15,00, o lugar, compra na portaria.

Há 21 anos vivendo em São Paulo, a cantora paraense Railídia fez da saudade do Pará alimento para as cantorias naquela cidade. Nos shows e em rodas de samba na Paulicéia sempre incluiu no repertório músicas que falavam da saudade do seu estado de origem, músicas sobre a cidade de São Paulo e também composições que cantam o Brasil. 

"O Pará é a minha casa, e São Paulo também se tornou a minha casa depois de duas décadas vivendo lá. Da mesma forma como acho que o Pará precisa ser mais conhecido e valorizado, o Brasil também precisa ser mais valorizado como a casa dos brasileiros. Vi que essa temática da casa como o nosso lar se refletia através de várias musicas".

Paulo Godoy /Foto: Débora Flor
A partir dessa visão a cantora combina um repertório de músicas de autores como Waldemar Henrique, Celso Viáfora, Aldir Blanc e Maurício Tapajós, Chico Sena, Guinga, Carlinhos Vergueiro, Jorge Mautner e o paraense Kazinho (músico veterano que fez carreira em São Paulo). 

São músicas que falam de peculiaridades de cada lugar como "Volto pra comer camarão com açaí" (Saudades do Pará), "Lá no Pará é que eu nasci eu sou de mogno e de luz" (Madeira de sangue)  ou ainda "minha noite paulistana louca e bailarina" (Noturno Paulistano) e "O Brazil não conhece o Brasil" (Querelas do Brasil).

Sambas, maracatu, baião, marcha-rancho, boi bumbá são alguns dos ritmos que serão apresentados. Railídia se apresenta ao lado do violonista de sete cordas Paulo Godoy, compositor e diretor musical do primeiro cd da cantora, "Cangalha". No show no Barzin, a intérprete também apresenta algumas canções do Cd, entre elas Boi Urrou, um boi-bumbá do Pará aprendido pela mãe da cantora nas folguedos no bairro da Pedreira nos anos 50.

Serviço
Show Canto de Casa – com Railídia e Paulo Godoy. Dia 17 de janeiro, às 21h, no Barzin. Venda antecipada de mesa R$ 60,00, pelo fone 98134.7719, ou mesa compartilhada R$ 15,00 o lugar, compra na portaria. O Barzin fica na Generalíssimo, 1772.

10.1.19

Mulheres artistas paraenses realizam 1o encontro

A rede de conexão feminina artística M.AR. (Mulheres ARtistas), organizado para dar visibilidade e divulgar o trabalho das artistas plásticas, grafiteiras, ilustradoras, game designers, profissionais de animação, tatuadoras e quadrinhistas paraenses promove nesta quinta-feira, 10, o seu primeiro encontro, no Núcleo de Conexões Ná Figueredo, a partir das 19h. 

Haverá uma roda de conversa aberta ao público sobre “O que é ser uma mulher artista no mercado paraense de arte” e uma exposição coletiva de arte das 56 integrantes da rede de conexões até então.

“A ideia de unir e mapear as mulheres que trabalham com artes visuais em Belém surgiu após a exposição ‘Amor em Tempos de Ódio’, onde foi necessário convidar as artistas paraenses e não conhecíamos muitas mulheres que trabalhavam com ilustração aqui. 

Após conhecer as profissionais que participaram e perceber que os organizadores costumam ter essa dificuldade, decidimos conversar com elas e tentar reunir o máximo possível de mulheres que trabalhassem nessa área, com o intuito de fortalecer o cenário artístico paraense, trazer representatividade para os espaços e visibilidade para elas”, explica Ty Silva, que organiza o grupo junto às artistas Moara Brasil, Layse Pimentel e Renata Segtowick.

Por meio do preenchimento de um formulário desenvolvido pela organização, será possível mapear artistas em diversas áreas. Assim, quando houverem trabalhos ou evento, será possível indicá-las a partir dos nomes da rede de mulheres. “Essa conexão será fortalecida por meio de encontros e troca nas redes sociais. É possível haver uma ocupação maior do espaço artístico paraense e trazer visibilidade e empoderamento para as mulheres artistas”, reforça Ty.

Serviço
M.AR 1º Encontro de Mulheres Artistas Paraenses / Roda de Conversa: "O que é ser uma mulher artista no mercado paraense de Arte" / Exposição Coletiva de Arte. Nesta quinta-feira, 10, às 19h, no Núcleo de Conexões Ná Figueredo - Avenida Gentil Bittencourt, nº 449. Aberto ao público. 

