15.5.15

"Amores Líquidos" deixa a estrada e chega na praia

Fotos: Jorane Castro,
 Moana Mendes,

 Emanoel Loureiro
“Amores líquidos”, longa metragem da paraense Jorane Castro, está em sua terceira semana de filmagem. A equipe agora está filmando nas areias da praia do Atalaia, onde várias das cenas decisivas e finais do filme serão feitas.  As filmagens em Salinas, no nordeste do estado, em nossa chamada região do salgado, iniciaram no dia 14, última quinta-feira. Jorane Castro bateu um super papo com o Holofote Virtual e contou como tem sido filmar um longa roadie movie de baixo orçamento na Amazônia.

Um filme paraense com certeza. Paisagens paradisícas, cenas interioranas. E agora, já começam também, os preparativos para uma festa de aparelhagem. 

É neste ambiente de cenário praiano mas cheio de 'treme', que vai se dar o desfecho da história de Eva (Lorena Lobato), Melina (Ane Oliveira) e Keithylennye (Keila Gentil), com Jonas (Ramon Rivera), Pedro (Leocir Medeiros) e DJ Pankadinha (Dime França).  A equipe que mistrua gente de Belém, Ceará e Recife, entra em uma nova fase da filmagem, que iniciou em Belém, navegou a Baía do Guajará e pegou a estrada. 

"Esse tem sido talvez o set mais prazeroso da minha vida, estou muito feliz. A equipe tem amor pelo que faz e é muito dedicada. Está ligada no que está fazendo, investida em melhorar tudo. E isso nos salva, porque é um momento que não é fácil", diz Jorane Castro, diretora paraense que estreia em seu primeiro longa, contemplado com o edital de Produção Cinematográfica de Ficção de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura.

Jorane conta que há um esgotamento físico, mas que há muita vontade e um ótimo clima no set, acalentando toda a equipe. "A gente acorda 4 da manhã, tem que estar no set 5h30, 6h e trabalha até o fim do dia. Temos jornadas bem longas, fora do tempo normal. Nosso domingo é quarta feira, mas ao mesmo tempo está sendo muito intenso, prazeroso e produtivo", comenta.

As locações em Belém foram na Vila da Barca, no Porto de Belém, e no Complexo do Ver o Rio, contemplando assim, a paisagem ribeirinha, que contrasta com a velocidade da cidade, uma imagem comum em várias cidades da Amazônia, situadas à beira do rio. O “Amores Líquidos”, porém, não é um filme ribeirinho. Ele é um roadie movie.

Na segunda semana, a equipe entrou em deslocamento. As filmagens passaram pela Vila do Apeú e na Vila do Mel, localizada à beira da estrada, a 30 km de Salinas. “Há muitas cenas que são de estrada mesmo. Fomos pra rota turística e pegamos uma antiga estrada que passa por Igarapé Açu, e que hoje está sendo renovada, atravessamos a ponte de Livramento. É um lugar cinematograficamente mais interessante de filmar do que a própria BR, é uma PA (zinha)”, descreve Jorane Castro, que também é autora do roteiro.

Personagem e fotografia

“Amores Líquidos” é um filme de personagens. E, além disso, é um filme de fotografia. O filme narra a trajetória entrelaçada de três mulheres. Eva (Lorena Lobato), Melina (Ane Oliveira) e Keithylennye (Keila Gentil). 

Por motivos diferentes, elas pegam a estrada e seguem de carro para Salinas. No caminho, vivem algumas experiências até chegarem a seus objetivos, dando-se então o desfecho da história. 

“São personagens fortes e intensos. As pessoas é que guiam o filme, não temos uma situação de um conflito que tem que ser solucionado, é um filme que conta uma história, num entrelaçamento de três narrativas, levadas por três mulheres muito diferentes e que estão na estrada juntas. Então eu diria que é um filme de personagens, que podem nos levar junto nesta estrada”, comenta a diretora.

A opção por uma paisagem natural não é uma escolha estética nova da cineasta que dirigiu, em 2010, “Ribeirinhos do Asfalto”, premiado em Gramado com Melhor Direção de Arte, assinada por Rui Santa Helena, o mesmo diretor que Jorane também convidou para assinar a direção de arte de “Amores Líquidos”.

“Estamos trabalhando uma linguagem muito próxima do documental. Filmando de barco, na estrada, na praia, na areia, locais que a gente não quer mesmo recriar num estúdio. 

O mais interessante aqui é que a realidade tenha pequenas interferências da arte, mas mantendo todas as referências do lugar. E é tão bonito. Então sempre buscamos locações verdadeiras e fazemos as nossas adaptações. Foi assim em “Ribeirinhos e deu muito certo”, continua a diretora.
Pará e Recife

“Amores Líquidos” é produção é da Cabocla Filmes, produtora paraense, com a co-produção da REC Produtores Associados, de Recife (PE), uma parceria que vem dando certo, também no set de filmagem.

“Precisamos ter uma equipe afiada e temos conseguido isso, o que é muito bacana, pois apesar de ter muita gente com quem eu já trabalhei, com o fotógrafo Beto Martins, por exemplo, nunca tinha filmado. A equipe é grande, mas que funciona muito rápido. Estamos fazendo três a quatro cenas por dia o que é a média normal”, diz Jorane.

Desde Líbero Luxardo, que realizou “Brutos Inocentes”, que não se produz um filme longa metragem genuinamente paraense. “Amores Líquidos” é o primeiro filme de baixo orçamento realizado com estrutura de produtora daqui, a partir de recursos federais. 

A equipe é formada em mais de 85% por profissionais paraenses, como todo o elenco, que traz ainda o ator Leocyr Medeiros e Dime França (Da dupla de Rap Cronistas da Rua), mas também traz técnicos e produtores da capital pernambucana, além de Márcio Câmara, responsável pelo Som Direto e parceiro em vários outros projetos de Jorane Castro. Essa busca de reforço é claro, não foi à toa.

“Precisei de mais apoio e parcerias, porque somos inexperientes nesta área de produção, é um longa, não um curta, precisa de um planejamento maior, de longa duração, não temos esta experiência. Então fui conversar com outro paraense, que é sócio da REC, o Ofir Figueiredo e ele topou estar aqui como co-produtor. Nós somos sócios e parceiros neste projeto, e estamos tocando ele com uma equipe de 70 pessoas, que são do Pará e do Recife, ao todo, oito pessoas pra ser mais exata”, reforça a cineasta.

Jorane acredita que, no que depender da equipe, o filme terá imprimido um resultado positivo. “Há empatia, cumplicidade e harmonia, todos amam muito o que estão fazendo e dando o melhor de si. E se isso continuar assim, vai também estar impresso na tela algo positivo. Quero muito que as pessoas sintam através dessa imagem a energia que temos, todo nosso esforço profissional e técnico que estamos investindo neste projeto”, enfatiza.

Música paraense na veia

Além da paisagem, da fotografia, da equipe afinada, do elenco entrosado, o filme promete também ser um roadie movie extremamente musical. Apesar da trilha ainda não estar definida, Jorane afirma que só vai usar música paraense. 

“Eu quero uma trilha bem paraense, porque esse filme já tem isso. Quando olho em volta e vejo as atrizes conversando, elas estão o tempo todo falando de música, duas delas são cantoras”, diz Jorane, referindo-se a Keila e Lorena. 

A equipe ainda filma até o final desse mês naquela região. E para quem ficou na ansiedade de ver isso tudo na tela, uma boa notícia. Jorane Castro diz que o filme fica pronto ainda este ano, no segundo semestre, e que a ideia é que ele tenha uma trajetória normal no cinema brasileiro e quem sabe ir um pouco mais além. 

“Vamos tentar festivais e já pensar na distribuição em sala de cinema. Eu queria muito que o filme chegasse a um bom público, porque essa é a grande dificuldade que temos no Brasil. Os filmes brasileiros têm um mercado limitado de distribuição, mas vamos fazer assim, da forma convencional, até chegar a DVD, HD, televisão aberta, fechada. Essas são as possibilidades que se abrem para o público descobrir o filme mais adiante. E depois desse, quem sabe fazer outros filmes, porque até agora tem sido muito bom”, diz  Jorane Castro, que ainda nos conta mais detalhes abaixo.

Holofote Virtual: Como vocês chegaram a este elenco. A Keila, por exemplo, nunca tinha atuado... 

