10.6.16

Albery Albuquerque fala sobre a música da floresta

Mùsica Plural decolando no palco do Margarida Schivasappa
O músico está de volta aos palcos, com um novo projeto, o Albery Project, que apresentou, naquarta-feira, 8, o show Música Plural, reunindo músicos convidados. Antes dos momentos emocionantes vividos no palco do Margarida Schivasappa, Albery Albuquerque conversou com o blog sobre sua trajetória e contou como iniciou os estudos que criaram o  transmorfismo musical.

Conversar com Albery Albuquerque é se lançar a uma viagem sonora infinita, de escalas musicais únicas e múltiplas, plurais. Alguns dizem que é loucura. Sempre ouvi falar de Albery, a fama dele corre longe, para além do Atlântico, aliás, mas foi a pouco tempo que eu realmente pude entrar em contato com sua música e conhecer mais do compositor. Pra mim faz todo sentido o que ele cria, a partir da natureza. É uma experiência auditiva profunda, que te remete a outro universo de sons, aqueles que existem dentro de todo nós. 

E como tudo isso começou? Ele conta que estava tocando violão, quando ouviu, um canto de pássaro como respostas a seus acordes. Era uma Cigarra Parda de Bico Amarelo. Começou a brincar com ela e as suas manifestações continuaram. Este foi, segundo ele, o primeiro insight que mais tarde o levou à pesquisa chamada “Música Transmórfica”, com a qual desenvolveu um método de composição inusitado, resultando no que ficou conhecido como “Música Universal das Linguagens” ou “Música Viva da Floresta”. 

Um dos momentos do show, realizado quarta-feira, 8 de junho
Adaptando as vocalizações de animais da floresta Amazônica, à estrutura musical que conhecemos,  Albery Albuquerque cria diversas escolas musicais, como a do Tucano, a do Uirapuru, ou ainda, a da onça, pra usar três exemplos que ele já estruturou e compôs. 

"Trancelim de Tucano", música que encerrou o show “Música Plural”, com o Albery Project, na última quarta-feira, 8, é uma dessas composições transmórficas. E é também uma das faixas principais já definidas para o CD, que tem o mesmo nome do show realizado no Teatro Margarida Schivasappa. 

O projeto do disco, o quinto que ele gravará, está em fase de captação de recursos, diretos e via lei de incentivo. Terá 10 faixas, sendo quatro regravações, que ganharão novos arranjos, e seis músicas inéditas, algumas delas estavam no repertório do show que além de ter tido um significado especial para os músicos e profissionais envolvidos, também antecipou ao público um pouco do que vem mais à frente neste novo momento na carreira do artista.

O show teve significado especial. No palco, o encontro do Albery Project com convidados especiais, todos grandes músicos e nomes emblemáticos da cena musical paraense.

O Sol do Meio Dia brilhou com Albery Project
Minni Paulo Medeiros e Rafael Lima, além de Zé Macedo e do próprio Albery Albuquerque, que formaram na década de 1970, mais precisamente, entre 1972 e 1973, um dos primeiros grupos de música autoral da história da música paraense, o Sol do Meio Dia. 

A emoção também reverberou na plateia, formada por músicos violonistas, além de artista e amantes da música instrumental em geral, além de pessoas que já conheciam o trabalho de Albery e vieram conferir sua performance, ausente dos palcos, por quase dez anos.

A ideia da retomada começou a ser construída no início de 2015, em reuniões do baterista Carlos Brito, o Canhão, com o violonista e depois em primeiros ensaios já com Tom Salazar, Príamo e Thiago, que resultaram no show “Som da Mata”, realizado em novembro, no Sesc Boulevard. 

A plateia ardeu em aplausos. Foi o suficiente para que a ideia da retomada amadurecesse, fazendo surgir o Albery Project, mais que um grupo, um projeto musical, com iniciativas que envolvem a música transmórfica, sua difusão e ensino. É um novo impulso para esta música inovadora e de conexão com a natureza. É sobre esta conexão,  também, que versa a entrevista a seguir. 

