A Casa dos Palhaços (Tv. Piedade, 533, c/ Tiradentes) abre as portas hoje para sessões, às 17h e 19h, do espetáculo “O Menor Espetáculo da Terra”. O ingresso é um brinquedo novo. Abaixo, o texto de um aluno do curso de graduação em Teatro da Escola de Teatro e Dança da UFPA escrito como exercício da disciplina Clown.
Duas linguagens no mergulho da arte circense
Por Luciano Lira
“A magia e a tristeza de uma arte orgânica e viva como o teatro talvez resida em sua principal natureza - a efemeridade. É uma pena, pois, mesmo que quiséssemos manter a memória de uma encenação, uma peça filmada nunca possuiria a qualidade necessária para perpetuar sua história, pois é uma magia que acontece ao vivo entre platéia e artistas. Raramente quando é filmada continua mantendo fidelidade ao que é de fato.” (Cris Urbinatti).

A peça é um mergulho no universo de duas linguagens, potentes por si só. Digo isto por acreditar que tanto o Clown, quanto o teatro de formas animadas, apresentam regras e especificidades próprias a sua natureza, e que em ambas as forma espetaculares é fácil reconhecer a inerente força que estas possuem de “gritar” aos olhos do espectador.
Portanto, imagino que no processo de pesquisa, experimentação e criação artística do espetáculo, o grande desafio dos idealizadores e realizadores deste trabalho foi encontrar dentro da poética do grupo, um ponto harmônico de convivência e diálogo entre as diferentes linguagens - o clown e o teatro de formas animadas.

A peça é uma homenagem ao universo circense e proporciona-nos uma viagem pelas histórias e sonhos dos desolados palhaços que foram abandonados pelo seu circo. Suas histórias, peripécias são norteadas por uma narrativa que por vezes apresenta os personagens palhaços, por vezes conta a história, e por outras, apenas comenta a cena que está se desenrolando. O espetáculo também conta com as canções originais de Marcos Vinícius Lopes, e as gravações e arranjos do músico violonista Ziza Padilha.

Cito por exemplo, os figurinos e objetos de cenas (malas de mão), que possuíam a cor branca, no entanto, os bonecos e a cenografia apresentavam-se extremamente coloridos. Esta escolha permitiu ao grupo o encontro harmonioso entre o palhaço e o boneco, neutralizando um pouco a figura do palhaço durante a manipulação do boneco.
Outra questão importante a ser levantada é o fato de os palhaços tirarem e colocarem o nariz (branco) por diversas vezes na frente da platéia, quebrando uma regra rígida e própria do universo clownesco, onde o palhaço jamais deve colocar ou por o seu nariz na frente de seu público.

Em “O Menor Espetáculo da Terra” o fato de o palhaço se desnudar frente a seu público retirando o seu nariz, de imediato nos revela artistas melancólicos que foram abandonadas por seu circo, num segundo momento, daquela situação aterradora e de abandono, os sonhos e anseios de cada palhaço vêem a tona em um misto de dor e comicidade, próprio do personagem palhaço, pois, só este é capaz de ser cômico em sua dor, a ponto de nos fazer rir apenas pela comicidade de seu corpo e de seu gestus, para o palhaço o sorriso é um verso sem palavra.
Quanto ao universo circense podemos dizer que em “O menor Espetáculo da Terra” todos os palhaços têm como sonho uma função que nos remete a números que fazem ou já fizeram parte dos números e esquetes que compuseram a história do circo, como: o aramista, o domador de leões, a contorcionista, o trapezista e a dançarina, lembrando que na história do circo, o palhaço é uma figura que normalmente já passou por diversas funções dentro do circo e que com o tempo, devido aos desgastes ou problemas físicos adquiridos, passam a exercer a função de palhaço.

Trata-se então de uma obra de grande valor estético e experimental, que a partir de sua força criadora nos deleita ao universo circense e nos transporta imperceptivelmente à criança que somos e ao passado que fica.
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