20.1.18

Cobra Venenosa segue turnê pelo Rio de Janeiro

"Baile dos Botos", na Lapa, sábado, 13 de janeiro.
Fotos: Marcelo Valle 
Prestes a lançar o primeiro CD, o Cobra Venenosa difunde seu trabalho no Rio de Janeiro. No último sábado (13), o grupo se apresentou no Baile dos Botos e fizeram um cortejo pelo bairro da Lapa. Ontem (19), realizou oficina e estreou o show "RIO - do Maguari ao de Janeiro", no Lapa Esquina. A partir de hoje, segue para Paraty.

Ganhar o mundo mostrando suas canções, quem não gostaria? Na década de 1970, Mestre Verequete e seu Conjunto Uirapuru, 11 homens e instrumentos, entraram numa Kombi e rumaram ao Rio para fazer um som e gravar um disco.  Hugo Caetano lembra do fato e se inspira nele. “Sempre tivemos vontade de vir pra cá e tocar para esse mar azulzão”, diz ele, um dos fundadores do Cobra Venenosa, que está marcando presença no Rio desde o dia 1o de janeiro. 

Flávio Gama, Antônia Conceição e Nea das Maracas, que também integram o grupo, chegaram esta semana no Rio. O músico e cineasta Matheus Moura também pelo Rio de Janeiro, ontem fez participação no show do grupo. 

Neste final de semana, o grupo chega a Paraty para ministrar oficinas e fazer novas apresentações.  A expectativa é de que a receptividade do público continue sendo tão boa quanto foi na Lapa. 

Inspirados e há dois anos mergulhados no carimbó pau e corda, a decisão de cair na estrada não foi repentina. “Estamos sempre prontos e sempre que dá a gente cai na estrada ou em algum Porto pra pegar o rio. Foi assim nesses anos tocando carimbó. Conhecemos várias regiões do nosso estado, como Marajó, Marapanim, Maiandeua, Maracanã, Bragança, Santarém Novo, Capanema e várias outras regiões”.

A viagem ao Rio é independente, realizada com a colaboração de uma rede de contatos feitos por Priscila Duque em viagem à cidade. “Contamos com uma galera super talentosa, que faz a 'zimba' rolar por terras fluminenses”, diz Hugo, citando os paraenses Arthur Lorran, Cleyton Caminha e Anderson Fortelezinha. “O Anderson é natural da ilha de Maiandeua, e tocava junto com Os Filhos de Maiandeua, um carimbó frenético”, comenta. 

O carimbó na pauta cultural do carioca

Para além de Pinduca, o carimbó parece ter entrado de vez na pauta cultural dos cariocas ou seria apenas um modismo lançado pelas novelas da Globo? Hugo chama atenção, para o fato de já existir no Rio, há algum tempo, uma cena da cultura paraense. 

“Existe uma cena nortista nesta cidade, como o coletivo Caboclã, que reúne músicos de várias regiões do Norte. Tem o coletivo Carimbolar, que trabalha com oficinas de danças numa metodologia que eu diria mística. Tem o Carimbloco, que é um bloco de carnaval organizado por um músico paraense, o Silvan Galvão. E tem a turma do Batuque do Igapó, que faz um carimbó pau e corda da pesada”, diz. 

Para ele, a novela aumentou a visibilidade de algo que já está rolando há algum tempo. “A Amazônia está na pauta do mundo, a gente aproveita a maré para jogar nosso veneno e divulgar o carimbó pau e corda”, completa.

Um disco com som de tambores e vida cotidiana

A Viagem ao Rio de Janeiro dá inicio ao projeto do grupo para 2018, o que inclui além da circulação com shows e oficinas, o lançamento de seu primeiro CD.  

“Tambores da África”, ainda está em processo de produção e gravação. O álbum deve ser lançado até o final deste ano e vai trazer composições de Hugo Caetano e Priscila Duque, parceiros fundadores do grupo e da SubVersiva Produtora, além de várias outras parcerias. 

“Queremos reunir as várias experiências que já tivemos, nesse disco. Ele vem cheio de participações”, adianta Hugo. À exemplo, cita a música "Flores pra Iemanjá", feita em parceria com Mestre Lourival Igarapé, na Praia do Cruzeiro, em Icoaraci. E "O Carimbó Vem de Bike", que terá participação do grupo “Os Africanos de Icoaraci”. “Essa música é uma parceria minha com Ney Lima, que fez o arranjo”, diz o músico. 

Há ainda "Tropical da Mata", parceria de Priscila Duque com Mestre Neves, de Marapanim. “Ele já confirmou a participação no CD, mas a ideia é estender o convite à Mestra Bijica, do Grupo Sereias do Mar, fazendo a conexão Icoaraci - Marapanim. O Mestre Jaci, do Caçulas da Vila, também participará”, afirma Hugo. 

A ideia é fazer um disco bem percussivo, explorar o tambor e deixar ele falar. Para criar os arranjos, foi convocado Flávio Gama. Rodrigo Ethnos assume os tambores e Nea, as maracas. “Tem ainda a Antônia Conceição, maracas e efeitos, Ugô, no Sax, e eu, no banjo, cantando junto com Priscila Duque”, complementa Hugo.

O conceito do disco é o carimbó urbano, mas não só a partir das letras, mas da sonoridade tirada de instrumentos confeccionados de forma consciente, artesanal e supreendente. Hugo toca num banjo feito de capacete de moto, confeccionado pelas mãos de Ney Lima. O tambor é de tubo de PVC, feito por Flávio Gama, e por aí vai. 

“Tradicionalmente, os instrumentos do carimbó são construídos de forma artesanal pelos mestres. No interior a natureza é abundante, diferente da cidade. Porém uma galera começou a buscar alternativas para construir seus instrumentos e fazer o batuque rufar, o que eu chamo de ‘Mestres Urbanos’. O lixo é abundante na cidade, por isso digo que a natureza da cidade é o lixo, e dessa natureza é possível explorar sonoridades, é o que vamos atrás nesse primeiro semestre de 2018”, promete o músico.

O carimbó do Cobra Venenosa traz na poética, o dia a dia urbano e ribeirinho. Fala das contradições dos centros urbanos capitalistas e da natureza. Traz em suas letras temas da violência, desigualdades e também da resistência da cultura ancestral negra e indígena. “A gente canta o que a gente vive e a nossa vida é resistência”, define Hugo.

Acompanhe o grupo:





18.1.18

Temporada de espetáculos premiados no Casarão

De portas abertas ao público, o Casarão do Boneco abriu o ano com uma temporada de espetáculos premiados pelo Programa Seiva de 2017. O primeiro espetáculo VerParacuri, resultado cênico da pesquisa “O Artesanato do Paracuri em Teatro de Formas Animadas”, da atriz e contadora de história Vandiléia Foro, foi mostrado nos dias 17 e 18. Nesta sexta-feira, 19, e sábado, 20, entra em cena, o "Jogo Oriental", primeiro trabalho da trilogia dos baralhos da Cia. Sorteio de Contos. A partir das 19h, ingressos R$ 20,00 (meia R$ 10,00).

O Jogo Oriental foi contemplado pelo prêmio SEIVA - Pauta livre, da Fundação Cultural do Pará. O espetáculo traz consigo a diversidade e a tolerância como palavras chaves, sendo uma homenagem aos que também construíram a sociedade nortista vindo de terras distantes a procura de um lar. O mote são as histórias das regiões de imigrantes orientais que aportaram no estado do Pará, vindos da Arábia Saudita, Japão e Líbano. 

“A partir de seus contos populares e as histórias de cada região mergulhamos nos ensinamentos do Zen Budismo, caminhamos sobre as pegadas na areia dos contos sufis e fomos levados a palácios por Nasrudim e a cavernas misteriosas em montanhas desérticas cheias de tesouros”, diz Lucas Alberto.
Foi o que inspirou a criação das contações das seguintes histórias: “Ali Bábá e os quarenta ladrões”, “Nasrudim e a História da grande mestra Yama”, “Savitre - a princesa que enganou a morte” e “Os contos das areias”. 

