17.6.21

Arrastão do Pavulagem chegando em versão virtual

"Arrastão do Pavulagem, Arraial Brincante” dá nome ao segundo ano de programação virtual do Instituto Arraial do Pavulagem. Serão 04 lives aos domingos, entre junho e julho, sempre às 11h, pelo Youtube. Neste domingo, 20, também será lançado o videoclipe “Boi da Campina”, música inédita.

Assim como em sua primeira edição, a programação baseia-se em um eixo temático, que é o “Arraial Brincante”, e segue, como uma revista eletrônica, a cada novo episódio, revendo a discografia e fazendo o lançamento de novas músicas da banda Arraial do Pavulagem; além de mostrar os processos criativos que permeiam a construção do seu folguedo popular e contando ainda com diversos convidados que fazem parte desses mais de 30 anos do cortejo do Boi Pavulagem.

O diretor geral de vídeo e roteiro das lives, Felipe Cortez, destaca que neste junho, “o ‘Arrastão do Pavulagem, Arraial Brincante’ quer abraçar os símbolos desta verdadeira nave de saberes que é a quadra junina brasileira em sua singular experiência na Amazônia”. O primeiro episódio, dia 20, vai abordar a “Fogueira do Nascimento”, percorrendo as origens do Boi Pavulagem, no Teatro Waldemar Henrique, os símbolos juninos e a “Levantação do Mastro”, que conta mais uma vez com a participação do Grupo de Carimbó Sancari.

Para brindar este início de quadra junina, o episódio apresenta também o videoclipe de “Boi da Campina”, música inédita do Arraial do Pavulagem, além de trazer músicas do discos “Gente da Nossa Terra” (1995), “Sotaque do Reggae Boi” (1996) e “Arrastão do Pavulagem” (2001). Uma música escolhida pelo público, através das redes sociais, também será incluída no repertório, assim como a participação gravada de diversos convidados.

“Estamos dando um trato cênico, construindo cenário, uma perspectiva mais teatral do show e com essa memória da rua. Estamos com uma equipe grande trabalhando com essa cenografia, iluminação. Nossa expectativa é levar um verdadeiro espetáculo para as pessoas em casa”, comenta Júnior Soares, do Pavulagem e diretor musical das lives.

O segundo episódio do “Arraial Brincante”, no dia 27, vai louvar os “Santos do Amor”, resgatando a sacralidade da música e rememorando a concentração na Escadinha do Cais. O repertório do episódio é formado pelo encontro dos discos “Folias do Marajó” (2002) e “Arraial do Pavulagem” (2003). Já o terceiro episódio, no dia 4 de julho, mergulha no universo das brincadeiras juninas com o tema “Pescaria de Sonhos”, marcado pelas memórias do Curral dos Cavalinhos em plena Presidente Vargas. No repertório estarão canções dos discos “Música do Litoral Norte” (2004) e “Rota da Estrela” (2005).

No quarto e último episódio do “Arraial Brincante”, dia 11 de julho, o tema é o “Banho de Cheiro e Saber”, o que incluirá momentos como o processo criativo do mestre Zeti, luthier dos instrumentos do Arraial do Pavulagem. Ainda haverá a exibição do videoclipe “Cabelo Cacheado”, gravado durante a realização do projeto “Arraial do Futuro”, em 2020. E o repertório será baseado em “Céu da Camboinha” (2013) e “Caeté Camará” (2018), os discos mais recentes da banda.

Serviço

Arrastão do Pavulagem, Arraial Brincante. Aos domingos - dias 20 e 27 de junho, e 04 e 11 de julho, sempre às 11h. Gratuito. Patrocínio: Equatorial Energia Pará, por meio da Lei de Incentivo à Cultura - Semear, da Fundação Cultural do Estado Pará e Governo do Pará.

Assista as lives:

https://www.youtube.com/arraialdopavulagemoficial e TV Cultura Pará (canal 2.1). 