Jorane Castro: Tínhamos duas atrizes contratadas, desde o início do filme, e que desistiram de fazer os papéis, por questões pessoais e profissionais. Uma está grávida, e a outra tinha um contrato por um período maior que nosso filme. Eram duas atrizes paraenses também. Dira Paes e Maeve Jinkings. 

Em nosso elenco, mesmo que alguns nunca tinham feito cinema, é muito integrado. Lorena Lobato, Ane Oliveira e Keila Gentil estão tão envolvidas que quando você as vê em cena, com câmera ligada funciona como se não tivesse câmera por perto, como se fosse uma situação realista. É o que quero no filme, uma interpretação naturalista, não quero que seja uma interpretação rebuscada, eu quero que tenha uma linguagem documental, assim como já falei sobre locações. Quero verdade neste filme. 

Holofote Virtual: A fotografia é um ponto forte na estética do filme. O que fostes buscar de inspiração?

Jorane Castro: A inspiração vem das indicações do próprio roteiro e das atrizes que estão dando o seu melhor. O filme está se construindo de maneira muito boa, há locações que são incríveis, na beira da estrada, lugares lindos. Estamos com uma luz muito bonita, trabalhando numa transição do de inverno pra verão e essa luz do inverno é linda, uma luz difusa, branca, sem contraste.

Holofote Virtual: És uma diretora que costuma se repetir na equipe (risos). Em Amores Líquidos há pessoas que te acompanham desde “Mulheres Chiradeiras”, teu primeiro curta. É uma preferência tua?

Jorane Castro: Quando tenho afinidade com as pessoas, não preciso mudar. Isso me dá segurança, eu fico mais tranquila. Não tenho que me explicar tanto, as pessoas já me conhecem e sabem como eu dirijo. Isso nos faz ganhar tempo. Ao invés de estar ainda se conehcendo, a gente aplica em outra coisa. 

Márcio Camara, Antonio Maurity, Moana Mendes, Moema Mendes, Shirleide Reis já trabalham comigo exatamente, desde As Mulheres Choradeiras. Há pessoas que já trabalham mais recentemente comigo, como o Rui Santa Helena, que esta há quatro filmes comigo. Não é só a questão do carinho e da segurança que isso me dá, mas pela cumplicidade estética que já temos e isso é muito importante, então nesse grupo todo a gente está muito bem, eu gosto de repetir essas cumplicidades, essas parcerias.

Holofote Virtual: Muito legal também é a afinidade das equipes Belém e Recife, que num certo sentido, são duas cidades parecidas na produção cinematográfica, com a diferença que eles possuem edital de cinema que destina milhões por ano, provocando e aquecendo assim a realização de curtas e longas a cada ano. Como tem sido essa relação, na prática

Jorane Castro: Temos uma equipe técnica que dá muito conta do que tem que ser feito. Estamos filmando em barco, praia, carro, na areia, água, igarapé, situações que são muito delicadas de fazer e requerem conhecimento e técnica de trabalho. A equipe de Recife tem mais experiência, porque o mercado lá é mais aquecido, existe mais publicidade também, além de um edital público estadual que direciona quase R$ 12 milhões para o audiovisual. Este tipo de apoio permite que haja uma produção mais profissional e é isso que eles estão nos trazendo. A liga deu certo.

Guitarrada paraense (re) visita ritmos brasileiros

Arte: Roberta Carvalho
Foto: Renato Reis
Um guitarrista único. Joaquim de Lima Vieira, Mestre Vieira, tem aquilo que todo músico sonha em ter: um sotaque pessoal no instrumento. Ele criou um estilo, a guitarrada. Aos 80 anos, possui 15 LPs gravados entre os anos 1979, quando lança o Lambada das Quebradas, e o ano 2000. Participou de várias coletâneas de CDs, e de discos especiais, como “Os Mestres da Guitarrada” e “Música Magneta.”

Em 2009, ele lançou, de forma independente, o primeiro CD de músicas inéditas, o “Guitarrada Magnética” e, em 2013, o DVD “Mestre Vieira 50 Anos de Guitarrada”, gravado ao vivo no Theatro da Paz, em Belém do Pará, reunindo 38 músicas representativas de sua carreira, com participações especiais de Gaby Amarantos, Felipe Cordeiro, Lia Sophia, Sebastião Tapajós, Trio Manari entre outros artistas expoentes da cena musical paraense. 

Em “Guitarreiro do Mundo”, o segundo CD, Mestre Vieira apresenta músicas inéditas, ao todo, 12, em que se percebe a cúmbia, a lambada e o brega, mas também, muito presentes o baião, o samba e o choro, ritmos brasileiros, com os quais ele embalava festas entre os anos 1950 e 1960. Muito tempo antes de se apaixonar pela guitarra.

Aos 14 anos, por exemplo, abraçado ao bandolim, ele ganhou o 1º lugar em um concurso de choro, na extinta Rádio Clube do Pará PRC-5, em Belém. Um pouco mais tarde, em Barcarena, cidade paraense onde nasceu, cresceu e reside até hoje, ele formou com familiares o grupo Irmãos do Samba. Munido também de um violão, Mestre Vieira ouvia seus compositores preferidos, entre os quais estão Garoto, Dilermando Reis e Jacob do Bandolim.

As nuances da música brasileira, projetadas na obra de Mestre Vieira, ao longo de sua carreira, estão claras no disco e no show de lançamento “Guitarreiro do Mundo”. Em um momento especial, à exemplo disso, o criador da guitarrada, deixará a guitarra de lado para se render ao cavaquinho. 

Dois momentos para lançar o disco

Na floresta do Murucupi (Barcarena-PA)
Foto: Renato Reis
O lançamento do novo CD, em Belém, será no dia 6 de junho, no bar e restaurante Tábuas de Maré, que abrirá a partir das 17h, no pôr do sol, seguida de música brasileira no melhor estilo instrumental, a partir das 19h, na apresentação da Até Jazz, banda formada por Angela Rika (Flauta), Milton Cavalcante (Guitarra), Rafael Azevedo (Contra Baixo) e Carlos “Canhão” Brito (Bateria). No repertório, a banda tocará arranjos para músicas de Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Chick Corea, João Donato, entre outros, abrindo, assim a noite para o grande show da noite.

Mestre Vieira e Seu Conjunto Musical sobem ao palco às 21h30. O grupo é formado pelos filhos de Vieira, Wilson Vieira (teclado) e Waldecir Ferreira (bateria), além de Bruno Rabelo (guitarra base), André Macleuri (baixo) e Carlos “Canhão”Brito (percussão). Terminado o show, Mestre Vieira estará a postos para autografar os CDs e também o DVD dos 50 anos, que estará sendo vendido a preço promocional. 

A festa segue entrando pela madrugada, com a participação do DJ Al-Jaz-Silva, que une em um só groove, África-Brasil-Pará, e passeia pelos ritmos dançantes da linha do Equador, além do projeto Ondas Tropicais, que se trilha nas sonoridades mais calientes dos trópicos do planeta.  Prepare-se para sets de guitarrada, cúmbia, merengue e outros. 

Depois de Belém, o lançamento será no Rio de Janeiro. Contemplado pelo edital de ocupação Caixa Cultural do Rio de Janeiro, “Guitarreiro do Mundo” estará em cartaz, durante três dias, no Teatro de Arena da Caixa Cultural, com programação de shows, bate papo e workshop de guitarrada.

O CD - Produzido no estúdio Hobsom Gravações, em Barcarena (PA), município em que nasceu e reside o artista, “Guitarreiro do Mundo” sai pela Na Music, com direção e criação musical de Mestre Vieira, produção executiva de Luciana Medeiros - Três – Cultura Produção Comunicação -, e produção musical de Waldecir Vieira. 

A capa é da artista gráfica Roberta Carvalho. Gravaram as faixas, com Mestre Vieira (guitarra solo), os músicos Dhosy (Guitarra base), Waldecir Vieira (bateria), Wilson Vieira (teclado), Beto Marques (baixo) e Kim Vieira (percussão).

“Guitarreiro do Mundo” pode ser encontrado em plataformas virtuais, nos shows do artista e nas lojas Na Figueredo, em Belém. Também está disponível em São Paulo, na FNAC Paulista/Morumbi/Pinheiros, e nas livrarias Saraiva, Cultura (shoppings Iguatemi e Villa Lobos).