“Escolhi histórias de três regiões que durante minha infância me foram negadas as referências e que na idade adulta me maravilhei, que são de origem do continente Africano, Asiático e a América Latina”, finaliza o ator.

A Cia. Sorteio de Contos busca o encontro das artes cênicas com a cultura popular de raiz, para esse espetáculo aprofundou nas artes marciais e nos contos populares principalmente os Sufis. Como resultado trouxe para cena uma exigência física, rítmica do ator e um trabalho de narração muito vivido.

Mais jogo oriental e histórias do nosso carimbó

Na próxima semana, a programação ainda tem mais uma apresentação de “Jogo Oriental”, no dia 26, e encerra, dia 27, com a apresentação de “Carimbó Conta - Verequete”, performance artística, contada, cantada e dançada. 

Com o intuito de valorizar a importância da cultura popular na constituição de nossas matrizes culturais, que o projeto busca através da Arte de Contar e ouvir Histórias, sensibilizar o público presente e principalmente as crianças, contando a trajetória de vida de Augusto Gomes Rodrigues - o Mestre Verequete - um dos maiores representantes da Cultura popular do Estado do Pará.

Foram as idas à Comunidade de Careca em Quatipuru, região Bragantina onde Verequete nasceu, e da coleta oral de parentes e amigos do mestre, que a atriz e Contadora de Histórias, Marluce Araújo, traz a público, um exercício cênico e uma composição artística que reune linguagens como teatro, música e oralidade.  O projeto foi contemplado com o Edital Produção e Difusão Artística 2017- Edital SEIVA, da Fundação Cultural do Pará. 

Jogo Oriental
Direção: Paulo Ricardo Nascimento. Produção, dramaturgia e atuação: Lucas Alberto. Figurino: Nanan Falcão e Maria Angelica Alberto. Cenário: Mauricio Franco. Iluminação: Thiago Ferradas.

Conta carimbó
Direção: Leonel Ferreira Assistente de Direção: Marília Araújo Músico: Alê Nogueira. Iluminação: Thiago Ferradaes Produção: Marluce Araújo e Leonel Ferreira. Assistente de Produção: Bernard Freire. Figurino e adereços e maquiagem: Marília Araújo. Adereço de Cena: Mauricio Franco. Instrumentos: Zet. Vídeo doc: Tamara ka. Arte Final: Carol Abreu.

Serviço
Temporada Casarão do Boneco. Nos dias 19, 20 e 26 - Jogo Oriental -  e no dia 27 - Conta Carimbó  -Verequete. Ingresso: R$ 20,00 (R$ 10,00, meia).  A partir das 19h. Av. 16 de Novembro, 815 (entre Rua Veiga Cabral e Praça Amazonas). Mais informações: 91 9 89498021/ 32418981 / salvecasarao@inbust.com.br

Filhos de Glande realiza seu 3o baile de carnaval

Inspirada nos antigos bailes à fantasia, a festa será realizada neste sábado, 20, na Woods BelémAlém disso, o bloco prepara desfile em fevereiro, com homenagem à diva do carimbó chamegado. Dona Onete, a primeira mulher a ser homenageada pelo Filhos de Glande. O tradicional bloco de rua da cidade chega, este ano, ao 12º carnaval, espalhando folia, amor e respeito para os brincantes da Cidade Velha. 

À caminho de sua terceira edição, o Baile da Glande é um festa regada a marchinhas, sambas, axés, frevo, brega e músicas clássicas de todos os carnavais, celebrando a vida no estilo tradicional dos bailes. 

"O Baile da Glande é uma forma de resgatar a tradição dos grandes bailes carnavalescos. Como não fazemos festas fechadas em nosso desfile, criamos o baile pra que as pessoas possam incorporar o verdadeiro espírito do carnaval e se fantasiarem como quiserem", explica um dos diretores e fundadores do Filhos de Glande, Beto Silva.

A programação musical fica por conta de uma superbanda criada para o bloco e nomeada de Orquestra Carnafônica dos Filhos de Glande, que recebe no palcos somente cantoras paraenses: Nanna Reis, Sammliz, Luê, Mariza Black, Natália Matos e Letícia Moura, que comandam a festa e fazem uma homenagem à Dona Onete. Nas discotecagens, DJ Zek Picoteiro, residente da festa Lambateria, compartilha seu set carnavalesco e, claro, sempre bregueiro.

No último domingo antes do carnaval

Além do baile, o Filhos de Glande se prepara para o desfile pelas ruas da Cidade Velha, agendado para o dia 4 de fevereiro, último domingo antes do carnaval. Diferente dos outros blocos, o Filhos de Glande tem uma concentração a partir de 12h, com show do Sambloco e Feijoada da Glande no Insano Marina Club e, por volta de 15h, sai pelas ruas para fazer seu colorido e alegórico desfile. 

No trio, a Orquestra Carnafônica embala a festa mais uma vez, recebendo diversos convidados e fazendo um passeio pelo cancioneiro carnavalesco do Brasil, percorrendo músicas dos carnavais do Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Belém, no estilo guitarrada e carimbó pau e corda, evocando o espírito chamegoso e a poeisa de Dona Onete, primeira mulher a receber homenagem do Filhos de Glande. 

"Escolhemos a Dona Onete não apenas porque somos fãs do talento, do carisma e da energia que ela tem. Mas porque ela simboliza toda a força da efervescência cultural que existe no Pará e está conquistando o mundo", justifica Renée Chalu, diretora do bloco de rua.

Mais informações:
Serviço
III Baile da Glande. No sábado, 20 de janeiro. Na Woods Belém, Av. Senador Lemos, 108.

12.1.18

Grupo Cobra Venenosa aporta no Rio de Janeiro

Foto: Uirandê Gomes
Priscila Duque e Hugo Caetano, fundadores do grupo, já estão na capital carioca desde o dia 1º de janeiro e, claro, já estão interagindo por lá, enquanto aguardam outros parceiros para dar inicio a uma vasta programação que inicia amanhã (13) e tem agenda ainda nos dias 15, 19, 20, na capital, e ainda no dia 24 de janeiro, em Paraty.

Com sede de conquistar novos espaços, a turnê do grupo em terras fluminenses o grupo se apresenta  neste sábado, 13, no Baile dos Botos, na casa do Coletivo Caboclã, no bairro boêmio da Lapa. Criado em Icoaraci, local de referência do carimbo paraense, há dois anos os músicos e compositores Priscila Duque e Hugo Caetano têm atuado com diversos parceiros musicais, para difundir uma faceta ainda pouco divulgada do carimbó: o de manifestação libertadora sobre desigualdades, opressões; em defesa da floresta, da liberdade na cidade, da vida no campo.

Osso duro de roer, como cantou Mestre Verequete, o carimbó quando começa não tem hora para acabar. Com mais de dois séculos de história no estado do Pará, o ritmo atravessa épocas com respeito às tradições, mas também atento às causas políticas atuais.

“A ideia é mostrar o carimbó como um estilo de vida. Vamos exibir o documentário "Mestres Praianos do carimbó de Maiandeua", o nosso doc "Metres Urbanos de Icoaraci - Primeiro vento". E nas oficinas, o carimbó será mostrado como herança ancestral de uma África sincretizada no interior na floresta amazônica, presente no dia a dia dos paraenses. Quando ouvimos falar de carimbó por ai é sempre algo plástico, fake da indústria cultural. Nós andamos na contra mão. Para nós, o carimbó não está na novela, mas sim no dia a dia, é isso que queremos mostrar”, diz Hugo Caetano, em entrevista ao blog.

Experiência e resistência cultural 

O grupo bebe na fonte pura do que foi ensinado pelos mestres da cultura popular paraense, transformando tudo isso em um som autêntico, poesia livre e performance são qualidades do grupo. O objetivo do projeto da turnê é, principalmente, trocar experiências e olhares com grupos de outras cidades, além de divulgar de forma independente suas músicas.

