18.6.18

Bashô inspira imersão no ser de Miguel Chikaoka

Fotos de Miguel Chikaoka
Movido pelo desejo de conhecer as suas raízes mais profundas, Miguel encontrou na leitura de “Oku no Hosomichi”, o mais famoso relato de viagem do poeta japonês Matsuo Bashô (1644 – 1694), a inspiração para mergulhar na ancestralidade entregando-se à vivência dos opostos: o isolamento e a viagem. A pé e de trem, Chikaoka atravessou a ilha desde a costa do Mar do Japão até o Pacífico, numa viagem solitária que durou 45 dias, passando por pequenas cidades e vilas, zona rural e sendas do poeta.

Convidado pelo Café Fotográfico da Fotoativa, Miguel Chikaoka encontra com o público nesta  terça, dia 19, a partir de 19h, para conversar mais sobre as motivações, a real extensão dessa viagem na sua vida e os desdobramentos na sua carreira. “Falo de uma busca no sentido maior do que é estar aqui, no sentido político de ser”, revela o artista.

Miguel estudou engenharia na Universidade de Campinas (SP), onde se graduou em 1976. Morou entre os anos de 1976 e 1979 na cidade francesa de Nancy, onde frequentou a École Supérieure de Mécanique et Électricité, mas abandonou o curso antes de seu término. “Segui o rito, mas sempre numa inquietude, mesmo diante de conquistas consideradas importantes para os parâmetros da sociedade”, diz Miguel. 

Quando retornou ao Brasil, em 1980, preferiu se instalar em Belém, passando a desenvolver intensa atividade como fotojornalista, e anos depois em processos de arte-educação. “Não uso a fotografia para mostrar, mas para viver o processo. Um lugar potente, um lugar de experiência. O olhar para mim é lugar de percepção mais aguda, de ver e ouvir mais do que falar. Na busca pela prática cotidiana dos valores humanos descobri na fotografia a possibilidade real de aprofundar e expandir o sentido de ser e estar em movimento”, afirma.

Miguel nasceu na zona rural do município paulista de Registro, Vale do Ribeira, em uma comunidade essencialmente japonesa: família, alimentação, literatura, religião ainda mantinham as tradições da terra natal da maioria dos habitantes. Tratava-se de um momento de forte migração do Japão para diversos países, sobretudo o Brasil. 

Plantava-se praticamente tudo, e pouco se interagia com outras localidades, a não ser quando saíam para comprar peixes frescos, pescados, na sede do município, às margens do rio Ribeira de Iguape. Sua relação com o rio foi a primeira inspiração para um projeto de investigação pessoal, esboçado em 2015, para encontrar a suas raízes ancestrais. 

A busca se daria através da construção de um mapa afetivo e espiritual a partir do atravessamento de conexões geográficas, culturais entre o Rio Ribeira de Iguape e o Rio Mogami, que encontra o mar na cidade de Sakata, região de Tohoku, norte de Honshu, a maior das ilhas do arquipélago japonês, de onde, há mais de 80 anos, o seu pai partiu rumo ao Brasil, trazendo consigo um irmão mais novo, sonhando retornar em melhores condições. 

“Meu pai falava muito pouco, e pouco soube da história dele e seus ancentrais”, conta Chikaoka. E foi em terras brasileiras que ele casou e teve sete filhos. De sua mãe, que veio do Japão com a família para o Vale do Ribeira, Miguel traz lembranças de uma mulher que sempre colocava questões sobre o que seria “ser”. 

“Uma pessoa questionadora e que assumiu muito cedo a condição de mulher, quando perdeu a mãe, aos 12 anos”, conta Miguel. Ele diz que essa formação representa uma herança importante em suas decisões nos deslocamentos de uma vida mais convencional para o seu encontro com a arte.

O eixo dessa de sua investigação pessoal se deslocou quando Chikaoka vislumbrou uma centelha, no cruzamento da história de vida de 3 personagens: o seu pai, Koji Chikaoka, homem de fala reservada que chegou ao Brasil com 25 anos em busca de melhores condições; a sua mãe, Tadako Chikaoka, devota do budismo, dedicou boa parte da sua vida à escrita do haiku, composição poética mínima, de origem japonesa, que se funda nas relações profundas entre homem e natureza; e o poeta Matsuo Basho, considerado o mestre do haiku.

É autor do livro “Oku no Hosomichi” (literalmente caminho estreito para o interior profundo), um diário de uma caminhada em 1989,  que durou 5 meses, incluindo uma travessia pela região de Tohoku. 

O clima intimista desse cruzamento foi inspiração para a viagem solitária que o artista fez no ano passado, no sentido oposto àquele feito por Bashô.  “O ponto de partida para a minha viagem foi exatamente a cidade onde nasceu meu pai”, afirma Miguel. Foram quase dois meses passando por áreas rurais de característicos arrozais, que mantinham com primor e delicadeza as tradições japonesas, ou mesmo áreas urbanas de um Japão contemporâneo. 

“Bashô fez o caminho no sentido de busca interior. Fui por ele inspirado para buscar o meu caminho”, diz Miguel. Nesse cenário, Miguel produziu escritos e fotos em uma imersão íntima sobre memórias e afetos em que sua mãe e pai, e o poeta Bashô são potências que seguem alimentando o seu caminho.

Serviço
Café Fotográfico com Miguel Chikaoka. Nesta terça-feira, 19, a partir das 19h. No Casarão da Fotoativa, na Praça das Mercês - Bairro da Campina - Centro Histórico de Belém. Mais informações: 

(Texto de Yavana Crizanto, enviado da Comunicação da Associação FotoAtiva)

Projeto Jazz Oficial realiza a primeira Jam Session

A primeira Jam Session do Jazz Oficial será  nesta quarta-feira, 20 de junho. A noite conta com a cantora Cacau Novais e seu trio, formado por Bob Freitas (guitarra), Mario Jorge (contrabaixo) e José Sagica (bateria), que receberão vários músicos para dividir um momento espontâneo de música e diversão. A partir das 20h, com ingressos antecipados pelo sympla.

'Originalmente, o termo jam significa tocar sem saber o que vem à frente, de improvisação e é comum que os músicos presentes sejam convidados para subir ao palco e tocar junto com a banda sem nenhum ensaio prévio. Mas essa origem do termo também é controversa. Pode vir do inglês jam que significa geleia, em alusão à mistura de estilos que esta prática proporciona'. 

'Alguns também acreditam que vem das inicias da expressão Jazz after midnight - Jazz depois da meia-noite, pois a maior parte destas sessões acontecem bem tarde, quando o público pagante já se retirou. Com a popularização do termo e o aumento da proficiência dos músicos, o termo passou a ser usado também em outros gêneros musicais em que a improvisação é usada, como o rock e o choro...'  

Robenare Marques, confirmado na Jam Session
'Também durante o processo de composição, muitas bandas costumam utilizar jam sessions como forma de estimular a criatividade e criar material novo ou para conseguir gravações com interpretações naturais.' (Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jam_session

"E é essa a ideia", diz Cacau Novais. Para essa primeira jam estão confirmados a cantora Gigi Furtado e o cantor Jeff Moraes, além do pianista Robenare Marques e o baixista Rafael Azevedo. 

"Espera-se ainda a presença de outros músicos convidados para essa noite repleta de sons, ritmos e os mais variados estilos de música", informa Cacau, pelo facebook do projeto. 

A Cervejaria Oficial Umarizal fica na Av.  Antônio Barreto, 1176 - entre 09 de Janeiro e Alcindo Cacela). Pra acompanhar o que vai acontecer é só acessar a fanpage JazzOficial. Os ingressos promocionais já estão à venda no sympla.  Informações, é só entrar em contato: 99120-2124/99116-7102.

(Holofote Virtual com informações enviadas por Cacau Novais).