Serviço
Belém – CD Guitarreiro do Mundo. Dia 6 de junho, a partir das 17h, no Tábuas de Maré – Rua São Boaventura – Cidade Velha. Ingressos com venda antecipada, a partir desta sexta-feira, 15 de maio, nas lojas na Figueredo - Av. Gentil Bitencourt, 449 – Nazaré | Estação das Docas. Fone:  (91) 3224-8948. Preço único promocional: R$ 15,00 – até dia 25 de maio. De 26 de maio a 06 de junho: R$ 25,00 e R$ 12,50. Apoio: Na Figueredo, Gotazkein Estúdio.

Mais informações: site www.mestrevieira.com.br . Contatos: 91 3088.5858 – Três Cultura Produção Comunicação | 91 98134.7719 – Luciana Medeiros – Produção |91 98912. 1237 – Flávia Lima – Comunicação

14.5.15

Pavulagem busca recursos para arrastões de junho

A crise financeira do país, que nunca saiu da área cultura, está mais grave. Na falta de editais e outras ferramentas de política pública para a produção cultural no estado, agora foi a vez do músicos de um dos mais tradicionais grupos paraenses, o Arraial do Pavulagem, aderirem ao crowdfunding para realizar o cortejo de rua que iluminam e dão cores aos mês junino em Belém, há quase 30 anos. A campanha foi lançada ontem, mas amanhã, 15, às 20h, haverá show na sede do grupo.

O Arrastão do Pavulagem é o mais recente afetado pelo corte de gastos. Sem investimento financeiro do setor privado ou público, assim como inúmeros outros grupos e iniciativas de cultura, o Instituto Arraial do Pavulagem, ONG criada pelos músicos do Arraial, lança uma campanha de financiamento coletivo e convoca a sociedade a colaborar para manter a tradição dos cortejos de rua, concebidos para celebrar, a cada domingo, a quadra junina e a rica cultura popular paraense.

A campanha, lançada pelo site Eu patrocino, tem uma meta total de arrecadação de R$ 100 mil até 29 de junho. A primeira meta é alcançar R$ 25 mil até 8 de junho. Ações nas redes sociais, shows e ensaios abertos buscam incentivar o público a financiar o projeto. Uma carta aberta do grupo foi divulgada esta semana para apresentar a campanha e cativar fãs e todos aqueles que acreditam na importância da arte e na cultura.

Para participar, basta escolher um dos valores disponíveis no site e fazer o investimento, por meio do cartão de crédito, débito em conta ou boleto bancário. Como uma compra antecipada, quem financia ganha um kit exclusivo do Pavulagem como recompensa. Mas o brinde só é entregue se as metas foram atingidas.

Mais do que apoio financeiro, a campanha é uma reflexão sobre a relação das pessoas com o cortejo. Por trás dos números e dos investimentos, há  uma tradição concebida pelo esforço coletivo, pela dedicação e pelo carinho dos fãs. Ao longo de quase 30 anos de atividades, o Arraial do Pavulagem partilha experiências e pesquisas ligadas aos saberes tradicionais da região amazônica por meio de arrastões, seminários, rodas de conversa, oficinas, shows e ensaios abertos.

A campanha já está circulando e nesta sexta, 15 de maio, a banda Arraial do Pavulagem faz um show aberto na sede do Instituto e convida para a construção coletiva o recomeço do Arrastão do Pavulagem e a continuar a trajetória colorida e festiva que marca a relação com a cidade.

"O Arrastão do Pavulagem é um patrimônio nosso, do povo paraense. A história de muitas e muitas pessoas, de várias gerações, está entrelaçada com os bons momentos de participação nos cortejos e nas atividades anuais do Arraial do Pavulagem. É baseada nessa relação afetiva, construída ao longo desses 29 anos, que acreditamos poder superar as dificuldades deste difícil ano, para todos nós, brasileiros. É uma parceria comunitária, que busca a preservação de uma das manifestações mais representativas da Amazônia. E qualquer cidadão do mundo, que more em qualquer região do planeta pode contribuir, venha junto conosco, participe", diz Junior Soares, um dos organizadores do Arrastão e fundador do grupo.

O Arrastão - Criado em 1987 pela banda Arraial do Pavulagem, o cortejo celebra uma das festas mais populares da cultura brasileira, em que são homenageados os santos católicos milagrosos: Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal, reverenciados com o fogo das fogueiras de rua que simbolizam os ritos arcaicos pagãos ligados à colheita farta, à proteção e à fecundidade.

O Arrastão contribui para manter viva a memória oral tradicional, tão importante para a formação da identidade das novas gerações, em particular aquelas que vivem condicionadas ao espaço urbano. E para partilha com o público durante os domingos de junho e julho a herança do folguedo do boi-bumbá, as bandeiras de santos, o mastro, os bonecos cabeçudos, os ritmos, cores, danças, cantos e cheiros característicos da região em uma festa que inunda de alegria e cor a capital paraense. Saiba mais em www.arraialdopavulagem.org.

Serviço
Show do Arraial na sede do Instituto. Nesta sexta-feira, 15, a partir das 20h - Boulevard Castilhos França, 738, Campina. Acesse o site www.eupatrocino.com.br e financie.

Solo de Marajó abre temporada no Sesc Boulevard

Fotos: JM Condurú
Depois de uma temporada no Rio de Janeiro com sete apresentações realizadas em quatro espaços diferentes, o espetáculo teatral paraense Solo de Marajó volta a Belém e faz curta temporada no auditório do Sesc Boulevard. De hoej (14) a sábado (16), sempre às 19h, com entrada gratuita. A montagem da Usina Contemporânea de Teatro é inspirada na obra do escritor paraense Dalcídio Jurandir, considerado o expoente do romance regionalista no Norte do país.

Em Solo de Marajó, o ator paraense Claudio Barros narra, sozinho sobre um palco vazio, oito pequenas histórias extraídas do romance Marajó, o segundo de uma saga em dez volumes do romancista intitulada Ciclo Extremo Norte, cuja densidade e fôlego ombreia com a produção romanesca de grandes nomes da literatura moderna brasileira.

A encenação é ousada ao assumir o palco nu para valorizar o papel do ator como contador de histórias. Mas é justamente esta escolha que potencializa a força da prosa dalcidiana. Em cena, a palavra é colocada sobre uma detalhada partitura corporal, fruto de pesquisa sobre as histórias de vida do ator e a partir da observação do corpo de pessoas que habitam o ambiente da vida rústica na Amazônia, o mesmo sobre o qual a obra se funda.

Os temas das narrativas vão desde questões de cunho social, como racismo, exploração do trabalho, tráfico de crianças e prostituição, até o universo íntimo das relações amorosas, recheadas de paixão, dor, solidão, ciúme e vingança. Esta visão multifacetada do autor levou os criadores a uma dramatugia que não se preocupa em dar conta da fábula romanesca, mas acaba por construir um mosaico capaz de representar as relações humanas na Amazônia.

Criado em 2009, o espetáculo marca a primeira incursão do encenador Alberto Silva Neto no universo da literatura dalcidiana pensada para a cena. Mas já no an
o seguinte, premiada pela Funarte, a Usina realizaria, também sob sua direção, a montagem Eutanázio e o princípio do mundo, desta vez inspirada em Chove nos campos de Cachoeira – primeiro romance de Dalcídio, publicado em 1941, depois de conquistar o primeiro lugar no concurso literário nacional promovido no RJ pelo Jornal Dom Casmurro e pela Editora Vecchi.

Solo de Marajó chegou ao RJ em janeiro de 2015, depois de diversas temporadas em Belém nos últimos seis anos, além de uma turnê por cinco cidades da Ilha de Marajó, em 2012, e duas apresentações em São Paulo (a primeira em 2010, em mostra da cena paraense contemporânea promovida pela Cia Pessoal do Faroeste, dirigida pelo dramaturgo e encenador paraense Paulo Faria, e a segunda no ano passado, durante a programação da Virada Cultural de SP).

A partir de junho, o espetáculo inicia a turnê nacional Solo de Marajó nos solos de outros brasis, agraciada pela Funarte com o prêmio Myriam Muniz, quando circulará por dez cidades de cinco estados brasileiros diferentes, que foram berço de outros grandes romancistas brasileiros: o Rio Grande do Sul de Érico Veríssimo, o Ceará de Raquel de Queiroz, as Alagoas de José Lins do Rego, a Paraíba de Graciliano Ramos e a Bahia de Jorge Amado. Em novembro, volta ao RJ para uma temporada de quatro semanas (sempre às quartas e quintas) no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema.