Para Priscila Duque, o importante é “conectar experiências sonoras com experiências de resistência da arte independente. Levar carimbó com conteúdo crítico para expandir percepções”, defende. 

Além da apresentação de canções e poemas autorais, o grupo também oferecerá oficinas com a participação do Mestre Flávio Gama. Esses momentos buscam mostrar a complexidade da cultura do carimbó, que envolve, além da música, a dança, a confecção de instrumentos e a história da população amazônida.

Primeiro álbum - A turnê “Rio: do Maguari ao de Janeiro” é a primeira realização do longo ano que será 2018 para o Cobra Venenosa. O grupo se prepara para gravar o seu álbum de estreia, intitulado “Tambores da Mãe África”, selecionado no VI Prêmio de Arte e Cultura da Universidade Federal do Pará (UFPA). Fruto de insistência e cuidado dos artistas com a cultura popular, o prêmio é mais uma conquista do carimbó, esse osso difícil de roer e impossível de quebrar.

Rede de produtores e artistas - As parcerias dessa turnê independente são expressão do contexto de produção de arte e cultura em rede, com vários coletivos que se conectam para trocar vivências e processos criativos, com base na economia solidária e divulgação compartilhada.

O Baile dos Botos, produzido pelo músico Eduardo Branco, reúne artistas e ritmos da Amazônia em uma noite que promete do carimbó ao brega, passando por vários outros sons da floresta brasileira e das capitais do norte. Participam também Márcia Caminha, Dibob da Silva, Frank Russo, Andrey Alves e Ton Rodrigues, músicos e performances do Pará, Amazonas e Amapá.

No dia 19 de janeiro acontece o “Cobra Venenosa: Do Rio Maguari ao de Janeiro” com vivência de carimbó e venda de instrumentos regionais paraenses com Mestre Flávio Gama, encerrando com show do grupo Cobra Venenosa. O evento será em frente aos charmosos arcos da Lapa, no Bar & Restaurante Lapa Esquina, com produção de Andrey Alves e Ton Rodrigues. Participam também os percussionistas Anderson Fortalezinha e Cleyton Caminha do coletivo “Batuque do Igapó” e Artur Lorran.

A turnê em Paraty (RJ) está sendo organizada em colaboração com o hostel “Quintal do Rio” e grupo “Mundiá”. A programação na ilha conta com show, vivência, exibição de vídeos e bate-papo sobre carimbó e produção cultural independente.

Agenda 
  • Sábado, 13 de janeiro - Baile dos Botos. Rua Moraes e Vale, nº 21, bairro da Lapa;
  • Segunda-feira, 15 de janeiro – Carimbó Itinerante na Praça Mauá, a partir das 17h. Participação “Batuque do Igapó”;
  • Sexta-feira, 19 de janeiro – Carimbó da Gema: vivência de carimbó (dança, ritmo e venda de instrumentos), participação do Mestre Flávio Gama; fecha com show no Bar & Restaurante Lapa Esquina, em frente aos arcos da Lapa;
  • Sábado, 20 e domingo, 24 de janeiro - Oficinas, exibição de vídeos, bate papos e shows musicais no Quintal do Rio, em Paraty, com participação do grupo “Mundiá”.
(Holofote Virtual com Assessoria Cobra Venenosa) 


Contatos: Priscila Duque (091) 983571216 / Hugo Caetano (091) 989037016



10.1.18

Sebastião Tapajós e amigos nos 402 anos de Belém

O show “Nosso Amor Por Belém - Sebastião Tapajós e Amigos” promete muitas emoções, nesta sexta-feira, 12, às 20h, no palco do Theatro da Paz. Um dos maiores violonistas do mundo vai receber Nanna Reis, Luiz Pardal, Paulinho Moura, Gilson Rodrigues, Mestre Solano e Nilson Chaves para homenagear a Cidade das Mangueiras em seus 402 anos com muita música. Na ocasião também será lançado o CD “Memórias”.  Ingressos gratuitos com distribuição desde a véspera, no dia 11, a partir das 9h, na bilheteria do teatro ou pelo site ticketfacil.com.br. A realização é do Governo do Estado.

Em quase 60 anos de trajetória, Sebastião Tapajós tem na discografia 45 títulos. É um dos instrumentistas brasileiros de maior prestígio no exterior e de grande popularidade na Alemanha, onde já esteve 90 vezes e lançou mais de 30 discos. 

Morando numa casa de frente para a praia de Pajuçara, próxima a Santarém, no Pará, atualmente com 76 anos, ele só deixa o refúgio para cumprir compromissos artísticos que considera importantes, como este show de aniversário de Belém, cidade que também é sua morada.

“Belém representa tudo para mim, foi o início, onde comecei minhas etapas nacionais e internacionais, estudei, toquei, depois fui para a Europa, Espanha e Portugal. Muitas composições surgiram quando eu passava algumas situações que as pessoas nem sabem. O meu coração está sempre por aqui e nesse show vou mostrar isso, ao lado dos meus amigos. Não dá para convidar todos os músicos que gostaria, mas chamamos alguns que representam outros, aqui só tem músico bom”, diz Sebastião Tapajós que chegou de Santarém ontem para os ensaios do show. 


Ao longo de mais de 60 anos de carreira, tocou com nomes consagrados da música brasileira e internacional, da importância de Hermeto Pascoal, Sivuca, Paulo Moura, Waldir Azevedo, Astor Piazzolla, Gerry Mulligan, Oscar Peterson e Paquito D’ Rivera.

Nascido em um barco que navegava pelo baixo Amazonas, ele começou a tocar cedo, encantado pelos seresteiros da região. Veio para Belém onde integrou o grupo de baile “Os Mocorongos”, sempre com destaque a seu virtuosismo. Estudou em Portugal e na Espanha, onde também se apresentou, causando sempre grande impacto em seu público.

Desistiu de ser professor de música em Belém e mudou-se para o Rio de Janeiro em 1967, onde não parou de encantar o público e foi contratado por várias gravadoras, chegando a gravar oito discos em três anos pelo selo do argentino Astor Piazzola. Sua carreira internacional deslanchou. Caiu nas graças principalmente da Alemanha, onde gravou dezenas de discos. 

No show o estilo único e inconfundível

Harmonias densas e sofisticadas, melodias fluídas, delicadas ou marcadas pela percussão. Para o repertório do show foram escolhidas músicas que marcam sua carreira e declaram seu amor por Belém. 

Não ficarão de fora “Igapó”, “Um Pro Ney”, “Flores para Nossa Senhora” e “Barueri”. São algumas das músicas mais antigas e reconhecidas do violonista, mas também entram no show as composições mais recentes, como Rei Solano, do CD “Aos da Guitarrada”, o mais recente, e Anacã, música composta especialmente para um espetáculo da bailarina Ana Unger, entre outras, algumas delas trazendo letras.

Nilson Chaves cantará “Cidade Velha”, música instrumental de Tapajós, com letra de Lourdes Garcez, e Navio Gaiola. Nanna Reis canta “Desencanto”, canção feita em parceria com Billy Blanco e que também ganhará a interpretação de Luiz Pardal na gaita. Nanna, cantora da nova geração, também canta “Fernanda”, que também traz letra de Lourdes Garcez. 

Pardal permanecerá em cena para compor com Gilson Rodrigues e Paulo Moura, um trio de choro, fazendo alusão à Casa do Gilson, reduto tradicional da música instrumental e do choro paraense, com reconhecimento em todo o país. O trio tocará “Cheiro do Pará”, um choro conhecido e já regravado por outros músicos, e “Lua Juá”, parceria com Gilson Peranzetta, também muito conhecida no Brasil. 

Depois do choro, a guitarrada. Sebastião Tapajós recebe Mestre Solano tocando “Rei Solano”, e o guitarrista apresenta em seguida um de seus maiores sucessos “Americana” e ainda “Brinquedo de Miriti”, ambas de sua autoria.

