
Era um ensaio corrido, com início marcado para o meio dia. O convite, aqui, foi aceito e a alma, alimentada. Na sala de dança, a concepção visual de Nando Lima; a iluminação de Sonia Lopes; o desenho de som de Cláudio Melo e a dramaturgia de Paulo Faria, paraense radicado em São Paulo, colocam o público em um cenário de atmosfera amazônica e marajoara.
As sessões são para, no máximo, 45 pessoas. Entrando no espaço cênico da nova montagem do Usina, sente-se logo o remanso da maré e a velocidade do tempo, na ilha do Marajó, testemunhas dos conflitos de Alfredo, personagem interpretado pelo ator Milton Aires, e das histórias de Eutanázio, contadas por Felícia, Raquel e Irene, interpretadas por Nani Tavares, Valéria Andrade e Vandiléia Foro.
Com o patrocínio do Ministério da Cultura, o projeto propõe uma versão cênica para algumas histórias narradas pelo romancista Dalcídio Jurandir em seu primeiro livro, “Chove nos campos de Cachoeira”. A realização conta com apoio cultural de Instituto de Artes do Pará, Academia de Danças Ana Unger, Hotel Regente.

Além da montagem do espetáculo, a ação incluiu pesquisa de campo no Marajó, e realização de oficina e apresentação de “Parésqui”, espetáculo anterior, no município de Ponta de Pedras.
Foram meses de trabalho, com ensaios e um seminário, o ponto de partida de tudo, ainda em fevereiro deste ano. “Fizemos um longo mergulho. Em certos momentos parecia que não íamos aguentar. Mas estamos aqui, prontos pra mostrar, em carne e osso, a que chegamos”, diz o diretor do espetáculo, Alberto Silva Neto.
Pergunto a ele como lhe fica agora a obra de Dalcídio, depois deste mergulho profundo. O diretor me diz que "a obra do escritor é um abismo para dentro do ser humano”, e que ele continua se sentindo como um leitor apaixonado, que sempre terá diante de si um infinito a desvendar.
O espetáculo é delicado, suave e, ao mesmo tempo, impactante sob o ponto de vista estético, denso sob o da dramaturgia. “Espero que nosso espetáculo contribua para aproximar esse genial escritor paraense de mais e mais pessoas. Precisamos ler Dalcídio Jurandir”, enfatiza.
Depois da temporada de estréia, a expectativa do grupo é circular com o espetáculo. Anda não há nada previsto mas, na intenção de viajar com a peça, o grupo projetou uma estrutura simples, pensada pra facilitar os deslocamentos e se adequar aos mais variados espaços, sem perder sua poesia.
Após os últimos ensaios, e na expectativa da estreia, Alberto Silva Neto respondeu a entrevista que segue abaixo, realizada pelo Holofote Virtual para seus leitores. Saiba um pouco mais sobre como o encanto amazônico dalcidiano se projetou na encenação do Usina.

Alberto Silva Neto: Buscar inspiração num romance pra criar a cena teatral é fazer escolhas. Não dá pra abarcar a complexidade de um romance em uma hora de espetáculo. Decidimos, primeiramente, que iríamos contar duas histórias paralelas, a do menino Alfredo e a de Eutanázio.
O primeiro sonha com o futuro, o segundo é atormertado pela lembrança do passado. Pensamos, também, que a história de Alfredo poderia ser contada por ele mesmo, enquanto a de Eutanázio seria narrada por três mulheres de sua vida: Raquel, Irene e Felícia.
A ausência dele se faria presente. Assim, o elenco mergulhou na obra e extraiu dela aquelas palavras que gostaria de fazer também suas. Como eu posso "me dizer" pelas palavras de Dalcídio?
Depois veio a participação importante do Paulo Faria, como dramaturgo, que ajudou a organizar essas falas pessoais numa estrutura, que no fim contou com a colaboração de todos. Acho que o resultado de todo esse processo faz com que o universo dalcidiano povoe, de certa forma, o espaço cênico.
Holofote Virtual: Em pouco mais de uma hora, o espetáculo parece dar conta do romance, foi a sensação de uma primeira impressão que tive. Como vocês chegaram a isso? E do que sentirias falta, ainda no texto, na encenação?
Alberto Silva Neto: Nem sei dizer quantas versões diferentes fizemos dessa dramaturgia. Todo dia mudávamos frases de lugar, trazíamos novas ou jogávamos fora cenas inteiras. Foi o jogo da criação cênica que definiu o que seria dito. E a potência de gerar imagens ricas a partir dos fragmentos escolhidos. Hoje, sinceramente estou satisfeito com o resultado. Tenho convicção de que essa é a nossa melhor versão para a obra que escolhemos para induzir essa criação. O que não significa que não pensarei diferente amanhã.

Alberto Silva Neto: No caso do trabalho com o ator Milton Aires, que nasceu no Marajó, escolhi revelar, em cena, as histórias pessoais que foram contadas, como exercício para buscar experiências de vida dele que pudessem servir ao trabalho.
O resultado é que na dramaturgia final ora ele narra Alfredo, ora conta histórias de vida reais, que no final das contas se parecem muito com a ficção dalcidiana. Nesse sentido, é muito corajosa a atitude do Milton, de se contar assim, é comovente de tão delicado o trabalho dele.
Holofote Virtual: Pude ver em “Eutanázio”, um pouco das linguagens utilizadas também em Parésqui, Mandrágora e o Solo do Marajó, todos dirigidos por ti. Fala um pouco sobre esta construção, como um traço ou uma marca de direção tua.
Alberto Silva Neto: De fato há semelhanças, e percebo que existe um fio estético unindo essas encenações. Ainda não sei falar muito disso. Mas posso dizer que uma referência muito forte são os conceitos de espaço e objetos vazios, de um encenador inglês chamado Peter Brook.
A cena é um espaço como uma folha em branco, na qual você vai escrever as cenas ressignificando o tempo todo o corpo do ator e os objetos cênicos. Já a presença dos atores em cena assume a função de mostrar que os criadores são também testemunhas do ato dos companheiros de criação.
É muito bonito ver um ator assistindo ao colega enquanto ele atua, e também saber a hora de desaparecer, mesmo estando o tempo inteiro ali, presente.

Alberto Silva Neto: O teatro é uma arte coletiva. Quem não compreender isso está perdido. Cedo ou tarde descobrirá o erro. E nós, no Usina, temos isso como premissa: todos são criadores.
Foi assim que tivemos, além do Milton, as atrizes Nani Tavares, Valéria Andrade e Vandiléia Foro, todas mergulhadas em desafios pessoais na relação com o trabalho, muito guerreiras, muito decididas, muito apaixonadas.
Depois a equipe, com Nando Lima na concepção visual, Cláudio Melo no desenho de som, Sonia Freitas na iluminação, e outros tantos parceiros cenotécnicos, operadores, produtores, que foram e são, todos eles, fundamentais pro resultado final.
Teatro é assim: muitas falas convergindo para uma única concepção cênica, que deve ser capaz de abarcar, ao mesmo tempo, a unidade e a multiplicidade desses muitos olhares. Esse talvez seja o grande desafio dos encenadores.
Teatro é assim: muitas falas convergindo para uma única concepção cênica, que deve ser capaz de abarcar, ao mesmo tempo, a unidade e a multiplicidade desses muitos olhares. Esse talvez seja o grande desafio dos encenadores.
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