Solo de Marajó tem ainda dramaturgia de Alberto Silva Neto, Claudio Barros e Carlos Correia Santos, iluminação de Iara Regina de Souza, fotos de JM Conduru e produção de Sandra Conduru.

O autor - Nascido na vila de Ponta de Pedras, na Ilha de Marajó, em 10 de janeiro de 1909, Dalcídio Jurandir Ramos Pereira foi jornalista e escritor. Passou a infância no município vizinho de Cachoeira do Arari e logo depois mudou-se para Belém. Foi para o Rio de Janeiro pela primeira vez em 1928, com apenas 19 anos, onde até lavou pratos para sobreviver. Ainda voltou ao Pará algumas vezes mas viveu no Rio até morrer, no dia 16 de junho de 1979.

A maior saga da literatura amazônica foi publicada por Dalcídio entre 1941 e 1978, apenas um ano antes de sua morte. Segundo o crítico Benedito Nunes, para quem a obra do marajoara funda a paisagem urbana na literatura amazônica, os dez romances (além destes, ele ainda escreveu Linha do Parque, de temática proletária e publicado no RS) integram um único ciclo romanesco, quer pelos personagens e as relações que os entrelaçam, quer pela linguagem que os constitui, num percurso que vai desde Cachoeira até Belém, criando uma radiografia tanto do ambiente rural na Amazônia quanto da periferia da capital paraense.

Apesar de ser frenquentemente enquadrada na segunda fase do modernismo brasileiro, caracterizada sobretudo pelo regionalismo e pela denúncia social, a obra de Dalcídio ultrapassa toda forma de enquadramento. Do ponto de vista formal e estilístico, a prosa dalcidiana explora elementos da narrativa moderna, como as quebras com a linearidade espaço-temporais, uso da técnica do fluxo de consciência para realçar a densidade psicológica dos personagens ou a projeção de sentimento na descrição da paisagem.

Em 1972, Dalcídio Jurandir recebeu da Academia Brasileira de Letras o prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra, entregue em suas mãos por Jorge Amado. Naquela oportunidade, o romancista baiano declarou que o romancista paraense “trabalha o barro do princípio do mundo do grande rio, a floresta e o povo das barrancas, dos povoados, das ilhas, e o faz com a dignidade de um verdadeiro escritor, pleno de sutileza e de ternura na análise e no levantamento da humanidade paraense, amazônica, da criança e dos adultos, da vida por vezes quase tímida ante o mundo extraordinário onde ela se afirma”.

Os criadores da cena

Claudio Barros, 51 anos, começou no teatro em 1976 e tornou-se um dos mais notáveis atores paraenses de sua geração, com passagem por grupos importantes na cena contemporânea local como Experiência (onde integrou o elenco original de Ver de Ver-o-Peso, famosa ópera cabocla, há mais de 30 anos em cartaz), além de Cena Aberta e Cuíra do Pará, do qual é um dos fundadores. Desde 2009, integra o núcleo de criação da Usina Contemporânea de Teatro, atuando em Solo de Marajó.

Alberto Silva Neto, 45 anos, começou no teatro em 1987. É ator, encenador e professor da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (UFPA). Nos últimos dez anos, dirige as criações da Usina Contemporânea de Teatro, com ênfase numa cena que explora uma poética amazônica inspirada nos modos de vida do povo caboclo (fruto da miscigenação entre índios e brancos) a partir da figura do ator como contador de histórias.

Série Extremo-Norte

•    Chove nos Campos de Cachoeira, Editora Vecchi (1941)
•    Marajó, Editora José Olympio (1947)
•    Três Casas e um Rio, Editora Martins (1958)
•    Belém do Grão Pará, Editora Martins (1960)
•    Passagem dos Inocentes, Editora Martins (1963)
•    Primeira Manhã, Editora Martins (1968)
•    Ponte do Galo, Editora Martins/MEC (1971)
•    Belém do Grão-Pará, Publicações Europa-América (1975) Edição Portuguesa
•    Chove nos Campos de Cachoeira, 2ª Edição, Editora Cátedra (1976)
•    Os Habitantes, Editora Artenova (1976)
•    Chão dos Lobos, Editora Record (1976)
•    Marajó, 2ª Edição, Editora Cátedra/MEC (1978)
•    Ribanceira, Editora Record (1978)

Série Extremo-Sul

•    Linha do Parque, Editora Vitória (1959)
•    Linha do Parque, Editora Russa (1962) Edição Russa

Publicações póstumas

•    Passagem dos Inocentes – Editora Falângola (1984)
•    Linha do Parque – Editora Falangola (1987)
•    Chove nos Campos de Cachoeira – Editora Cejup (1991, 1995 e 1997 (com o Jornal Província do Pará))
•    Marajó – Editora Cejup (1991 e 1992)
•    Três casas e um Rio – Editora Cejup (1991 e 1994)
•    Chove nos Campos de Cachoeira – Edição Crítica de Rosa Assis – Editora da Unama (1998)
•    Belém do Grão-Pará – Editora Edufpa/Casa de Rui Barbosa (2005)
•    Marajó – Editora Edufpa/Casa de Rui Barbosa (2008)
•    Primeira Manhã – Eduepa (2009)
•    Chove nos Campos de Cachoeira (Nova e definitiva edição com "texto inteiramente revisto, corrigido, reestruturado e amplamente emendado pelo autor, de próprio punho") – Editora 7 Letras (2011)

Serviço
Espetáculo teatral Solo de Marajó, da Usina Contemporânea de Teatro. Com Claudio Barros. Direção: Alberto Silva Neto. De 14 a 16 de maio, no Sesc Boulevard, sempre às 19 horas. Entrada gratuita. Duração: 55 min. Conheça mais sobre Dalcídio Jurandir (RJ) no site www.dalcidiojurandir.com.br

Mais informações:  (91) 98810-3040/99120-6080 e 98189-2160.

Magudiá: compartilhar alimento, reduzir distâncias

 A performance gastronômica foi a segunda ação realizada pelo projeto “Kiuá Nangetu!”. A jornalista ativista Luiza Cabral estava lá e nos relata, no texto abaixo, como tudo aconteceu.

O sol castigava quem passeava pelo Ver-O-Peso naquele sábado, dia 21 de março. 

Feirantes e transeuntes andavam pelos corredores da feira, sons de conversa e música se confundiam no ar. Era hora do almoço e uma possibilidade inusitada de refeição se mostrou possível aos que ali estavam. “Magudiá – À margem do alimento”, intervenção do artista de terreiro Carlos Vera Cruz, ofereceu, despretensiosamente, a sagrada comida do candomblé à quem se interessasse.

Omolocum: feijão e camarão, em preparo tradicional em uma grande travessa de barro. Quem servia os pratos individuais a serem distribuídos era Mametu Nangetu, abençoando o alimento por ela preparado. Carlos conduzia a ação, balbuciando um discurso, na tentativa de explicar o ato solidário. 

“Na nossa religião é assim, entendemos que o alimento precisa ser compartilhado. Com isso , levamos aos que nos cercam o verdadeiro espírito de nossa crença”, dizia em tom intimista o artista, em meio ao agito da feira.  Todos vestidos de branco, respeitando a tradição das religiões de matriz africana. Ao redor, muitos olhos atentos e curiosos ao que acontecia ali.

Seu trajeto de pesquisa e experimentação em artes, guiado principalmente pelas expressões cênicas, levou Carlos a hoje utilizar o teor combativo da performance para aprofundar o debate sobre a identidade afro-amazônida tradicional. 

Seus recentes trabalhos, como o “Negra Luz”, que vem sendo desenvolvido em seu projeto de mestrado, aponta essa direção. A obra em questão parte de uma leitura da fotografia “Negra Luz”, de Alan Soares, para induzir uma leitura sobre os orixás. “Neste trabalho os orixás foram significados no corpo nú, nas ações e nos mínimos elementos utilizado”, conta.

Na sua proposição para o “Kiuá Nangetu!” o caminho não poderia ser diferente. “Com a performance feita no Ver-O-Peso me propus a compartilhar uma comida de santo, no caso de Dandalunda (Oxum), com os transeuntes, os feirantes, compradores, enfim, todos que circulam aquele universo da feira. Compartilhar é uma coisa que nós das tradições de matriz africana fazemos, e dividindo o alimento esse conceito ganha potência”.