9.1.19

Edgar Castro sobe o rio na Mambembarca do Usina

Edgar Castro, em Dezuó
Fotos: Cacá Fernandes e Bruna Lessa/
Bruta Flor filmes.
Há mais de 20 anos longe, o ator Edgar Castro estará de volta ao Pará a convite do grupo paraense USINA, para apresentar "Dezuó – Breviário das Águas", como espetáculo convidado da Caravana MAMBEMBARCA, projeto premiado pelo Programa Rumos Itaú Cultural que, entre julho e agosto deste ano, vai subir o rio Amazonas de Belém a Santarém, levando gratuitamente quatro espetáculos e mais oficinas de teatro a 12 municípios paraenses. Ainda em São Paulo, mas já “cuíra” pelo momento de zarpar nessa aventura, ele concedeu  entrevista ao Holofote Virtual.

O ator e diretor paraense Edgar Castro teve participação marcante no teatro produzido em Belém na década de 80 e início dos anos 90. Foi fundador e exerceu as funções de dramaturgo e diretor do grupo Pé na Estrada – cuja poética se apresentava como uma das mais experimentais naquele contexto –, e também esteve em produções de grupos emblemáticos da época, como Cena Aberta (O auto da compadecida, Palácio dos Urubus) e Experiência (Ver de Ver-o-Peso, A terra é azul?, A mulher sem pecado). 

Em 1995, mudou-se para São Paulo e lá seguiu com sua vocação para homem de teatro. Nesses 24 anos, trabalhou com diretores do quilate de Antunes Filho e Roberto Lage, assim como também integrou – ou integra – coletivos importantes como Cia do Latão, Cia São Jorge de Variedades, Cia dos Inventivos e Cia Livre, entre outros. 

Paralelamente às atividades artísticas, Edgar também tem se dedicado ao ensino. Lecionou na Escola Livre de Teatro de Santo André de 1999 a 2011, onde foi coordenador pedagógico no período 2007 a 2009. Entre 2012 e 2013, coordenou a Área de Teatro do Centro Livre de Artes Cênicas (CLAC), em São Bernardo do Campo.

Em 2015, atuou em Dezuó – Breviário das águas, do Núcleo Macabéa, com direção de Patricia Gifford. O espetáculo reflete sobre os impactos da construção de uma usina hidrelétrica onde vivem populações tradicionais da Amazônia. A qualidade do trabalho rendeu duas indicações ao prêmio Shell, nas categorias Dramaturgia e Direção de Arte.

Holofote Virtual: Qual a sua expectativa para essa experiência de descer o rio com teatro? 

Edgar Castro: Durante o processo de criação de Dezuó foi se desenhando no horizonte da equipe uma espécie de alvo maior, que era apresentar o trabalho na Amazônia. Havíamos inscrito o projeto em alguns editais de circulação nacional, sem sucesso. Então quando veio o convite do USINA de participar do MAMBEMBARCA e, posteriormente, a notícia de que o projeto havia sido contemplado dentro do Rumos Itaú Cultural, sentimos que uma espécie de “destino” do trabalho se confirmava. 

Então nossa expectativa é a de fazer o melhor possível no sentido de gerar uma experiência significativa, que possa vir a produzir um encontro real entre o trabalho e o público. E também expectativa de grande aprendizado, por estar na companhia de velhos amigos – Alberto, os Cláudios, Valéria, Nani, parceiros e parceiras tão queridos e donos de sua própria história.

Holofote Virtual: Dezuó narra a trajetória de um menino cuja família é expulsa da comunidade onde vive por causa da construção de uma hidrelétrica. O que significa pra você encenar essa história para populações em condições de abandono semelhantes?

Edgar Castro: Em 2017 fizemos um circuito de apresentações por nove comunidades quilombolas no Vale da Ribeira, região Sul do estado de São Paulo e território humano com profundas semelhanças com o contexto amazônico presente em Dezuó, semelhanças no sentido de um histórico de injustiça social e violação de direitos. 

O diálogo que o trabalho estabeleceu com a experiência de luta daquelas comunidades, sobretudo pelo retorno que nos foi dado pelos líderes mais velhos de que aquela história era também a história deles na defesa de seus territórios e de seu direito à terra, foi uma das experiências mais marcantes e construtora de sentido na trajetória desse trabalho. Nosso desejo é de que o encontro com as comunidades presentes no roteiro do projeto MAMBEMBARCA seja de riqueza semelhante.

