24.7.21

Entrevista: Gileno Foinquinos e o Voo do Carapanã

Lançado em abril deste ano, “Voo do Carapanã”  traz oito faixas autorais no estilo jazz amazônico. O projeto de gravação foi selecionado pelo edital de música Lei Aldir Blanc-Pa 2020. 

Paraense de Cametá, Gileno Foinquinos é considerado referência da guitarra jazzística. O contato com a música veio cedo, com o violão aos 6 de idade e aos 13 anos já tocava profissionalmente em bandas de baile e com artistas do cenário em Belém. 

Morando em São Paulo há mais de 30 anos, ele já tocou com muita gente da cena paulista e paraense. Já participou de diversos grupos, fez e continua fazendo inúmeras conexões musicais que vão do jazz instrumental à guitarrada, samba, carimbó. 

Há 20 anos ele desenvolve seu trabalho autoral, e atualmente integra a Silibrina, banda paulista com influências do jazz e ritmos da cultura popular brasileira. Voo do Carapanã é seu 8o disco, que conta com participação de músicos de gerações distintas, mas conectadas pela música instrumental, e laços de amizade, como César Augusto “Gugu” (bateria); os jovens e talentoso Wesley Jardim (baixo); Willian Jardim (guitarra), além de Márcio Jardim, Wendel Brandão e Joelson Lopes. A seguir, a entrevista com o músico sobre o álbum, a trajetória e as novidades que estão vindo aí na carreira neste segundo semestre.

Holofote Virtual: Vôo de Carapanã é seu oitavo disco, lançado no início deste ano, com 8 músicas!  Fala sobre as escolhas desse trabalho, desde as composições, ritmos e estilos musicais presentes, parceiras...

Gileno Foinquinos:
Sim é meu 8º disco. É um trabalho totalmente autoral onde desenvolvo minhas influências dos ritmos do Baixo Tocantins como banguê, samba de cacete, carimbó, entre outros. Assim, esse trabalho representa  um verdadeiro amadurecimento musical, pois consegui imprimir nesse trabalho um pouco mais de minha identidade, desenvolver uma linguagem própria e valorizar nossas raízes, transformando esse universo do jazz em sua vertente amazônica.  

Para esse trabalho "Voo do carapanã" ensaiamos em torno de 6 meses em busca de uma nova sonoridade, caminhos sonoros, formas de tocar, dinâmicas diferentes. Nosso resultado foi muito satisfatório em função do respeito e admiração mútuos que rolam entre nós. Assim, a reunião de duas gerações da música instrumental paraense a minha e a do baterista César Augusto (Gugu), quase cinquentões, com dois meninos os irmãos Willian Jardim, 18, e Wesley Jardim, 20, talentos que estão em plena ascensão no cenário musical paraense. 

Holofote Virtual: Você já havia trabalhado com eles de alguma outra forma?

Gileno Foinquinos: Acompanho os irmãos Wesley e William desde que são crianças, sempre frequentaram minha casa em Belém. Eu e o pai deles o Márcio Jardim somos amigo de longas datas, ele gravou meu primeiro CD de música instrumental o "Cacique Camutá", lançado em 1998 aqui em Belém e sempre estamos trabalhando e gravando juntos. 

Trabalhar com eles foi um grande presente pois acompanhar a trajetória deles desde o berço e vê-los tornarem-se grandes pessoas e exímios músicos profissionais não tem preço, só me orgulha e enriquece cada vez mais nossa música.Eles são talentosos refletem a nova geração da música paraense.

Acho muito importante valorizar e reverenciar nossos mestres da música e ao mesmo tempo oportunizar novos talentosos produzidos no Pará, passando conhecimentos, direcionando, fomentando o conhecimento e saberes culturais locais e concebendo a música como chave também de transformação social. Foi com essa concepção inovadora de agregar duas gerações da música e valorização dos ritmos regionais que desenvolvi o Voo do carapanã sob minha direção musical, produzido e gravado em Belém.

Holofote Virtual: A música instrumental paraense, aliás, tem uma história. Desde quando você se interessou por esse tipo de composição?

Foto: Renata Sobral
Gileno Foinquinos: Desde muito cedo inteirei-me pela música instrumental e isso foi graças ao convívio e influência de grandes músicos como Mini Paulo, Sagica, Kzam Gama, Pardal, Tinoco Costa,Dadadá Castro, Nego Nelson, Sebastião Tapajós que inclusive é grande amigo do meu pai. Meu pai (Lucimar Foinquinos), durante um longo período foi músico, guitarrista, e era integrante da banda Os populares de Cametá, isso me influenciou bastante apesar de ele ter tentado me sugerir seguir outros caminhos que não fosse a música... não teve jeito já estava completamente imerso nesse universo.

Nos anos 90, acompanhei o frenesi pelo qual passou a música instrumental paraense onde as praças da cidade ficavam lotadas por conta das várias apresentações que ocorriam pautadas nesse estilo de música. Em 1994, integrei a banda Amazônia Jazz Band e outras bandas de música instrumental muito ativas naquela época, as bandas Pandora e Estado de Espírito, grupos importantes na medida em que incentivaram a propagação da música instrumental pela cidade.

Belém é realmente uma fonte de grandes talentos. É incrível a nossa riqueza e versatilidade cultural, o poder de criação de música em todos os estilos: brega, carimbó,  guitarrada, música popular paraense e nesse caldeirão sonoro temos também a música instrumental. 

Holofote Virtual: Soube que você se inspirou em um estudo sobre o carapanã, para compor a faixa título. É isso? E o que exatamente imprimiu no disco?

Foto: Wesley Jardim

Gileno Foinquinos: Na verdade a ideia quando criei a música Vôo do carapanã que dá nome ao disco foi por que na época estudava muito a peça Voo do Besouro, do compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov, e percebi que era um verdadeiro desafio tocá-la, então inspirei-me nesta obra para criar a versão amazônica do Voo do Besouro. Coloquei esse nome pois sempre gostei da sonoridade dos termos do vocabulário indígena que inclusive uso também para nomear meus outros discos e composições. 

Neste sentido, considero o Voo do carapanã uma composição-desafio pois ao longo de muito tempo venho estudando-a para executá-la com primazia e sem escorregar no dedilhado, ela começa lenta, mas depois termina literalmente voando fazendo alusão ao voo rápido e frenético do carapanã. 

Holofote Virtual: A pandemia trouxe dificuldades e também abriu algumas portas no mundo digital. Como tem sido a difusão do disco, tens feito apresentações? Você acredita que esse ano as coisas melhorem, no que diz respeito ao trabalho presencial dos músicos?

Gileno Foinquinos: Confesso que não era muito adepto do mundo digital mas foi uma porta que se abriu, é fundamental usar as ferramentas digitais, precisamos nos reinventar pois essas alterações no mundo digital e expansão midiática vieram para ficar e são importantes para que o artista divulgue seu trabalho e alcance cada vez mais público.

Aderi aos novos formatos de apresentações musicais nos meios digitais e estou assimilando essa nova forma de fazer música. Entendo que o retorno presencial dos shows vai demorar um pouco mas é importante perceber que a vacinação está avançando e alcançando cada vez mais pessoas, isso nos enche de esperança para que possamos voltar também a fazer shows presenciais e sentir a interação e energia do público. 

Holofote Virtual: Você tocou e ainda toca com grandes músicos, paraenses e também nacionais. E conseguiu se estabelecer fora daqui vivendo de música. Conta um pouco dessa trajetória, o que foi mais difícil e como foi que rolaram os primeiros contatos com esse universo profissional, a partir de São Paulo.

Foto: Divulgação

Gileno Foinquinos: Com certeza foi difícil a inserção no cenário musical paulistano, pois São Paulo tem outra forma de respirar e viver a música é um universo de sonoridades e opções e em um primeiro momento precisamos nos adequar aos vários tipos de trabalhos. Inicialmente tocava em São Paulo com artistas locais como Matogrosso e Matias, Simoninha, Leo Maia... sempre fui de livre escolha, nunca me restringia a tocar somente um estilo musical, fiz algumas gravações com nomes importantes como Roberta Miranda e Roberto Carlos.  

Sabemos que o estilo instrumental não era uma vertente muito comercial então precisava trabalhar em diferentes frentes até me inserir e firmar meu trabalho autoral. Aos poucos fui estabelecendo uma rede de amizades muito importante, conheci  depois grandes nomes da música paulistana como Bocato, Nailor Proveta. Conheci um grande baixista Rubem Farias, aí ele montou um grupo de música instrumental Funk Brasil. 