Lojinha do Pavulagem:

https://www.instagram.com/lojinhapavulagem

Siga o Pavulagem nas redes sociais:

https://www.facebook.com/arraialdopavulagemoficial

https://www.instagram.com/arraialdopavulagem

Escute o Arraial do Pavulagem no Spotify:

https://open.spotify.com/artist/5vrkUSl1Y1CXGRKwYt5mH3

(Holofote Virtual com assessoria de imprensa do projeto)

11.6.21

Artista paraense leva o orgulho LGBTQ+ à Grécia

O artista Henrique Montagne foi um entre os 31 artistas selecionados a participar da exposição internacional “What is identity?” (O que é identidade?), do Thessaloniki Queer Arts Festival (Festival de Artes Queer de Tessalônica) na Grécia. Ele é único artista nortista a integrar a exposição e representa o Brasil junto com o artista goiano Benedito Ferreiro. 

Após recentemente ter tido a exposição cancelada pela Galeria do Banco da Amazônia, fato que causou repercussão nacional no meio artístico e militante das causas LGBTQIA+, Henrique comemora o reconhecimento internacional do trabalho dele e também a retomada da exposição individual outrora cancelada, a qual ficará em exposição no Museu das Onze Janelas a partir de julho, em uma programação também dedicada a visibilidade queer.     

A obra “Um bonde chamado desejo”, que integra a exposição no Festival Grego, foi também selecionada pelo Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia em 2020 na mostra Vastas Emoções e Pensamentos em Perfeitos. No trabalho, Henrique aborda a importância da visibilidade de corpos queers que comprovam a existência e resistência de uma história invisibilizada durante séculos, mas que sempre estiveram presentes na história arte e na sociedade. Assim o artista joga com o tempo e a ficção, criando conexões entre passado, presente e futuro.

“Este trabalho é uma série onde eu me aproprio de fotografias de casais queer de épocas distintas do início do séc. XX; as imagens de autorias desconhecidas foram buscadas e pesquisadas de modo virtual. Ao observar estas imagens e seleciona-las na série, construo com a inserção do texto sobre o paspatour (ou no contorno das imagens) uma possível narrativa ficcional, mas que poderia ser real se não existisse o poder das estruturas do patriarcado e da heteronormatividade que se estabelece na sociedade e que se inseriu no estado.

Moldando nossos corpos, as atitudes, o comportamento e o gênero quando estamos ‘em sociedade’. Então, convido ao fruidor a olhar mais de perto estes pequenos contos e microficções, que se posicionam poeticamente e politicamente, estimulando reflexões ao serem expostas na nossa realidade, pois acabam se diferindo do que está escrito, mas que proporciona um desejo para um possível futuro ou o próprio agora”, explica Montagne.

Sobre isto, o artista questiona e se utiliza de marcos da cultura pop do passado para falar sobre o presente, adicionando estes casais como protagonistas de uma vida próspera e de sucesso em um período onde sua existência na sociedade era negada e considerada crime com pena de morte. 

“Se estas pequenas histórias fossem de certo modo reais no período temporal que são apresentadas, como estaríamos hoje? Como seria o nosso agora? Estas reflexões fica pairando a ideia do desejo, mas também o movimento onde podemos agir, lutar e construir histórias nossas com as essências destas no nosso presente, para um possível futuro”, arremata o artista.

Sobre o artista

Henrique Montagne possui Bacharelado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Pará (UFPA). É artista visual multimídia, curador e pesquisador em arte. Constrói trabalhos que trazem por vezes narrativas auto ficcionais em torno das relações afetivas e sexuais do corpo masculino e do homem em uma perspectiva queer. 

Trazendo reflexões sobre gênero, masculinidade, jogos de poder, amor, solidão, identidade, cultura pop e o avanço da tecnologia na forma e refletindo sobre o se relacionar na sociedade contemporânea. Expôs em diversos salões e exposições na Amazônia.

O Festival

O TQAF (Festival de Artes Queer de Tessalônica) foi fundado em 2018 e é liderado por uma equipe de voluntários e curadores que se esforçam para fornecer aos artistas queer uma plataforma para investigar fenômenos socioculturais relacionados a identidades, corpo, gênero e arte em todo mundo. 

O projeto é impulsionado pela crença de que a arte tem o poder de abrir novos caminhos de comunicação, bem como servir como uma ponte entre uma ampla gama de indivíduos e grupos sociais. Desenvolvendo estratégias para lidar com o preconceito e a resistência à inclusão queer na Grécia, o TQAF serve como um elo político e inspirador para as sociedades vizinhas sendo Tessalônica localizada próximo ao Oriente Médio, Turquia e Bálcãs. Um terreno fértil para o discurso queer e a criação artística, esperando que o impacto do festival se estenda além das fronteiras da Grécia.