Holofote Virtual: A oficina que você vai ministrar em alguns municípios propõe uma reflexão sobre a dimensão pública do ato teatral. Por que você considera essa abordagem importante para artistas em formação?

Edgar Castro: Em certo sentido o ofício do intérprete esteve e está cercado por uma espécie de fetiche relacionado a uma falsa condição existencial de privilégio, fetiche esse atualmente muito alimentado pela indústria cultural e a produção em série de “celebridades” e seus subprodutos. 

Então acredito necessário reafirmar, a quando dos processos formativos do intérprete e indo na contramão da fornalha de futilidades da sociedade de consumo, que além da natureza de ofício e seus imperativos ao futuro trabalhador da cultura – conhecimento dos materiais e das habilidades técnicas específicas –, existe também a dimensão social do ofício, o teatro como aquele espaço onde a pólis reflete sobre si mesma, onde o pensamento crítico, através da experiência estética e por ela potencializada, é estimulado, onde a luta de classes como motor da sociedade é explicitada e os mecanismos de opressão desnudados. 

Holofote Virtual: Do repertório do grupo USINA, você teve a oportunidade de assistir ao espetáculo Solo de Marajó, com Claudio Barros, em São Paulo. Como foi a experiência e como será dividir a caravana com esse artista da sua geração?

Edgar Castro: Sim, sou da mesma geração que Claudio Barros. Juntos, dirigimos A Terra é Azul, trabalho fundamental na construção do meu pensamento como artista. Solo de Marajó, além de um estupendo trabalho sobre a obra de Dalcídio Jurandir, um dos maiores escritores brasileiros, foi a atualização no meu imaginário da profunda e arriscada verticalidade que sempre vi na maneira como Claudio lida com o ofício. 

Sem concessões, radicalmente mergulhado na construção de uma poética visceral e vinculada ao seu tempo. O absoluto rigor que fundamenta seu trabalho como intérprete em Solo de Marajó é, partindo do que acredito, a mesma pedra fundamental para o exercício da liberdade humana. Dito isso, imagino que descer o rio com Claudio vai ser uma farra das boas!

Holofote Virtual: Neste primeiro semestre você deverá participar do novo espetáculo da Cia. Livre, com direção da Cibele Forjaz. O que vocês vão aprontar dessa vez?

Edgar Castro: Em 2017, a Cia Livre realizou cinco leituras encenadas de cinco textos de B Brecht, cada uma delas com um coletivo parceiro. Uma dessas leituras foi a de Os Horácios e os Curiácios, com a Cia Oito Nova Dança. 

Nessa leitura contextualizamos a fábula de Brecht, tendo a luta das comunidades indígenas pelo direito à existência como principal eixo estruturante. Com a atual confirmação da trágica atualidade dessa perspectiva, como por exemplo a recente medida de que a demarcação das terras indígenas passa a ser competência do Ministério da Agricultura, a Cia Livre decidiu dar continuidade ao trabalho iniciado com aquela leitura. 

A montagem do novo espetáculo deve começar início de fevereiro, com o mesmo coletivo parceiro – a Cia Oito Nova Dança –, e estrear em junho. Decidi, para não chocar a agenda desse trabalho com o projeto MAMBEMBARCA, trabalhar não como ator, mas dentro da dimensão pedagógica do projeto, já que uma das etapas do mesmo é a apresentação em escolas da rede pública. Como retomei recentemente à faculdade iniciando um curso de pedagogia, vi nesse projeto a oportunidade de desenvolver um diálogo verdadeiramente rico sobre a presença do teatro na comunidade escolar. 

Holofote Virtual: Como sabemos, o Brasil vive um momento bastante singular de sua história. Como você pensa o papel da arte e dos artistas brasileiros neste momento? 

Edgar Castro: Pergunta espinhosa, já que dependendo da resposta posso criar a falsa impressão de que existe “o” papel para a arte e para os artistas brasileiros nesse momento. Nada mais colonizador do que essa ideia. Posso falar por mim e pelo que acredito, dentro das minhas escolhas. São tempos difíceis, sem dúvida, com virulentas agressões às garantias civis, com o esgarçamento do tecido social até a sua ruptura em facções partidárias movidas pelo ódio, com a falência do judiciário e o império da hipocrisia, com a extinção de qualquer rastro de dignidade por parte da grande imprensa, entre outros vetores de autodestruição. 

Esse cenário me leva a desejar que a experiência teatral, que é o meu quintal dentro desse contexto macro chamado “arte”, seja a de restituir alguma integridade a esse tecido social ferido, através de uma experiência que promova uma experiência de sensibilidade coletiva. Intuo que esse seja uma tentativa de gesto necessária nesses tempos.