Depois conheci o grande maestro Josoé Polia que convidou-me para participar da Orquestra de música Afro-brasileira (FILAFRO)  e então não parei mais, pois depois que a gente se insere as pessoas vão nos conhecendo pelo nosso trabalho, profissionalismo e vamos conquistando credibilidade. Atualmente sou guitarrista da Banda Silibrina  comandada pelo pianista Gabriel Nóbrega. Fiquei muito contente com o convite para integrar essa banda que é super respeitada no cenário musical brasileiro, é uma super responsabilidade que requer muita dedicação e uma carga horária de estudos diários.

Holofote Virtual:  Você é de Cametá, terra, por excelência, cultural e diversa, e onde também nasceu Cupijó.  Você costuma se inspirar na região em suas composições?

Foto: Divulgação

Gileno Foinquinos: Sim, o trabalho é completamente voltado para a cultura do Baixo Tocantins, precisamente a cidade de Cametá, minha cidade natal. Eu sempre fiz muitas pesquisas sobre os diversos ritmos de nossa região e agrego elementos do nosso folclore com diversos estilos no nosso Brasil e do mundo, tais como: choro, maxixe, música erudita e jazz e desenvolvo minha identidade e personalidade musical. Verdade. O mestre Cupijó é um dos grandes representantes da cultura de Cametá, inclusive meu pai estudou com ele. Conheci também a obra do mestre Manoel Verdaco o qual me influenciou também. 

Holofote Virtual: Quais os planos para esse segundo semestre, vai ter clipe desse novo trabalho, há uma agenda prevista?

Gileno Foinquinos: O segundo semestre está repleto de projetos. Em setembro já está previsto show de gravação do DVD do Voo do Carapanã no Teatro Waldemar Henrique. Estou desenvolvendo projetos culturais por meio de editais em São Paulo. Inclusive fiz recentemente temporada de música instrumental que está disponível no meu canal do Youtube.

Estou trabalhando em meu novo single chamado Desengano, um zouk, componho em diferentes estilos. Tenho parceria com grandes poetas aqui da cidade de Belém, o Dudu Neves e o Jorge Andrade, participamos com nossas composições de vários festivais de música pelo Brasil. Assim estou sempre na conexão Cametá/Belém/São Paulo, pesquisando, compondo e tocando Brasil afora. 

Para acompanhar as novidades: 

https://www.gilenoguitarra.com.br

Para ver mais:

https://www.youtube.com/watch?v=-uX1lEK9ULg

https://www.youtube.com/watch?v=oZxbpePXPJk

22.7.21

Bella na Mostra de Música Lambateria de Verão

A cantora e compositora se inscreveu e foi selecionada para participar do projeto, como uma das artistas autorais que seguiram produzindo durante a pandemia. O programa vai ao ar nesta sexta, 23, de julho às 19h30 no Youtube da Lambateria.

Com 24 anos, a atriz, cantora e compositora paraense lançou o primeiro EP da sua carreira em março de 2021. O trabalho autoral, intitulado Enlaço é composto por quatro faixas que mesclam ritmos latinos aos ritmos do Pará, e contam uma história de amor que fracassou, usando de elementos da natureza para causar um efeito sinestésico nas músicas. A artista, carrega em sua visualidade, os traços da sua terra com toques de contemporaneidade. 

Bella começou sua carreira na música em março deste ano com o lançamento de seu primeiro EP Enlaço, onde mistura ritmos latinos, Guitarrada e Carimbó.  Além da participação na mostra, ela irá gravar um single no Caverna Estúdio com produção e lançamento pela Lambada Produções. “Esse projeto é maravilhoso, que me deu a oportunidade de poder mostrar meu trabalho. Eu sempre frequentei a festa com meus amigos, era Lambadeira, e agora tô aqui, me apresentando”, festeja Bella, que lançou a carreira musical durante a pandemia.

A mostra estreou na a primeira sexta de julho, já trouxe encontros virtuais e oficinas. Além de música, também tem receitas, dicas de dança e clipes.  Nesta sexta, a chef Cássia Faria (@cassiafariagastronomia) ensina uma receita bem simples de torta de pizza, uma receitinha simples pra fazer com a criançada. Já o professor Rolon Ho (@rolon_ho) mostra um pouco da dança do TecnoBrega e o DJ Zek Picoteiro apresenta uma seleção caprichada de clipes de artistas paraenses.

“A Lambateria é uma festa que trabalha com o recorte da música paraense dançante. Com a pandemia, nós adaptamos nossas festas para a internet e desenvolvemos o projeto ‘Lambateria Live’ que teve mais de 140 horas de programação ao vivo. Depois do Festival em outubro do ano passado, os artistas que fazem parte do casting da Lambateria se dedicaram para lançar novos trabalhos e agora a gente volta com a Mostra de Música Lambateria de Verão, que vai ter shows inéditos, dança e entrevistas”, explica Sonia Ferro, da Lambada Produções, produtora realizadora da Lambateria. 

Os programas musicais são exibidos no Youtube da Lambateria, reunindo artistas paraenses que seguiram produzindo durante a pandemia e que tenham um repertório dançante composto por gêneros musicais latino-amazônicos.  Na última sexta-feira de julho, dia 30, o público irá conferir um compacto com os melhores momentos das apresentações musicais.

O projeto traz inclusão trazendo a tradução na Língua Brasileira de Sinais (Libras), com a intérprete responsável pelo projeto é Silvany Risuenho, profissional reconhecida na Comunidade Surda paraense Ao todo são cinco programas gravados no Centro Cultural Atores em Cena, um casarão antigo localizado na Av. Nazaré, e as receitas, nas cozinhas das chefs Cássia Faria (@cassiafariagastronoia) e Mariucha Morgado da Doceria Mariqueti. Já os shows foram gravados. 

A Mostra de Música Lambateria de Verão foi selecionada pelo Edital de Multilinguagens – Lei Aldir Blanc Pará, com apoio da Secult/ Governo do Estado, da Secretaria Especial de Cultura e do Ministério do Turismo / Governo Federal.

Serviço

Mostra de Música Lambateria de Verão

23 de julho – Artista convidada: Bella + receita + dica de dança + clipes + entrevista.

30 de julho – Compacto com os melhores momentos.

https://www.youtube.com/channel/UCSjbeM7TIuQGn2xwQM7_jBg

Nas sextas de julho, às 19h30, no Youtube da Lambateria Belém

Mais em: lambateria.com

Playlist Spotify

https://open.spotify.com/playlist/7jLu9vfCDX3WW9rlM3XOyF?si=e0047e881b4e44d1

20.7.21

Cinema no Marajó encerra com mostra de filmes

Grandes nomes do cinema local e internacional discutem sobre documentário durante quatro dias no encerramento do Projeto Cinema no Marajó, com programação de 22 a 25 de julho. Serão exibidos os filmes realizados durante as oficinas de introdução ao audiovisual, ofertadas pelo projeto a moradores das cidades de Breves e Melgaço. Iniciativa do Grupo de Pesquisa em Antropologia Visual VISAGEM, sob coordenação de Denise Cardoso, o projeto foi um dos projetos selecionado pelo edital de audiovisual – lei Aldir Blanc Pará 2020 e desde março vem sendo desenvolvido por uma equipe experiente. 

Os quatro curta-documentários produzidos nas oficinas de Introdução ao Audiovisual de Melgaço e Breves devem estrear na Mostra que será exibida totalmente online pela plataforma de Streaming Amazônia Flix (https://amazoniaflix.com.br/ ). “A ideia é apresentar aos jovens ribeirinhos este tipo de produção de modo que possam descobrir novas oportunidades e entender outros contextos da realidade que os circunda através do audiovisual” explica Denise Cardoso, coordenadora do Projeto.

Os alunos tiveram a chance de ter aulas com produtores, filmarkers e realizadores experientes que mesmo com as limitações impostas pela pandemia, conseguiram efetivamente aproximar a população ribeirinha do Cinema e da Fotografia através Rodas de Conversa com convidados especiais, do Brasil e de fora do país, e de oficinas de Fotografia e de Introdução ao Audiovisual (todas em modo online). 

A Mostra de Cinema Documentário é a última etapa do projeto e começa no dia  22 e vai até 08 de agosto. Durante esses 17 dias, os quatro filmes  produzidos durante as oficinas e ainda uma seleção especial estarão disponíveis para os interessados gratuitamente. 

A Abertura Oficial da  Mostra, com os integrantes da equipe, será às 17h do dia 22 pelo canal do Youtube do Projeto Cinema no Marajó. com o encerramento deve reunir Logo em seguida, às 18h, segue uma Roda de Conversa com Jorane Castro, Evandro Medeiros, Jorge Bodanzky, Alexandre Nogueira, Zienhe Castro, Chico Carneiro, Francisco Weyl e Felipe Pamplona (todos com filmes sendo exibidos na Mostra).