CD Memórias: mais um presente ao público

O aniversário é da cidade, mas quem ganha o presente é o público. Uma das surpresas da noite será o lançamento do álbum “Memórias”, trazendo a reprodução de um show gravado ao vivo, em 2000, no Museu do Telefone, Rio de Janeiro, com participação de Gilson Peranzzeta, Maurício Einhorn, Ney conceição, Nilson Chaves e Billy Blanco. A produção é de 2017, com patrocínio do Governo do Estado. 

Ficha Técnica do show

Direção Musical: Igor Capela
Produção do Theatro da Paz: Carmen Ribas 
Produção Executiva: Lourdes Garcez 
Participações: Luiz Pardal, Nanna Reis, Nilson Chaves, Paulinho Moura, Gilson Rodrigues, Mestre Solano
Banda: Igora Capela - violão; Daniel Delatuche - Trompete; Andresson Dourado - Piano; Márcio Jardim - Percussão.

Serviço
“Sebastião Tapajós & Amigos - Nosso Amor Por Belém”. Show em homenagem aos 402 anos da capital paraense. Nesta sexta-feira, 12 de janeiro, a partir das 20h, no Theatro da Paz. Ingressos gratuitos, com distribuição ao público a partir do dia 11, 9h - bilheteria do teatro ou on line pelo site ticketfacil.com.br. Realização: Governo do Estado do Pará.

(Holofote Virtual com a colaboração da jornalista Dominik Giusti)

4.1.18

Banco da Amazônia divulga resultado de editais

Biblioteca do Porto, no Mercado do Sal, 
um dos projetos contemplado.
Ao todo, um total de 119 projetos da Região Amazônica vai receber patrocínio do Banco da Amazônia em 2018. Destes, 50 são do Estado do Pará. Mais de R$ 2 milhões serão aplicados pela instituição. Selecionados por meio dos Editais Públicos de Patrocínio os projetos tem atuação nas áreas cultural, social, esportiva, ambiental, feiras e congressos.

De acordo com a instituição, todos os projetos serão desenvolvidos em parceria com diversos atores sociais também comprometidos com o desenvolvimento sustentável da região. 

Os projetos para a realização de feiras e exposições têm suas ações alinhadas com o incentivo ao desenvolvimento do agronegócio regional, ao turismo, ao micro empreendedor individual, à indústria e a micro e pequenas empresas.

Os projetos culturais, incentivados ou não por Lei Municipal, são voltados à Literatura, Eventos Culturais, Música, Audiovisual e Artes Cênicas. Os de cunho esportivo incentivam esportes olímpicos e paralímpicos. Os da área ambiental, o educativo: sustentabilidade ambiental e os da área social se propõem a ações de promoção à inclusão.

Já a Chamada Pública para a Lei Rouanet 2018 tem como objetivo contribuir para a melhoria do acesso à cultura regional. Neste edital, o Banco da Amazônia contempla projetos de artes cênicas (teatro, dança, performance, ópera e circo), cinema (mostras e festivais) e música, sendo priorizados àqueles que apresentarem diversidade temática, multiplicidade de linguagens e, principalmente, qualidade artística.

A artista Veronique Isabelle aprova 
um dos projetos de ocupação da galeria 
de arte da instituição
O “Prêmio Banco da Amazônia de Artes Visuais 2018” destina-se à seleção de projetos para exposição no Espaço Cultural do Banco da Amazônia, localizado no Edifício-sede da instituição. O Espaço Cultural, em seus 16 anos de existência, é reconhecido pela classe artística regional e nacional como apoiador de projetos de artistas consagrados, mas também como formador de novas expressões regionais que tem sua arte admirada e reconhecida.

Confira a relação dos projetos aprovados com Lei Tó Teixeira e ocupação do Espaço Cultural, no site institucional: http://www.bancoamazonia.com.br/index.php/patrocinio.


Doze projetos contemplados com Lei Rouanet 2018

Dos 29 projetos oriundos de toda a Amazônia, doze projetos selecionados tendo a Lei Rouanet como carta de incentivo. Dois de Tocantins, dois do Amazonas, sete do Pará e um do Mato Grosso: Amazon Mix, Amazônia Lounge Circulação, Cartografia Quilombola no Estado do Pará, Circular Campina Cidade Velha, Festival Ambienta - música arte e meio ambiente II, I Mostra de Artes Cênicas da Transamazônica e Xingu; e Resgate aos Cordões de Pássaros e Bichos do Pará.

Os projetos trazem temáticas nas áreas das artes cênicas (teatro, dança, performance, ópera e circo), cinema (mostras e festivais) e música. Foram priorizados projetos que apresentam diversidade, multiplicidade de linguagens e, principalmente, qualidade artística. Todos serão desenvolvidos em parceria com diversos atores sociais também comprometidos com o desenvolvimento sustentável da região.

Os projetos para a realização de feiras e exposições têm suas ações alinhadas com o incentivo ao desenvolvimento do agronegócio regional, ao turismo, ao micro empreendedor individual, à indústria e a micro e pequenas empresas.

Joelma Klaudia é uma as contempladas

A cantora paraense Joelma Kláudia foi uma das contempladas pela Chamada para a Lei Rouanet. Ela tem como objetivo de generalizar a música e valorizar a cultura e os compositores paraenses, e com isso, surgiu o álbum Amazônia Louge, com três clipes gravados no Xingu e destacando-se na Região Norte.

O disco surgiu de uma pesquisa de repertório internacional e local ligados à música lounge. O repertório inclui composições de Lia Sophia, Eloi Iglesias, Maria Lídia, Celso Viáfora, que ela canta acompanhada de uma banda completa. Com o patrocínio concedido pelo Banco da Amazônia através do presente Edital, a cantora aponta Regiões como Manaus (AM) e Alter do Chão, em Santarém para apresentar seu trabalho.

"O Banco da Amazônia é uma porta aberta de oportunidades e estímulo para os artistas. O CD Amazônia Lounge não existiria sem o Edital e a minha notoriedade se deve à este incentivo. Estou flutuante de felicidade e o  crescimento do meu projeto  representa um marco na minha vida musical. Pela primeira vez vou cantar  fora do Estado e isso é dar suporte aos artistas e seguir com seus processos criativos desenvolvendo sustentabilidade cultural na Amazônia Legal", disse Joelma.

Este ano foram inscritos 880 projetos para o Edital de Patrocínios, para a Chamada Pública da Lei Rouanet e para o Espaço Cultural Banco da Amazônia. A seleção foi feita com avaliação das equipes técnicas do Banco e de representantes da sociedade civil com notório conhecimento nos temas dos editais.

(Texto com informações da assessoria de imprensa do Banco da Amazônia)

2.1.18

Marcello Gabbay: 100 anos de carimbó no Marajó

Doutor e Mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, Marcello Gabbay lança no próximo dia 11 de janeiro, em Belém, o livro "Comunicação: Poética e Música Popular: uma história do carimbó no Marajó" (Ed. Appris, 323 págs). Na Livraria da Fox, dia 11 de janeiro, às 19h, véspera do aniversário da cidade.

Marcello Gabbay mora  em São Paulo, mas está em Belém, desde a semana do Natal, curtindo a família, e deve ficar por aqui ao menos até o do lançamento de seu livro. 

Em entrevista ao blog, ele conta que foram seis anos de pesquisa.  Nesse tempo, o autor morou em seis cidades diferentes, dormiu em casa alheia, em rede, no chão, no navio, na estrada. Marcello lembra que andou de Istambul a Montevideo, ouvindo música, descobrindo discos, vinis, partituras, livros, museus. 

“Andei coletando tudo que me ajudasse a pensar na música popular, na poética do território. Eu queria muito botar esse livro na roda. Devo isso a Soure e aos intelectuais sourenses que estão lá, na labuta e na canção”, arremata o professor paraense que hoje está radicado em São Paulo. 

Neto de um filho de Afuá, originário dos judeus emigrados do norte da África no século XIX, Marcello Gabbay passou a caminhar pelos campos marajoaras mais frequentemente a partir de 2004, quando trabalhou em projetos de comunicação popular no Tucumanduba, zona caranguejeira de Soure. Ex-funcionário da Embrapa, ele também trabalhou com apoio à pesquisa agropecuária em Salvaterra e Cachoeira do Arari.