Serviço

Exposição virtual da “Thessaloniki Queer Arts Festival”, na seção “Surviving Tales” com a obra “Um bonde chamado desejo”, de Henrique Montagne. De 03 a 13 de junho. Acesse: https://queerartsfestival.gr/. Tessalônica, Grécia.

(Holofote Virtual, com texto de Bianca Levy)

Uma web-novela sem fim no domingo de Circular

Neste domingo, 13, a 35a edição do Circular Campina Cidade Velha está de volta em formato híbrido, com espaços abrindo na Cidade Velha e conteúdos culturais pelas suas redes sociais. A programação vai começar às 8h e segue até 21h, não percam.

Tem muita coisa mesmo, mas hoje eu quero dar essa dica, a websérie “Ô Mundica - a novela sem fim” , dirigida por Mateus Moura. Fica ligado que o link do Youtube vai cair nos feeds de Instagram e Facebook do Circular, às 11h30. 

De outubro de 2020 para cá foram lançados na internet 16 capítulos da saga, contabilizando mais de 1 hora e meia de material.  No início, a ideia era fazer uma peça de teatro, mas com a pandemia e o isolamento social, Mateus Moura propôs aos atores Sandra Perlim, Andrea Rocha e Maurício Franco, que o projeto se tornasse audiovisual, trazendo uma linguagem mais doméstica, uma espécie de prólogo à peça. Também participam da feitura da novela a artista visual Gabriela Maurity, que concebeu a abertura, e, mais recentemente, o atuante Rafael Couto, que hoje vive em Florianópolis. 

“Eles toparam e a gente passou a se encontrar virtualmente uma vez por semana. Nesses encontros passamos a desenvolver personagens e argumentos para experimentações de cinema no seguinte formato: os atuantes gravavam seus próprios vídeos e me enviavam. Eu montava e depois todos lapidavam juntos a criação final”, diz Mateus Moura, diretor

A “web-novela” Ô Mundica é uma experiência cinematográfica criada para públicos de smartphone, espécie de “narrativa de folhetim” digital. Ou, como eles mesmos intitularam, uma “novela de bolso”. Nasceu do encontro de projetos como “Matou o Cinema e foi à Família”, “Teatro da Fragilidade”, Produtores Criativos e a Filha da Rosa.

E qual a trama, o que narra? “A princípio, narra as aventuras de Flor (Sandra Perlin) e Vento (Maurício Franco) em busca de sua amiga Munda (Andrea Rocha) que sumiu no mundo, que desapareceu sem deixar rastros. Nessa busca, os dois vão fabulando sobre a ausente e revelando histórias de si e do mundo que os cerca”, nos conta Andrea, a protagonista da série, apelidada carinhosamente pelo grupo de “Charmosa”.

Eles dizem que não foi difícil e logo apareceram diversos temas e enredos, já que os participantes já existia uma relação de admiração artística antiga, e esse trabalho é a justa materialização em obra desse sentimento recíproco.

A marginalidade, a encantaria, a oralidade, o cuidado, a amizade, os jogos de poder, o prosaico, o contexto social amazônico, as construções de sacralidade, os abusos do patriarcado são temas que interessavam desde sempre a todos e que, naturalmente, atravessam o enredo de “Ô Mundica!” dentro de um “realismo fantástico”.  

“É cada dia mais comum que artistas não conseguem muito bem definir a que segmento especificamente possuem, porque é da necessidade dos próprios o ímpeto de experimentar, de ir em direção ao que não se sabe, ao risco. O contexto escancarou ainda mais a necessidade de sermos “camaleônicos”, para sobreviver e para simplesmente honrar a mais antiga das tradições: “contar histórias”, diz Maurício Franco, atuante que interpreta o Vento.

“Ô Mundica!”, como todo projeto artístico, tem também sua ressonância terapêutica na vida dos integrantes. “Nesses tempos, tão difíceis, foi uma forma de existir artisticamente. Nosso fôlego de resistência. Nosso aceno solidário. Nossa vontade de comunhão”, comenta Sandra Perlin, que interpreta Flor e Púrpura. “Mas nem tudo são flores”, ela mesma acrescenta, “nos dedicamos muito para fazer acontecer a novela; escrevemos, atuamos, filmamos, postamos, e a novela tem sido um retumbante fracasso de público. Nos perguntamos: por quê?”, complementa.