14.6.18

Projeto traz ao debate a acessibilidade à cultura

Fotos: Marivaldo Pascoal
Acessar bens culturais e interagir socialmente é um direito de todos nem sempre exercido. Um exercício de cidadania que se torna mais raro quando o assunto é acessibilidade. São várias questões, mas na área da cultura, que espaços culturais públicos, privados ou coletivos, vocês conhecem, que tenham ações voltadas a esses públicos? 

Em Belém acho que dá até para contar nos dedos... de uma só mão. Vivemos num país que não educa as pessoas para lidar com as diferenças, tão pouco faz valer as leis de acessibilidade, como deveria. Esse é um campo arenoso, mas que felizmente de vez em quando encontramos iniciativas que nos permitem acreditar ser possível ressignificar as coisas com criatividade e sim, fazer a diferença!

É o caso do “Sinfonias e Inclusão”, um projeto de baixo custo, operacionalizado via Banco da Amazônia, mas que só funciona do jeito que foi pensado graças a um arranjo produtivo relativamente simples. O apoio do Theatro da Paz, que cede espaço e já possui um corpo de funcionários para atender visitações guiadas, é fundamental. As ações do ‘Sinfonias’ que são desenvolvidas, possuem um hiato de pelo menos um mês, entre uma e outra visita, e são marcadas nos dias em que já ocorrem os ensaios da OSTP.

A instituição que atende pessoas com deficiências físicas e intelectuais dialoga com a produção do projeto, previamente, sobre as necessidades para receber os alunos e viabilizam a ida deles até o teatro. Todos saem ganhando. O resultado é que neste arranjo produtivo os alunos se familiarizam com o espaço e os funcionários do teatro, por sua vez, também ganham prática de como atender esse público. Para os músicos da orquestra também é algo novo, poderiam aproveitar mais. 

O projeto iniciou em maio com participação dos alunos surdos do Instituto Fellipe Smaldone, que também trabalha com arte como ferramenta de apoio, desenvolvimento e inclusão dos deficientes auditivos. Nesta quarta-feira, 13 de junho, o Sinfonias de Inclusão recebeu a turma de musicalização da professora Rosana Furtado, que trabalha na UEE Álvares de Azevedo. 

“Este ano, ainda consideramos que seja um projeto piloto, pois todos nós estamos aos poucos percebendo a melhor maneira de proceder, buscando as melhores metodologias para essas visitas, de acordo com o perfil de cada público”, explica Paloma Carvalho, que coordena o projeto com Carmem Ribas, pelo Theatro da Paz.

Visita traz motivação aos alunos cegos

Falantes, curiosos, participativos, os alunos da Unidade Educacional Especializada Álvares de Azevedo chegaram alegres e bem humorados e nos deram muitas lições. Eram esperados 20 alunos, mas apenas doze participaram. Os que não saíram da unidade junto com a professora para a visita, não chegaram. 

É muito difícil, sem acompanhante, mas os que foram, aproveitaram muito. Diferente da turma do Smaldone, que tinham mais crianças, os alunos da UEE Álvares de Azevedo, era na grande maioria formada por jovens e adultos, que interagira do começo ao fim da visita, que começou no hall do teatro, quando a equipe de produção se apresenta. 

Carmem Ribas, produtora do Theatro da Paz, fala sobre a programação de concertos com entrada gratuita, e como eles podem ter acesso aos ingressos. “Publicamos no site do teatro a agenda dos concertos sempre um mês antes do período. Chegando aqui vocês serão sempre muito bem recebidos pela nossa equipe”, diz Carmem Ribas. Um dos objetivos do projeto é esse, fazer com que essas pessoas que estão participando das visitas voltem como púbico nos concertos da OSTP e Amazônia Jazz Band. 

Em seguida, ela os convida a tatear uma maquete feita para que eles possam perceber a arquitetura do Theatro da Paz. Eles então são conduzidos por Paloma, que vai falando um pouco da história do teatro que este ano completou 140 anos de fundação. Fala de sua construção, na Bèlle Époque Paraense, dá outros detalhes arquitetônicos, enquanto eles vão tocando cada lado da maquete. Vemos sorrisos. A visita segue adiante.

A cada passo adentro uma emoção diferente toma a ele e a todos nós - funcionários, equipe do projeto, professores da unidade e acompanhantes - cerca de 30 pessoas ao todo. A maioria dos cegos nunca havia entrado em um ambiente de teatro, muito menos conhecido a grandeza do Theatro Da Paz. De falantes na entrada, ao entrarem e tomarem seus lugares, na Varanda, eles fizeram um silêncio respeitoso e acompanharam atentos e emocionados um pouco do ensaio da OSTP. 

Próximo passo foi subir as belas escadas e acessar o salão nobre, o chamado Foyer do Theatro da Paz, onde foram recepcionados por dois violinistas, Igor Amaro e Renan Cardoso, da OSTP, que fizeram uma pequena, mas significativa apresentação para aquele público, que pôde depois tatear e até tocar nos instrumentos.

“Eles estão muito emocionados, essa é uma experiência que com certeza eles vão levar para o resto da vida e está sendo de grande importância para o desenvolvimento de cada um. Eles descobrem um novo mundo com a música e gostam de programações culturais, embora muitos deles não saibam exatamente o que isso significa, justamente porque as iniciativas ainda são poucas”, disse a profesora Rosana Furtado.

Ela reforça a questão que acabou permeando a visita. “A falta visão os impede de ir sozinhos a esses espaços, por isso têm pouca vivencia cultural. Muitos dependem de um acompanhante, mesmo os que têm a técnica da bengala, se sentem inseguros”, encerrou Rosana Furtado.

Acesso aos acompanhantes e audio descrição

Estive pela segunda vez acompanhando uma ação do “Sinfonias de Inclusão”. Desta vez, antes de iniciar a visitação, pude conversar por quase 20 minutos com duas pessoas que já tiveram visão e hoje fazem parte de um grupo seleto que busca garantias de direitos dos portadores de deficiência visual. 

Ednaldo da Silva, 48, perdeu a visão aos 30. Quando ele era vidente fazia teatro. “Fui um dos fundadores da encenação da Paixão de Cristo, realizada todos os anos pela Paróquia de Queluz, no bairro de Canudos”. Sério? “Sim”, me disse com um ar muito sereno e saudoso.  

Na UEE Álvares de Azevedo ele é um dos alunos do curso de musicalização, e está aprendendo a tocar teclado. “A gente está aprendendo, tentando melhorar a cada dia. Tenho base de Musicografia Braille, e já ‘arranho’ o teclado. Sempre me interessei por música, mas trabalhava muito e não tinha tempo, foi só a partir do momento em que perdi a visão, que surgiu essa oportunidade”, diz Ednaldo. 

Yolanda Yoko Miyke, 62, perdeu a visão aos 35. “Eu tenho filhos que estudaram na Fundação Carlos Gomes, mas não moram mais aqui e faço parte do Coral da Unidade com a professora Rosana, estou aprendendo, mas tenho dificuldades de dicção por causa de minha língua também, embora eu ache o meu português até razoável”, comenta.

Ednaldo e Yolanda fazem parte de associações que defendem os direitos do portador de deficiências. “Temos associação e conselhos de defesa de direitos de pessoas com deficiência, em nível municipal, estadual e federal, e também há pessoas se preparando para participar melhor desse tipo de grupos, porque é preciso conhecer bem as leis para atuar nessa área. As leis existem, mas ter obrigatoriedade na execução é o que ainda falta, e para isso acontecer também precisa de um pouco de boa vontade. Tem algumas pessoas pontualmente lutando por isso, mas são muito poucos ainda”, diz Yolanda.

Uma questão importante ficou muito clara nesta visitação. A figura do acompanhante, como item básico de acessibilidade nestas programações culturais e para isso eles pedem que ele também seja contemplado com a gratuidade, ou em casos de eventos gratuitos, tenha autorização para retirar dois ingressos quando há distribuição antecipada, o que facilitaria bastante as coisas para eles. 