As reações à ação foram diversas. Alimentando-se do Magudiá, alguns deleitavam-se no sabor, outros se mostravam desconfiados – indicando a linha tênue entre aceitação e preconceito. Veja aqui o video da performance: https://www.youtube.com/watch?v=aN-6tEsy_GA

Sobre Carlos Vera Cruz - Ator, diretor, professor e pesquisador de teatro. É formado em Licenciatura Plena em Teatro pela Universidade Federal do Pará.  Iniciou carreira em 1999 na Usina de Teatro da Unama – Universidade da Amazônia.Integrou como ator os grupos de Teatro Palha, Verbus - A poesia se fez carne, e Teatro de Apartamento. 

É também cenógrafo e iluminador; já tendo concebido e executado cenário e iluminação dos shows de artistas locais. Atualmente, além de ministrar oficinas de artes cênicas, desenvolve pesquisa e criação performática com cultura afro-brasileira, performance de gênero, e intervenção urbana. 

Saiba mais - “Kiuá Nangetu! Poéticas visuais de resistência negra” é um projeto de vivências poéticas, interferências midiáticas e intervenções urbanas com artistas do terreiro “Mansu Nangetu” e também de outros terreiros convidados, com obras e poéticas oriundas do cotidiano das práticas tradicionais dessa comunidade de terreiro afro-amazônico e seus parceiros.  As ações iniciaram em março e se estendem até o mês de maio de 2015, culminando com o encerramento das comemorações dos 10 anos de criação do Instituto Nangetu. 

Apoio na divulgação: Blog Holofote Virtual

12.5.15

Hibridismo na ocupação artística do Solar da Beira

A segunda edição do Solar das Artes, que ocorre até o dia 17 de maio, traz como proposta, a reunião de múltiplas linguagens e experiências urbanas. A programação é gratuita. Nesta terça-feira, 13, haverá entre outras coisas, uma aula pública com o jornalista Lúcio Flávio Pinto.

Cerca de cem artistas estão unidos em um movimento de afeto, política e contestação sobre o uso dos espaços públicos em Belém. Em pleno centro histórico de Belém, no Ver-o-Peso, eles ocupam, com fotografia, música, teatro, audiovisual e outras manifestações artísticas, desde o dia 9 de maio, o Solar da Beira. 

Durante o Solar das Artes várias ações político-culturais serão realizadas, completamente gratuitas, para a comunidade da feira e ao público em geral. Na programação, que contempla oficinas, rodas de conversa, há ainda aulas públicas, uma delas, nesta terça-feira (12), às 16h, com o jornalista Lúcio Flávio Pinto, que vai falar sobre “Resistência e Autonomia em um mundo de Controle Midiático”. Em seguida, a Trupe Pro.Cura entra em cena em “Brinquedo de Saúde: Celebração de afetos públicos com o Consultório na Rua e o Naris (Núcleo de Artes e Imanências em Saúde)”. 

“Será uma provocação ao diálogo para discutir saúde a partir do pressuposto amplo, contando os aspectos culturais, antropológicos, simbólicos e sociais. Atuamos no cuidado a população em situação de rua e vamos falar desse nosso processo usando o teatro e o afeto como estratégia de promoção a saúde”, explica o integrante da Trupe, Bruno Passos. 

A primeira edição do Solar das Artes foi realizada em dezembro de 2014, durante a I Virada Cultural de Belém. Na ocasião, o fotógrafo Bruno Carachesti expôs a série fotográfica “Panacuca gungum”, com imagens dos circos de bairros que percorreram a periferia da cidade, registradas entre os anos de 2012 e 2013. 

“Levei um trabalho inédito e ainda em construção. O projeto possibilitou eu ter um feedback do público que conferiu meu trabalho. É uma oportunidade para o artista mostrar o seu trabalho e trocar ideias com pessoas que colaboram com ideias e reservam seu tempo em prol da arte”, avalia o fotógrafo. 

O Solar das Artes é um projeto de arte pública que propõe ocupar os espaços da cidade e promover o compartilhamento, a vivência e troca artística. 

“Nosso objetivo é ressignificar o espaço; democratizar o acesso dos artistas para expor seus trabalhos, pois é um projeto livre, sem editais ou curadoria, ou seja, basta chegar e mostrar sua arte; e também provocar que outros artistas também ocupem o Solar e outros lugares com arte. A ideia é fomentar a cena cultural de Belém”, define um dos coordenadores do evento, Filipe Almeida.

PROGRAMAÇÃO

Dia 12/5 (terça) 
10h - Oficina: Papel Reciclado / Larissa Costa
15h - Oficina: Encadernação / Henrique Montagne
16h - Aula Pública: Resistência e Autonomia em um Mundo de Controle Midiático - Lúcio Flávio Pinto
18h - Brinquedo de Saúde: Celebração de afetos públicos com o Consultório na Rua e o Naris (Núcleo de Artes e Imanências em Saúde) - Mostra de Vídeos.

Dia 13/5 (quarta)
9h - Oficina “Tá na Mão: Vídeo de Bolso” / Agência divulga.
10h - Oficina: Gravura / Larissa Costa
15h - Oficina: ResiStencil / Liv Malcher
19h - show: Pelé do Manifesto [Batalha de São Brás]
20h - Batalha da Dorothy Stang

Dia 14/5 - (quinta)
10h30 - Roda de Autodefesa para mulheres e outras corporalidades em risco
13h - Feira de Trocas e ação do coletivo Freedas Crew
15h - Roda de Conversa: Feminismos
17h30 - Cineclube
18h - Roda de Conversa: Astrologia
20h - PocketShow AnarcoBregaFunkFeminista
21h - Sarau [palco/microfone aberto]

Dia 15/5 (sexta)
9h - Oficina de Fotografia para Crianças - Henrique Montagne e Amanda Júlia Rosa
10h - Oficina de Experimentação Musical / Laílla cardoso
15h - Oficina A Voz e O Corpo / João urubu
18h - Aula Pública: 25 anos de GEMPAC: Valorização da Mulher e Direitos Humanos / Representantes GEMPAC [a confirmar]
20h - Show: João Urubu
21h - Show: Tapera Trio
Mostra de Vídeos

Dia 16/5 (sábado)
Mostra Ver o Peso das Artes
Feira de Vendas
Resultado das Oficinas
10h - Oficina Comunicação para Cidadania / Rádio Idade Mídia
16h - Roda de Conversa: Ecoespiritualidades para um outro pensamento político
Coven Anam Cara e Clan an Sumaúma
18h - Aula Pública: Ocupação / MST Ulisses Manaças
19h30 - Show: Feira Equatorial

Dia 17/5 (domingo)
Mostra Ver o Peso das Artes
Feira de Vendas
Resultado das Oficinas
17h - Show Caliandares / Lucas Guimarães
18h - Ritual de desocupação + Desmontagem da exposição

Serviço
“II Solar das Artes”, até 17 de maio, no Solar da Beira (Boulevard Castilhos França, no Ver-o-Peso – Campina). Informações: (91) 9824.56225 ou solardasartes.contato@gmail.com. Entrada gratuita.

11.5.15

Kiuá Nangetu! Um culto à resistência afro feminina

Fotos: Divulgação
A intervenção artística da artista Isabela do Lago deu início às atividades do projeto “Kiuá Nangetu! Em "Poéticas visuais de resistência negra”, a artista convidou os transeuntes a vivenciar uma saudação à figura feminina, em sua proposta representada por Mikaia, senhora das águas, amplamente conhecida como Iemanjá. O vídeo resultado da intervenção já pode ser acessado no canal Youtube. Gravado nas areias da praia de São Francisco, em Mosqueiro, no dia 8 de março. O blog publica a seguir,  mais uma matéria, da série de textos de Luiza Cabral

Sob o título “Mikaia te espera na Kalunga”, Isabela evocou a divindade das águas e a ela concedeu como oferenda seu processo artístico. 

O caminho que levou a artista até aqui foi  traçado ao longo de quase vinte anos de experimentação no campo das artes, tendo como foco principal a pintura. O resultado deriva de um longo processo de descolonização, em busca de uma identidade libertária que prestigie a produção e a vivência que contemple a negritude e a potencialidade da mulher.