Em 2010, o documentário "Muiraquitã", de Zeca Ligiéro, o levou de volta a um mergulho nas encantarias de Soure, mas três anos antes, sua pesquisa de Mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ já tinha relatado a realidade da comunicação radiofônica na mesma cidade. Foram muitas viagens ao arquipélago do Marajó e a paixão por Soure fez com que o carimbó se tornasse o pano de fundo para o projeto de Doutorado, também na UFRJ, com estágio sanduíche na Université Paris V, a Sorbonne. 

Grupo Cruzeirinho
Assim surge o livro que documenta 100 anos de memória sobre a prática do carimbó em Soure, a maior cidade marajoara. Divido em quatro dimensões, a Estética, a Comunicacional, a Ritualística e a Política, a obra traz relatos de campo nas falas dos mestres e mestras da vida sourense. “Vamos de Mestre Abelardo, no final do século XIX até os mestres mais jovens, como Talo, Anderson Costa, e ainda Chicão, Diquinho e Regatão, que estão na casa dos 50 a 70 anos, mas super ativos”, diz Marcello Gabbay. 

Em 2013, a tese já tinha recebido o prêmio Clóvis Meira de Monografias, concedido pela Academia Paraense de Letras (APL). A pesquisa, construída com a colaboração de intelectuais marajoaras, como Amélia Ribeiro, Anderson Costa, Ronaldo Guedes, Cilene Andrade e Aílton Favacho, agora chega ao público em formato de livro.

O prefácio foi feito pelos orientadores do trabalho realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os professores Raquel Paiva e Muniz Sodré, e o sociólogo francês Michel Maffesoli, que mantém uma forte conexão com Belém, já tendo orientado teses de Fábio Castro e do poeta João de Jesus Paes Loureiro – ambos pesquisadores da UFPA. Antes de ser lançado, alguns capítulos do livro foram publicados no exterior, como por exemplo, na revista científica “Revue Sociétés”, da França, e expostos em congressos em Portugal, Peru, Uruguai e Turquia.

Tendo a música e a comunicação como paixões impulsionadoras,  Gabbay também realiza trabalhos de composição e instrumentação, além de produção de trilhas sonoras para teatro e o trabalho autoral com O Campo e a Cidade. 

Holofote Virtual: Tens toda uma relação com a região, és daqui, trabalhastes em projetos de comunicação popular, o que levou a campo e em particular, a um projeto em Soure. Como foi que isso tudo te levou aos mestres de carimbó?

Marcello Gabbay: Pois é, sou totalmente daqui, né? Meu avô paterno nasceu no Afuá. Só me dei conta disso anos depois, já trabalhando em Soure, a amiga e poeta Angela Benassuly me chamou a atenção e disse: “Menino, tu és marajoara!”. 

Entre 2003 e 2007 trabalhei na Embrapa de Belém, e foi lá mesmo que eu conheci a pesquisa, viajando pelos interiores, em dias de campo, uma época boa da agricultura familiar, quando o agronegócio era visto com todas as ressalvas possíveis, andei conhecendo a vida rural do nosso Estado. 

Nessa mesma época, trabalhei com o grupo Novos Curupiras em Soure, no bairro do Tucumanduba, perto da praia do Pesqueiro. Andávamos por lá pensando no rádio como forma de comunicação popular. Foi uma época linda, de muito aprendizado. 

Quando larguei tudo pra ir fazer Mestrado e Doutorado, sofria de saudades de Soure (risos). Na época do Doutorado, depois de cumprir os créditos e de fazer o estágio sanduíche na França, me enfiei em Soure de novo. Dessa vez, bibicletando (como eu gosto de dizer) atrás dos ensaios do Cruzeirinho. 

Nessas andanças, os intelectuais sourenses me transformaram. Diquinho, Regatão, Ronaldo Guedes, Anderson Costa, Amélia Ribeiro, Aílton Favacho, todos estes e mais outros. Passei a estudar e tocar o banjo nesse período. O meu instrumento de origem, o contrabaixo, ficou excluído, tadinho, era estrangeiro demais pro “tempo marajoara”. Aí eu andava com o meu banjinho pra cima e pra baixo enquanto não estava em Soure. Por lá, preferia só aprender.

Regatão
Holofote Virtual: E como foi o contato com os mestres?

Marcello Gabbay: Foi maravilhoso. Devo tudo ao Anderson Costa, um músico e estudioso do carimbó sourense, que hoje mora no Amapá. Ele estava atuando diretamente na articulação dos mestres Diquinho e Regatão em 2012, e me levou com ele pra todo lado. Foi um amigo muito generoso. 

Foi ele também que me deu acesso às raras gravações do Mestre Biri, dos anos 1970, me mostrou o banjo do Mestre Cariri, guardado no ateliê do Ronaldo Guedes, no Pacoval. Enfim, andei na garupa de pessoas generosas que me botaram dentro dos espaços, com muito respeito e admiração. 

Diquinho é um compositor deslumbrante. Está ativo e sempre produzindo, apesar de que ele não gosta de sair de Soure. “Sinhá Rosinha” é um carimbó-choro dele que está no último disco do Cruzeirinho, e que eu recomendaria como um lindo exemplo da beleza cancionista de Soure.

Praia do Pesqueiro, em Soure, inspiração para muito carimbó
Holofote Virtual: 100 anos de carimbó é um recorte amplo. Como você trabalhou as fases históricas?

Marcello Gabbay: A história do carimbó no Marajó passa por três grandes etapas, a Era dos terreiros, quando era praticado nas fazendas e campos, de forma mais restrita; a Era dos conjuntos, quando, tendo vindo para as sedes das cidades marajoaras, o carimbó se constitui em conjuntos instrumentais influenciados pelo formato das big bands das rádios AM; e a Era dos grupos, que compreende os anos 1980 até hoje, marcada pelos grupos de dança que trafegam entre o atendimento aos turistas e a manutenção do antigo espírito dos terreiros em seus barracões de ensaio. É o caso do Grupo de Tradições Marajoara Cruzeirinho, um dos mais atuantes de Soure.

Holofote Virtual: O livro traz um rico material de pesquisa, dentro desse universo o que tu enfatizas para atenção dos leitores?

Marcello Gabbay: É claro que a parte histórica é mais interessante, né? Tomei o cuidado de escrevê-la de forma leve e fluída. Como num romance mesmo, sem muito quiproquó teórico. 

Então essa deve ser a parte mais gostosa. Mas eu chamaria a atenção para a Dimensão Estética, onde eu defino a ideia de “comunicação poética” no contexto da canção popular. Aí está o cerne do livro. Além de definir aí a poética da canção como linguagem, tem também um subcapítulo que eu gosto muito sobre o “tempo marajoara”, que reflete a dinâmica do cotidiano como forma de resistência também.

Holofote Virtual: O carimbó marajoara tem características específicas? Na região do salgado se diz fazer um carimbó praiano. Há estas divisões?

Marcello Gabbay: Sim, dizem que temos o carimbó praiano do Salgado, o da cidade e o dos campos, no Marajó. Na verdade, muitos autores nossos, como o Paulo Murilo Guerreiro do Amaral, a Laurenir Peniche e mesmo o Vicente Salles, nos levam a crer que o carimbó possa ter surgido, ao mesmo tempo, em territórios afastados da região, derivado dos “batuques” (um termo genericista inventado para des-qualificar as músicas africanas). 

Algumas das matrizes musicais, como as figuras rítmicas, melódicas e argumentos poéticos variam um pouco, porém. Em resumo: diz-se que no Marajó o carimbó é mais romântico, influenciado pelo choro e pelas big bands, com clarinete (uma herança direta do finado Mestre Biri, de Soure), e um banjo mais harmônico e menos surrado. As letras referem-se à nostalgia, às praias, à pesca, à vaqueirada e à mitologia e cosmologia marajoaras. São algumas das características distintivas mais marcantes. Mas no livro o pessoal vai ver isso melhor tratado (risos).