Holofote Virtual: Você vive em São Paulo há mais de 20 anos. Tem planos de um dia, num futuro muito distante, armar sua rede na beira de um rio amazônico?

Edgar Castro: Sei que não vou enterrar meu umbigo em São Paulo. Esta cidade tem sido muito generosa comigo durante esse tempo que estou aqui, mas o Pará nunca abandonou meu futuro. E, sim, essa imagem que você coloca é uma imagem posta em algum ponto do meu horizonte. Sei que para lá me dirijo. Quando chegarei, não faço ideia. Vai que o projeto MAMBEMBARCA  é o meu check-in. Afinal, a beleza do futuro é que ele não está traçado em todas as suas linhas, e o desenho final pode nos surpreender.

Bruno B.O. lança o videoclipe de “Sua Revolução”

Fotos: Renan Chady
Acreditar na sua própria revolução interior para mudar a realidade que o cerca. É essa a energia que norteia a canção “Sua Revolução”. Gravado na Feira do Açaí, o registro audiovisual integra o projeto Pitiú Sessions, do Ver-o-Som Stúdio, e estará disponível nesta quinta-feira (10), nos perfis do artista no Facebook e no YouTube.

Original do Norte, Bruno B.O é um dos nomes pioneiros do Rap e do Ragga no Estado do Pará. Em carreira solo, desde 2002, o artista faz fusões de estilos como Rock, Rap e Ragga. Além de MC, ele é pesquisador, com formação em Ciências Sociais, focando, durante toda sua trajetória acadêmica, a cultura Hip Hop, em especial o Rap, se tornando o primeiro MC de Rap brasileiro a conquistar o título de Doutor em exercício. Seu conhecimento antropológico é aliado à sua musicalidade.  

“A letra fala sobre como podemos iniciar o processo revolucionário a partir das nossas próprias atitudes. A ideia da canção é mudar o seu próprio ‘eu’ para fortalecer o outro e que todos somos capazes de ser a mudança que queremos para o mundo”, comenta o rapper paraense.

A Feira do Açaí foi a locação escolhida para a gravação do clipe por sua ligação à história de Belém, que completa, neste sábado (12), 403 anos. “Essa parte do complexo do Ver-o-Peso é a mais urbana, boêmia e considero a mais Hip Hop, com grafites em seus muros, além de ser a primeira rua de Belém”, explica Bruno B.O.

O clipe integra Pitiú Sessions, um projeto produzido pelo estúdio Ver-o-Som a fim de fomentar a Cultura Hip Hop e a cena Rap no Pará. O rapper paulista Slim Rimografia assina os beats de “Sua Revolução”; Renan Chady assina a fotografia, color grading e captação de imagens; já a mixagem, masterização e captação de vozes é do Ver-o-Som Stúdio.

Este ano ainda, Bruno BO lançará “Afroamazônico”, o primeiro registro em DVD do Rap paraense, fruto de um projeto contemplado pelo programa Natura Musical 2018 e Lei Estadual de incentivo à Cultura – Semear.

Assista - O videoclipe “Sua Revolução” pode ser conferido, nesta quinta-feira (10), na página do rapper Bruno B.O. e do Ver-o-Som, no Facebook, e no canal no YouTube.

8.1.19

Ateliê Jupati comemora o 1o ano na Cidade Velha

Ateliê Jupati (corredor interno). Foto: Cláudio Ferreira
A comemoração traz ações de fotografia. Nesta terça-feira, 8, às 19h, tem bate papo com Salim Wariss, nos dias 12 e 13, a 1a Foto Feira Jupati, com os fotógrafos Fátima Queiroz (SP), Faustino Castros (CE), Jorge Ramos, Nailana Thiely e Ursula Bahia, e segue a exposição Encontros e afetos em Belém, Mano de Carvalho.

A programação também se estende às comemorações dos 403 anos de Belém, que serão completados no dia 12, mas hoje (8), o papo fotográfico é com Salim Wariss, que falará da sua experiência como fotógrafo de procissões e celebrações religiosas, além de seu trabalho voluntário junto à guarda de Nazaré. O fotógrafo abordará seu trabalho autoral, e estará disponível para trocars idéias de como registrar esses atos e a importância de um estudo prévio sobre o assunto. 