“Inicialmente, eu precisava dar fim à série de pinturas ‘Mulheres Líquidas’, onde eu catava portas abandonadas na rua e pintava nessas portas imagens de mulheres, de entidades, de aparições-acontecimentos, mulheres sagradas e me autorretratava nisso, mas sentia a necessidade de romper com algumas coisas, como o uso da influência eurocêntrica na minha pintura. 

Era um desejo de morte, mas não desse formato de morte que a gente aprende que é uma morte-fim, eu queria uma morte-recomeço, eu precisava morrer! Daí veio a ideia da Kalunga, que muito embora o senso comum veja a Kalunga como morte, nós bantus, sabemos que é a infinitude, um lugar de ‘eterno retorno’”, conta a artista.

Nesta busca, Isabela encontrou a melhor representatividade em Mikaia. “Ao dividir esse pensamento com irmãos mais velhos, percebi que havia algo ainda maior, havia a simbologia matriarcal das deusas das águas profundas, Mikaia, Iemanjá, e nisso tudo, uma história trilhada com resistência afrofeminina, então minha pintura virou um grão de areia diante da grandeza desse mar, dessa Kalunga”, explica.

Influenciada pelo embalo da maré, Isabela e sua pintura se demoraram à beira das águas, deixando que o rio decidisse a hora de lavar seus cabelos e levar sua obra. “Depois de mergulhar, depois de pintar, me botei ali na beira e esperei que a maré enchesse até cobrir a minha cabeça e levar a pintura, mas as águas não a levaram, o objeto boiava indo e voltando, a imagem de Mikaia dançava para mim”. No registro da ação, Isabela contou com o apoio das artistas Luana Peixe e Evna Moura.

Isabela do Lago - Aos 37 anos, Isabela já tem quase duas décadas de atuação artística. Começou como bailarina, mas sempre pintou e desenhou.  Nos últimos anos, sua produção passou a se relacionar mais estreitamente com sua religião, o candomblé. Expôs pelo “Nós de Aruanda”, em 2013 e 2014.

“De modo geral, minha produção tem a ver com minha retomada a religiosidade de matriz africana, não tenho uma organização cronológica certa, mas posso dizer que desde 2008 eu já vinha frequentando casas de santo no Marajó, e foi quando comecei a catar objetos de madeira na rua e retratar essas experiências, momento em que nasceu ‘Mulheres Líquidas’, em que eu já pensava o lugar da mulher afroamazônida, e já me questionava sobre a ausência desta mulher no circuito de arte, sem me dar conta de que nossa religiosidade não está separada da arte, nem da política.

Essa consciência veio com a vivência entre terreiro e galeria. Com o ‘Nós de Aruanda’ me atirei dentro do movimento negro, quando eu estava me perdendo e me achando entre pesquisadora, produtora, curadora e adepta... É difícil pensar em trajetória pontualmente quando se está enegrecendo, volto a responder daqui há 20 anos”, brinca.

Veja o video: https://www.youtube.com/watch?t=143&v=sdTKQi8sJek

Saiba mais - “Kiuá Nangetu! Poéticas visuais de resistência negra” é um projeto de vivências poéticas, interferências midiáticas e intervenções urbanas com artistas do terreiro “Mansu Nangetu” e também de outros terreiros convidados, com obras e poéticas oriundas do cotidiano das práticas tradicionais dessa comunidade de terreiro afro-amazônico e seus parceiros.  As ações iniciaram em março e se estendem até o mês de maio de 2015, culminando com o encerramento das comemorações dos 10 anos de criação do Instituto Nangetu.

8.5.15

Psicanálise e arte no debate em "Camille Claudel"

Ensaio de Ceronha, já  no Teatro Cláudio Barradas (PA)
O espetáculo estreia nesta sexta-feira (8), no Teatro Cláudio Barradas, e fica em cartaz até amanhã (9), sempre a partir das 20h. Hoje, após a apresentação haverá bate papo sobre arte e loucura, com participação da psicanalista Lia Navegantes e do ator e performer Nando Lima, no Teatro Cláudio Barradas. Em cena, a atriz Ceronha Pontes (CE/PE).

A intérprete e autora da dramaturgia, Ceronha Pontes modela uma Camille Claudel que aos poucos vai se desgastando pelos anos de reclusão forçada e abandono no manicômio, amargurada pelo pouco crédito que lhe deu a sociedade francesa de sua época, e ressentida com o Auguste Rodin, que não a assumiu como mulher, nem a defendeu quando a acusaram de copiar a arte do mentor.

Filha, de fato, de uma escultora, Ceronha percorre a densidade de suas memórias afetivas para exprimir com rigor de artesão a vida da mulher que viveu à sombra do escultor. Na narrativa, três tempos ficcionais se cruzam: o hospício onde Camille ficou internada pelos últimos 30 anos de sua vida, mais por sua genialidade incompreendida e severamente reprimida que por qualquer psicose diagnosticada, seu ateliê e o “inferno de Dante”, a obra que Rodin esculpia quando conheceu Camille como aluna e a tomou como amante. 

Sobre artistas e loucos...

Depois da apresentação do espetáculo, nesta sexta-feira, 8, o público será convidado a ficar mais um pouco para bater um papo com a atriz Ceronha Pontes. O ator e performer Nando Lima é um dos convidados a interagir no debate, que será norteado pela história de Camille Claudel, sobre arte e loucura.

"Conversar sobre teatro é sempre bom; é uma obsessão? Talvez essa seja uma questão louca, ir para uma sala e entregar-se ao devaneio, as questões propostas por uma atriz que por sua vez busca na genialidade de outra mulher-personagem, questões sempre atuais sobre arte e insanidade. Isso me motiva", comentou o performer, também cenógrafo, e proprietário do Estúdio Reator, em Belém. Ele diz que muitos são os reflexos e projeções possíveis à respeito do assunto arte a loucura. 

"Quero ver o que a atriz Ceronha Pontes realiza. O que ela propõe dentro desse universo, posto que toda arte está sempre no limiar, ou para além das realidades, existindo e nutrindo-se desse paradoxo, entre as coisas que são palpáveis, os fatos; e os desejos, as vontades, e as energias das emoções e entregas, posto que falamos de teatro, do ato presente, do humano diante do humano. Esse território gerador de potências, que discute a realidade, e que põe a prova o ser e o não ser, é o que me traz para essa arena", conclui.

Para Ceronha Pontes, os debates que vem sendo realizados por onde passa a espetáculo, são sempre enriquecedores. “Esse assunto não se esgota. A arte e a loucura se avizinham na medida em que são modos diferentes e quase sempre incômodos de enxergar e exercer a realidade. Camille traz essa discussão, sobretudo porque sua internação foi uma perversidade. Um diagnóstico duvidoso, uma sentença cruel. Na verdade ela foi punida por causa de sua genialidade. Desafiava todas as convenções e impunha sua arte revolucionária numa época em que gênios de saia não eram bem-vindos”, comenta a atriz

O olhar da psicanálise

Também será convidada ao debate a psicanalista Lia Navegante, que é membro da Associação Lacaniana Internacional. Para ela, entre as formas de expressão mais importantes do ser humano está justamente a arte, seja ela, literatura, música, cinema, teatro, fotografia.

“A psicanálise de Freud sempre se interessou pela arte, seja pra analisar as obras, que estão em questão, seja para compreender o processo de criação do artista, seja para ter algum acesso sobre o autor da obra. Além disso, participar deste debate me parece especialmente importante, por ser uma iniciativa maravilhosa  submeter um debate entre vários discursos, após a apresentação em si”, diz Lia.

A psicanalista trabalha em alguns cursos de transmissão de psicanálise, e atende crianças bem pequenas, de 1 e 2 anos, até adultos, passando pela adolescência nos mais diversos quadros de sofrimentos. Mas em relação à arte e a loucura, Lia acredita que toda expressão artística passa por uma manifestação própria do inconsciente e o tema do espetáculo está exatamente ligado ao impasse das angústias que permeiam o ser humano. E este é o cerne do analista”, comenta.

Lia Navegantes também chama atenção para o fato de que essa aproximação entre arte e loucura sempre existiu. Ela diz que há sempre esta comparação. “Mas se você me perguntar se todos os artistas são loucos, eu digo que não, os artistas não necessariamente são loucos, mas sem dúvida que são muito criativos. E tal qual o louco, o artista está aprisionado em seu universo. Ambos estão tomados por uma série de percepções, como se fossem pequenas amostras daquilo que nem sempre conseguem comunicar”, chama atenção.