Albery Albuquerque antes de levantar a cortina
Holofote Virtual: A sua música surpreende e também é pouco compreendida, ao menos até agora, pela grande maioria das pessoas. Como foi que começou esses estudos do transmorfismo?

Albery Albuquerque: Começou quando eu era muito jovem. Eu tinha 14 anos na época. Minha família sempre foi de músicos e a gente se reunia aos sábados, meus tios, minhas tias, pra tomar cerveja e tocar violão, todos praticamente tocavam, até os primos. 

Então desde jovem eu já tocava. Certa vez eu tinha feito uma composição e fui mostrar num desses sábados, mas aí eles começaram a conversar no meio da música, eu fiquei "puto", mas toquei a música toda. Depois saí e fui lá pra cozinha, sentei no banco da mesa e tinha lá uma Cigarra Parda de Bico Amarelo, um pássaro que o meu cunhado tinha trazido do interior. E quando eu comecei a tocar, ela começou a cantar, interagindo.

Fiquei com essa coisa na cabeça, achei muito legal, eu tocava, ela cantava. E aí toda tarde eu passei a ir pra lá, chegava do colégio ela estava lá, eu tocava, ela começava a cantar e eu comecei a aprender com ela, tentava fazer, como ela fazia, como ela cantava. Eu era muito novo, mas aquele espírito de agilidade começou a surgir naquele momento. Depois foi amadurecendo, e eu já tinha vontade de saber como tirava o som dos objetos, mas não tinha uma caminhada certa pra isso não. Então a ideia do Transmorfismo vem de muito tempo.

Ensaios intermináveis no Stúdio Z
Holofote Virtual: E isso já estava presente no trabalho que fizestes no Sol do Meio Dia?

Albery Albuquerque: Não, o que eu levei pro Sol tocar, não tinha muito a ver com o Transmorfismo propriamente dito. O Transmorfismo só surge mesmo, quando você estabelece um padrão, um modelo, um método de extrair a sonoridade daquela cadeira, daquele objeto, das flores, das plataformas arquitetônicas, das estrelas, e com os pássaros também é um Transmorfismo que começa a acontecer. 

Eu já tinha algumas coisas com os pássaros, como te falei foi um dos primeiros sinais desse processo, só que aos poucos ele foi amadurecendo, quando eu estava no Sol do Meio Dia.

Holofote Virtual: Tem gente que acha que esse teu trabalho é coisa de gente maluca (risos)...

Albery Albuquerque: É... Quando eu ganhei a Feira Pixinguinha em 1980, eu falei pra uma galera que a gente deveria estudar os pássaros pra compor, mas todo mundo riu, achou graça, sabe? E naquele tempo a galera era mais de manter o nível de disputa, sabe? Não é como o pessoal de hoje que é mais mente aberta. Aí houve uma rechaça, acharam que aquilo era doideira, mas acho que foi melhor pra mim, porque acabei abrindo as portas para alguns deles entrarem.

O encontro feliz entre amigos de longa data e muita música
Holofote Virtual: Em que categoria musical estaria inserida a Música Transmórfica?

Albery Albuquerque: Isso é diferente. A música transmórfica é muito complexa. Posso compor o Sábia, por exemplo, e o pássaro não tem compromisso com a cultura, por isso não vai ter sotaque de Jazz, de Rock ou de Baião. É a escola do Sabiá mesmo. E posso compor só Sabiás Brancos, por exemplo, depois eu posso compor só Rouxinóis, que é diferente do Sabiá. 

O passarinheiro, ou o ornitólogo, sempre sabe que pássaro está cantando, porque são gêneros diferentes, são expressões diferentes. Posso compor 20 músicas em Rouxinol e 20 músicas em Sabiá e tenho duas linhas completamente diferentes. 

Posso compor 20 músicas em Bicudo, outras 20 em Uirapuru, então você vai ver que só nesta parte do transmorfismo, só nessa área que está dentro do ramo da música biológica, que é gigantesca. Só nesta ramificação tu tens um monte de novos gêneros musicais, novas escolas musicais, novas maneiras de compor de improvisar, de contrapontear, de traduzir, de adaptar, de harmonizar em cada uma dessas espécies tu tens novos contextos, sabe? 