E é pensando em novas estratégias de chegar nesse público que “Ô Mundica!” está discutindo novos formatos de apresentação. “Se a novela não colou, vamos virar série. Bora ver se assim nos levam a sério!”, brinca a atriz.  

E hoje, somando à programação do Circular On-line, esse grupo convida os maratonistas de plantão a assistir toda a 1ª Temporada, que será disponibilizada no Youtube, com link direto da página de facebook do Circular Campina Cidade Velha, às . São 10 capítulos que contam o início da saga sem fim. Munda desaparece e Flor sai em sua procuração. O Vento, de passagem, surge, mas é capturado por Púrpura (a outra que mora na Flor). Flor e Púrpura contam antigas histórias de sua relação com Munda. No fim, o Vento é libertado e uma nova temporada se anuncia.

"É fascinante acompanhar o desdobrar da narrativa. De uma forma muito própria Ô Mundica! adentra essa Amazônia urbana e florestal, encantada e mal-tratada. É uma honra pra mim agora poder tecer com eles essa história", diz Rafael Couto, recém-chegado ao grupo, que interpretará Benivaldo, o amor da vida de Mundica, que tinha o hábito de se jogar do trapiche do Seu Deco na Vila da Barca para atravessar para sua casa. Um dia, Benivaldo foi pro fundo e hoje surge à superfície como encantado apenas uma vez por ano, tentando relembrar sua história mortal. São muitos causos, altas aventuras, vidas comuns, potocas, pavulagens. Dá uma sacada...

PROGRAMAÇÃO – HORÁRIOS

8h30 – Aula Sukshma Vyayama Yoga - Tunga Vidya 

9h00 às 17h00 -  Visita Presencial - Espaços Abertos no bairro da Cidade Velha

- Seguindo os protocolos de saúde contra a Covid-19

  • Espaço Vem – Loja Autoral

Trav. Pedro Albuquerque, 300

  • Atelier do Zoca – Mostra “Álbum de Retratos”

Rua Dr. Rodrigues dos Santos, 181

  • Espaço Candeeiro – Exposição Entre Processos

Rua Cametá, 175

  • Bar do Rubão - Comidinhas

Trav. Gurupá, 312

9h00 – Contação de história

  • Coração de Barro - Cléber Cajun 
  • Nossos cantos são cantos da casa da Ojú – Lucas Alberto -  
  • A Missão de Seu Pequeno – Mestre Saci

10h00 – Fotoativa – Live “Processos Criativos -  desafios e resultados”

  • Isis Petit - Ilustradora
  • Francy Botelho - Quadrinista
  • Leno Sanches. Escultor 

11h00 – Vídeo 1ª Etapa - Encantarias de São Benedito (Bragança-Pa)

11h30 – 1ª Temporada de  “Ô Mundica, a Novela sem fim” – Mateus Moura

12h00 – Apresentando Casa IGA

12h30 – Toró Gastronomia - Receita

13h00 – Exposição Virtual Teatro Paraense 80/90: Fotografia de Miguel Chikaoka - Kamara Kó Galeria

14h00 – Doc Projeto Iluminação (Colares-Pa) - Atelier Jupati

14h30 – Vídeos do experimento Telavista - Drika Chagas 

15h30 – Documentários

  • A Vaca Velha – Encontro de Bois de Máscaras (São Caetano de Odivelas) – Dir.  ngela Gomes
  • Quando Igarapé-Açu pulava carnaval – Dir. Edson Coelho / Moeda Verde (Igarapé-Açu - Pa)

16h00 – Clipe Fashion – Comitê Arte Pela Vida - 25 Anos

16h30 – AmaZonas de Nós - Casarão do Boneco

  • VídeoPerfoemance

17h00 – Live Memória e Patrimônio: A Belle Époque e o Cinema Olympia em Belém do Pará - Roteiros Geo-Turístico

Participação:

  • Profa. Dra. Maria Goretti Tavares - Geografia-UFPA
  • Profa. Dra. Maria Luzia Miranda Álvares, Ciência Política/UFPA 
  • Prof. Ms. Marco Antônio Moreira Carvalho, Crítico de Cinema

18h30 – Live Circuito da Arte em Mídias Alternativas – Espaço Candeeiro 

Criação e utilização de mídias alternativas na história das páginas do Cultura Pará e Holofote Virtual - Desafios e parcerias estabelecidas para a dinamização de seus conteúdos.

