26.5.11

Entrevista: Gero Camilo e a montagem de “Aldeotas” em Belém


Adriano e Ailson em cena (Foto: Hamilton Braga)
É a segunda semana da temporada no Teatro Cuíra (R. 1º de março, com Riachuelo), com direção de Henrique da Paz e Adriano Barroso e Ailson Braga, no elenco. De quinta (26) a sáb. (28), às  21h, e no dom. (29), às 20h. Ingressos: R$ 20,00, c/ meia entrada para estudantes.

Em meio a montagem teatral de “Aldeotas”, em Belém, o Holofote Virtual teve o prazer de conversar com seu autor, Gero Camilo, que demonstrou em muitas palavras estar feliz de ver seu texto montado aqui pelo Gruta, um grupo de teatro que já tem longa jornada, em 42 anos de atuação no Pará. 

A conversa ocorreu durante um dos ensaios do Gruta, numa sala do Colégio Moderno. Mesmo  à distância, pelo telefone, Gero é divertido e emociona com sua intensidade poética de ator e dramaturgo, de homem da arte, tão universal quando a obra que vem construindo ao longo de sua carreira. Além de talentoso e gentil, não à toa, ele vem se destacando cada vez mais nos diversos trabalhos realizados no cinema e no teatro.

Carandiru, de Hector Babenco, Narradores de Javé, de Eliane Caffé, Bicho de Sete Cabeças, de Lais Bodansky entre outros filmes, além dos recentes “Assalto ao Banco Central”, de Marcos Paulo, que estreia em julho e “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Beto Brant, que deve chegar às telas logo no início do segundo semestre, são apenas alguns dos marcos de sua trajetória no cinema.

Gero, porém, não prede-se somente aí, sente-se e concretiza-se ainda mais como um homem do teatro. Até junho ele estará em cartaz com o espetáculo “A Casa Amarela”, ocupando as noites de quartas e quintas no Teatro Eva Herz - Livraria Cultura Conjunto Nacional, na Av. Paulista (SP). O solo, com texto escrito por ele, faz uma reflexão sobre o sonho de Vincent van Gogh em fundar uma comunidade de artistas em Arles, no sul da França.

A casa foi inaugurada em 1888 e recebeu Paul Gauguin, com quem Van Gogh viveu uma das mais intensas e espantosas oportunidades criativas da história. Foi um sonho revolucionário. E foi justamente a temporada em São Paulo, além de outros compromissos, os motivos que não o permitiram encaixar uma vinda a Belém durante as apresentações de Aldeotas.

Vontade não faltou. Mas é bem possível que isso aconteça em agosto deste ano, mês previsto para a estreia do filme de Brant, que foi filmado em Santarém e proporcionou o encontro dele com o ator Adriano Barroso, outro talento do teatro, do cinema e da literatura. Há planos para um lançamento em Belém. Enquanto isso não acontece, para entrar na sintonia de Gero, segue a conversa que tivemos e que agora é compartilhada aqui no Holofote Virtual.

Gero, em "Aldeotas"
Holofote Virtual: O que você está achando disso, de um texto seu vir ser montado em Belém do Pará?

Gero Camilo: Estou achando ótimo. Há tempos eu queria ver uma outra leitura desse texto. Não sei dizer se é uma releitura no sentido do distanciamento, mas é muito prazeroso ver que tem alguém tendo um olhar sobre isso.

Holofote Virtual: Qual é a sensação de passar de autor e ator a expectador?

Gero Camilo: Era isso que queria. Ver Aldeotas de fora e, como público, adentrar no caminho da memória. E a partir do reconhecimento narrativo de um depoimento em cena, puxar o baú de memórias em uma dramaturgia feita.

E eles (referindo-se a Adriano Barroso, Ailson Braga e Henrique da Paz, do Gruta) como homens de teatro, vão abrir, cada um, o seu baú para despertar em seus corpos de atores camadas de emoções, pensamentos de compreensão da vida.

Espero que eles se divirtam e se emocionem, pois quanto mais próximos chegarem disso, mais o público adentrará nestas memórias e com o depoimento deles, construirá a própria memória, a partir da história mágica que o teatro nos faz viver.

O ator fazia o personagem Levi, amigo de Elias
Holofote Virtual: Esta será a primeira montagem extra de Aldeotas feita depois que você mesmo o estreou, em 2004?