Salim começou a fotografar em 2012, já na captura digital e no decorrer da carreira acabou enveredando pelo fotojornalismo e à fotografia documental. O desejo de mostrar a realidade e congelar momentos especiais são sua busca constante.

“A fotografia foi um dom que Deus me deu. E sendo um presente divino, sempre a coloquei à disposição daqueles que o precisam. Foi assim na Cruz Vermelha e na Camisa 33”, diz Salim, que atua de forma voluntária a trabalhos junto a Arquidiocese de Belém e à Guarda de Nossa Senhora de Nazaré.

Uma feirinha criativa para a fotografia

Obra de Nailana Thiely
Já nos dias 12 e 13 a festa será criativa, comemorando o primeiro ano do Ateliê Jupati, nos 403 anos  de Belém. Haverá venda de diversos produtos como Calendários fotográfico, Cartões Postais, Fotografias Fine-art, Fotos emolduradas e muito mais.

a primeira Foto Feira Jupati proposta da fotojornalista e empreendedora Ursula Bahia que tem como objetivo mostra as diversas plataformas de fazer fotografia, a criatividade vem diferenciar o mercado fotográfico, com o advento do digital a fotografia se “banalizou” o mercado saturado de imagens e novos “fotógrafos”, com isso o mercado vem exigindo novos formas de apresentar a fotografia autoral, documental, de paisagem e etc. 

Com isso é o Ateliê Jupati tem a proposta de mostrar ao público o que esta correndo na cena fotográfica. Com a participação da Fotógrafa Paulista Fátima Queiroz, do Cearense Faustino Castros e dos Paraense Jorge Ramos, Nailana Thiely e Ursula Bahia.  Traz uma variação de produtos diversos para presentear, colecionar e utilitários como Calendários fotográfico, Cartões Postais, Fotografias Fine-art, Fotos emolduradas e muito mais.

A proposta do Ateliê é de apresentar 4 edições por ano da Foto Feira Jupati, focando as datas principais comemorativas da fotografia dia 8 de janeiro dia do fotógrafo, dia 19 de agosto dia da fotografia e 2 de setembro dia do repórter-fotográfico.

Ursula Bahia
A primeira Foto Feira Jupati, idealizada pela fotojornalista e empreendedora Ursula Bahia, tem como objetivo mostrar as diversas plataformas de fazer fotografia com a criatividade, o que ela acredita diferencia o mercado fotográfico. Úrsula discute que o digital banalizou o mercado da fotografia,  hoje, segundo ela, saturado de imagens e novos “fotógrafos”.

"Por isso, o mercado vem exigindo novas formas de apresentar a fotografia autoral, documental, de paisagem e etc. O Ateliê Jupati tem a proposta de mostrar ao público o que esta ocorrendo na cena fotográfica", diz a fotógrafa que também é a gestora do atelier.

A feirinha traz uma variação de produtos diversos para presentear, colecionar e utilitários como calendários fotográfico, cartões postais, fotografias fine-art, fotos emolduradas e muito mais. A proposta do Ateliê é de apresentar 4 edições por ano da Foto Feira Jupati focando as datas principais comemorativas da fotografia, como essas e ainda 19 de agosto, Dia da Fotografia, e 2 de setembro, Dia do Repórter-fotográfico.

Mano de Carvalho expõe Encontros e afetos em Belém

Obra de Mano de Carvalho
E segue aberta, no Jupati, desde dezembro, indo até 30 de janeiro, a exposição "Encontros e afetos em Belém", do fotógrafo paraibano Mano de Carvalho, que revela amizades que estavam ‘guardadas’ na memória como fotografias esquecidas em um acervo pouco visitado.

Após encontros no mundo virtual, estas fotos foram redescobertas e reacenderam afetos, mas a mostra é também o resgate de trabalhos antigos de Mano de Carvalho. Traz fotos do início de sua carreira, captadas ainda em câmeras analógicas. Há material recente, feito com equipamento digital – câmeras e smartphones –, tudo em preto e branco, retratando pessoas de várias cidades do Brasil, de lugares por onde o artista paraibano passou nesses 28 anos dedicados à fotografia, incluindo alguns anos de fotojornalismo.

Serviço
Nesta terça-feira, 8, às 19h, bate papo com Salim Wariss. E Foto Feira Jupati, nos dias 2 e 13, das 9h às 17h. A exposição Encontros e afetos em Belém, de Mano de Carvalho, segue aberta até dia 30 de janeiro. O Ateliê Jupati fica na Trav. Gurupá nº 250, entre Dr. Rodrigues dos Santos e Cametá, Cidade Velha.