“No caso do artista, estas percepções incomunicáveis estão nas telas, no escritos, mas são apenas fragmentos de um universo particular. O louco pode ser criativo, especialmente se a nossa cultura permitir que esta verdade e criatividade possa vir à tona”, finaliza.

Ficha Técnica
Espetáculo: Camille Claudel
Gênero: Drama (indicação: a partir de 16 anos)
Dramaturgia, Direção e Atuação: Ceronha Pontes
Cenário
Concepção : Yuri Yamamoto
Confecção: Yuri Yamamoto, Ceronha Pontes, Gustavo Araújo e Sr. Isaque.
Concepção de Iluminação: Walter Façanha
Operação de luz: Sávio Uchôa
Sonoplastia: Ceronha Pontes
Operação de som: Tadeu Gondim
Figurino: Ceronha Pontes
Orientação: Marcondes Lima
Confecção de figurino: Maria Lima e Antônia Castro
Coordenação de produção: Tadeu Gondim e Ceronha Pontes.
Produção e comunicação/Belém: Três - Cultura Produção Comunicação
Assistência de Produção/Belém: Cristina Pessôa e Thiago Ferradaes
Realização: MC Apoio
Incentivo: Funarte e Governo Federal – através do Prêmio Miryam Muniz de Circulação 2014
Apoio: Teatro Cláudio Barradas | Restaurante Dona Joana| Hotel Grão Pará | Blog Holofote Virtual | Funtelpa.

Serviço
Espetáculo “Camille Claudel”, com Ceronha Pontes (Recife-PE). Dias 8 e 9 de maio, às 20h, no Teatro Cláudio Barradas. Ingresso: R$ 20,00 (R$ 10,00 meia). Mais informações: 91 98134.7719. Apoio local: Hotel Grão Pará, Funtelpa, blog Holofote Virtual, Restaurante Dona Joana e Teatro Cláudio Barradas.

7.5.15

Arte e empreendedorismo para ocupar o Boulevard

Exposições artísticas, shows, culinária, cerveja artesanal, esportes radicais. Diversas expressões culturais se encontram no BoulevArte, dia 7 de junho, dando início ao que pretende ser a primeira de várias edições para a ocupação da Boulevard Castilhos França.

O feriado prolongado não foi empecilho para que diversos artistas, produtores culturais e jovens empreendedores se reunissem na construção do BoulevArte. Eles estiveram reunidos, no sábado, 02 de maio, na Estação das Docas, fechando a parceria no projeto, que pretende devolver à cidade e à população, o corredor da Rua Marechal Hermes, que vai da Avenida Presidente Vargas até o prédio da Alfândega, passando pela Praça dos Estivadores, um local que tem passado despercebido na cidade.

Para o fotógrafo e historiador Michel Pinho, que vai participar do projeto monitorando passeios históricos entorno daquela área, o BoulevArte  provoca o “encontro desse cidadão com a história, com a arte, gastronomia, cultura, com a música, vivendo na cidade um momento de identidade. Eu não tenho dúvidas do sucesso do projeto, até porque as pessoas estão muito empolgadas e desejosas de que isso dê certo pelo próprio fomento da cultura. 

A programação do primeiro BoulevArte será extensa, com início às 6h da manhã, com música, dança, teatro, fotografia, grafite, moda, esportes, oficinas e muito mais, indo até às 18h. Na concha da praça serão realizados shows a batalha de MC’s, e na Tenda das Artes as peças de teatro e apresentações de DJs. 

Uma das pistas na Rua Marechal Hermes será fechada no evento, para que os skatistas e patinadores possam exercitar suas manobras ou passear tranquilamente - o Boulevard Castilhos França será asfaltada para que os skatistas com longboard possam descer a ladeira. 

Diversas barracas serão armadas na praça para a venda de vinis, artesanato, espaço para gastronomia, moda e cerveja artesanal. Diversas oficinas serão ofertadas para a população, além de passeios monitorados pelo centro histórico da cidade.

Ocupação - . Utilizar o centro histórico de Belém pra fazer esse intercâmbio é extremamente saboroso, a palavra é essa mesmo, é gostoso fazer isso”, explica Michel Pinho. Ana Marceliano, atriz e diretora teatral do Coletivo Dirigível de Teatro, acredita que este é um movimento de ocupação de um espaço abandonado pelas pessoas.

“A gente precisa tomar de volta o espaço da rua, das praças, pro nosso convívio social e humano. Um espaço como a Praça dos Estivadores precisa ser tomado pra ocupar e viabilizar entretenimento, lazer e cultura pras pessoas que não tem acesso.”

“A ideia do BoulevArte é estabelecer um uso e uma estética que dialoguem com toda a antropologia cultural do Boulevard Castilhos França. E com isso, fazer com que a população venha usufruir deste espaço com segurança e felicidade. Este é o conceito principal do BoulevArte: a cidade para as pessoas”, explica Ney Messias, um dos idealizadores do evento.

Resgate Histórico - O projeto, que tem a missão de resgate histórico de Belém aliada à vontade de ocupação artística, convida todos a participar da programação, não apenas como público, mas também expondo sua arte nos diversos espaços abertos do BoulevArte. 

O palco, por exemplo, estará aberto nos intervalos dos shows oficiais. O propósito é de que o evento seja contínuo, realizado em parceria de diversos artistas todo último domingo do mês, e que vá além disso, criando um corredor cultural e artístico no Boulevard Castilhos França, para que essa via seja ocupada devidamente pela população da cidade.

Para a chef de cozinha Tatiana Braun, que participa da programação pela dogueria Hells Dog, dia de BoulevArte será, principalmente, um dia feliz. Ela explica que “Belém precisa desse tipo de evento. É uma forma de mostrar o que a gente tá fazendo de novo na cidade. Esse tem que ser o primeiro de muitos e que incentive outras pessoas a organizar esse tipo de evento. O que a população vai encontrar por aqui é alegria, música boa, gente boa, bonita, comunicativa, espaço agradável. É uma forma de estar alegrando o povo paraense, a nossa cidade", afirma.

O projeto conta com o patrocínio do Banpará e apoio da Prefeitura Municipal de Belém e do Governo do Estado, por meio de vários órgãos parceiros, como Fumbel, Sesi e a OS Pará 2000, que gerencia a Estação das Docas.

Programação Cultural

Palco
09h - Zarabatana Jazz Band
11h - Espoleta Blues
12h - Projeto Charmoso
13h -  Bruno B.O e Família Sempre Pelo Certo
15h - Arthur Espíndola & Convidados
17h - Dona Onete
18h - Arraial do Pavulagem - Batalhão
19h – Encerramento

Tenda das Artes
10h - In Bust
14h - Coletivo Dirigível
16h - Terceiro Mundo Sound System

Serviço
#BoulevArte . Dia 07 de junho – de 6h da manhã até 19h. Praça dos Estivadores, Boulevard Castilhos França, esquina com a Av. Presidente Vargas. Entrada franca. Para mais informações, acesse o site www.boulevarte.com.br.

Ceronha Pontes desvela a cena de Camille Claudel

Contemplado pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2014, na categoria de circulação, “Camille Claudel” agora ganha duas apresentações em Belém, nos dias 8 e 9 de maio, às 20h, no Teatro Cláudio Barradas.  O espetáculo também será mostrado em São Luis (MA), Vitória (ES) e São Paulo (SP), trazendo à tona o gênio de Camille, impresso nas formas que esculpiu, e em sua exuberante e implacável personalidade complexa e conflituosa.

Em cena, a atriz Ceronha Pontes, que concebeu o projeto e no qual ela atua de muitas formas. “Pesquisar, escrever, atuar, dirigir, produzir. São muitas as minhas funções no espetáculo. Em todas, no entanto, sou uma atriz realizando. Não me esqueço disso e fico muito atenta aos meus limites”, diz ela, que está vindo a Belém, pela primeira vez. “Não faço isso porque tenho super poderes. Faço porque é inevitável”, complementa.

Camille Claudel morreu em 1943, aos 79 anos de idade, pobre, sozinha numa cama de hospício, onde ficou por mais de 30 anos. Em vida, foi atormentada por um amor impossível, pelos preconceitos da sociedade francesa do século 19 e pela doença que a levou ao isolamento. A própria família a renegou. 