Gero Camilo: É a primeira vez . Existe uma montagem em andamento no Uruguai e um pedido que vem do México, que também quer montá-lo, mas ainda não existe nenhuma montagem concretizada como esta que está acontecendo em Belém, isso me deixa bem feliz.

Holofote Virtual: Como foi esse encontro com o Adriano Barroso e a proposta de trazer o texto para Belém?

Gero Camilo: O encontro com o Adriano se deu nas filmagens do filme “Eu receberia as piores noticias dos seus lindos lábios” em Santarém (Beto Brant), do qual fizemos parte do mesmo elenco. Desde que eu cheguei lá ele me deu este toque ‘eu preciso falar com você’, com aquela voz que é quase um anunciado Bíblico, dando a impressão de que o céu vai abrir no campo e tudo vai clarear (risos).

Na verdade, assim que cheguei naquele lugar eu disse a mim mesmo ‘nossa que vontade de fazer o Aldeotas aqui, tem tudo a ver’. E que bom que não precisou ser eu mesmo e que teve alguém da própria ‘aldeia’ que desejou fazê-lo. Para mim, tudo isso faz muito sentido.

Aqui, em "A Casa Amarela"
Holofote Virtual: Tens um trabalho extremamente conhecido pelo público, mas como ator de cinema, mais do que de teatro, para o qual vens escrevendo, atuando, enfim, tens veia para a dramaturgia. Como é que a tua vida está voltada para esta área artística?

Gero Camilo: Na verdade, eu sou um poeta. É como me assumo e me assumir poeta me dá liberdade poética de ser mais expansivo na minha relação com os instrumentos e os braços artísticos da arte. Então eu realmente não sou um ator, eu sou um homem da arte, não me contento em ter um rótulo profissional com a arte porque ela se expande no meu encontro com as pessoas.

E meu encontro com a s pessoas se dá a partir de um ponto de liberdade que gera o encontro e aí, sim, a gente desenvolve a arte a partir disso, seja a música, que eu faço, através dos poemas que eu crio, da dramaturgia que eu enceno, mas o que me importa é o encontro com as pessoas, é isso que me interessa. Isso sempre foi desde o início, desde criança que escrevia e fui desenvolvendo isso e me relacionando com a arte.

Então, o desdobramento dramatúrgico é tão evidente quanto um reator. Para o bem do público, eu sou visto como ator de cinema, mas não é o grande publico que me faz artista, é a arte. O público, seja grande ou pequeno, me interessa por ser publico, não é a sua dimensão quantitativa que vai reconhecer meu ser poético.

Holofote Virtual: Tudo isso tem a ver com o fato de você vir do nordeste que possui matrizes cultuais tão fortes? O que o Ceará, de onde você vem, consegue impregnar na tua obra?

Gero Camilo: Isso permeia o meu trabalho, mas dentro de um discurso universalista, não regionalista. Quanto mais eu me penso ser, mais universalista eu me faço. Eu não entendo e não me contento só com a tribo, eu acho a tribo necessária no sentido do que a gente quer fazer e dizer no momento do encontro, mas este encontro também se desloca geograficamente, então eu não me amarro a minha terra, que é só um ponto de referência dentro deste global em que vivemos.

Nada me espanta mais do que quando vejo o discurso que cai no regionalismo, ou quando ele se fecha na pequena aldeia. Acho que esta pequena aldeia se faz mais forte e valorosa quando se amplia na relação com o mundo.

 Fotos de Gero Camilo: Rodrigo Fuzar
Holofote Virtual: Quando você vem a Belém?

Gero Camilo: Estou louco pra fazer isso, pois não cheguei a Belém na época das filmagens do Brant. Fiquei direto em Santarém, mergulhado no filme, e encantado. É incrível a região. Então, o que eu quero de imediato é ver o filme, pois esta foi uma das experiências mais incríveis e cinematográficas que já tive. 

O que Beto Brant e todos vocês fizeram com a gente que esteve no Pará foi realmente uma viagem a Andara, um lugar mágico na relação com a vida, com a arte, com a natureza, com a cultura da aldeia. E tudo isso sendo doado ao cinema e se universalizando. Estou super curioso, não vi o ultimo corte.

 Para saber mais sobre o espetáculo em Belém, acesse aqui.

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