12.1.17

Uma leitura poética para o aniversário de Belém

"A gente não quer só comida". Nada de bolo de dez, vinte ou cem metros para comemorar. Neste aniversário de Belém, o blog oferece poesia como alimento de 401 anos e mais, festeja junto com a cidade a parceria com o poeta Paulo Nunes, autor de Banho de Chuva e Gitos, e professor da Universidade da Amazônia, que passa a colaborar mais ativamente por aqui. 

Há alguns dias que se planeja esta postagem. O poeta colaborador e leitor do blog, o que muito me deixa feliz, selecionou cuidadosamente os poemas oferecidos abaixo, fisgado da antologia “Belém 400 anos”, lançada ano passado com curadoria e organização de outro poeta, não menos colaborador e leitor do Holofote Virtual, Vasco Cavalcante, que escreve e organiza também o Cultura Paráum site, que há mais de 30 anos, se faz precioso e indispensável, ao reunir e apresentar os artistas diversos da literatura, teatro, fotografia e artes plásticas paraense. 

As fotografias fui buscar no acervo do blog. Não que eu pretenda, aqui, ilustrar a essência de cada poema, mas simplesmente também imprimir um olhar poético que sempre me toma ao caminhar pela cidade. E agora é com você. Leia e mergulhe. Hoje temos lua cheia, com maré alta anunciando águas de março que estão por vir. Evoé, Cidade das Mangueiras! 


O poeta-paradigma

"Já se pode afirmar, observando-se o acumulado de quase um século, do início dos anos 20 do século passado até hoje, século XXI, que o Pará fez-se uma terra de poetas, bons poetas. Como e por que se fez esta tradição, é coisa que se deve investigar melhor. 

Justifico-me logo, que toda seleção e escolha parte de critérios pessoais e da cultura de um tempo. 

Belém, carrilha este vagão estético (desde que tornou-se uma das capitais referenciais do Modernismo brasileiro), mas não só, não devemos esquecer Bragança (Alfredo Garcia,  por exemplo, que carrega o nome de sua cidade), Santarém, Marabá (Ademir Braz, um dos maiores, e mais recentemente Airton Souza, à frente).

Tenho defendido em minhas aulas de Literatura que criamos simbolicamente, como manifestação de cultura literária, a figura do “poeta-paradigma”, assim mesmo, com hífen, que funciona como uma ponte de ligação entre dois significantes que se metamorfoseiam num só. Para ser um poeta-paradigma não basta ser influente em seus tempo, junto a seus contemporâneos (e espraiar esta influência ad eternum), é preciso construir com disciplina, uma obra consistente, de valor, que extrapolem os liames de escolha da província. 

Um poeta-paradigma precisa ser universal, nada de rimar “açaí com bacuri”… Nosso poetas paradigmas, Segundo meus critérios são: Bruno de Menezes, Ruy Barata, Max Martins, João de Jesus Paes Loureiro e, mais recentemente, Antonio Moura. Não estou sendo de todo justo, nesta lista tem lugar Antônio Juraci Siqueira, o trovador poeta-performático. 

E o leitor dirá, mas Paulo Plinio de Abreu está fora da lista? Sim, embora grande escritor, ele não preenche os critérios de interinfluências. Dou-lhes um exemplo: Bruno de Menezes, nos Vândalos do Apocalipse e na Academia do Peixe Frito (principalmente a segunda) interferiu na Negritude e na Modernidade do Pará (Segundo estamos descobrindo eu e Vânia Torres no projeto de pesquisa que realizamos agora na Unama).

Escrever sobre Belém como tema, sem os derramamentos liricistas e demagógicos, é difícil (vide os textos publicados nas redes sociais sobre a capital do Pará), por isto eu sempre lembro, em datas laudatórias, a antologia lançada ano passado, em mídias virtual e convencional, por Vasco Cavalcante (este grande poeta, designer e editor) no sítio Cultura Pará, que ao lado de Pelas Ruas de Belém, do Roberto Jares, e deste Holofote Cultural, ajudam a difundir o que se produz por aqui. 

Pois bem, minha sugestão neste momento de aniversário de Belém são os poemas de Marcílio Costa, Ademir Braz, Alfredo Garcia-Bragança, Airton Souza, Vasco Cavalcante, Lilian Chaves e Antonio Moura, Vicente Franz Cecim, Rosângela Darwich. Boa leitura." Paulo Nunes.




“Belém dos poemas” - Paulo Nunes 

Belém descortina
seu som, que caminha
numa chuva fina.

As sombrinhas
fecham-e-abrem
seus sinais de chuva e sol.

Pessoas
passeiam pisam e passam
e os pingos piam
pela praça...