Participação:

  • Vasco Cavalcante – Poeta e Designer
  • Luciana Medeiros – Jornalista e Produtora Cultural
  • Heldilene Reale - Fotógrafo
  • Natan Garcia – Artista Visual

19h30 – Cançãozinha - Clipe Nazaré Pereira

20h00 – Gaiola Passageiro – Clipe Cincinato Jr.

20h30 – Realeza do Guamá – Arraial do Pavulagem

Serviço

A realização do projeto Circular Campina Cidade Velha é do Ministério do Turismo, Associação Amigos de Belém e Circular, com patrocínio do Banco da Amazônia, via Lei Rouanet. Sigam pelo @circularcampinacidadevelha, no Instagram e https://www.facebook.com/ocircular.

Elas marcam novo encontro aos 60 e pela internet

“Sexy +” é uma reedição do espetáculo “As Gatosas”, que estreou em 2010, quando elas estavam na faixa dos 50, agora elas estão de volta para um novo encontro, desta vez, em formato digital, com dramaturgia de Edyr Augusto e produção de Zê Charone, do Grupo Cuíra. A estreia neste sábado, 12 de junho, Dia dos Namorados e tem reapresentação no domingo, 13, sempre às 21h, pelo canal de Youtube do grupo. No final da Live/Espetáculo, as atrizes estarão ao vivo para conversar com os expectadores.

As transformações digitais que vieram com a pandemia fizeram com que diversas linguagens artísticas se adaptassem às plataformas de internet. Até o teatro, uma arte de essência presencial, que precisa do calor do público para acontecer em sua plenitude, também precisou se adaptar. Profissionais em diversas ocupações das artes cênicas de repente perderam emprego e espaço. Ano passado, a produção teatral de Belém ainda ficou dependendo de estruturas e outras iniciativas institucionais para acontecer.  

Em 2021, porém, com editais da Lei Aldir Blanc e já com um pouco mais de expertise, o teatro paraense vai voltando, mesmo que ainda pelo Youtube. “Acabou sendo uma vantagem para nós que moramos aqui no Norte e nem sempre podemos ir aos grandes centros assistir aos espetáculos mais famosos. Nunca se viu tanto Teatro quanto agora. Aqui em Belém há também bastante movimento, seja com Mostras, entrevistas, debates e espetáculos”, diz Edyr Augusto, do Grupo Cuíra.

“As Sexy +” reúne quatro atrizes talentosas, a maioria já conhecida de outras montagens, do próprio Cuíra, como As Gatosas, espetáculo que estreou em 2010 e que inspirou o novo texto que foca agora as mulheres que agora chegaram aos 60. 

“Há dez anos, ainda no palco do heróico Teatro Cuíra, escrevi em parceria com Vera Cascaes, esse espetáculo, examinando a realidade de mulheres na faixa dos 50 anos. Essa geração é uma das mais importantes em todos os tempos, pois revolucionou os costumes, enfrentou preconceitos, fundou o amor livre, depois conviveu com a Aids e teve postura guerreira em plena ditadura, discutindo todos os assuntos”, continua o diretor.

Na época, As Gatosas realizou várias temporadas de sucesso também no Teatro do SESC, Teatro do Banco da Amazônia e Teatro Margarida Schivasappa. Agora, trazendo no elenco Sonia Alão, Sandra Perlin, Olinda Charone e Giselle Moreira, esta última, estreando no Teatro, voltam a reunir-se, através do Zoom, para um encontro de amigas de infância, falando sobre a solidão imposta pela pandemia, vacinação, amores e muita fofoca. 

Edyr conta que é uma conversa amena, amiga, dividindo segredos, alegrias e tristezas, além de várias fofocas.  “Como os artistas sempre dizem, o processo de ensaio foi muito divertido e agora, é assistir e pensar como as “sexygenárias” estão passando, naturalmente, todas já vacinadas, algumas querendo vacinar novamente para encontrar os médicos novinhos, que trabalham nos postos”, finaliza. 