“Às vezes tem shows que a pessoa com deficiência tem gratuidade na entrada, mas para um deficiente vir a noite sozinho para um evento é meio complicado, queríamos conversar com a direção do Theatro da Paz para que haja permissão do acesso de um acompanhante conosco, gratuitamente, isso seria bastante importante. Muitos de nós não frequentamos estes ambientes porque não tem essa garantia”, reivindica  Ednaldo.

Yolanda concorda e diz que já tinha ido ao Theatro da Paz algumas vezes e que é sempre muito bem recebida pelos funcionários. “Quanto a isso não tenho queixas”. Ela informa ainda que há alguns espaços já em Belém, que basta apresentar a carteirinha de deficiente ou das associações para a gratuidade do acompanhante. “Mas isso é acordo de cavalheiros, não é lei, como queremos que seja”, reforça.

Outra questão é a presença de áudio descrição nessas programações. Ter rampa, elevador apropriado, gratuidade são itens obrigatórios, nem sempre cumpridos com rigor, mas que não bastam por si, porque ainda que se tenha acesso aos locais de apresentações, é necessário que estas também sejam acessíveis para o entendimento dessa plateia.

Ednaldo lembra que há uma Lei Federal que fala da aplicação da áudio descrição em cinemas, apresentações de teatro, mas isso não acontece. “Infelizmente não há um áudio descritor em nenhuma dessas situações. Algumas TVs trazem esse programa para áudio descrever jornal, novela, mas falta fazer mais”, diz ele.

Os 12 alunos do Álvares de Azevedo, não só esperam como lutam para que essas questões e outras possam ser incluídas na pauta da cidade. No caso deles, a perda visual gera uma dificuldade de interação com o mundo exterior e a música, assim como a arte, o teatro, saber tocar um instrumento, cantar num coral são coisas que ajudam muito. “A gente perde mais o acanhamento, cria mais coragem de se lançar para fora e buscar conhecer melhor o meio ambiente e mundo exterior e isso acaba também ajudando na sua profissionalização, no relacionamento com família, com os colegas”, finaliza Yolanda.

As próximas visitas serão no segundo semestre. Na vez estão moradores de rua e idosos que vivem em casa de apoio. A iniciativa do projeto “Sinfonias de Inclusão” tem realização do Governo do Estado do Pará, por meio da Secretaria de Cultura do Estado e Academia Paraense de Música, e com apoio do Banco da Amazônia. Para maiores informações: 91 4009.8752.

13.6.18

Da Paz recebe alunos cegos do Álvares de Azevedo

O projeto Sinfonias de Inclusão iniciou em maio, recebendo uma turma de alunos surdos do Instituto Felippe Smaldone e hoje (13) recebe a turma da Unidade Educacional Especializada José Alvares de Azevedo, às 9h, no Theatro da Paz.

O objetivo do projeto é oferecer um ambiente de musicalização e arte acessível, capaz de estimular e aguçar diferentes experiências sensoriais em pessoas que têm poucas oportunidades de frequentar concertos, espetáculos e shows em espaços culturais da cidade. As visitas contam com uma metodologia inclusiva própria, a fim de promover o acesso de pessoas com diversos tipos de limitações a um ambiente musical que ainda se faz inacessível para a maioria delas. 

Além da visita guiada com áudio descrição do espaço, os alunos cegos também poderão acompanhar um ensaio da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz e conversar com músicos e com o maestro Miguel Campos Melo. Para entender a estrutura física da arquitetura do prédio eles também terão à disposição uma maquete especialmente construída para atender deficientes visuais.

“Esperávamos há muitos anos em viabilizar a ida deles a algum concerto, mas nunca deu para fechar as agendas direito entre a unidade educacional e a Fundação Carlos Gomes, por exemplo, por onde estávamos tentando. Além do mais é preciso logística para sair com todos eles. Quando o teatro nos procurou ficamos muito felizes”, diz a professora.

Ela diz que entre os demais, pode até haver quem já tenha ido alguma vez ao teatro, mas será inédita audição da OSTP. A falta visão os impede de ir a esses espaços, por isso têm pouca vivencia cultural. “Muitos deles dependem de um acompanhante e isso nem sempre é disponível, mesmo os que têm a técnica da bengala, eles se sentem inseguros para estar nestes ambientes”, continua Rosana Furtado.

Projeto causa expectativas nos visitantes 

Dos 20 alunos que participarão do projeto, apenas Seu Armando, um senhor de 60 anos, conhece o Theatro da Paz. Ele trabalhou na última reforma feita lá nos anos 1990, quando ainda era vidente. Rosana Furtado, professora de música, responsável pelas aulas de musicalização ofertadas no Álvares de Azevedo, diz que esse é um sonho antigo que está se tornando realidade esta semana.

Além de Seu Armando, que é um aluno adulto, também há um outro alunos que está com muita curiosidade em ouvir a Orquestra. Ele é Everton Silva de Deus, 27 anos, que já toca flauta e acaba de ingressar na UFPA, onde está estudando música. “Quero desenvolver um pouco mais e ficar por dentro do que é a música. A minha expectativa é que eu mude o meu jeito, a minha rotina. Em casa a minha relação com a música é de me deixar muito bem, sem a música eu não faço nada”, diz ele.  

É a primeira vez ele vai ouvir a OSTP e está muito ansioso. “Vai ser uma novidade para mim. Nunca fui ao Theatro da Paz. De espaços culturais acho que só fui no Hangar, mas para me apresentar com flauta, numa feira do livro em 2010”, lembra. “Eu nunca frequentei um espetáculo de teatro ou espaços culturais. Ainda é muito raro ter apresentações com audiodescrição e quando tem nem sempre a gente fica sabendo”, reclama o flautista. 

A mediação pedagógico na musicalização

A Unidade Educacional Especializada José Alvares de Azevedo é de referência no Estado para o atendimento da pessoa com deficiência visual. Tem 63 anos de funcionamento. A musicalização sempre esteve presente, mas antes era feita por professores da Fundação Carlos Gomes, de maneira muito técnica, até a chegada de Rosana Furtado que introduziu uma metodologia pedagógica nas aulas. Formada pela UEPA, ela acumula 31 anos de atuação na educação, sendo que 18 dedicados às pessoas com necessidade intelectual e mais especificamente de deficiência visual. É especialista em educação e técnica em musicografia braile.

“Aqui não é uma escola de música, tendo o aluno ou não habilidade, ele é acolhido. Há crianças cegas com problemas de mobilidade, com comprometimento intelectual, ou possuem o espectro do autismo. São muitas as complicações. Quando o caso é só a cegueira já é uma sorte”, comenta. 

As aulas de musicalização se dividem em três eixos, de acordo com a faixa etária, que vai dos 6 aos 70 anos. “Para crianças nós iniciamos a musicalização, que vem a ser a vivencia musical, trabalhamos a oralidade, a dicção, o movimento de expressão corporal, sempre tudo envolvendo o som musical. Temos os brinquedos cantados, como as cirandas, então a música se torna essa ferramenta de socialização da criança cega”, explica Rosana.

As demais turmas incluem os jovens que já se interessam pelas notas musicais. Então é chegada a hora de introduzir a musicografia braile, quando começam a conhecer um pouco mais de música e a trabalhar com um software que os permite ler partituras e a começar a tocar. 

“A musicografia braile permite que seja feita a transcrição das partituras em tinta, aquela que o vidente vê, mas que é possível ser transcrita para o sistema braile. Então a pessoa vai ler o Dó, o Ré e vai poder fazer o solfejo, a sua transcrição. É possível compor também. Tudo que for digitado vai ganhando voz, e quando se prepara o compasso, é possível finalmente tocar o que foi musicado”, explica a professora.