(Poema “Chuvisco”, Paulo Nunes, do livro Banho de Chuva, editora Amazônia)





Rainforest
Antonio Moura

Chove sobre as folhas de Belém
Chove sobretudo em King´s Cross

Céu branco, árvore negra, floresta
distante – rio serpente esta seiva

deslizando pelos canais do corpo – o re
tumbar da selva – o sangue levantando-se

ao silvo som de tua memória – o uivo
do feiticeiro invocando a voz do fogo,

o lobo sobre a neve – a tua face escura
impressa sob a pele desta noite branca

em que o céu macho e a terra fêmea
matam sua fome de fundir-se no poema

Enquanto chove sobre as folhas de Belém
Enquanto chove sobretudo em King´s Cross

Londres, Novembro de 2012






“Varandais” 
Ademir Braz

Cidade Velha! ... Telhados
À luz da tarde estival...
Pelos antigos sobrados
alegres roupas acenam
há deuses sobre o varal

Retidos entre azulejos
Da Casa senhorial,
Fantasmas brancos antigos
Falam com negros cativos
Que andam pelo quintal:

- “Que fim levaram as rendas
 Que as almas lusas vestiram?”

- “Perderam-se pelas fendas
Das casas que já ruíram...”



“A Cidade tem...” 
Rosangela Darwich

A cidade tem patas e asas
E quando mergulha
Respira debaixo da água.

O céu que amanhece a cidade
É feita de flores, esta
floresta.

Os faróis anoitecem as ruas
E os passantes de todas as épocas
Recolhem conjuntamente o azul.




“Belém”
Para o Poeta Paulo Nunes 
Airton Souza


Belém já não é a imagem
Que passa nas retinas
Na dialética de quadro e parede
É a força de caladas estátuas
Na praça da república

E as paredes de outros séculos
a mastigar solidões
durante as chuvas das tardes

Belém é o muro do poeta
& algumas linhas subscritas
de apressados homens e mulheres
enfáticos de atravessar alardes
e o relógio de sina impassível
que rasga ecoas na praça

enquanto no cais da Baia do Guajará
barcos surdos arquitetam
estórias de amor, desamor e a força
de naufrágios
O poeta tira da garganta
O pó da história de outras beléns.





“Outubros em Belém (Mater)” 
Alfredo Garcia

I

Outubros nascem
na hóstia das Horas
à flor das promessas,
no sal do suor
da romaria dos gestos.

II

Outubros florescem
na hóstia das palavras,
no suor das promessas,
nas hostes dos gestos,
no sal das horas.

III

Outubros naufragam
no sal do suor
de horas e promessas,
romaria de hóstias
à flor das palavras.

IV

Outubros caminham
na floração das horas,
no suor das hóstias,
no sal das promessas,
à sombra das palavras.

V

Sob o silêncio das horas,
sob as vestes das palavras,
sob o sal do suor
das genuflexões,
Outubros vivificam em Belém.



“Poema aos quatro séculos” 
Lílian Silvestres Chaves

minha cidade conta-se em séculos
entregue à prosa desgastada do tempo
beijo seus olhos, como o poeta à pátria
e meu lamento é murmúrio de amor

são séculos de distância percorrida talvez sombras
luz de velhos postes e clarões inusitados
e se homens desa(l)mados assolam as cidades
há sempre quem a desenha com a alma em sonho

assim como a música transfigura a noite
poemas acendem em Belém a leveza dos Círios
- milagres de palavras talhados em miriti –

e meu poema afaga a cidade
com límpidas e ternas mãos de chuva




“Muro Soledade”
Marcílio Costa

Um silêncio de cimento
atravessa a vida de mãos dadas com a morte.

Do lado de fora
Uma voz afronta a fúria luminosa dos metais:
carros e passos passos passos - soluções da pressa.
Uma voz envolta em fúria e fuligem
e saber qual boca a insinua, ultrapassa este
gesto da ferrugem
Daqui não distingo forma alguma,
se humana ou ave estranha vinda de um nunca mais
Vez em quando brilha entre a fenda do olvido,
colorindo a falta com um abissal mistério.
Uma voz insiste. Não reconheço sequer uma cor.
Segue o dia, mar entre pedras, e na espuma
alguma coisa, arfando seu soluço, afoga-se
na praia de motor e passos - sem imprimir seu segredo.

Do lado de dentro,
uma oculta voz; que a todos, um dia, impõe a sua língua;
une Babéis ao chamado irrecusável do tempo
e lembra o corpo, em sussurro, sua irrevogável sentença:
- pasto para os cavalos alados do esquecimento.




“Para alegrar uma rua deserta” 
Vicente Franz Cecim

e é assim que habitas uma
Meditação

De Estrelas e Árvores e se apagando ao teu redor

Onde

não todos choram juntos não
Todos riem juntos, e Não se sabe

até Saber:
que uma Lágrima é Meditação de Tudo
E o Riso: Meditação de Tudo

E se são esses os Dons

Escuta: O Eco.

o sermos

O sorrindo chora O chorando ri



“Poemas para Belém”
Vasco Cavalcante*

a)

Belém,
sob tuas folhagens
navego-me indizível,
e remonto histórias 
em afãs de luas 
nas noites em que me vi 

as tardes 
fremem 
desta urbe ensolarada(s),
nos mastros rotos
que vagueiam
repuxando a água
em suas encostas.

Arde
Range cidade, e desperta 
as rimas, que teci sobre as calçadas
nos quintais dos mundos
no esplendor de outrora.

Urde, Belém, minhas pegadas...

*único poema que não integra a antologia “Belém 400 anos”, integrante do acervo pessoal deste curador.

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