19.8.14

Mestre Vieira e o Sotaque da Guitarra na TV Brasil

Entre os dias 03 e 07 de novembro do ano passado, a equipe do programa “Visceral Brasil – as veias abertas da música” veio ao Pará. Gravou um episódio sobre e com Mestre Vieira. Além dele, foram ouvidos músicos e pesquisadores da guitarrada. O resultado dessas gravações será exibido quarta-feira, 20, às 23h, com reprise no sábado, às 22h, pela TV Brasil (via TV Cultura do Pará). E aqui no blog você fica sabendo um pouco mais sobre este trabalho, na entrevista do blog com a documentarista Márcia Paraíso, responsável também pelo roteiro e direção do episódio.

Este ano Mestre Vieira vai completar 80 anos. Tem disco novo, de músicas inéditas, para ser lançado, em outubro, se tudo der certo, pela gravadora Na Music, com produção independente. Chama-se “Guitarreiro do Mundo” e foi gravado com os mesmos recursos com que foi feito o “Guitarrada Magnética”, que reúne os mais recentes sucessos do guitarrista, em Barcarena em um estúdio simples. Além disso, o DVD 50 Anos de Guitarrada – Ao Vivo no Theatro da Paz está na rua, pode ser encontrado nas lojas Na Figueredo e Fox Video.

A história de vida e obra de Joaquim de Lima Vieira vem despertando interesse de diversos documentaristas que já vieram ou estão por vir ao Pará, interessados em sua música. No ano passado, além da equipe do programa Visceral, também esteve em Belém e Barcarena, a produtora Plural Filmes, que produziu o “Ritmos do Pará”, programa exibido no Canal Bis/Multishow, abordando a música paraense em geral, destacando também a guitarrada. Fiz a produção local do programa, o que acabou rendendo uma entrevista para o Holofote Virtual..

Antes disso, em 2012, foi a vez de Charles Gavin, baterista dos Titãs, gravar aqui várias entrevistas, entre elas uma com Mestre Vieira que encabeça e se destaca no capítulo especial sobre a guitarrada. O músico e apresentador do “Música Adentro”, exibido pelo canal Brasil, chegou a usar imagens inéditas do longa documentário que estou finalizando sobre a trajetória do Mestre, intitulado “Coisa Maravilha”.

Esta semana, uma outra equipe de audiovisual do país está por aqui. A produtora  Miração Filmes, que produziu a série sobre sanfoneiros no Brasil, destacando a trajetória de Dominguinhos, agora quer saber do sotaque criado por Vieira para a guitarra.

Tudo isso porque Mestre Vieira põe em cheque opiniões mais convencionais sobre a impossibilidade de popularização da música instrumental no Brasil, como disse Márcia Paraíso, do Visceral Brasil, figura admirável, que tive o prazer de conhecer e acompanhar em dois dias de gravação em Barcarena, município em que nasceu e vive Mestre Vieira.

O músico, hoje com 79 anos, é responsável pela criação de uma genuína linhagem de guitarristas na Amazônia. Na década de 70, seu disco Lambadas das Quebradas solidificou o gênero conhecido como "guitarrada" e popularizado nos anos 80 sob o rótulo de lambada.

Márcia constatou o que nós aqui sabemos muito bem, que a originalidade musical de mestre Vieira está no aprimoramento de uma técnica única de execução para a guitarra elétrica. “As guitarradas são composições instrumentais onde a guitarra solo faz o papel principal, embalada por ritmos como a cúmbia, o merengue e o carimbó, entre outros”.

O episódio que será exibido nesta quarta e neste sábado apresenta Joaquim de Lima Vieira, que influenciado pelo choro, revelou-se um virtuose ainda na infância. Ao começar no bandolim, passou ao banjo, ao cavaquinho, ao violão e a instrumentos de sopro, como o saxofone, antes do encontro com a guitarra, já nos anos 1960.

“Inventivo, lançou mão de seus conhecimentos de radiotécnico para fabricar seus primeiros amplificadores caseiros. Mas a cidade ribeirinha de Barcarena não possuía luz elétrica na época. A solução de Vieira foi usar auto-falantes de rádios desmontados e baterias de caminhão”, diz o texto de apresentação no site do Visceral.

A exibição da série Visceral Brasil - as veias abertas da música iniciou em abril deste ano, sempre pela TV Brasil - TV Pública. Ao todo são 13 capítulos, sendo que os dois últimos ainda estão sendo realizados para irem ao ar em dezembro. Para saber mais sobre a série, acesse o link: http://goo.gl/30WR4s. Há também teasers e clipes musicais dos episódios já gravados, disponíveis no http://vimeo.com/pluralfilmes. E mais, abaixo segue um bate papo com a diretora e roteirista do Visceral Brasil, Márcia Paraíso.