Além de crianças e adolescentes, há ainda a turma de adultos na musicalização do Alvares de Azevedo. “Nem sempre os mais velhos querem aprender música. Então temos as aulas de canto coral, onde eles vão fazer a socialização, aprender a educar a voz, fazer a respiração diafragmática, aprender a cantar e assim vai. Não somos escola de música, mas a gente a oferece como ferramenta que vai trazer qualidade de vida para esse aluno, que é cego”, finaliza Rosana. 

Serviço
Sinfonias de Inclusão recebe alunos da Unidade Educacional Especializada José Alvares de Azevedo. Nesta quarta-feira, 13 de junho, das 9h às 12h, no Theatro da Paz. Mais informações: 91 998033.2162.  A realização do Governo do Estado do Pará, por meio da Secretaria de Cultura do Estado, e Academia Paraense de Música, com apoio do Banco da Amazônia.

8.6.18

"Assim Seja ..." traz o papel do cuidador para cena

“Assim Seja... O Divino High Tech” está em cartaz nesta sexta (8), sábado (9) e domingo (10), às 20h, no Casarão do Boneco, com Sandra Perlin e Maurício Franco, em cena, e Nando Lima, na direção. O ingresso custa R$ 20,00 e R$ 10,00 (meia).

Nem tragédia, nem comédia. "Tem gente que acha o espetáculo triste, mas eu vejo algumas coisas engraçadas”, diz a atriz Sandra Perlin. Maurício Franco interpreta um homem religioso da Umbanda, e ela, uma mulher doente que é cuidada por ele. Os dois vivem uma relação intensa no dia a dia e nas dificuldades em cuidar e ser cuidado. O tratamento é à base de água e ervas.

“É um espetáculo misterioso, porque que tem dia que minha personagem é temperamental. Nem eu sei como ela estará de humor, se vai estar mais impaciente, por exemplo. E quebramos com o estereótipo delicado e feminino do cuidador, que no espetáculo é um homem que tem algumas dificuldades com a delicadeza”, diz a atriz.

Uma prece aos cuidadores, que dedicam tempo enorme de sua vida ao outro, mas que nem sempre ganha reconhecimento por isso, o Assim Seja... surgiu em 2015 de uma observação sobre os cuidadores. “Quando vamos a um velório, o protagonista sempre é  o morto”, diz Sandra Perlin. “Não é comum perguntarmos quem cuidou dele, deu banho, trocou? Quem secou seu sangue e seu vômito, quem trocou suas roupas e penteou seu cabelo? Quem você cuidará e quem cuidará de você?”, reflete.

Sandra Perlin e Maurício Franco formam o grupo B.A.I. – Bando de Atores Independentes. No repertório o B.A.I. tem ainda os espetáculos  “Três”, “Seis Meses” e “Pro Ensaio Geral”, da Trilogia de Mitos. Lembro de ter visto no Maria Silvia Nunes também “O Outro e a Mulher Morta”, que tinha como ponto de partida a obra “Medéia”, um clássico do dramaturgo grego Eurípides. Tinham vários atores em cena, misturava a linguagem cênica com recursos do audiovisual, uma boa equipe técnica por trás, com de Maurício Franco e de Milton Aires. 

“Somos um bando porque sempre convidamos artistas e outros profissionais para somar conosco", diz Sandra."A dramaturgia de Assim Seja... traz, por exemplo, a estética do grupo, mas quem vem dirigir a gente é o Nando Lima. Embora ele amalgame e se una a isso, também insere uma trilha sonora que tem tudo haver com a estética do Reator, que é o seu espaço de criação e atuação”, continua Sandra Perlin.  

"Assim Seja... " conta também com Pauli Baños, na operação da sonoplastia, e o Dudu Lobato, que fez os registros fotográficos e audiovisuais, e a Andrea Rocha, na produção.

Já fez pelo menos cinco temporadas na cidade e volta ao Casarão do Boneco, dentro das Temporadas CDB, projeto dos integrantes do coletivo que utiliza o casarão para ensaios e que buscam escoar suas produções, mas nem sempre conseguem se inserir na estrutura de pautas dos teatros da cidade e encontram no casarão uma possibilidade sustentável de apresentar seus espetáculos.

Desde 2014 o Casarão do Boneco vem se firmando com atividades regulares abertas ao público, programações das mais variadas: oficinas, espetáculos, rodas de conversa, residência artística, workshops ocupando seus diferentes espaços.  Ao todo são mais de 40 artistas entre atores, iluminadores, contadores de histórias, produtores, designer, fotógrafo, dançarinos, bonequeiros, uma polivalência artística que alimenta a casa. 

Serviço 
Temporadas CDB. Ingressos 20 reais (inteira) e 10 reais (meia-entrada). No Casarão do Boneco (Av. 16 de Novembro- 815, entre Veiga Cabral e Pça. Amazonas). Assim Seja, o Divino High Tech (Bando de Atores Independentes). Dias 08,09 e 10 de Junho, às 20h - Classificação: 16 anos.

Da Tribu ganha + um prêmio e acelera os negócios

Kátia e Tainah, na premiação (Foto: Déborah Rodrigues)
Foi em maio, mas estamos em tempo de comemorar. Kátia Fagundes e Tainah Fagundes receberam mais um prêmio o Pandora Mulheres Empreendedoras pelo trabalho desenvolvido com a Da Tribu, marca de moda que produz brincos, colares e pulseiras, entre outros itens, com uma característica própria, utilizando matérias-primas e saberes da floresta.

“A Da Tribu está cuidando dos negócios olhando para dentro”, diz Tainah Fagundes, filha e principal aliada de Kátia Fagundes.  Enquanto uma cria e experimenta materiais, a outra cuida da comunicação e da prospecção de novos mercados. O negócio conta ainda com cinco prestadores de serviço, que ajudam na montagem das peças.  

Criada em 2009, não é a primeira vez que a Da Tribu ganha um prêmio. Em 2016, foi selecionada entre diversos concorrentes de todo Brasil, como uma das 100 melhores unidades produtoras de artesanato do país. Ganhou selo Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato - 4ª Edição, e teve divulgação nos sites do Sebrae Nacional e da região, num CD promocional e no catálogo.  

Agora com o Prêmio Pandora Mulheres Empreendedoras, a Da Tribu vai aprimorar a gestão de seu modelo de negócio e se consolidar nacionalmente como uma empresa que impacta positivamente o mercado da moda. Kátia Fagundes está passando uma temporada lá, participando de diversos cursos e mentorias, concedidos pela premiação e que vão acelerar os negócios da marca. 

“Além do programa de aceleração, vem aí novas parcerias que ainda estão sendo fechadas”, diz Tainah Fagundes. “Empreender é um ato de coragem”, afirma. “Mesmo que o medo exista, porém, acredito que temos que nos jogar, pois é caminhando que nosso sonho se torna realidade”, comenta a produtora cultural e empresária que partiu ainda em 2017 para São Paulo, onde reside atualmente. 

A criação, a floresta e produção sustentável

Na loja Morada, que abriu até 2017
Os ítens produzidos pela Da Tribu são feitos de materiais sustentáveis. Brincos, colares e pulseiras entre outros acessórios. A madeira vem das sobras de fábricas de móveis. O látex, adquirido de famílias assentadas em uma reserva extrativista, que utilizam os recursos da floresta sem agredir o ambiente. Além das matérias primas, a linha de produção, que emprega tecnologias indígenas, o processo conhecido como encauche, que utiliza o látex para impermeabilizar fios de algodão.

Aprimorar os produtos, compartilhar ideias e expandir os negócios. A produção das peças continua sendo feita em Belém, mas desde abril, que o ponto de distribuição da marca passou a ser por São Paulo. “A entrega para nossos clientes fica mais viável, facilita esse atendimento, melhoram os custos”, diz Tainah Fagundes, que também reconhece algumas fragilidades que precisam ser superadas.