A história da escultora já conhecida também pelo cinema e literatura, na narrativa do espetáculo de Ceronha Pontes, não segue uma ordem cronológica. Em discussões às vezes dóceis, às vezes acaloradas, a atriz revela o rancor que corrói Camille Claudel, que em cena se confronta com as injustiças a que foi vitimada e o preconceito de gênero que permeou toda a sua trajetória, além do tolhimento artístico que lhe impunha Rodin e a sociedade.

Uma marca no espetáculo são as esculturas de Camille. “Quis que meu corpo pudesse representá-las de modo que, aquela legião de criaturas extraordinárias atravessassem o gestual, com toda naturalidade.

Quem conhece as obras vai identificá-las. Quem não conhece, vai pressenti-las. Camille ficou na sua obra. Mais do que em qualquer biografia que se escreva. Seu sofrimento e seu talento raro, seu amor e sua solidão, esculpidos em mármore. Para sempre”, comenta a atriz que utiliza barro e terra em cena.

Após o primeiro dia de apresentação, o público será convidado a um debate com a atriz Ceronha Pontes sobre Arte e Loucura, com participação do ator, artista visual e performer Nando Lima, do Estúdio Reator, e de Lia Navegantes, Lia Navegantes é psicanalista, Membro da Associação Lacaniana Internacional.

Ceronha Pontes é formada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará. Iniciou sua carreira no teatro em 1991, no Curso de Arte Dramática da Universidade Federal do Ceará, concluído com a montagem de “Viúva, Porém Honesta”, de Nelson Rodrigues, sob a direção de Bruno Correia Lima. 

O Coletivo Angu de Teatro, grupo que ela integra, esteve em Belém com o espetáculo “Angu de Sangue”, em 2008. Na época, ela ainda não era da trupe, por isso, será sua primeira vez em Belém. E quanto a isso, há entusiasmo.

“Todos me dizem da alegria e amabilidade de sua gente. Além disso, quero comer de tudo e dançar o seu carimbó. Não por acaso Belém foi a primeira cidade escolhida para a nossa circulação. Obviamente, que é uma super oportunidade de mostrar nosso trabalho, mas principalmente de ampliar nossos conhecimentos sobre nosso próprio país, tão grande, tão diverso e rico”, diz a atriz, que esticou mais ainda o papo com o Holofote Virtual.

Holofote Virtual: Como iniciou o seu interesse pela história de Camille Claudel. 

Ceronha Pontes: Apesar de ter nascido de mãe escultora, só atentei para a obra de Camille depois dos vinte anos. Até lá tudo o que eu sabia era que ela tinha sido amante de Rodin. Foi quando uma amiga me mostrou a imagem de Sakuntala.

Eu perguntei quem tinha feito e ela me que disse que Camille Claudel. E seguiu me apresentando outras figuras: A pequena Castelã, A Valsa, A Implorante... Foi nesse dia que fui apresentada à artista Camille Claudel, e ela me arrebatou. Esta mesma amiga me apresentaria a sua correspondência e então não pude mais parar. 

Holofote Virtual: Você imaginava que faria um espetáculo?

Ceronha Pontes: Não percebi de imediato que uma investigação já havia começado e que resultaria numa peça de teatro porque eu, indignada, não saberia me calar. Demorei nove anos, porque nesse momento eu sabia que não estava madura o bastante para leva-la à cena. Nem como atriz, nem como mulher. Precisava viver mais, dentro e fora de cena até me sentir preparada. 

O primeiro texto resultou muito longo, e nada atraente, pois minha necessidade de ser fiel à história era muito forte. Numa leitura para convidados percebi que eu ainda não tinha a peça. Disseram que o texto parecia uma biografia e, pior, autorizada por Rodin, de tão cautelosa que fui. Que eu não devia ter medo da “loucura” de Camille.

Depois desta conversa abandonei a cronologia e segui a lógica das minhas lembranças. Abandonei o papel e fui escrever com meu corpo na sala vazia. Através desses improvisos eu pude descobrir o que mais me perturbava e convocava em Camille.

Em cena, indo e vindo de um ambiente a outro como numa costura em linhas tortas, Camille aparece na Villeneuve da sua infância, no ateliê (o seu e também o de Rodin), no hospício e no Inferno. Rodin concebia As Portas do Inferno, quando conheceu Camille. Uma escultura inspirada na obra de Dante, e também nos Paraísos Artificiais, do Baudelaire. Sobre este último autor, eu havia feito antes um trabalho curto a partir de Um Comedor de Ópio e não creio em coincidências.

Holofote Virtual: Após a apresentação do primeiro dia, o público será convidado a participar de um debate sobre arte e loucura. Como tem sido estas discussões por onde vocês passam, e qual a tua visão acerca do assunto?

Ceronha Pontes: São sempre muito enriquecedoras. Esse assunto não se esgota. A arte e a loucura se avizinham na medida em que são modos diferentes e quase sempre incômodos de enxergar e exercer a realidade. Camille traz essa discussão, sobretudo porque sua internação foi uma perversidade. Um diagnóstico duvidoso, uma sentença cruel. Na verdade ela foi punida por causa de sua genialidade. Desafiava todas as convenções e impunha sua arte revolucionária numa época em que gênios de saia não eram bem-vindos. 

Holofote Virtual: O que te move para esta circulação com o espetáculo?

Ceronha Pontes: Uma obra que nasce da minha indignação, da minha devoção, do meu desejo, então eu sigo o instinto e me amparo na humildade e na busca de conhecimento. Eu só sei ir. E não vou sozinha. Nunca. 

Nada disso seria possível sem os esforços dos meus companheiros de trabalho. Desde aqueles que realizaram a primeira montagem lá no Ceará aos que hoje seguram todas as ondas comigo em Pernambuco.

Com Tadeu Gondim eu vou de olhos fechados. É um produtor com alma de artista. Sensível, tem muito respeito por esse trabalho, o que é fundamental. Não está aí para vender a peça, o que tornaria impossível a nossa relação, mas para fazer ecoar o clamor de Camille. “Eu exijo em altos brados a minha liberdade”, dizia ela. 

O Sávio Uchoa é um querido parceiro do Angu. Confiamos absolutamente na sua sensibilidade. E o Walter Façanha fez com que a peça tivesse duas atrizes: eu e a iluminação. E é uma alegria contracenar com todas as criaturas que sua luz sugere. E assim seguimos, em estado de alegria e aprendizagem constantes, encontrar o elemento que falta para que o teatro se faça: o público. 

Holofote Virtual: Além de teatro, você também atua em cinema, como é isso?

Ceronha Pontes: Fiz poucos filmes, mas foram experiências bem felizes, com as quais aprendi muito. Entre outras participações mais breves, já fui a Mulher Biônica, um filme inspirado no conto Creme de Alface, do Caio Fernando Abreu, do cineasta cearense Armando Praça. 

Também a Elisa, protagonista do ainda inédito Anedonia, do diretor estreante André Valença, de Pernambuco. Recentemente filmei uma participação no Big Jato, do Cláudio Assis e foi uma alegria, ele é mesmo um sujeito raro.

Holofote Virtual: Seja teatro, cinema, você respira tudo isso. E certamente deve estar envolvida em outros projetos... Quais?

Ceronha Pontes: Sim, estou montando um espetáculo musical ao lado de Gonzaga Leal, intérprete pernambucano por quem tenho enorme carinho e admiração. Gonzaga é o mentor do espetáculo e me confiou a dramaturgia, além de me convencer a cantar com ele. Um desafio e tanto. A direção é do André Brasileiro, com quem já trabalho no Coletivo Angu. É uma homenagem ao poeta Manoel de Barros e vai se chamar Concerto de Assobios. 

Além disso, estou investigando a vida e a obra da poetisa uruguaia Delmira Agustini, razão de minha vinda a Montevideo, para uma temporada de estudos de seis semanas. Uma mulher extraordinária que pretendo levar à cena em 2016.

Onde ver

Espetáculo “Camille Claudel”, com Ceronha Pontes (Recife-PE). Dias 8 e 9 de maio, às 20h, no Teatro Cláudio Barradas - Jerônimo Pimentel, 546, esquina com a Travessa D. Romualdo de Seixas. Ingresso: R$ 20,00 (R$ 10,00 meia). Mais informações: 91 98134.7719 (whatsapp).