As Rodas de Conversa vão até dia 25/07 sempre com realizadoras e realizadores dos filmes em exibição. 


PROGRAMAÇÃO

Canal de Youtube

Dia 22

17h - Abertura da Mostra e apresentação do Projeto Cinema no Marajó.

18h - Roda de Conversa (via plataforma ZOOM) com os diretores dos filmes que serão exibidos na Sala Rio Laguna com: Jorane Castro, Jorge Bodanzky, Evandro Medeiros, Alexandre Nogueira, Francisco Weyl, Zienhe Castro, Chico Carneiro, Felipe Pamplona.

Dia 23

18h - Roda de Conversa com os diretores e as diretoras dos curtas-documentários exibidos na sala Rio Parauaú, que foram realizados durante o Projeto Cinema no Marajó.

Dia 24

18h - Roda de Conversa com José da Silva Ribeiro, Maria Alice Carvalho, Marcio Crux, Fernanda Campos, Sofia Carvalho e Denise Cardoso e Alessandro campos sobre os curtas produzidos durante o projeto “Um Salto a Melgaço: do Minho ao Amazonas - 2019/2020” exibidos na Sala Rio Anapú.

Dia 25

18h - Roda de Conversa  com os jovens diretores dos filmes exibidos na Sala Rio Pracaxí com Maria Alice Carvalho.

Filmes dos alunos

A arte de se reinventar todos os dias

Sinopse: Trabalhar na rua para sobreviver exige muita criatividade além força de vontade. Este documentário nos apresenta a rotina de dois destes profissionais que encaram os desafios deste tipo de ocupação em plena pandemia. Este curta-metragem é resultado da Oficina de Introdução ao Audiovisual realizada de modo virtual aos moradores de Breves do Marajó entre os dias 11 a 15 de maio de 2021.

Classificação: LIVRE | Duração: 00:05:00 | Ano de produção: 2021 | País de produção: Brasil PA | Direção: Tamires dos Santos e Taiane Santos.

Ficha Técnica: Roteiro: Jaqueline Brito Sanches, Taiane Santos e Tamires dos Santos |Fotografia: Andréa dos Santos, Jaqueline Brito Sanches, Taiane Santos e Tamires dos Santos |Som Andréa dos Santos e Jaqueline Brito Sanches |Produção: Tamires dos Santos e Taiane Santos

A gota d'água

Sinopse: Este documentário mostra as dificuldades em se conseguir água potável na cidade de Breves/Marajó, apresentando alguns de seus moradores e seus dramas diários. Este curta-metragem é resultado da Oficina de Introdução ao Audiovisual realizada de modo virtual aos moradores de Breves do Marajó entre os dias 11 a 15 de maio de 2021.

Classificação: LIVRE | Duração: 00:08:00 | Ano de produção: 2021 | País de produção: Brasil PA | Direção: Andressa Gonçalves.

Ficha Técnica: Roteiro: Gilvandria Almeida |Fotografia: Andressa Gonçalves e Rosilene dos Santos |Produção: Rosilene dos Santos e Max Kelvin Vasconcelos 

Mais informações: 

cinemanomarajo.grupovisagem.org/#oprojeto.

Naldinho e Ana Clara lançam canção em parceria

Naldinho Freire e Ana Clara
Fotos: Ketlen Santos e Tita Padilha, respectivamente

Ela é paraense e vem galgando uma carreira cheia de sutilezas e personalidade. Ele é paraibano, morou em outras cidades brasileiras até vir cair em Belém em 2016, onde morou até 2020, construindo uma história na cena paraense. De gerações diferentes, mas com afinidades em compartilhar música e poesia com o outro, Ana Clara e Naldinho Freire iniciaram parceira com a música Clareira, letra dela, música dele.

Ambos possuem trajetórias artísticas que já contam com shows e gravações. Ana Clara lançou o primeiro disco em 2015, já Naldinho, lançou o primeiro disco, um vinil, em 1995. Ana o conheceu quando ainda trabalhava na Rádio Cultura e o entrevistou à época em que o cantautor estava lançando, em Belém, o álbum “sem chumbo nos pés”, em maio de 2018, e, desde então vem acompanhando a carreira dele. “Acho o trabalho bem bonito e plural”, diz a cantora e compositora.

Ele tinha acabado de chegar na cidade e fez uma apresentação na Casa do Fauno, no Reduto, e assim concedeu algumas entrevistas na imprensa local. “Ana Clara, que era a apresentadora do programa Conexão, da Rádio Cultura, foi a primeira pessoa em uma rádio no Pará a me entrevistar”, lembra Naldinho que, mais adiante, por conta de sua ligação, também musical, com Natália Matos, acabou conhecendo o trabalho de Ana, pois as duas têm uma parceria também. Gostou do trabalho dela e este ano resolveu convidá-la, para comporem uma canção. 

“Nos comunicávamos de vez em quando, ele mandando atualizações do trabalho dele, e recentemente veio a conversa sobre compormos algo juntos. Eu lembrei dessa letra que eu tinha escrito há um tempinho, acho que fim de 2019 ou começo de 2020, que me pareceu ter a ver pra essa parceria e achamos que ela tinha um sentido forte nesse momento, uma luminosidade esperançosa que acho que calha bem pra agora”, comenta Ana.

A canção "Clareira", explica Naldinho, “traz um texto que condiz com o período que estamos vivenciando e nos convida a ficarmos atentos às fagulhas de esperança, fortalece a filosofia de que trata o multiartista Pedro Osmar - é coisa de poeta, navegar na contramão- , que através da música, das artes, conseguimos espantar o medo, baixar a febre”.

A canção, nessa primeira apresentação, vem com a voz dele, dois violões (cordas de nylon e aço) e uma sutil percussão (Moringa e ganzá). E é mais uma parceria em meio a uma invejável coleção que ele já possui. Residindo, hoje, em Santa Cruz de Cabrália, na Bahia, ele segue realizando inúmeras conexões, como tem feito em sua trajetória.

“Nesse período pandêmico tenho composto muito e construído parcerias à distância, portanto, chegou o momento de concretizarmos eu e Ana Clara uma parceria musical, eu na Bahia e ela em Belém do Pará. Ela me enviou o texto e fomos discutindo a melhor forma de trazê-lo para o universo da canção, chegamos ao formato que percebemos o diálogo texto-canção e que estávamos satisfeitos com a estética do trabalho musical. Após essa fase, iniciei o processo de gravação do registro audiovisual da canção e chegamos ao resultado que foi publicado no meu canal no Youtube”, conta ele.   

Projetos e novas parcerias   

Ana Clara e Lucas Padilha - Meio Amargo 
Foto: Tita Padilha

Ana Clara também coleciona boas parcerias. “Acho que as interações que a música possibilita são a minha parte preferida, entrar em contato com a visão do outro, aprender e contemplar caminhos diferentes, unir concepções.  Ele fez essa gravação que achei que ficou super bonita. Chegamos a pensar de eu colocar alguns elementos, também, só que como tô em fase de encerramento de dois projetos concomitantes, acabei não conseguindo fazer a tempo. Mas falei pra ele que gostaria de gravar junto quando for possível”, diz.

Ela acabou de lançar um clipe com o Meio Amargo, com apoio da Lei Aldir Blanc. A música chama-se "Golpe de Sorte", e está trabalhando o disco por meio de uma emenda parlamentar do então deputado Edmilson Rodrigues. Vem lançamento aí, em breve.

“O álbum já era um plano antigo, então estamos felizes de finalmente conseguir lançar, em breve. E também com o resultado, especialmente porque foi um processo desafiador pra gente produzir nesse período, sem reunir a banda e com cada integrante enfrentando diferentes tipos de dificuldades. Houve momentos em que achamos que não daria certo, por isso ver as músicas tomando forma tem sido muito gratificante”, conta a cantora.

Clareira, para ouvir no Youtube

Já Naldinho Freire,  tem recebido e provocado outros compositoras/es paraibanas/os, baianas/os, gaúchas/os, semeando sementes de sons e palavras para que se tornem árvores e frutificaram. “Em breve teremos um trabalho de composição com a compositora Ezra e o meu primeiro álbum o vinil "Lapidar", que está sendo trabalhado para ser lançado nas plataformas de streaming”, anuncia.