Grupo Cruzeirinho
Holofote Virtual: Essa visão comunicacional do carimbó está nas letras, danças, estética. O que decifrastes de mais expressivo nessa poética?

Marcello Gabbay: Está na forma da canção, tanto quanto nas letras. É mais fácil identificar a poética marajoara nas letras, pelos recursos metafóricos, temáticas, narrativas, etc. Mas na canção também temos uma força comunicacional no tempo musical, nas estruturas rítmicas e melódicas.

Como exemplo, eu gosto de mostrar a canção “Açaizeiro”, do Vital Lima, que está no disco de estreia dele de 1978. Ali, ele canta que o açaizeiro morreu no Rio de Janeiro porque não se deu bem por lá; mas a palavra “morreu” é cantada em uma sétima menos descendente assim: “mô-rreu”, emulando a forma da nossa fala, fazendo dela expressão melódica, e fazendo da melodia musical uma fala culturalizada, marcada por aspectos afetivos e vinculativos do falar. É por aí. No livro tem muitas páginas sobre isso (risos).

Holofote Virtual: O IPHAN construiu um dossiê, em dez anos de campanha pelo carimbó como patrimônio cultural brasileiro. Você bebeu nesta fonte? Conhece esse material? 

Marcello Gabbay: Sim! Tem um capítulo no livro, lá na Dimensão Política, onde trato dessa labuta da patrimonização. E em 2014 eu acabei contribuindo com o dossiê porque o pessoal achou que faltavam informações históricas sobre o Marajó. Eu estava vivendo em Petrópolis, e a Amélia Ribeiro, coordenadora do Grupo Cruzeirinho, me chamou pra enviar um texto, que eu mandei no ato! Lembro que quando o dossiê foi aprovado e tudo, houve uma festa em Belém, e eu ia, mas acabei tendo um compromisso acadêmico em São Paulo, que acabou me levando a morar nessa Babilônia; coisas da vida...

Tambores do Pacoval, com Diquinho e Regatão
Holofote Virtual: E na sua visão que politicas existem hoje para o carimbó enquanto cultura viva e patrimonial do país?

Marcello Gabbay: Bem, ainda vamos ver os frutos disso em termos de políticas públicas. Na verdade, a vida dos grupos é muito dura. 

O Cruzeirinho, por exemplo, virou Ponto de Cultura na época em que a gestão do Juca Ferreira no MinC ainda via essa ferramenta como uma forma de equipar os grupos locais. Hoje, está bem mais difícil. A realidade dos grupos do interior é bem diferente daqueles que trabalham na capital. Cada apresentação envolve um custo de deslocamento para vários músicos e dançarinos. 

Não contamos com uma estrutura de apoio mais estável, que promova uma circularidade de recursos e que reconheça a realidade dos interiores. Cada viagem são quilômetros de rios, estradas, pernoites. Há tempos que os artistas do Norte têm batalhado pelo reconhecimento do que chamamos de “custo amazônico”. A Funarte, por exemplo, vinha caminhando no sentido de reconhecimento de nossas necessidades, mas agora estamos novamente à própria sorte. 

Holofote Virtual: Isso é preocupante, porque fora das festividades, que já são feitas com dificuldades, esta cultura está ameaçada. O que precisa ser feito?

Marcello Gabbay: O que eu acredito é que existimos apesar de tudo. Mas é como diz a Amélia Ribeiro no livro. “Vem por amor? Vem.

Mas se não tiver apoio vai acabar”. Ela se refere ao tipo de trabalho que o Cruzeirinho faz, de preservação da memória, de formação cultural dos jovens e produção artística do grupo, que envolve crianças, pais, mestres mais idosos, intelectuais locais e a cidade. 

O mercado cultural até que caminha junto ao novo modelo de patrocínio capitaneado pela Natura, por exemplo; mas os grupos culturais trabalham numa outra lógica. Não podemos deixar de cobrar do Estado um tipo de amparo e cuidado para com estes grupos, para que não desapareçam no imbróglio da lógica do mercado do streaming, por exemplo.

Holofote Virtual: Estás morando em São Paulo, o que tens feito tanto academicamente, quanto artisticamente por lá? 

Marcello Gabbay: Eu estou trabalhando em uma faculdade aqui. 2017 foi produtivo, na verdade. Continuo escrevendo e pesquisando sobre comunicação e canção popular. Fiz um texto sobre o Rincon Sapiência pra revista da faculdade aqui, e tenho orientado Monografias nessa área também. Semestre que vem, vamos ter um trabalho interessante sobre “afrofuturismo” na música brasileira. 

Eu também estudei Musicoterapia, terminei no início desse ano. Minha Monografia tratou da canção popular como forma de expressão terapêutica. Também passei a tocar com o Antônio Novaes aqui no Clarimbó. Fazemos muito paulista dançar!!! (risos). Eu sempre quis tocar com o Novaes porque gosto de tudo que ele faz, agora estamos nessa labuta boa.

Já O Campo e a Cidade finalmente lançou um álbum esse ano. Se chama “Tarot” e traz 11 faixas. Foi um ano de muito trabalho, montamos uma banda pra engrossar o som, fizemos um lançamento lindo em agosto e estamos produzindo uma série de vídeos para apresentar as faixas do disco. 

Na verdade, já vem aí um disco novo! Mas nosso último feito foi o lançamento do clipe de “La Belle Époque”, uma canção-blues que se inspira muito nas andanças entre Belém e Soure. O clipe foi dirigido por nós e pelo Wallace Rosa, um jovem videomaker daqui de SP. 

31.12.17

2018 para reafirmar as conquistas e produzir mais

Na última pauta do ano ouvi três artistas importantes na cena cultural paraense. Pinçar só três pessoas de um cenário rico, vasto, criativo, produtivo e infinito como o de Belém, não seria tarefa fácil, por isso fui intencional e sobretudo pelo filtro da contribuição e produção deles para o cenário cultural. Na rápida análise política do blog, compartilho com vocês o papo com a musicista e produtora cultural Carla Cabral, a cineasta Jorane Castro e o músico e pesquisador Marcello Gabbay.

2017. O ano mal tinha começado e em março, um incêndio no Museu de Arte de Belém - Mabe foi um presságio para a área da cultura em Belém do Pará, onde ano fecha como se não tivesse começado do ponto de vista das políticas públicas de cultura. Na gestão cultural do município, o Mabe continua chamuscado, com salas fechadas ao acesso do público, e também retrocedemos com a  nova Lei Valmir Bispo dos Santos aprovada pelos vereadores. O novo texto  enviado por Zenaldo Coutinho além de perdas para a área cultural também atrasou o processo de implantação do Fundo Municipal de Cultura. 

“O sistema político em que vivemos está totalmente falido. É impossível achar que culturalmente foi um ano exemplar. Acho que sempre será produtivo quando falamos em termos de criação, mas de escoamento, de realização de shows, festivais e mostras é tudo muito restrito, pouca verba, pouco patrocínio. Políticas culturais ainda com falhas, embora existentes. Infelizmente ainda foi um ano em que a gente sobreviveu da arte, ainda não foi aquele ano de se respirar ar farto e limpo”, diz Carla Cabral. 

Carla Cabral  é musicista. Integra o movimento do Choro Paraense. É produtora cultural e uma das responsáveis pelo projeto que revitalizou o maior reduto do choro em Belém do Pará, a Casa do Gilson. Em 2017, ela levou adiante o projeto “O Mercado do Choro”, que vivencia a cidade e sua realidade. 

Carla Cabral -  O Mercado do Choro, no Mercado de Carne 
“Passei o ano me sustentando de tocar em bares e dar aula, sem grandes aportes financeiros (risos). Com certeza, para outros artistas foi ainda mais difícil. Eu percebo as dificuldades da cena, por isso, dar as mãos é cada vez mais necessário. Assim como ter percepção das políticas culturais e não apenas do glamour de ser artista (risos)”, diz. 