“A manutenção das vendas online ainda faz parte de alguns dos desafios a superar, vamos melhorar o uso das ferramentas digitais para alcançar mais pessoas. Estamos avançando e muito focadas no crescimento do nosso sonho”, conclui.

E quem quiser encontrar os acessórios Da Tribu em Belém, fica sabendo que a Kátia Fagundes está presentes nas edições do Circular Campina Cidade Velha, na sede da Fotoativa, que fica na Praça das Mercês. E há peças exclusivas também no Polo Joalheiro e pelo Brasil http://datribu.com/?p=1839. “Temos também alguns pontos parceiros que podem ser acessados em nosso site, além do e-commerce da marca”, explica Tainah. 

Os recursos do prêmio Pandora Mulheres Empreendedoras foram obtidos com a venda do livro Você é Incrível, um projeto da Editora MOL e da Pandora. A publicação ainda está à venda. Parte do valor que você paga é doada à Rede Mulher Empreendedora, que ajuda milhares de brasileiras a construir uma vida melhor abrindo a própria empresa. 

Para saber mais:


7.6.18

A sexta tem gosto de África Na Casa do Artista

O Espaço Na Casa do Artista é um lugar de trocas de saberes e experiências diversas no campo da arte, em Icoaraci. “Diário de Viagens à Cabo Verde” vem afirmar isso e traz as experiências do músico Naldinho Freire e da turismóloga Auda Piani, em terras africanas. Nesta sexta, 8, eles compartilham com o público as vivências que tiveram na África. Tudo regado a milho, tucupi, tapioca e audição do show “sem chumbo nos pés”. O ingresso custa R$ 40,00.

Naldinho Freire mantém um diálogo permanente com Cabo Verde e ao ser convidado novamente, este ano, a participar do Atlantic Music Expo - AME, um dos maiores festivais da África, com cerca de 40 países participantes, o músico paraibano radicado em Belém, estendeu o convite também a Auda Piani, Dan Bordallo, ambos do Pará, e ainda Ymaraz Ameida, contadora de histórias, que vive no Rio de Janeiro.

Durante as comemorações dos 101 anos do Tarrafal no dia 25 de Abril, Naldinho Freire e Dan Bordallo realizaram mais uma apresentação, os tarrafalenses assistiram ao “sem chumbo nos pés” no Mercado de Artesanato. "A ida a Cabo Verde em 2018 tem uma nova configuração, porque partiu da Região Norte. Venho desenvolvendo esse intercâmbio desde 2005, mas a partir do Nordeste. Estive lá em 2017, já residindo aqui e coloquei para os gestores que a partir daquele momento a gente inseriria nova região nas ações", diz Naldinho.

Em 1995, o músico levou o show Lapidar (LP) para capitais do Brasil e países da Europa. Depois iniciou um período de participação em festivais no Brasil. Naquele mesmo ano retoma as gravações fonográficas com o CD Viadante, em 2006 o CD Raízes e a participação no CD Sound of Alagoas lançado em Berlim/GER por ocasião da PopKomm.

Entre 2008 e 2010 realizou tournée na África, por Ilhas de Cabo Verde, na França, em Portugal e na Holanda. Nesse período gravou o DVD Raízes: traços contemporâneos, fruto de sua pesquisa na música de tradição oral do Nordeste. Em maio de 2011 assumiu a representação da Fundação Nacional de Artes (Funarte/MinC), para as Regiões Norte e Nordeste do Brasil, permanecendo até dezembro de 2016.

Atualmente dedica-se ao concerto: “sem chumbo nos pés”, que estreou no Recife/PE em janeiro de 2017, percorreu cidades brasileiras e caboverdianas; traz canções inéditas compostas com vários parceiros, num diálogo entre a poesia, o violão, a música eletrônica e informações musicais diversas, acumuladas por Naldinho Freire em mais de 30 anos de fazer artístico.

Um pouco da ancestralidade da cozinha africana

Auda Piani Tavares é turismóloga e possui uma vasta pesquisa na área de Patrimônio Imaterial e Saberes Tradicionais. Para Cabo Verde, ela levou sua experiência com o projeto "Entre Panelas, Memórias e Sentidos” e vivenciou a cozinha africana em Tarrafal, a tradição do terra-terra (comida caboverdiana), preparou um frango com tucupi e realizou uma palestra na Universidade de Santiago para os estudantes do curso de Ecoturismo.

“Experimentei lá, a massa de milho e o Xerém. Fizemos algumas trocas de saberes, levei para cozinhar, o tucupi e a mandioca, elas trabalhavam o milho. Eu fiz o frango no tucupi, da forma que faço, deixando o frango de molho, fervendo o tucupi na lenha. Elas fizeram um cuscuz, com o milho em flocos e usaram uma vasilha de barro, eu fiz as broinhas de farinha de tapioca, tomamos um café após o almoço. Elas não conheciam nem a farinha d’água e nem a de tapioca”, comenta Auda Piani.

“Faz algum tempo que eu desenvolvo o projeto Entre Panelas, Memórias e Sentidos, onde faço a relação do cozinhar com a ancestralidade. Quando comecei a minha pesquisa, reunia mulheres para cozinhar e trocar experiências. Trocávamos receitas e falávamos de coisas do feminino, de nossas historias de amor. Era um grupo restrito, e depois começou a ampliar. Mas eu tinha dentro do projeto outras vertentes, de fazer contato com pessoas que produzissem alimentos de forma ancestral", conta a pesquisadora.

Ela já havia mergulhado na cultura ancestral da culinária de etnias indígenas. A viagem à Cabo Verde lhe trouxe uma nova oportunidade, de conhecer um pouco mais de perto a ancestralidade da cozinha africana. "Nós temos uma visão da África meio resumida nessa questão da cozinha africana, sempre relacionada com a questão religiosa. Cozinhar com mulheres africanas foi uma experiência  maravilhosa", relata.

Auda Piani tem livros publicados e é premiada com o projeto “A Memória na Fala dos Mestres de Cultura de Icoaraci", que resultou no livro Mestres da Cultura e os documentários Arte de Mestre (Cerâmica), Brincadeira de Mestre (folguedos), Música de Mestre (Carimbó) e Festa de Mestre (festas religiosas populares). Atualmente, trabalha como produtora do espaço Na Casa do Artista. 

Serviço
Diário de Viagem a Cabo Verde com Auda Piani e Naldinho Freire
Ao sabor africano (Xerém, Massa de Milho e Arroz de Marisco)
Show “sem chumbo nos pés” 
(apresentado no Atlantic Music Expo – AME/2018 – Cabo Verde)
Local: Na Casa do Artista
End. Rua Pe. Julio Maria (3ª Rua de Icoaraci, 163)
Tel. + 55 91 3247 2813/ 98092 9392
Ingresso do show com menu degustação, R$40,00

Acesso à produção acadêmica em debate na UFPA

A Universidade Federal do Pará (UFPA) sedia nesta sexta-feira, 8 de junho, o Fórum Brasilianas Desenvolvimento Regional Includente e Sustentável. O evento traz uma série de painéis sobre o tema ao longo da manhã e da tarde, e é promovido pela Universidade em parceria com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). As atividades ocorrerão no Centro de Eventos Bendito Nunes, Campos Básico – Guamá.

O Plataforma Brasilianas é uma plataforma online para agregar produções acadêmicas e propostas para o desenvolvimento do país, com tratamento jornalístico, tendo como denominador a redução da desigualdade. Essa é a missão da plataforma Brasilianas, coordenada pelo Jornal GGN, contando com a adesão da ABPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais do Ensino Superior) e PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica)

Estruturado em forma de camadas, a Plataforma Brasilianas divide as principais questões que envolvem o desenvolvimento do país em oito grandes editorias: Direitos, Política Econômica, Desenvolvimento, Democracia, Competitividade, Geopolítica, Reforma do Estado e Catching-up (termo emprestado do inglês para designar quando nações menos desenvolvidas alcançam países de ponta). Cada grande editoria, por sua vez, é subdividida em editorias menores formando, assim, a Árvore Brasilianas, reunindo artigos, vídeos e entrevistas em uma mesma plataforma, sem a pretensão, é claro, de esgotar as formulações vinculadas às políticas públicas.