Diante desse corre artístico que cada um possui, por enquanto “Clareira” fica como está, até que as coisas possam convergir novamente. “Em conversas com Ana Clara já pensamos na possibilidade de gravarmos um single, um outro clipe com a participação dela , mas, o melhor é deixar fluir os acontecimentos em torno da canção, curtir esse resultado, divulgar para que as pessoas percebam a força dessa canção e o que ela tem a contribuir com esse momento que necessitamos de construir clareiras”, define Naldinho.

Para ouvir a música:

https://www.youtube.com/watch?v=yy6_CA4Z_7Y&feature=youtu.be

Mais sobre os compositores:

@naldinhofreireoficial

@anaclara.nm

19.7.21

Rádio Margarida festeja 30 anos com cortejo e live

A Rádio Margarida está completando este ano, 30 anos de atuação na defesa dos direitos humanos na Amazônia. Para celebrar a data, a ONG realizará uma programação especial com live artística, nesta terça-feira, 20 de julho. Haverá cortejo cultural e uma live!

A circulação pelas ruas de Belém vai contar com  um dos seus maiores símbolos: o Margaridinha, ônibus histórico da 2ª Guerra Mundial que esteve presente na primeira aparição pública da Rádio, em julho de 1991. Toda a programação respeitará os protocolos de segurança em saúde, em virtude da pandemia.

Para relembrar a primeira saída em 1991, no dia 20 de julho, o ônibus Margaridinha circulará pelo complexo do Ver-o-Peso, com participação de arte-educadores, dançarinos e bonecão mascote, uma trupe semelhante à que estava na primeira apresentação da ONG. Parte do elenco irá dentro do ônibus, e outra parte irá acompanhando do lado de fora. O cortejo não fará apresentações fixas para não provocar aglomerações. 

Além disso, será realizada também no dia 20 uma live com programação artística, incluindo apresentação teatral, teatro de bonecos, música e depoimentos de pessoas que fazem parte da história da Rádio Margarida. O evento será transmitido pelo canal da ONG no YouTube.

Para Osmar Pancera, fundador da Rádio Margarida, o objetivo da programação é dar visibilidade ao trabalho da ONG, importante para a garantia dos direitos humanos na nossa região, e marcar esta data em que foi feita a sua primeira ação, quando o ônibus Margaridinha circulou de Belém até a ilha de Mosqueiro levando uma concepção artística de um radioteatro ambulante. 

Ao longo dessas 3 décadas de história, a ONG realizou dezenas de projetos e produziu centenas de conteúdos educativos, a maior parte deles disponíveis no seu portal e canal do YouTube. Entre 2018 e 2019, visitou mais de 100 municípios no Estado do Pará. 

Agora, em 2021, realizou uma campanha para o município de Tucumã-PA voltada para o enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes, um dos temas mais trabalhados pela ONG. E também realiza no Marajó, em parceria com o UNICEF, o projeto Awuré Ubuntu, que tem como objetivo criar subsídios para o enfrentamento da violência sexual e do trabalho infantil nas cidades de Curralinho, Melgaço e Breves. 

Sobre a Rádio Margarida

Com o objetivo de promover os direitos humanos e, de maneira especial, o de crianças e adolescentes na Amazônia, a ONG busca levar informação, cultura e cidadania para as diferentes comunidades da nossa região. 

Com uma técnica própria de trabalho, o Método de Educação Popular – Rádio Ação, a Rádio utiliza as linguagens artísticas (teatro, teatro de bonecos, palhaço, brincadeiras, música) e os meios de comunicação social (audiovisual, impresso e digital) para sensibilizar e educar crianças, adolescentes e adultos de forma lúdica e acessível.

Alguns dos temas trabalhados pela ONG são: violência sexual contra crianças e adolescentes, trabalho infantil, violência doméstica contra crianças e adolescentes, bullying, drogas, educação, saúde, cultura e meio ambiente. Alguns dos conteúdos educativos produzidos já tiveram circulação nacional, como a série de vídeos produzidos em parceria com o MEC em 2008.

Ônibus “Margaridinha”

O “Margaridinha” é um veículo que remonta à 2ª Guerra Mundial e fazia parte de uma frota doada pelo exército suíço para instituições religiosas. Ele pertencia à República do Pequeno Vendedor (que deu origem ao Movimento de Emaús) e serviu, durante anos, como meio de transporte a muitos meninos e meninas em situação de rua.

Adquirido posteriormente pela Rádio Margarida, o ônibus foi todo reformado e esteve presente na primeira aparição pública da ONG, realizada no dia 20 de julho de 1991, num percurso que foi de Belém a Mosqueiro. Desde então, sempre levou arte, cultura, informação e educação para a capital e o interior do Estado do Pará. Durante algum tempo, esteve parado por problemas técnicos e falta de recursos para restauro. Mas no Círio de 2020, o veículo retornou às ruas de Belém numa ação que levou teatro e música pelas ruas da capital paraense.

Programação

Dia 20 de julho – Terça-feira

12h – Cortejo Artístico Cultural no Ver-o-Peso

Concentração: 11h em frente ao Sesc Boulevard

Após cortejo no Ver-o-Peso, o ônibus circulará por algumas ruas e avenidas de Belém.

19h – Live Comemorativa

19h00 – Abertura: Palhaço Claustrofóbico + Boneco Padre Bruno

19h05 – Videoclipe 30 anos (Asas da imaginação) 

19h10 – Depoimento Osmar Pancera (fundador da Rádio Margarida) - o início da história

19h20 – Espetáculo teatral “Domador e seus animais nada abestados” (teatro de bonecos)

19h30 – Apresentação musical com Renato Torres (música “Sorriso”)

19h35 – Apresentação do palhaço Claustrofóbico e do personagem Super ECA

19h40 – Depoimentos Carmen Chaves e Eugênia Melo (cofundadoras da Rádio Margarida) - projetos e prêmios

19h50 – Apresentação musical com Melyssa Albuquerque e Luciano Lira (música “Redução da maioridade penal”)

20h00 – Vídeo com depoimentos sobre a Rádio Margarida

20h05 – Espetáculo teatral “Árvore” (teatro de bonecos)

20h10 – Apresentação do palhaço Claustrofóbico e do boneco Vovô Osvaldinho 

20h15 – Depoimento Nayara Lima - O que nos move a continuar?

20h20 – Encerramento – Agradecimento com participação da bonecona Olímpia

Para saber mais:

Site: www.radiomargarida.org.br

Instagram: @radiomargarida

Facebook: facebook.com/radiomargaridaong

Youtube: youtube.com/radiomargaridaong


17.7.21

Thiago Castanho na websérie "Do Boteco à Baiuca"

Pensando em resgatar essa cultura, carregada de memória afetiva para o paraense, a Bohemia lançou nesta última quinta-feira (15), a websérie "Boteco à Baiuca", com o chef paraense. Ao todo serão 8 episódios lançados a cada 15 dias no perfil oficial de Thiago Castanho.

A Baiuca, um termo antigo do Pará, equivalente a boteco, já estava quase esquecida e em desuso pelos jovens, mas ganhou atenção da cerveja Bohemia, primeira cervejaria do Brasil, que olha e resgata as tradições de cada canto do país. 

Thiago Castanho, além de chef, é um baiuqueiro apaixonado pelo Pará. O paraense é conhecido pelo trabalho como apresentador da série de gastronomia Sabores da Floresta no canal Futura, ele representa a culinária paraense e todas suas tradições, buscando sempre elementos regionais e receitas que conectem a natureza exuberante do Pará e da Amazônia. 

A websérie terá oito episódios e levará os paraenses a uma viagem gastronômica e cultural pelas ruas de Belém. “Todo paraense das antigas se reconhece ao entrar numa baiuca, mas nem todo mundo da nova geração teve a oportunidade de viver essa experiência, ou só viveram a versão boteco dela”, conta Thiago Castanho logo no 1º episódio. 

Cada episódio da websérie contará uma história e levará o espectador para dentro das baiucas. Produtos, ingredientes, clientes, sabores, aromas serão retratados em cada cena, com toda a simpatia e conhecimento do chef. 

“A Bohemia não deixa as tradições se perderem com o tempo. A primeira cervejaria do Brasil é cultura e tradição em movimento, mergulhou nesses botecos, e valoriza as histórias e personagens que fazem parte deste universo, mostrando a relevância da Baiuca para a cultura paraense”, explica Thalita Barreto, gerente de marketing regional da Ambev.

Os episódios vão ao ar, a partir desta semana, até o final de semana que antecede o Círio de Nazaré, em outubro. Os programas inéditos serão veiculados sempre às quintas-feiras, de 15 em 15 dias, no IGTV de Thiago Castanho no Instagram. 