Albery Albuquerque e Tom Salazar no Stúdio Z
Holofote Virtual: Nossa, é um universo sonoro sem fim...

Albery Albuquerque: É... Tu tens um material muito rico, muito bonito, que podes transformar em tambores, violino, no que tu quiseres, porque tu tens rítmica, intervalos, harmonia. Tens uma coisa riquíssima nesse processo. Então eu não posso dizer que ela seria um Jazz, quando eu faço contraponto rítmico, entre só o ritmo dos Tucanos, gerando o Trancelim, que é o que eu chamo de Ritmo de Floresta, que são músicas baseadas só nessa parte do ritmo dos Tucanos. Pra tu veres como esse material é muito rico, muito poderoso, muito potente pra criação. 

Holofote Virtual: Deve ser bem complexo compor uma música Transmórfica, qual o segredo?

Albery Albuquerque: O segredo é que temos que entender, antes de tudo isso, da técnica, que a verdadeira música é a que sai do teu coração. Essa é a verdadeira música, então quanto mais espirito de música tem em você, mais força há pra levantar essa espada Transmórfica, porque ela é muito pesada, não adianta só dizer que vai fazer um Uirapuru, um Curió, o cara vai sentir uma dificuldade enorme, imensa, porque ele tem que ter muito potencial criativo. Quando se começa a estudar todos os detalhes, você acha que não vai conseguir, mas claro que consegue. 

Um retorno com planos e desejos de seguir em frente
Holofote Virtual: Haja dedicação ...

Albery Albuquerque: É um salto quântico na música, porque ela traz novos caminhos, novas portas, novos rumos pra música universal. Como eu te falei, dando outro exemplo agora, o Uirapuru não tem nenhum compromisso com a nossa arte, com a nossa cultura.

Então ele é puro na expressão dele, ele não tem sotaque de jazz, de bossa, de baião de clássico, ele é único, é absoluto, é o arquétipo da própria expressão dele vivo aqui na terra. Quando a gente começa a fazer um Uirapuru, a gente sabe que o arquétipo dele está presente aqui na terra, que é o próprio pássaro, é a própria espécie, então é uma coisa muito significativa.

Holofote Virtual: Você falou em salto quântico, pode explicar mais sobre isso?

Albery Albuquerque: O grande salto quântico da história é, no caso dos pássaros, não copiá-los. O Jean Jacques Russeau falou que é um disparate o artista copiar a natureza, tem que criar, eu concordo. Acho que o que a gente faz, é um grande salto quântico, porque a gente não copia o pássaro, aprendemos os modos de criação do pássaro, pra criar como ele cria. Agora vocalizar mesmo, só ele vocaliza, o que nós fazemos é uma assimilação, algo similar da vocalização dele, então quando começamos a fazer várias vezes, coisas diferentes, mas similar ao que ele faz, a gente cria um gênero.

Gravar CD e tocar em e festivais nos planos de Albery Project
Holofote Virtual: Como a gente pode chamar a tua música transmórfica?

Albery Albuquerque: É uma música plural mesmo. Podemos transformar os esturros de Onça em tambores de orquestra e fica fantástico. Tem coisas incríveis pra fazer com esse material. 

E é milenar, está no DNA da gente, porque vem da natureza e faz conexão com algo mais profundo no homem, que também vive na natureza, precisa dela pra se "refrigerar", digamos assim. A sonoridade com os animais vem de milênios, bem antes do Carimbó.

E o que a gente faz com o Sabiá, com o Rouxinol, com o Curió, a gente pode fazer com a geometria, com a arquitetura gótica, por exemplo, ai tu vais ter uma escola musical na arquitetura gótica, tu podes fazer com a arquitetura barroca, que já é outra escola, assim como com os pássaros. Vais ter novos tipos de traçados, de linhas, de ângulos formando mais uma nova escola musical.

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