"A nossa proposta é ampliar para o público em geral o acesso a relatórios e trabalhos desenvolvidos dentro das universidades e centros de pesquisa. O portal não tem objetivo de competir com nenhum outro projeto de políticas públicas em andamento, pelo contrário, queremos ser uma plataforma onde possam conviver todas as discussões que estão sendo fomentadas e que, muitas vezes, acabam morrendo por falta de visibilidade e troca de ideias", destaca Luis Nassif, idealizador do Brasilianas.

Entre os palestrantes estão o Reitor da UFPA, Emmanuel Tourinho, o Coordenador Geral de Elaboração e Avaliação dos Planos de Desenvolvimento da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), Adagenor Lobato Ribeiro, além da Secretária-Adjunta de Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Profissional e Tecnológica do Governo do Pará, Maria Amélia Enriquez; o professor da Universidade Federal do Pará no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), Francisco de Assis Costa; a responsável pela implantação do Programa de Ação Afirmativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Zélia Amador de Deus; a professora do NAEA/UFPA, Edna Castro.

Serviço
Fórum Desenvolvimento Regional Includente e Sustentável
Data: 08 de Junho
Local: Centro de Eventos Benedito Nunes, Av. Augusto Corrêa, 01 - Guamá, Belém - PA, 66075-110
Horário: das 9h30 às 16h10
Inscrições: brasilianasforuns@gmail.com 
Terá emissão de certificado digital

(Com informações do Jornal GGN. Foto: ASCOM UFPa)

Centro Histórico: luz no fim do túnel ou eleições?

Praça do Carmo (Foto: Luciana Medeiros, 2018)
A Praça do Carmo está gramada, pintada e limpa. Já viu? Ainda não é uma recuperação consistente. O busto de Dom Bosco embora tenha sido lavado demonstra sinais de desgastes, precisa de restauro, e as calçadas também estão danificadas ao redor. Um vídeo divulgado pela prefeitura de Belém mostra outras revitalizações sendo feitas nas praças Frei Caetano Brandão e Dom Pedro II.

Diante da situação grave em que se encontra o centro histórico de Belém, foi uma grata surpresa ver, ontem de tarde, que a Praça do Carmo está recebendo cuidados e que para não voltar ao estado anterior vai precisar receber manutenção também. Há muitos anos que ela amargava o abandono completo, numa situação crítica.  O mínimo necessário está sendo feito, mas e o resto? O vídeo da prefeitura me levou às reflexões que há muito venho fazendo.

Naquela área também estão a Praça do Relógio, a Praça da Trindade (Barão do Rio Branco) e a Pracinha da Igreja do Rosário, além da Praça das Mercês, das que de imediato me lembro. São espaços de história, lazer e cultura, mas principalmente as praças tem um papel agregador de convivência para moradores, trabalhadores e visitantes.

Verde Cidadão, na praça do Largo São João - Cidade Velha
(Foto/projeto Verde Cidadão)

O vídeo feito pela prefeitura sobre a revitalização das praças chama atenção para uma coisa importante. De que é preciso que as pessoas também cuidem desse patrimônio e dos entornos de onde moram. 

Não jogar lixo nas vias públicas e respeitar o espaço do outro é um bom começo. Nem todos têm essa consciência, mas é bom saber também que a sociedade civil também não está de braços cruzados, vem fazendo a sua parte se organizando e desenvolvendo projetos que somam esforços para garantir a todos o Direito à Cidade.


Moradores e público ocupam espaços públicos

Ação de moradores na Praça das Mercês (Foto: Associação
Amigos de Belém)
No último domingo, 3 de junho, durante a realização do 22º Circular Campina Cidade Velha, vários desses projetos ocuparam as ruas, inclusive uma pracinha bastante esquecida que fica no Largo São João, ao lado da igrejinha.  Foi lá que o projeto Laboratório da Cidade realizou uma manhã de lazer para a criançada, e os instrutores do Bike Anjo ensinavam a molecada a pedalar e poluir menos o ambiente.


Teve ação do Verde Cidadão, que plantou mais de 200 mudas e ainda a Rede Solidária de Sustentabilidade e Segurança da Cidade Velha realizou coleta de lixo. Na Campina, a Associação Amigos de Belém também realizou uma ação ambiental com fotografia e coleta de lixo, na Praça das Mercês. 

No Mercado do Sal, o Coletivo Aparelho fez Mostra de Contação de Histórias trazendo para a plateia crianças e adultos residentes nas comunidades que ficam no entorno do Porto do Sal. Um trabalho de aproximação e envolvimento que vem se intensificando cotidianamente, em diversas outras ações, como a criação da Biblioteca do Porto, as oficinas de flauta doce e de capoeira, esta última ocupando, olha aí, o anfiteatro da Praça do Carmo.

Registro da visita ao Arquivo Público, prédio restaurado.
Foto: Marcos André/Roteiros Geo Turísticos
Do ponto de vista da educação patrimonial, os projetos Bike Tour e o Roteiro Geo Turístico também vêm fazendo uma diferença enorme não só no centro histórico ou dentro do Circular, mas em vários outros bairros de Belém, como Batista Campos e São Brás e estuda outros para em breve colocar em prática. Esta ação desperta não só a consciência patrimonial, como também traz referências históricas e culturais para quem participa.

Posso citar ainda as Associações de Moradores e Comerciantes da Campina, que tem promovido algumas ações de revitalização na pracinha da Igreja do Rosário, reúne a comunidade, dialoga com a polícia, e dos Micro Empreendedores do Beco do Carmo. Ah e te a novíssima iniciativa da Rede Sereia, formada por moradores da Cidade Velha. Além de realizar ações como a Feira Movimenta e o Sereia na Rua, cinema ao ar livre que estreou nessa última edição do Circular, na Rua Gurupá, o movimento busca retomar as relações de vizinhança no bairro.

Deixar as praças limpas e bem cuidadas é um dever de qualquer administração pública municipal, mas tudo se torna um detalhe quando se pensa de maneira mais ampla sobre o centro histórico de Belém. Uma das reivindicações da Rede Sereia, por exemplo, é a atenção ao Palacete Pinho, outro prédio monumental, tombado, que está abandonado e sem uso público.

Patrimônio arquitetônico e histórico em agonia

Palácio Antônio Lemos,
(Foto: Luciana Medeiros/Holofote Virtual)
Uma questão bem séria é a do patrimônio arquitetônico público. São raríssimas as exceções tanto na esfera particular quanto na pública. Tem muita coisa prestes a desmoronar.

Há cerca de 200 casarões em situação de risco por terem sido abandonados pelos donos, segundo dados da própria Fumbel, que na administração pública é responsável por um prédio tombado, o Palácio Antônio Lemos, e que abriga o Museu de Arte de Belém, cujo acervo soma 1600 peças, entre pinturas, mobiliários, esculturas e fotografias. Um valioso patrimônio público da cidade, cuja história é contada pela perspectiva das artes, mas que atualmente está inacessível.

Entrei pela última vez lá em março, um ano depois de um incêndio que atingiu salas e documentos, e a situação é a mesma. Nesta visita, apenas uma das galerias estava funcionando, no térreo. A ala superior atingida pelo fogo provocado por um curto circuito segue interditada ao público. 

Em 2017, após o sinistro, no dia 9 de março, foram realizadas ações emergenciais para evitar os fungos nas publicações. Na época conversei com a presidente da Fumbel, Eva Franco para uma reportagem que foi publicada na Revista Circular (Set./Out. 2017).