Holofote Virtual: Quem conhece Mestre Vieira de perto diz que vive uma experiência única. Em mim causa emoção, admiração e respeito profundo. Ele é uma figura muito amável, gosta de contar piadas, enfim, um privilégio estar perto dele, sem dúvida. Como foi o seu contato com ele?

Márcia Paraíso: Eu me senti uma privilegiada em poder estar pertinho, por tantos dias, conversando, trocando, aprendendo com ele como com todos esses mestres da cultura brasileira com quem venho estabelecendo contato. Trabalhei muito para conseguir hoje fazer o que faço: documentar pessoas que são o patrimônio imaterial brasileiro. Sinto-me no meu chão, em viajar pelo Brasil conhecendo histórias de gente que segurou a cultura de um lugar, mantendo uma tradição, muitas vezes sem qualquer valorização pelo que fazem.

Holofote Virtual: Como você concretizou a ideia do Visceral?

Márcia Paraíso: Um dia "a fome esbarrou na vontade de comer": conheci a produtora cultural Carla Joner, que na época trabalhava no Governo Federal e, com o projeto Brasil Rural Contemporâneo, juntou no mesmo palco a cultura de raiz com a música pop contemporânea. 

Juntas, desenvolvemos alguns trabalhos e surgiu o rascunho do projeto Visceral Brasil: uma série de documentários registrando os Mestres da Cultura brasileira, alguns grupos de música brasileira raiz e suas origens, ou ainda: o que os fez músicos? Que universo, ambiente, relações que os fizeram canalizar as energias para a criação musical?  O projeto demorou três anos para se concretizar e hoje já estamos, com a filmagem de Mestre Vieira, no décimo primeiro episódio.  

Holofote Virtual: Fazer documentário se tornou uma febre no país, o que eu acho ótimo, mas cada documentarista desenvolve seu método, sua maneira de filmar e contar uma história.

Um documentário tenta ser amplo, mas nunca é a pura realidade, pois acaba sendo um recorte do teu olhar de documentarista.

Alguns diretores fogem do lugar comum, outros nem acham isso necessário, diante da importância do objeto observado. No teu caso, como elaboras cada episódio pro Visceral, quais os caminhos do teu roteiro?

Márcia Paraíso: A seleção dos personagens - dos Mestres e grupos viscerais - ou seja, a curadoria de Visceral Brasil - ficou sob responsabilidade de Carla Joner. A ideia era reunir figuras de diversas regiões brasileiras, e daí surgiram os 13 nomes, todos já conhecidos de Carla: Bule Bule e Zambiapunga (Bahia), Zabé da Loca (Paraíba), Coco Raízes de Arcoverde e Arlindo dos 8 baixos (Pernambuco), Giba Giba e seu tambor de sopapo e Pedro Ortaça (Rio Grande do Sul), Mestre Humberto do boi de Maracanã (Maranhão), Dona Onete, Mestre Vieira e Mestre Laurentino (Pará), Marlui Miranda e os índios Suruí (Rondonia) e Dona Maria do Batuque (Minas Gerais). 

Holofote Virtual: Mas você segue uma lógica para todos?

Márcia Paraíso: Busquei na série fazer 13 programas completamente diferentes. Os episódios vêm de encontro com o perfil de cada artista e uma investigação sobre a região onde nasceram e onde vivem. O ponto em comum e que os une, além da "visceralidade musical" é que todos não estudaram música e pouco tiveram acesso à educação formal. São totalmente instintivos e autodidatas, daí a necessidade que senti em falar de seus lugares, suas origens - a raiz - para podermos entender, registrar e revelar suas obras.

Holofote Virtual: Adianta aqui um pouquinho do que imprimiu do Vieira, no episódio do Visceral ...

Márcia Paraíso: Já tinha visto Mestre Vieira tocando, inclusive o vi dividindo palco com Laurentino. Mas não o imaginava uma figura tão simples e tão bem humorada. Meste Vieira é puro calor, ele emana aconchego. E é uma figura profundamente apaixonada pelos filhos, pela família. Ele é a base. O desafio foi tentar imprimir esse "espírito" Vieira ao filme.

Mas o mais impressionante é ouvir de perto a história da criação de um gênero musical, de seu próprio criador. Tenho profundo respeito por Vieira, ele é um gênio. E passar alguns dias registrando um gênio e sua música nos fortalece - a mim, a toda a equipe e o projeto visceral.

Um comentário:

mundialprog disse...

Coisa maravilha Lu:)