A Bohemia move tradições. Presente na vida dos brasileiros desde 1953, a Bohemia Puro Malte é uma cerveja para todos os momentos. Produzida com malte 100% importado e lúpulo Saaz, da República Tcheca, ela é clara, leve e muito refrescante. Tim, Tim! 

Para ver o primeiro episódio, vai lá no perfil do chef @thiagocastanho.

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14.7.21

Coletivo Mergulho lança o 1o álbum da trajetória

Fotos: Rogério Folha
"Cantos de Encantaria" é um projeto antigo do Coletivo Mergulho, formado por Renato Torres e Carol Magno, que experimentam a arte em vários formatos, e entram agora numa conexão mais profunda com a floresta e os encantados. O disco sai em CD físico, além de chegar, nesta quinta-feira, 15, em todas as plataformas digitais. 

Em 2013, Renato Torres e Carol Magno se encontraram e se tornaram parceiros na arte e na vida. Desde então passaram a realizar diversos projetos que tiveram como embrião o que agora se materializa em "Cantos de Encantaria", fruto de um processo longo, denso, repleto de intuição e alumbramento, criação e escuta na e da natureza; e que agora pode ser compartilhado com o mundo. 

"Esse é o nosso primeiro projeto juntos, temos os espetáculos, performances, mas esse trabalho é como se fosse o projeto mãe de todos os outros. Tudo começou de forma natural, a partir dos lugares que a gente ia e vivenciava algumas experiências que nos levaram a compor. E com o tempo, isso ganhou uma linguagem própria, uma cara. Ele fala, por meio da música, muito das imagens que a gente constrói sobre essa Amazônia, que está na nossa pele, na nossa carne. É uma forma de ver o mundo, de como esse lugar constitui a gente", comenta Carol Magno.

Renato Torres conta que no início foram sendo experimentadas habilidades e possibilidades que eles já possuíam e experimentavam unindo encenação, poemas e música, coisas que eles já gostavam de realizar, até que percebessem que ali havia algo a ser mais precisamente investigado. "A gente percebeu que havia um material falando mais especificamente dessas energias que a gente percebe como influências ou heranças afro indígenas, principalmente no norte amazônico, como a pajelança cabocla, e a maneira como as religiões de matriz africana e a própria espiritualidade indígena funcionam dentro do nosso ethos, nosso modo de viver”, diz o músico.

O projeto se concretiza, em meio a pandemia, a partir de emenda parlamentar do então Deputado Federal Edmilson Rodrigues. "Esse trabalho me transforma, provoca uma coisa que eu acho muito cara dentro da obra de arte que é a pausa, ele me faz parar para olhar pra dentro, pensar e refletir sobre tudo isso foi vivenciado esses anos, dentro dessas matas e igarapés. A possibilidade de realizar esse trabalho, em plena pandemia, foi algo  transformador. Esperamos que aqueles que escutarem o disco consigam sentir o que foi tudo isso, que todos sintam integralmente o que quisemos passar, traduzir", diz Carol. 

São ao todo 13 músicas e cada uma tem sua história

O disco chega completo, depois do lançamento de três singles. O primeiro, lançado em março, intitulado "Minha Mãe"; em junho, "Mergulho", e agora, em julho, "Riozinho", que vai também ganhar um clipe que será lançado no dia 23, com direção de João Urubu; concepção e confecção de figurinos, de Maurício Franco e Marileia Aguiar. O ensaio fotográfico feito no Combu, é assinado por Rogério Folha e Cristina Pessoa concebeu a maquiagem que transforma Carol e Renato, visualmente, em entidades indígenas. 

A música foi feita numa localidade específica na ilha de Colares, num sítio em que existe um belo igarapé, e após uma experiência sensitiva de Carol Magno, que durou uma noite em claro, ouvindo tambores e vozes que a chamavam para dentro da água. 

Já a canção "Encantado", a segunda canção do álbum, veio de uma experiência em Santa Bárbara, no meio do mato. "Chegamos a um igarapé e fomos seguindo seu leito até nos perceber na mata, num lugar de muita beleza e energia. Paramos num determinado ponto que parecia uma piscina e estávamos com mais um amigo e parceiro que compôs conosco a canção", relembra. 

O tema que veio ali naquele dia, fala de uma entidade que os acompanhava, algo que tinha a mesma sinuosidade do próprio leito do igarapé, como se fosse alguém que se transformava em cobra. "Este alguém invisível a andar pela mata observa esse canto e me sopra as palavras", diz a letra. "E assim percebemos que essas canções tinham uma conexão ou materializam essa conexão que estávamos, os três, ali sentindo”, diz o músico.

Para ele, viver em Belém e frequentar os demais municípios paraenses, os possibilitou adentrar na mata para ouvir com profundidade seus sons e formas de vida. Essa foi a chave de tudo, pois lhes permitiu  vivenciar junto às comunidades e moradores de cada lugar todas essas situações de ancestralidade e  conexão com a natureza. "Várias canções começaram a brotar nestas visitas, em que iam surgindo temas de orixás e outros que simplesmente tratavam de reverberações e vibrações que sentíamos nos lugares e não sabíamos nomear", continua Renato, que também possui um trabalho de produção musical para o teatro e de participação e criação de diversas bandas da cidade. 

Não há caráter religioso, mas essa obra nos religa à natureza

"Cantos de Encantaria" não traz cânticos religiosos de qualquer natureza e nem mesmo são pontos de terreiro. Os cânticos são de encantaria, mas trazendo a energias das nossas mandingas e receitas de cura, com os banhos de cheiro, de descarrego e de toda proximidade da natureza. 

"É evocativo de uma ambiência que vivemos quase que constantemente no norte", comenta o artista, sobre esse estado de permanente encantamento ou como disse João de Jesus Paes Loureiro, de maravilhamento do caboclo amazônico, ao olhar para toda essa exuberância da floresta.

Para o coletivo, essa ancestralidade afro indígena é algo que torna especiais as pessoas que vivem nesta região, mas é também uma tradição musical que já existe no Brasil. "Não estamos inventando nada, há muitas pessoas e compositores fazendo esse tipo de trabalho, se conectando com essa energia. Nosso diferencial é que também estamos conectados a um tripé formado pelo teatro, a poesia e a música", segue Renato.

Carol comenta que o disco que está sendo entregue esta semana, vem sendo maturado há algum tempo, com parceiros que somam no Coletivo Mergulho. "Cada pessoa que nos agregamos, e com muitas delas sonhamos e convidamos para contribuir com essa identidade amazônica que temos, que entendemos como esse lugar abundante, de natureza, espiritual, de força e energia", continua a artista, que além de artista-articuladora do Coletivo Mergulho, possui uma vasta produção acadêmica. É Mestra em Artes pelo Instituto de Ciências da Arte pela UFPA, tendo lançado em 2016, o livro "Feminino à queima roupa".

E assim, nesta nova produção do coletivo, há participações de músicos como Jade Guilhon, Katarina Chaves, Camila Barbalho, Armando de Mendonça, João Paulo Pires, JP Cavalcante, Marcelo Ramos, Tista Lima, Príamo Brandão, Rodrigo Ferreira e Paulo Borges. O disco  sai pelo selo carioca Labidad Produções, com apoio também da UFPA, via Fundação de Amparo e Desenvolvimento à Pesquisa - Fadesp e Faculdade de Comunicação. 

"Esse trabalho recebeu recursos de emenda parlamentar e somos muito gratos a todos que nos apoiaram, como Inês Silveira, que foi assessora de Edmilson quando deputado federal; e a professora Ana Prado, da Facom que foi quem coordenou o projeto, pela universidade", finaliza Renato.

Ficha Técnica

Produzido e dirigido  por Renato Torres e Carol Magno
Arranjos de Renato Torres e Carol Magno com a colaboração dos músicos
Pinturas da capa e encarte: Maurício Franco
Projeto gráfico: Eliane Moura
Fotos: Rogério Folha
Maquiagem: Cristina Pessôa
Cantos de Encantaria:
Carol Magno: voz, vocais
Renato Torres: voz, violão, ukulele e vocai
Assessoria de imprensa: Dani Franco

Participações especiais:

Jade Guilhon: viola (Lamento da Mãe D’água, Mergulho, Oxum e Oxóssi, Riozinho);
Katarina Chaves: percussão (Baia Morena, Cachoeira dos Pretos, Canto Pra Mãe do Mar, Minha Mãe, Riozinho);
Camila Barbalho: baixo elétrico (Chuva);
Armando de Mendonça: violino (Jurunaldeia, Mergulho, Minha Mãe, Oxum e Oxóssi, Riozinho);
João Paulo Pires: percussão (Canção Cigana, Chuva, Jurunaldeia, Maré Cheia, Lamento da Mãe D’água);
JP Cavalcante: percussão (Encantado, Oxum e Oxóssi, Mergulho);
Marcelo Ramos: violão 7 cordas (Baia Morena, Canto Pra Mãe do Mar);
Tista Lima: sanfona (Canção Cigana);
Príamo Brandão: baixo acústico (Cachoeira dos Pretos);
Rodrigo Ferreira: teclados (Maré Cheia);
Paulo Borges: flauta transversal (Chuva).