Ela recebeu, no dia seguinte ao ocorrido, os funcionários do museu que foram solicitar providencias e recursos necessários pra a recuperação do acervo bibliográfico e de todo o acervo exposto nas Salas do andar superior que ficaram cobertos e sedimentados de fuligem da fumaça negra tóxica, mas nada foi feito. E estes vestígios continuam lá até hoje, inviabilizando o uso público do prédio.

Cerimônia da prefeitura, no MEHP
(Foto: Luciana Medeiros/Holofote Virtual)
É tão caótico o estado do prédio que a cerimônia de posse dos conselheiros do Conselho Municipal de Cultura, no dia 11 de maio, não pôde ser lá, o que seria natural, e foi realizada no Palácio Lauro Sodré, um belo prédio também e mais conservado, que abriga o Museu do Estado, o MHEP.

O Antônio Lemos também abrigava a sede municipal, onde sempre esteve o gabinete do prefeito, hoje alocado na sede de outro órgão público municipal. 

Esse tipo de mudança, aliás, me lembra a situação da Fumbel, órgão diretamente ligado à política cultural do município e que está sediada, por tempo indeterminado, no Memorial dos Povos, se expandindo para o Palacete Bolonha. A mudança se deve à destruição do prédio histórico que era próprio da fundação, situado no Complexo Feliz Lusitânia, que em 2015 começou a dar muitos problemas estruturais. 

Numa chuva daquelas fortes o prédio inundou, depois o teto desabou. Em 2016 sofreu um princípio de incêndio e ponto final. Está lá abandonado, completamente abandonado, mas agora sob a tutela do Estado, até onde sei, que contava com o espaço para integrar o Pólo Gastronômico, um projeto que já gerou muita polêmica na cidade.

A solução para a Fumbel foi transferi-la para o Memorial dos Povos, um espaço criado para ser de acesso público à cultura. Havia ali uma exposição permanente em homenagem aos japoneses, libaneses, portugueses, portugueses, italianos, povos que migraram para o Estado do Pará. E na área externa, ainda está lá o anfiteatro, que deveria ser utilizado para eventos culturais.

Então, voltando às praças, dar aquela maquiada com pintura e limpeza é o básico, ajuda, mas não basta. Saindo da Praça do Carmo e caminhando em direção à Campina, vemos que outras urgências de anos e anos gritaram aos olhos.  Calçadas quebradas, muito lixo espalhado. 

Diversos prédios estão depredados, no entanto, há outra questão. O quesito número um nas queixas de quem vive o centro histórico de Belém é a insegurança, o que não é “privilégio” dos bairros históricos, a cidade toda vive ondas de violência. Como trabalhar tudo isso, que políticas o públicas devem ser implementadas para viabilizar aquela área histórica em suas funções primordiais, ligadas a história, à cultural, patrimônio e turismo? Há salvação para o Centro Histórico de Belém? 

A aquisição do prédio dos Mercedários pela UFPA trouxe esperança. A instituição vai implantar ali cursos de restauros entre outras ações que se conectarão com o entorno dos bairros da Campina e Cidade Velha. Outra ação importante será a realização de um Fórum, organizado pelo projeto Circular Campina Cidade Velha, convidando a sociedade civil, iniciativa privada e governo a um debate produtivo sobre o Direito à Cidade,  aprofundando essas e outras questões tão urgentes e necessárias.

6.6.18

Espetáculo conta Luís Câmara Cascudo em Belém

"Livramento conta Cascudo” traz à cena histórias do folclorista e escritor Câmara Cascudo. A estreia é nesta quarta-feira, 6, às 20h30, na sala Benedito Nunes do Hangar, dentro da programação da 32a Feira Pan Amazônica do Livro. Haverá também apresentações dias 9, 10 e 13, em outros espaços e Conceição Campos conta tudo aqui no blog. 

A contação de história voltou a ser uma prática constante na cena cultural das cidades brasileiras e também em outros países. A mim faz lembrar dos tempos em que minhas tias contavam histórias enquanto nos embalavam numa rede, tardes chuvosas, mas ilustradas pela imaginação. As histórias também estavam no teatro. Vi o "Rapto da Cebolinha" nos anos 1970 no Theatro da Paz e isso ficou na minha memória, o teatro e o gosto pela oralidade vieram desse jeito para a minha vida. 

O espetáculo "Livramento conta Cascudo" une a oralidade à encenação para contar histórias e certamente permite uma bela experiência para os pequenos que estão na plateia. Premiado pelo Edital Paixão de Ler (RJ), foi concebido e é encenado pela atriz e escritora Conceição Campos,  paraense que vive há muitos anos no Rio de Janeiro. Quem não conseguir ir até a Feira Pan Amazônica, nesta quarta-feira, 6, ainda terá outras chances para ver, também com entrada franca.

“Serão três apresentações com características adequadas a cada espaço. Depois de nos apresentar no auditório Benedito Nunes, dentro daquele ambiente imenso do Hangar, que atende o grande público, estaremos no auditório do Sesc Boulevard (dias 9 e 10, às 11h), que é um espaço bem menor, haverá duas apresentações: uma delas com Libras e audiodescrição para pessoas com deficiência visual e auditiva – um sonho antigo meu! Para fechar, faremos uma apresentação mais intimista no Teatro Universitário Cláudio Barradas (dia 13, às 18h30), aí usando todos os recursos que são próprios do teatro”, comemora Conceição. 

A atriz nasceu em Belém, onde morou até quase 15 anos de idade, quando se mudou para o Rio de Janeiro, em 1985. Acompanhou o pai foi fazer Mestrado na capital carioca, mas quando a família voltou para Belém, ela resolveu ficar, e logo conheceu e se casou com o músico Pedro Amorim, com quem tem dois filhos, e que assim a trilha original desse espetáculo. NO Rio de janeiro cursou jornalismo na UERJ, mas acabou se enveredando pela pesquisa, pelo teatro e mergulhou na literatura, já nos anos 1990. As atividades de atriz como atriz são mais recentes, a partir de 2012. 

Desde 2008, mora em Paquetá, um bairro-ilha do Rio, conhecida também pelo romance “A Moreninha”, de  Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844. Foi lá que nasceu Livramento, a personagem-narradora que tem um livro na cabeça e conta histórias da vida e da obra de autores brasileiros como Manoel de Barros, Ariano Suassuna e, muito especialmente, do escritor e folclorista Luís da Câmara Cascudo, que agora chega a Belém.

Foi também em Paquetá que ela e Pedro fundaram a Engenho Produções, para desenvolver trabalhos e projetos com mais autonomia. Entre 2008 e 2011 Conceição ingressou na dramaturgia, escrevendo três espetáculos de trilogia musical sobre a ilha de Paquetá, em parceria com os compositores João Guilherme Ripper, Edino Krieger e Villani-Côrtes (Casa de Artes Paquetá/Petrobras). Também lançou a biografia “A letra brasileira de Paulo César Pinheiro (416 p., finalista do Prêmio Jabuti 2010).

Pedro tem no bandolim o instrumento principal, mas toca cavaquinho, banjo, violão e violão tenor. O músico está presente na história da música brasileira como instrumentista e compositor, em discos e shows de artistas como Elizeth Cardoso, Chico Buarque, Francis Hime, Hermínio Bello de Carvalho, Zé Renato, Moacyr Luz, Dona Ivone Lara, Nei Lopes, Altamiro Carrilho, Turíbio Santos e muitos outros. 

E como compositor, ele tem parcerias com Paulo César Pinheiro, Nelson Sargento, Maurício Carrilho, Wilson Moreira e Délcio Carvalho, muitas delas gravadas por intérpretes como Maria Bethânia, Roberta Sá, Ney Matogrosso, Naná Vasconcelos, Teresa Cristina, Pedro Miranda e Ilessi. Juntos, formam uma dupla interessada em realizar seus sonhos, trabalhar com o que se gosta.

