10.5.13

Depois do ensaio geral Ciao! estreia hoje no Cuíra

Black e Fassibinder, arriscando-se no trapézio da vida
Onírico. Mágico. Pintura emoldurada por um encontro transformador. Ciao! Buonanotte, Finito... é isso e mais alguma coisa, que mexe com a emoção do espectador, levado às entranhas da infância e à profundidade do mundo adulto. Ontem, em um ensaio aberto à imprensa, o espetáculo foi mostrado na íntegra, já no clima da estreia, que acontece hoje no Teatro Cuíra, às 21h, seguindo em temporada no sábado, mesmo horário, e no domingo, às 20h, repetindo a dose nos dias 18 e 19 de maio. 

Mesclando as técnicas da dança contemporânea às linguagens do circo e do teatro, o espetáculo, ganhador merecido do Prêmio Funarte Petrobrás Carequinha de Incentivo ao Circo (2012), traz dois atores em cena, um bailarino e um clown, que dão início a uma saga pontuada por uma luz extraordinária, criada pela iluminadora de Patrícia Gondim. Ela, literalmente pinta a cena, norteada pelas projeções de Nando Lima, cada vez mais especialista em criar cenários desta natureza.

Logo no início, vemos o despertar de Palhaço Black, personagem de Antonio do Rosário, ator pesquisador da arte do clown, integrante do grupo pioneiro nesta linguagem na Região Norte, Os Palhaços Trovadores. Tranquilo, Black está no universo dele, para em seguida, como todo bom clown, se lançar ao público, encarando a plateia com olhar às vezes sagaz, outras singelo, amoroso, ou ainda traquino, sátiro... 

Pintando e acontecendo
Ele é apaixonante, nos causando este sentimento, enaltecido, superlativado pela música divertida e comovente, criada especialmente para o personagem, por dois jovens músicos paraenses, Armando de Mendonça e Thalles Branche, irmãos e autores da trilha original do espetáculo. Enquanto a música é doce e colorida para Black, é cinza, geométrica  e metálica para a bailarina Fassibinder.

A ficha técnica deste trabalho é um espetáculo à parte. Já falamos disso aqui. Temos Aníbal Pacha nos figurinos, junto com Marilea Aguiar. É mais um elemento constituinte da beleza total do espetáculo. Temos a direção sempre pontual e competente de Adriana Cruz. Atriz, diretora, escritora, dramaturga, contadora de história, ela, que vem do In Bust Teatro com Bonecos, está cada vez mais atuante no cenário teatral, envolvendo-se, sempre a convites irrecusáveis, em outros trabalhos cênicos desenvolvidos na cidade. 

Eis que Fassibinder surge de uma moldura
Voltando à cena, enquanto Black faz seu passeio pelo público, vemos ao fundo a bailarina Fassibinder, imóvel, vai criando vida, saindo de uma moldura, onde estava, talvez fingindo-se, adormecia, sem interferências na cena. Criada décadas atrás pelo grande Luis Otávio Barata, que presenteou Danilo com a personagem surgida da montagem de O Lixo e a Cidade (Unipop), ela traz uma venda nos olhos, mas se é cega ou simplesmente não quer vez, não sabemos. 

É sínica, contemporânea, ingênua e objeto de brincar de Black, mas sua mentora também. Depois que o pequeno Palhaço a encontra, presenciamos sua transformação... É punk! Cheio de proposições do gênero, é bom dizer, Ciao! instiga o espectador a cada esquete e até o seu último momento. Objetos soltos pelo cenário nunca estão ali à toa, como o trapézio, que utilizado pelos dois personagens, parece representar mais que o lúdico, indica o risco de se atirar à vida, ao amor, ao encontro que, neste caso, é eminente para Black e Fassibinder. 

Arte, dança e circo
Danilo Bracchi, mais uma vez, é surpreendente, o mínimo que dá pra dizer. Desde que retornou da Bahia, onde morou por dez anos, ele vem desenvolvendo um trabalho ímpar na dança, em Belém, onde montou e dirige a Cia. de Investigação Cênica, grupo destinado à pesquisa e investigação de movimentos para a cena. 

Em 2007, estreou nos palcos, com o espetáculo “Depois de Revelada Nada Mais Muda”, resultante do trabalho da Bolsa de Pesquisa, Experimentação e Criação do Instituto de Artes do Pará (IAP). A montagem, que revelava um olhar sobre o universo do mundo da fotografia, faz uma transposição poética da criação fotográfica em imagens manifestadas através da dança. 

Depois foi a vez de “Tão bonito de tão feio”, mais um projeto premiado, desta vez, como o Prêmio Klauss Vianna, 2008 (FUNARTE/Petrobrás), que traz em cena, sob a ótica da dança contemporânea, a discussão sobre o pensamento estético do corpo no mundo moderno. 

Humor e sagacidade....
Há outros espetáculos montados pela Cia, como “Homens”, mostrado, mais recentemente, em 2010, quando Danilo, à frente da APAD – Associação Paraense de Dança - organizou, em parceria com os Produtores Criativos, o festival Paralelo de Dança

O evento, em semanas seguidas, de quinta a domingo, ocupou o público em um mês de julho, com apresentações no Forte do Castelo e no Teatro da Paz. 

Inquieto e atento, em 2010, ele ganhou mais um prêmio com o projeto Conexão Dança, aprovado no Edital de Residência em Artes Cênicas da Funarte e foi para a Europa. De volta ao Brasil, passou ainda com o projeto, por alguns estados brasileiros, até chegar novamente a Belém, com as ideias fervilhando e que resultaram neste agora Ciao! Buonanotte Finito... 

Jogo de luz, projeção, sombras
O nome do espetáculo deveria ser “Imprevisto”, como foi inscrito na Funarte, mas ao longo da montagem, que durou quatro meses, desde sua concepção, ensaios, até a estreia de hoje, o novo nome se impôs, se fez e assim ficou. 

Para mim, ontem, após ver o ensaio geral, soou como uma afronta. Como assim, Ciao! Buonanotte, Finito...? Estava tão bom, estava vivendo um sonho encantador, envolvente fábula. O fim, que não é fim, nos pega de surpresa. Não se espera ou quer, mas temos que aceitar ou voltar no dia seguinte e aplaudir mais uma vez...

Serviço
Ciao! Buonanotte, Finito... Dias 10 e 11, às 21h, e 12, às 20h. E nos dias 18 e 19, às 21h e 20h, no Teatro Cuíra - Riachuelo com 1º de Março. Ingresso R$ 20,00 com meia a R$ 10,00 para estudantes. Prêmio Funarte/Petrobrás carequinha de Incentivo ao Circo. Realização de A Trama e produção da Três – Cultura Produção Comunicação. Informações à imprensa: 91 8134.7719/3088.5858. As fotos desta postagens foram feitas no ensaio geral, pelo blog.

Um comentário:

M. Aires disse...

Extraordinário relato... fico com um desejo enorme de ver o espetáculo! obrigado pela matéria!