Serviço

Lançamento do álbum “Cantos de Encantaria” do Coletivo Mergulho. Nesta quinta-feira, 15 de julho de 2021. Nas plataformas Deezer, Spotify e Apple Music e nas redes sociais  do @coletivomergulho (Instagram e Facebook) e em breve na Loja Ná Figueredo. O disco foi gravado, mixado e masterizado no Guamundo Home Studio, por Renato Torres, com realização do Coletivo Mergulho, e produção da Reator Cultural Socioambiental. 

13.7.21

O Balanço do Rock nas ondas sonoras de um livro

Lançado recentemente pela Funtelpa, junto à celebração, o livro do Balanço do Rock contou com série de três programas especiais transmitidos pelo canal de Youtube do Portal Cultura. O último vai ao ar às 20h desta terça-feira, 13 de julho, claro, no Dia do Rock.

Há umas duas semanas chegou aqui em casa pelas mãos do baterista Carlos Canhão Brito (atualmente da banda Puget Blues, ex- A Euterpia entre outros grupos e projetos musicais), o livro "Balanço do Rock - a mais tribal de todas as festas", que comemora os 30 anos desse programa criado na Rádio Cultura do Pará. Ainda estou terminando de ler o livro, mas na data de hoje, impossível te-lo em mãos e não gerar o conteúdo de hoje aqui no blog. 

A narrativa é do jornalista Vladimir Cunha, que viveu e aborda as três décadas de história do programa, passeia por histórias diversas envolvendo as bandas, ensaios e tantos outros desdobramentos vinculados direta ou indiretamente ao programa Balaço do Rock. Leitura fluída e lembranças a flor da pele, para quem também viveu aquela época. Informativa e interessante pra quem chegou depois.

Para quem já leu Decibéis sob Mangueiras, do Ismael Machado, que se tornou um clássico sobre os rock paraense dos anos 1980 e inicio dos anos 1990, ler o "Balanço do Rock" se faz recomendado, pois é complemento com novidades. Traz visões e depoimentos de momentos retratados nas duas obras. Já se passaram 30 anos, mas em alguns dos pontos mais impactantes dessa história, as reflexões são catárticas. É o caso da fatídica noite do 3o Rock 24 horas. 

Eu estava lá e quando chegamos a Jolly Jocker estava no palco, mas a tensão já era grande nos arredores. Um anjo deve ter sussurrado em nossos ouvidos e saímos dali para dar um rolê e voltar depois, mas não houve depois. E não foi fácil ressurgir dos escombros deixados pelo incidente. A maior violência, porém, foi feita contra o rock que se tornou o único culpado de tudo aquilo. O peso do mundo caiu sob nossas costas, que ainda éramos tão jovens. E se tudo tivesse dado certo o Ismael e o Vlad estariam contando uma história bem diferente sobre a nossa cena rock, mas chega de lamentos.

Contextualizado o sentimento de liberdade que aflorava no país com a abertura política e tudo que houve depois nesta década, a introdução do jornalista e produtor Marcelo Damaso (Se Rasgum) é um convite para mergulharmos no texto que vem a seguir, retomando passo a passo os anos marcantes da virada dos anos 1980 para os da década de 1990. A capa do livro, assinada por Bina Jares, é inspirada numa Fita K7, algo marcante para o programa, como vocês lerão nas páginas desse livro, apresentado pelo atual presidente da Funtelpa, o radialista Hilbert Pinho Nascimento. 

Acho que todo mundo que o ler, aliás, sendo daquela geração, vai também fazer uma longa viagem até chegar aqui e se olhar, 30 anos depois. Em 80, assim como muita gente que se identificava com a música brasileira e o rock nacional, a rádio era sinônimo de diversão. Pré-adolescente, eu gravava e transcrevia as letras das canções que eu ouvia em alguns programas, e comecei, assim que tive recursos, a comprar vinis. Acabei indo pro Rock in Rio na metade da década. No Rio de Janeiro, não se falava em outra coisa que não fosse rock ou Circo Voador. 

Em Belém, ia-se ao La Cage (uma história que precisa ser contada pelos DJs) e aos shows dos grandes nomes da cena roqueira do Brasil, na Escola de Educação Física. Entre outros, vi Paralamas, Cazuza, Biquini Cavadão, Legião Urbana e Lobão (arghh, dá até raiva de cita-lo, mas tá na história, assim como a cena patética dele na Avenida Paulista pedindo a volta da Ditadura) e Rita Lee, mas também cheguei a ver As Mercenárias. O Vlad descreve muito bem todo esse cenário local, da galera que tava na rua fazendo e acontecendo. Lembrei que de vez em quando eu caía numa festinha de apê, onde para entrar tínhamos que ter senha, hahaha. Eu geralmente saía do lendário Bar 3 x 4 já com quem sabia mais do que eu das coisas. 

Estávamos em 1989 e eu já cursava o segundo ano de comunicação social, com uma queda irreversível  pelo jornalismo cultural. No ano seguinte, estava chegando à Funtelpa, mais especificamente à discoteca da Rádio Cultura, onde me abracei com muitos vinis. Na programação da radio, estavam Mariano Klautau, Beto Fares, Toni Soares, Luizão e outros que, não só nos apresentavam as novidades musicais de fora do circuito comercial, como também articulavam shows de Arrigo Barnabé, Dulce Quental e Ney Lisboa em Belém. 

Fim dos anos 1980 e o início do Balanço

Os anos 80 se foram e na década seguinte, Felipe Gilet e Marcelo Ferreira criavam o Balanço do Rock, programa que foi se firmando na medida em que compreendia que, para virar tendência era preciso ser autoral, e para ser autoral, precisava trazer seus protagonistas também para dentro da estrutura da rádio. E isso tudo aliado a profissionalismo e coragem, já que o rock não é o estilo que se aceita numa sociedade tacanha. 

As bandas sonhavam em gravar e ter videoclipe na MTV, e eu tinha voltado a trabalhar na Funtelpa, em 1992. Dois anos depois comecei minha jornada, também na redação do Diário do Pará, no Caderno de Cultura, vi nascer a ideia do Caderno Animal. Era frequentadora de carteirinha do Go Fish, onde vi ser construída e realizada a primeira Feira Mix e o movimento Drag Queem pioneiro de Belém. Eram várias cenas, além do rock, mas isso gera outro livro.

Não há espaço para saudosismo, mas é curioso e importante lembrar que não havia celular, mas sim, o conhecido Bip e as secretárias eletrônicas para nos comunicar. Tínhamos mais tempo uns para os outros, tipo presencial. Não havia selfies, mas tenho fotos em película e posso provar que estava lá. Nem sonhava que existiria a Internet como a conhecemos hoje, nem que estaria escrevendo sobre isso num blog, só pra dizer pra vocês que a história é igual ao rock, se faz vivendo de verdade e se está sempre disposto a virar o jogo!  

Leiam Balanço do Rock ouçam as bandas do tempo de vocês, conheçam as que vieram antes, gerem a nova cena e os roqueiros que queremos. Vivam o rock todos os dias! Tô pensando aqui que Vavá e Edidinho estão ouvindo, hoje, um som celestial. E que essa pandemia vai passar, os facistas vão cair, estejamos prontos, produzindo e mais concientes de tudo, principalmente politicamente. 

Para se inspirar, vejam logo mais o programa especial de 30 anos do Balanço do Rock que hoje (13), às 20h, recebe a banda Klitores Kaos, banda de Hardcore/punk/crust Feminista e Antiracista, formada em 2015 em Belém do Pará. Deixo aqui os parabéns ao Balanço do Rock, que estará ao vivo, pelo canal de Youtube do Portal Cultura, com apresentação de Raul Bentes, que comanda o programa em todas as noites de quarta-feira, na Rádio e Portal Cultura. 

Canal Portal Cultura

https://www.youtube.com/user/canalportalcultura/featured

Para saber mais:

http://www.portalcultura.com.br/node/54799

Henrique Montagne inaugura exposição em Belém


Bruta flor do querer

Conheça o universo do artista e a exposição “Suaves Brutalidades”, que ele abre nesta quinta, 15, no Museu de Arte Contemporânea Casa das Onze Janelas. 