O espetáculo “Livramento conta Cascudo” viaja com pretensão de chegar a vários estados do Brasil. “Agora que já conseguimos chegar na minha terra, vamos batalhar especialmente para chegar em Natal – terra do Cascudo”, diz Conceição Campos, que aproveitando para ficar uns dias com a família, ontem passeava entre livros na Feira Pan Amazônica, sentindo-se mais em casa ainda.  

Ao mesmo tempo, Conceição e Pedro também já pensam em um projeto novo: a publicação de três livros de contos que sairão pela Engenho. Premiadas com a Bolsa de Criação Literária da Funarte, as histórias estão sendo ilustradas pelo artista plástico Yuri Reis e vão compor a coleção À luz do Candeeiro - contos de assombrações amazônicas e medos fabulosos. “Projeto pra trazer pra feira Panamazônica em 2019”, diz a atriz. Leia mais no bate apo a seguir.

ENTREVISTA

Holofote Virtual: Câmara Cascudo sempre te fascinou? 

Conceição Campos: Mana, Câmara Cascudo é um caso muito sério. Daqueles escritores que, uma vez que a gente conhece, dispara: “- Como pude viver sem isso?” Ele mistura, como poucos, a erudição e leveza, conhecimento e beleza. Sua grande sensibilidade é movida por uma curiosidade de menino e um interesse genuíno pela nossa humanidade. E como escreve bem! É um brasileiro que nos oferece, em seus mais de 200 livros, um país apaixonante a ser descoberto. Ele é extraordinário, pra dizer o óbvio.

Holofote Virtual: Como tem sido a repercussão do espetáculo em outras cidades? 

Conceição Campos:  Livramento conta Cascudo se mostrou um espetáculo realmente livre: livre de rótulos. Durante as temporadas a gente foi percebendo que as crianças adoravam, mas que também tinha adulto se emocionando. Teve dias de só ter adulto na plateia – o que, diante do apelo da figura da Livramento, foi uma boa surpresa pra gente. 

É que falar de Cascudo é falar de todos nós. É falar da riqueza da nossa cultura popular, é falar de um sertão, de uma floresta e de um rio que moram dentro da gente. Recontar as histórias que o Cascudo recolheu da boca do jangadeiro e do cantador é carregar o público para o colo de uma avó, de um pai, de um amigo, e isso ultrapassa o sentido de idade.  Se a história for de enganar a Morte, então... aí o mistério pega todo mundo, de cabo a rabo, não escapa ninguém!

Holofote Virtual: Cascudo não curtia a palavra folclore. Como você vê isso?

Conceição Campos: Eu entendo ele perfeitamente. Há (e parece que sempre haverá) uma desqualificação na palavra folclore, e era isso que ele rejeitava. Luís da Câmara Cascudo conhecia a fundo a sofisticação que sempre brotou em profusão das manifestações culturais do chamado Brasil profundo. Ele via ciência na sabença, nobreza na pobreza, e via a arte nas mãos do povo. Por isso dizia:  “- Eu sou um brasileiro feliz.” 

Holofote Virtual: Como você vê essa retomada dessa oralidade e o casamento da contação de histórica com o teatro? 

Conceição Campos: Eu sempre fui muito ligada em história, literatura, teatro. Certa vez, assistindo o seriado Hoje é dia de Maria, me deparei com um personagem muito curioso, que era um Dom Quixote com cabelo de livro. Na hora pensei: - Isso daria um belo projeto de incentivo à leitura. Tempos mais tarde nascia a Livramento, como uma prima daquele Chico Chicote, e o trabalho com leitura em escolas, bibliotecas e praças  passou a ser o meu trabalho principal. Daí em diante a Livramento tomou conta da minha vida, e eu passei a escrever pra ela.

Como ela já nasceu com um apelo cênico – presente na cabeleira, no figurino –, os contratantes começaram a colocar o trabalho no palco. Daí, em vez de fazer uma contação pra 30 crianças, passei a fazer pra 300, 400. Foi quando vi que ia precisar entender melhor o teatro e me preparar pra ele. Convidei o ator e diretor Gustavo Guenzburger que, com imenso talento, inteligência e sensibilidade, conduziu essa mudança de linguagem da contação para a encenação. 

Trabalhamos duro por um bom tempo até chegar num formato de espetáculo musical, com uma trilha sonora muito brasileira, feita por Pedro Amorim especialmente pra esse trabalho. Juntamos a oralidade da contação de histórias e de muitas outras manifestações da cultura popular com a mágica do teatro. E tudo isso falando da vida e da obra do grande Câmara Cascudo. Foi um casamento mais que perfeito.

Holofote Virtual: Quais as tuas referências por aqui no sentido da arte, cultura e outras belezas amazônicas? Tens esse contato com o circuito artístico de Belém? 

Conceição Campos:  A relação com a minha cidade e região é muito forte. Hoje eu percebo que em tudo que trabalhei estava procurando a minha terra. Quando escrevi sobre o letrista Paulo César Pinheiro (que é parceiro de meio-mundo e também do compositor paraense Paulo André Barata), estava procurando a minha terra. 

Quando fui estudar o Cascudo estava interessada nos bois, nas marujadas, nas lendas, porque precisava entender a minha terra. Quando fui morar numa ilha no fundo da Baía de Guanabara, fui porque me senti mais próxima das canoas da minha terra. E quando a Livramento surgiu, a viagem de batismo dela foi pro Marajó, foi contar história pros pequenos lá de Joanes. 

Holofote Virtual: Já fizeste um bocado de coisas bacanas nas áreas da literatura e teatro,entre eles um trabalho com a obra de Paulo César Pinheiro. Fala um pouco dessas realizações. 

Conceição Campos: Depois de desistir da carreira jornalística (não dei conta da correria), eu me bandeei para o lado da universidade pensando em estudar literatura brasileira. Sempre atraída pela cultura popular, acabei escrevendo a biografia do letrista Paulo César Pinheiro, um trabalho que ocupou mais de dez anos de pesquisa e ficou entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti de 2010. 

Em paralelo, fazia verbetes para os dicionários do Instituto Antônio Houaiss, quando surgiu Paquetá e uma grande mudança de endereço e de vida. Na ilha, um convite da Casa de Artes logo me levou para a dramaturgia. Escrevi três musicais em parceria com três grandes compositores da nossa música erudita: João Guilherme Ripper, Edino Krieger e Villani-Cortes.  

Patrocinados pela Petrobras e executados pela Orquestra de Meninos-Atores formados na Casa de Artes, esses espetáculos me arrebataram na direção da arte-educação, e comecei a aprofundar o trabalho com projetos de incentivo à leitura para crianças de vários pontos do país. Levando em conta que eu comecei a gostar de escrever ainda bem menina, acho que, no final das contas, a escrita permeou tudo o que fiz e o que faço até hoje.

PROGRAME-SE

“Livramento conta Cascudo”

Hangar Centro de Convenções / Auditório Benedito Nunes 
Endereço: Av. Doutor Freitas, s/n – Marco - Belém / PA 
Data: Quarta-feira, 06 de junho de 2018 
Horário: 20:30
Entrada franca 

Cine-Teatro do Sesc Boulevard - com Linguagem de Sinais
Endereço: Av. Boulevard Castilhos França, 522/523 – Campina - Belém / PA 
Datas: Sábado 09 e domingo 10 de junho de 2018 
Horário: 11h 
Mais detalhes e agendamento: (91) 3224 5305. 
Entrada franca 

Teatro Universitário Cláudio Barradas 
Endereço: Rua Con. Jerônimo Pimentel, 547, Umarizal - Belém / PA
Data: Quarta-feira, 13 de junho de 2018 
Horário: 18:30h 
Entrada franca