A estagnação na área cultural não se restringe ao município. No Estado a Secretaria de Cultura segue com seus dois principais projetos o Festival de Ópera e a Feira Pan Amazônica do Livro. Por outro lado, dentro desta estrutura, a Fundação de Cultura do Pará tem nos direcionado uma política de editais somando à Lei Semear que garante projetos junto a editais nacionais.

A política dos micros editais SEIVA deu certo fôlego à produção de pequenos projetos. A Bolsa de Experimentação Artística, o edital de Produção e Difusão e o edital Pauta Livre impulsionaram e devem continuar impulsionando a produção de CDs, shows e espetáculos que geraram também a  programação cultural ao público nos teatros e espaços culturais da FCP.

“2017 foi um ano de muita labuta. A impressão que eu tenho é de que a cena ficou mais estreita, retraída. Eu costumo dizer que cidades como Belém (re)existem apesar de todo descaso e mau entendimento de cultura nas instâncias governamentais e privadas; mas mesmo assim, em cidades como São Paulo, contamos com uma nova visão política que não pensa mais os espaços públicos como espaços de ocupação, mas como oportunidades de mercado. E isso é preocupante. Vejamos, por exemplo, a “treta” recente entre o teatro Oficina de Zé Celso e o grupo de Silvio Santos, desastrosamente mediado pela prefeitura de São Paulo”, comenta Marcello Gabbay.

Residindo em São Paulo, o também professor lança, logo no início do ano o livro de sua pesquisa de Doutorado na UFRJ sobre o carimbó de origem marajoara. O blog vai publicar em breve uma entrevista com ele sobre a obra. O lançamento será dia 11, na véspera do aniversário da cidade, na Livraria da Fox.

Na área da produção audiovisual vimos muitas produções serem lançadas por iniciativas independentes também ou por meio de outros editais. A cineasta Jorane Castro viu em  2017 seu primeiro longa, o filme “Pra Ter Onde ir” ganhar asas e avoar e também já tem novos planos cinematográficos para 2018, com filmagens em Belém, um novo longa. Otimista , ela acredita em 2018 segue a resistência cultural.

“Analisando um pouco o cenário artístico e cultural de Belém, o ano de 2017 foi um ano em que a gente viu qual a força que existe na organização do pensamento e da reflexão de quem produz um olhar sobre a cidade. A gente viu muitos lugares acontecendo, muitos artistas  novos se colocando, festivais novos aparecendo, artistas novos, um cenário novo surgindo, a gente vê vitalidade aparecendo, aliás, como sempre foi , no Pará. Nós temos uma arte viva, sabemos qual o potencial e a capacidade criativa e artística que a gente tem em todas as áreas de expressão. Este ano foi bom pra gente ver as coisas acontecerem, muita vibração boa e muito resultados”, diz Jorane.

A cineasta ressalta que em 2017, a arte como reflexão da sociedade em que ela está inserida, foi um ato de resistência. “Foi um ano em que a sociedade civil deu o recado, e a politica pública continua inexistente, em nível de estado ou de município, não há diálogo estabelecido entre gestores públicos das áreas de cultura e pessoas que produzem esse conhecimento, falta diálogo. Foi um ano de resistência”, afirma.

“O Circular justamente fortalece a virilidade de tudo que falei, de você ver o quanto tem gente se organizando, pensando a ocupação da cidade e qual a cidade que a gente quer, e tudo isso através de quem produz e faz arte, produz culturalmente na cidade. Estas pessoas é que fazem e escrevem o futuro e que eu acho que é função de quem é cidadão e artista", comenta Jorane.

Expectativas para o ano novo da cultura paraense

Jorane no set de "Para Ter Onde Ir"
O que importa é não jogar a toalha e seguir adiante. Embora as coisas não tenham sido fáceis em 2017, houve a produção e reinvenção no meio cultural. Todos concordam. Por isso s expectativas para 2018, ao contrário do que se poderia pensar, são otimistas. 

"Acho que 2018 será bom, frutífero, cheio de novas perspectivas em todas as áreas da cultura. Espero que isso tudo que vivemos em 2017 floresça mais ainda, que toda a nossa cultura que é a que a gente já conhece, estuda e já respeita e admira seja reconhecida ainda mais" diz Jorane Castro.

As conquistas foram tanto do ponto de vista coletivo quanto pessoal. Carla Cabral este ano produziu o Mercado do Choro, projeto que foi tema de uma entrevista com ela aqui no blog, mas também apresentou na TV o programa Timbres (TV Cultura), que valoriza o segmento da música instrumental. E ainda fez a produção musical de um documentário sobre a Casa do Gilson, que estreou agora em dezembro na telinha.

Casa do Gilson ganhou documentário 
produzido pela TV Cultura do Pará.

“Foi esse ano também que ganhamos um documentário maravilhosos sobre os 30 anos da Casa do Gilson, produzido pela TV Cultura do Pará. Tive a honra de fazer a produção musical desse documentário e tenho certeza que ele é uma escritura de uma boa parte da música paraense.  Além disso, inicio um novo momento mais voltado para a composição e o estudo da música, começo a abandonar aos poucos a produção executiva de outros trabalhos, para me dedicar bem mais ao Mercado do Choro e à pesquisa do gênero. Sinto que fecho um ciclo, que venham as surpresas do próximo”, diz.

Para ela, 2018 pede uma "labuta diária e de entender cada vez mais que temos que nos responsabilizar pelo nosso trabalho, correr atrás, nunca esperar sentado". Carla ressalta também a democratização do acesso à cultura e a responsabilidade para com o ensino e a compreensão da arte.

"Temos que nos responsabilizar pela democracia da arte; ter compromisso com a educação através da arte; ter compromisso com a cidade, com as necessidades culturais que ela apresenta. Ser menos egoísta, ter preocupação social, entender o contexto em que a nossa arte está existindo e contribuir para um país melhor", diz ela, que também cita como exemplo disso os projetos Circular Campina Cidade Velha e o Aparelho. "É uma evidência da força que temos (quase que) independente de federação, estado e munícipio. Pois, não sejamos hipócritas, essas três esferas tem responsabilidades com a produção cultural desse país e se houver financiamentos honestos, não vejo o porquê de não nos valermos”, finaliza Carla Cabral. 

Gabbay com Neto Rocha - O Campo e a Cidade
Vivendo entre Belém e São Paulo, Marcello Gabbay também fecha o ano feliz e comemora sua produção. “Foi um ano de grandes feitos. Na vida universitária, saiu meu livro finalmente. Foram 8 meses revisando e editando. Também estive em congressos pelo Brasil recentemente falando desse tema da ocupação das cidades. Em 2018, esse tema vai crescer, porque eu, a Luciana Gouveia (que é a minha namorada) e a professora Raquel Paiva da UFRJ, estamos preparando um trabalho grande sobre isso”, diz o músico.

Observador, produtor e consumidor da cena, em São Paulo ele viu a música paraense reverberar. “O Clarimbó do Antônio Novaes fez muito paulista bailar esse ano, esbarrando na noite da cidade com queridíssimos artistas, como Jaloo e o Felipe Cordeiro, que eu respeito muitíssimo, e que fez uma linda canja com a gente na Vila Madalena", comenta Marcello. 

Integrante do duo "O Campo e a Cidade", junto ao músico Neto Rocha, ele comemora também o disco “Tarot”. "Fizemos shows mais concisos, como no lançamento em agosto, e em setembro na Avenida Paulista. Agora é apertar os cintos para 2018, que apesar de tudo vai ser mais um ano de novos trabalhos. O Campo e a Cidade vai gravar, com certeza. Já temos um novo repertório e um novo som a caminho. Vamos também querer tocar em Belém, isso está na agenda já. Além de outros planos ainda secretos (risos). Sigamos em frente!”, vibra.

Jorane e Felipe Cordeiro, no Circular Campina Cidade Velha
(Agosto 2017. Foto: Marcelo Lelis).
Para Jorane Castro, devemos estar preparados e atuantes para que em 2018 superemos os desafios de um país devastado pela política vigente.  