Por Bianca Levy

“Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra - talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum deles se perguntou. Não chegaram a usar palavras como especial, diferente ou qualquer outra assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece, porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las”. 

Esse é o trecho do conto “Aqueles dois”, do escritor Caio Fernando Abreu, mas poderia ter sido escrito por Henrique Montagne, e na verdade são, em uma escrita visual fascinante, que pode ser conferida na exposição “Suaves Brutalidades”, que será lançada nesta quinta-feira, 15, a partir das 9h, no Museu Casa das Onze Janelas. A exposição seguirá aberta para visitação até o dia 30 de agosto, de terça a domingo, das 9h às 17h.

“Suaves Brutalidades” aborda as relações contemporâneas, mas debruçando o olhar sobre o homem, o que é e pode ser masculinidade e as rotinas de vida e modos de se relacionar entre homens.  Com curadoria de Tales Frey, a exposição traz obras que transitam entre a visualidade e performance por meio de suportes multimídias, e é o resultado de um processo poético de vida e arte empreendido por Montagne durante seis anos. O artista concedeu uma entrevista exclusiva para o Holofote Virtual, onde conta com detalhes este processo criativo e a experiência de realizar uma exposição em tempos tão turbulentos.      

Conta um pouco sobre a tua trajetória artística e de vida.

Henrique Montagne: Bom, eu sou formado em Bacharelado em Artes Visuais pela UFPA. Mas, sempre tive direcionamentos para as artes. Sempre desenhei desde moleque, morava no bairro da Cremação em uma passagem chamada Mocambo, a casa da minha vó era de madeira e ela passava boa parte do tempo comigo, me dando papel e brincando comigo. Foi uma boa infância familiar, dentro de casa sempre tive muita liberdade, mas dentro do colégio, já não era mais bem assim... 

Sofri muito bullying, perseguição na escola, situações constrangedoras e humilhantes, sempre voltava chorando da escola devido ao meu comportamento quando criança, sempre fui bem quieto e tímido e fora do padrão de um menino “normal” na época (e ainda hoje) que era jogar bola, paquerar todas as meninas e pensar em namoro. Eu, não. Sempre gostei de estudar e assistir filmes, desenhar, cantar e escutar música na MTV no início dos anos 2000. 

Minha educação sobre o diferente sempre foi de respeito, e eu mesmo fui buscando sobre, desde pequeno tinha noção da minha “afetividade” e “sexualidade”, não via como diferença gostar de um menino ou de uma menina, mas sempre guardava isso pra mim. Minha família era bem humilde e não tinha referências e esses contatos com a diversidade; aprendi pela TV, na época ainda estava começando as “Lan Houses” nos bairros de periferia, daí comecei a acessar a internet e pela primeira vez tive acesso ao computador e fui pesquisando e vendo que não era só eu que pensava assim. 

Depois com Ensino Fundamental e Médio, conheci outros adolescentes, colegas que compartilhavam dos mesmos pensamentos, que também estavam tentando se entender. Então já podia me defender e defender minhas ideias e convicções e o preconceito já era tido como algo “arcaico” (mas que perdura até hoje). Me mudei pro Jurunas nesse período, onde moro há mais de 10 anos. 

Em 2013 tive a oportunidade de fazer um curso na ETDUFPA de Produção Cultural, lá tive o primeiro contato real, com artistas e pessoas “diferentes” do meu mundo e rotina, homossexuais, bissexuais, lésbicas e héteros. Assisti pela primeira vez uma peça de Teatro que não era “cristã”, inspirada no Faroeste Caboclo de Renato Russo, vi que a sexualidade era algo que realmente não tinha explorado nem 1/3, aquilo era um mundo totalmente novo. 

Comecei a conhecer a noite e o circuito cultural e artístico de Belém naquela época. Com os colegas de teatro fui experimentando trabalhos artísticos, que na época era com fotografia e arte digital, eu trabalhava com os performers e criávamos obras juntos. Até que em 2014 eu fui selecionado pela primeira vez em um salão de arte, o Salão de Arte Digital Xumucuís e foi na Casa das 11 Janelas. Lá conheci algumas pessoas da UFPA de artes e a partir daí pensei em prestar vestibular pra Artes Visuais, e entrei na universidade em 2015. De lá foi um aprendizado de experiências e múltiplas vivências para enfim  direcionar em 2016-17 a minha pesquisa e investigação poética e a minha produção como é hoje, o que gerou meu TCC “Até Logo: Ou a arte das relações” para a conclusão da graduação em 2019.

Essa é a tua primeira exposição individual. Foram seis anos de processos criativos que culminaram agora com a exposição. Me fala um pouco sobre esse percurso, como foi o processo criativo e os atravessamentos entre arte e vida nesta construção?

Henrique Montagne: Exatamente por ser um percurso longo, a exposição se apresenta entre duas pesquisas que se conectam como poética que persiste em meu trabalho. Falar sobre as relações afetivas na contemporaneidade e sobre a masculinidade, ou seja, falar e debater sobre gênero e também como isso se reflete e quem protagoniza esses causos afetivos e brutais das relações amorosas no mundo contemporâneo. 

Com a curadoria do Tales, ele traz tanto trabalhos meus de 2013, muito antes de entrar na universidade, junto com trabalhos a partir de 2016, quando assumo e inicio de fato essa pesquisa em teoria e prática que finaliza em 2019, mas ressurge e abre margem para o período pandêmico, então também tem obras inéditas que nunca postei na internet nesta exposição. 

Tendo essa poética, mas partindo do cenário atual da distância e de estar mais solitário que nunca. Tudo se conecta em uma narrativa que pode ser lida por vezes como autobiográfica, mas esta é um tanto como auto ficcional. Gira muito em torno do personagem, da criação, do causo que foi gerado, da ficção, do que pode ou não ser ou ter sido verdade. Parto de uma frase que eu mesmo utilizo algumas vezes. 

“Existe mais verdade que a ficção?”. Com esta, abrimos pensamentos e adentramos um mundo de realidades mesmo que imaginadas. Então há um processo sobre as relações contemporâneas, mas tendo um olhar do homem, tendo a masculinidade como reflexão, para trazer o corpo, os códigos, as relações de poder deste universo como forma de relacionar esses atravessamentos. Compreender o que é o homem, o que é e pode ser masculinidade, e as rotinas da vida de relacionar entre homens. 

Suaves Brutalidades traz à tona o universo afetivo masculino, os prazeres e as violências experienciadas na relação entre homens. Como é pra ti, reviver tantos afetos pela via da arte?

Henrique Montagne: É como um processo de cura, de autodescobrimento e compreensão de si. É adentrar e utilizar destes causos da vida na arte para compreender as experiências e os sentimentos que nós sentimos. A vida humana é uma grande investigação e mistério. 

Falar de sentimentos é mais complexo ainda. Essa poética do afeto é importante, por que não é sobre falar de si mesmo, mas falar do outro e com o outro para ambos se compreenderem. Como ele se sente e eu me sinto, o que carregamos, o que trazemos, o que sofremos, o que ferimos, quem nos feriu, o que temos em comum, o que nos atraiu para termos nos apaixonado. Cada relação que eu tive foi diferente uma da outra, por que você aprende com o outro, sempre experiencio coisas diferentes com cada pessoa que dediquei meu tempo e minha vida, nem que seja por um curto período de tempo. 

Existem homens, não existe “O Homem”. Tenho essa responsabilidade na palavra, de descobrir ainda o que é ser um homem. Ainda amo alguns ex-parceiros ainda mais que outros, e os sentimentos por uns se transformaram em irmandade, amizade ou em nada. Tem algumas referências destas experiências em trabalhos meus, de forma subjetiva, ou criados ficcionalmente. Por um longo período essa liberdade de amar foi negada, isso foi jogado desde o nascimento. E nós nunca sabemos como agir, é algo que o tempo, a vida e arte vai nos trazendo para viver. E arte é uma forma minha não de reviver o passado, mas de continuar vivendo o presente e olhar para o que passou com um outro olhar, cômico, crítico, dramático, reflexivo ou irônico.

Em tempos de afastamentos e de sentimentos e percepções embotadas sobre as próprias afetividades, de que forma o teu trabalho contribui para a que a coletividade lance outro olhar sobre as afetividades masculinas, suas suavidades e brutalidades?   

Henrique Montagne: Essa pergunta é muito importante, pois quando trago as relações afetivas não falo girando em torno delas em seu próprio eixo, parto de um ponto de vista masculino, então querendo ou não é debater e falar sobre gênero, olhar com criticidade para a masculinidade. E trazer representatividade nestas narrativas e vivências destes corpos dentro da arte. Debater sobre o que é a identidade “Homem”, e quando falamos sobre Homem, a sociedade já criou códigos de conduta, performance e de leitura do que seja um Homem devido ao patriarcado. 

“Um homem não chora, um homem nasceu para ser o chefe, gostar de mulher e ter uma (ou várias), ter uma “família”, ser respeitado, saber se defender, ser bom em futebol” e sei lá o quê. Quando você foge disso, ainda antes de se tornar adulto, você é questionado e declarado como um não-homem, uma “bicha” ou um gay (como se homossexuais não fossem homens), é bizarro, por que percebemos que quando um homem se torna adulto e falha em algumas questões destas que não sejam relacionadas a sexualidade, como na “carreira” ou na “família” você ainda é respeitado, pois gosta de mulher, ainda é um ser masculino e te chamam de no mínimo “moleque”.

Ser homem não é nada disso que o patriarcado nos impõe. É uma construção social, assim como a identidade mulher, “Você não nasce Mulher, Tornar-se”. “Você não nasce homem, torna-se”. Mas ser Homem ainda é um grande ponto de interrogação quando você questiona as certezas do que é ser um na sociedade. Ora, se a homoafetividade se constrói a partir da admiração e desejo pelo masculino. Ser desejado e desejar o outro igual a você não te faz menos homem ou um não-homem, seja homossexual ou bissexual. A masculinidade é ampla e diversa em muitas culturas. Estes códigos de conduta influenciam nossas atitudes, nosso corpo e o que pensamos sobre gênero, até no meio Gay e Homoafetivo. 

Como digo, é um processo de cura e descobrimento, pois são muitos caminhos até encontrar um outro alguém. Nós chegamos em um relacionamento sem saber como dois iguais se relacionam, tentando não fazer que nossos traumas pessoais interferiram na convivência, em como admirar e respeitar o outro com as suas diferenças. Amar neste contexto é uma experiência suave, mas brutal. Muitos não podem expor o relacionamento em público, muitos não falam sobre sua sexualidade pros pais, e ainda estão em um “armário” por receios. 

A geração atual de jovens queers se encontram privilegiados em certas questões como poderem andar livremente na rua e expressar sua identidade, mas é importante relembrar que houve muita luta das gerações anteriores, para que direitos básicos de existência fossem adquiridos na sociedade, pois LGBTQ estão em todos os lugares desde a existência do mundo, e devido ao cristianismo isso foi sendo imposto como culpa e associado ao pecado e também a perseguição da “ciência” eugenista como fuga da natureza “humana”.

A própria cultura queer, gay e bissexual possui uma história de resistência, onde códigos, signos, comportamento e linguagem específicos foram sendo criados através do século XX. Como formas de existências pertencentes a uma cultura diversa e plurais masculina. Como o crusing, os banheirões, as tribos como os bears, os twinks, os padrões, os queers, os intelectuais. Na música e na performance como a house music, a admiração pelo universo feminino e o enaltecimento das divas pop, a montação e a arte drag, a cultura ballroom, os aplicativos de pegação de celulares, fetiches sexuais etc... 

Quais são as principais referências de artistas que dialogam com o teu trabalho?   

Henrique Montagne: São várias e de forma transdisciplinar, como artista multimídia as referências vão para além das artes visuais. Mas ressalto nas artes visuais os artistas visuais brasileiros, sendo estes do final da déc. 80 para déc. 90; Leonilson, Rafael França, Hudinilson Jr. e Cláudio Goulart. Artistas que trabalhavam com a sexualidade, afetividade, ficcionalidades e debatiam sobre gênero antes da compreensão e do “queer” chegar no Brasil. Era tudo de maneira intuitiva e sincera. 

Atualmente voltam a ter evidência devido sem sombra de dúvidas o fato de Leonilson (já falecido) entrar em circulação como um principal representante da arte queer no Brasil, mesmo que ele e os outros por um longo tempo ficaram invisibilizados e se quer foram mencionados em livros de arte. Como se não existisse uma arte brasileira ligada a sexualidade e a homoafetividade até os anos 2000s. E infelizmente alguns foram vítimas da Aidas. Na América Latina posso citar o cubano/estado-unidense Félix Gonzales Torres que possui um trabalho contemporâneo que se aproxima muito do meu falando sobre as fragilidades da vida e também sobre a masculinidade, mas tendo uma boa parte do seu trabalho direcionado a sua vivência com o vírus da HIV/AIDS na década de 90. 

Também existem as artistas mulheres Tracey Emin e Nan Goldin que trabalham com as relações afetivas, com um ponto de vista “feminino” mesmo assim elas me fazem sentir muito conectado com seus trabalhos. Para além das artes visuais, séries como Black Mirror, The Twilight Zone. Na literatura, Ginsberg, Caio Fernando Abreu e Leminski. Na música, muita coisa. Além de ser artista, sou DJ e trabalhei muito na noite para pagar as contas. Então trabalhos e albums como os da Madonna, Cindy Lauper, Donna Summer, Pet Shop Boys, Tears for Fears, Depeche Mode, The Smiths, The Cure. Sou muito influenciado pela estética retrô Oitentista e Noventista. Isso se apresenta em algumas formas como apresento alguns trabalhos nesta exposição.

Como citas no teu memorial, és versátil, de corpo adaptável. Como essa característica pessoal reflete na tua produção artística, escolha de meios, suportes, linguagens?

Henrique Montagne: Ela reflete de maneira experimental e natural, você pode perceber que minha narrativa de trabalhos percorre diferentes linguagens e formas de estimular minha poética, mas ainda se conectam ou atravessam na mesma nuvem de pensamentos. Como a arte vida, relações afetivas, sexualidade, gênero, relações de poder, amor e violência e ironia. Nesta exposição pode ver minha atuação desde as artes bidimensionais tradicionais como a pintura e o desenho que foi minha primeira linguagem até a instalação, objeto, performance, meme, escultura, vídeo. 

Quando digo adaptável, digo estar aberto a certas posições e direcionamentos que o próprio trabalho acaba pedindo e eu só espero o tempo de algo venha a ocorrer para isso ser transmitido para o trabalho, ainda sou daqueles artistas que precisam estar totalmente imersos para que o trabalho seja sincero. Que aquele trabalho seja uma partícula de mim e da minha alma e atmosfera, além da estética. Nem mesmo nas artes tradicionais, como no desenho, o meu desenho acaba se estendendo e se influenciando com outras linguagens como a fotografia, onde me aproprio de muitas imagens virtuais. Então se eu fosse um artista que escolhesse apenas trabalhar com uma linguagem, acredito que seria até mais fácil, mas não, ser um artista multimídia me traz estar adaptável as sinceridades e mudanças que o próprio trabalho pede.

O teu trabalho dialoga bastante com o ciberespaço e com uma sensação de vazio e preenchimento nas relações e interações on e off. Pra ti, qual a influência do virtual na tua investigação poética tanto no que tangencia a arte quanto as relações e lugares de afetos? 

Henrique Montagne: De forma subjetiva, a exposição de certa forma possui obras de momentos diferentes da minha vida e de vivências e interações com o ciberespaço, mas também fora dele onde ele nem é citado. 

Acredito que este aparece como um campo de experimentação, mais do que o personagem principal. Pois acabo trazendo a tecnologia e como ela acaba influenciando subjetivamente a forma de se relacionar ou de ser hoje devido à um processo de investigação em torno da arte inserida nas novas mídias. Então a poética destas relações e lugares de afetos se reverberam no virtual e no presencial. 

A tecnologia foi criada pelo ser humano e esteve desde o período primitivo, é uma forma de sobrevivência, o fogo, a internet... sobrevivência da vida, de sua maneira de pensar, de existir e de manter relações. E esta acabou se acentuando mais que nunca em um contexto pandêmico. Como as nudes, o sexo virtual, o flerte nos stories e no feed do instagram, as festas virtuais no zoom, Netflix, spotify, playlists para limpar a casa ou esquecer de alguém. Falar sobre estas interações são para além do clichê do “futurismo” ou do “high-tech”, mas toda esse virtual acaba fazendo parte da nossa vida e reflete na nossa cultura.

Serviço

Exposição SUAVES BRUTALIDADES, de Henrique Montagne. Abertura: quinta feira, 15 de julho, a partir das 9h, no Museu das Onze Janelas (Praça Frei Caetano Brandão s/n). Visitação até o dia 30 de agosto, de terça a domingo, das 09h às 17h. Entrada Franca. Informações: (84)99638-9426.