"Espero que mesmo que estejamos em um momento difícil no Brasil, com muita intolerância, com uma desigualdade se firmando cada vez mais, e a diversidade sendo uma ameaça para alguns, todas as questões que devem ser debatidas, venham à tona de forma mais positiva em 2018. A gente é forte, a gente é do Norte. E a gente vai muito longe com este pensamento, porque é em nós que existe essa possibilidade de construir uma cidade melhor, um estado melhor,  esta Amazônia melhor, a região mais linda e incrível que merece ser valorizada e amada!”, finaliza a cineasta.

No meio da turbulência da era #foratemer, com o Ministério da Cultura destroçado, a ANCINE seguiu sua política, embora com desfalques. Espera-se agora em 2018 várias estreias de séries, documentários e filmes de ficção produzidos na região norte. Hora de ver o que fizemos, na telinha, as produções realizadas com o edital Prodav-8 que vai  apresentar agora seus primeiros frutos, ainda do edital lançado em 2014. Isso vai ser ótimo.

FELIZ 2108!!!!

29.12.17

Tem músico paraibano na cena cultural paraense

Naldinho Freire é músico, educador, compositor e pesquisador. Nasceu na Paraíba (PB) e depois de ter passado por algumas cidades brasileiras, entre elas Maceió, em Alagoas, este ano passou a morar em Belém do Pará, onde já mergulha na cena cultural. O artista topou participar da retrospectiva do blog e falar do cenário da cultura no Brasil e do projeto  “Sem chumbo nos pés”, com o qual viajou o país este ano.

30 anos de carreira. Parcerias com poetas, escritores, compositores e músicos do Brasil e de Cabo Verde (país que o músico mantém um intercâmbio permanente). A ideia de residir em Belém veio por questões familiares.  “Minha companheira é belenense e decidimos que este ano, o Pará seria a nossa base e os planos se estenderão a 2018”, diz o músico.

Desde que se estabeleceu na capital paraense, o músico vem fazendo conexões, uma delas com Beá Santos, musicista paraense que o acompanha nos teclados e sintetizadores. Juntos já fizeram várias apresentações, numa turnê em outubro por algumas cidades brasileiras. Nas apresentações, a instrumentista também mostra seu trabalho autoral.

“Eu e o meu trabalho musical fomos e temos sido recebidos com muito carinho e respeito. Já conhecia algumas pessoas ligadas às artes, tenho ampliando esse território, construído parcerias e criado com muito esmero um tecido que vem me possibilitando atuar no estado do Pará, em outros estados do Brasil e outros Países”, diz Naldinho Freire.

Com Beá Santos, no Teatro Glauce Rocha da UFF em Niterói
Na discografia do artista está o LP Lapidar (1995) e o CD Viandante, em Alagoas (AL), lançado em 2005, através do projeto Misa Acústico. No CD Raízes, integrando a coleção Memória Musical do Sesc Alagoas (AL), em 2006, publicou pesquisa na área de música sobre tradição oral do Nordeste.

Naldinho também participa do CD Sound of Alagoas, lançado em Berlim (GER), na POPKOMM, e realizou turnê com o CD Raízes, na África, França, Portugal e Rotterdam (de 2008 a 2010). Realizou concertos na cidade de Praia e São Domingos, em Cabo Verde.

No campo das políticas públicas, o artista traz conhecimentos sobre as realidades e demandas culturais do Nordeste e Norte. Entre 2011 e 2016, Naldinho foi representante da Fundação Nacional de Artes – Funarte nestas duas regiões. Em agosto deste ano, o músico participou do Territórios da Arte, projeto trazido a Belém pela Funarte e UFF, no qual o blog também participou. Nos reencontramos em Niterói para a etapa final do mapeamento, no Territórios da Arte - Interculturalidades, onde tive a oportunidade de vê-lo em ação, já com Beá Santos. 

Foto: Elcimar Neves
Holofote Virtual: Como você analisa o ano de 2017 do ponto de vista cultural, dentro do atual contexto político? 

Naldinho Freire: 2017 foi ano em que percebemos com mais firmeza que as políticas públicas para área cultural no Brasil não é prioridade para o grupo que forçadamente está desgovernando o Brasil. Pois, com a extinção do Ministério da Cultura - MinC, e após sua recriação a partir da mobilização dos artistas, agentes culturais, políticos contrários à proposta, gestores e pessoas ligadas aos segmentos culturais, o MinC segue sem musculatura, vive desidratado, sem o diálogo com os que atuam nas áreas da cultura em nosso País. 

Diálogo que pelo qual lutamos muito e exercitamos na gestão do Ministro Gilberto Gil, e que vínhamos mesmo com dificuldades tentando manter nas outras gestões do MinC.  Em 2017 mesmo que algumas ações pontuais tenham acontecido através do MinC, as mesmas não tiveram lastro e nem perspectiva de construção coletiva. Temos servidores efetivos no Sistema MinC com grande potencial de conhecimento e envolvimento com a missão do Ministério, mas infelizmente sem investimento em ações transformadoras, esse recurso humano não é valorizado, e é perceptível o desestímulo de alguns servidores.  

Holofote Virtual: O que você citaria como exemplo de resistência diante desse quadro?

Naldinho Freire: Cito a tentativa grandiosa de sobrevivência dos que fazem a Funarte, o IPHAN, outros institutos, fundações, os que trabalham em escritórios regionais do sistema MinC que ainda não foram extintos, e que diariamente saem de suas casas, e se deparam com as consequências desse desgoverno. 

Portanto, diante desse contexto, os artistas, produtores culturais, agentes culturais, gestores e coletivos que atuam na área cultural, buscaram durante o ano de 2017 ferramentas de resistência, realizaram seus projetos independentes, com recurso financeiro mínimo, extraindo frutos das profundezas dos seus universos culturais, numa constante luta contra as intempéries geradas por essa descontinuidade governamental.

Holofote Virtual: Neste momento, como você tem trabalhado sua carreira?

Naldinho Freire: Também sou um resistente e nesse aspecto externei o trabalho musical que iniciei sua construção no ano de 2016, estreei no Recife/PE, em janeiro de 2017 o show “Sem chumbo nos Pés”, circulei com ele pela Ilha de Santiago - Cabo Verde/ África, por cidades do Sudeste, Norte e Nordeste do Brasil, e o mantenho ainda em processo de construção, a cada apresentação, estudando as possibilidades, percebendo como o público reage a cada canção apresentada, retirando ou acrescentando o que se faz necessário, e paralelamente sem pressa registrando as canções através de gravações em estúdio. 

Essa vivência mostrou-me vários caminhos, trouxe-me vários parceiros e amigos que contribuíram muito com essa construção. Reafirmou em mim o poder de voos infinitos que temos a partir do que idealizamos e buscamos praticar.

Holofote Virtual: Que projetos e ações você acredita que tem feito a diferença neste cenário e quais foram tuas principais conquistas e aprendizados?

Naldinho Freire: Os projetos que incluem o intercâmbio cultural. Entre minhas conquistas está a construção do trabalho “Sem chumbo nos Pés”, com ele permanece o aprendizado que é constante: a percepção do outro, de seus universos, e a nossa posição nesses universos, a forma de agir, interagir e dialogar com as diferenças e os diferentes.

Holofote Virtual: O que esperar para a cultura em 2018?   

Naldinho Freire: Percebo que 2018 não deve ser um ano de espera, penso que deveremos potencializar o uso das nossas ferramentas de resistência. Será um ano que teremos eleições em vários níveis e o nosso trabalho deverá multiplicar-se, para que o voto que é uma das nossas armas possa de fato contribuir com a transformação da realidade política que vivenciamos.

A cultura, seus agentes e suas ações diárias serão de fundamental importância nesse processo. Pessoalmente, darei continuidade ao trabalho musical “sem chumbo nos pés” e continuarei a trabalhar com ações que gerem o intercâmbio cultural.