FICHA TECNICA

Elenco

Olinda Charone

Sandra Perlin

Sônia Alão

Giselle Moreira

Dramaturgia

Edyr Augusto 

Fotos e Vídeos

Atrizes

Cenografia e Iluminação

Cada atriz gravou diretamente da sua casa

Figurinos

Atrizes 

Consultoria

Zê Charone

Netinhos de Paty Novaes

Luma Affonso Carvalho

Mateus Affonso Carvalho

Músicas

Boys Town Gang – Can’t   take  my  eyes  off  you

Gloria Gaynor – I will survive

Paródia do samba Dança da Solidão (Paulinho da Viola)  

(Daniel Bargieri)

Cantada por Sônia Alão

Edição de vídeos

Rafael Duarte

Direção

Edyr Augusto

Zê Charone

Produção

Grupo Cuíra

Serviço

As “Sexy +” tem apoio da Lei Aldir Blanc, da Secretaria de Estado de Cultura. A produção é de Zê Charone. Pelo Canal de YouTube, Canal Cuíra, às 21 horas, sábado, 12, e domingo, 13 de junho. Acesse, curta, se inscreva e compartilhe. O espetáculo já está em contagem regressiva: https://www.youtube.com/watch?v=DCcXGvRMmuY

(Com informações de Zê Charone e trechos de postagem de Edyr Augusto, na página da Casa Cuíra, no Facebook).

9.6.21

Começando hoje a I Mostra de Teatro da Amazônia

Trazendo como subtítulo “Narrativas do Norte”, a I Mostra de Teatro da Amazônia começa nesta quarta-feira, às 21h, pelo canal de Youtube, com apoio da Lei Aldir Blanc. Cláudio Barros produz o projeto e estará em cena hoje à noite, protagonizando “Solo de Marajó”, do Usina de Teatro, espetáculo que inspirou e que abre a mostra nesta noite. 

Não eram nem 9h da manhã, e o ator, que tem uma longa trajetória no teatro paraense, além de sua atuação como produtor audiovisual, já estava a caminho do Teatro do SESI, palco que recebe a mostra para transmissão ao vivo e sem público presencial. “Já estou indo pra lá, para montagem”, disse de dentro de um Uber e com aquela dicção perfeita de quem sempre teve que utilizar bem a voz para apresentações em público.

Além de Solo de Marajó, do Usina, estão na Mostra, foram convidados para compor a mostra, a Cia Madalenas, com “Marahu”; que se apresenta no dia 10; o Grupo Palha, com “Honorata”, no dia 11; a Companhia Bric Brac, com “Boi Tinga”, no dia 12, e o Grupo Teatro e Pesquisa Papa Xibé, com o espetáculo “Ribeirinhas”, no dia 13 de junho, encerrando essa primeira edição.

A ideia de realizar a mostra partiu da própria experiência do Solo de Marajó. “A gente se perguntou, quem é que está no cotidiano do seu fazer diário, preocupado com a palavra e com a dramaturgia nortista? Quem são esses grupos que estão tocando temas daqui, revisitando escritores, quem são esses artistas? A partir do Solo, olhamos para esses grupos e artistas, numa tentativa de reuní-los em um único lugar”, explica Cláudio Barros que assina essa curadoria junto com o xará Cláudio Melo. 

A motivação inicial, e o que foi colocado no projeto, era realizar a mostra em formato presencial, mas a segunda onda da Covid-19, este ano, e a demora em ver todo mundo vacinado, o fizeram declinar. A decisão deixou de foram um outro grupo que havia sido escalado o grupo Teatro de Apartamento de Saulo Sisnando. 

“Eles iam participar da mostra seria presencial, mas tivemos que trocar tudo pra virar uma live, o que para mim ainda é estranhíssimo, eu ainda tenho uma certa resistência, mesmo sendo do audiovisual. O fato é que então perdemos esse grupo porque o espetáculo que seria apresentado é interativo num nível em que o público tem uma participação dinâmica na cena”. 

Ficaram cinco grupos e mesmo assim, Cláudio diz que a equipe está muito feliz e com desejo de realizar outras edições, que sabe presenciais. “Abrimos a programação, na verdade, com duas palestras, semanas atrás. Uma palestra com a atriz Valéria Andrade e outra com o dramaturgo e escritor Edyr Augusto Proença. Tomara que dê pra gente continuar nos demais anos, por que é bem interessante, estou gostando de produzir”.

Os grupos envolvidos além de serem voltados a esse teatro amazônico de narrativa nortista, bebendo em nossas fontes literárias que são inesgotáveis, também são grupos que já vem aí de uma longa trajetória do fazer teatral, vindos dos anos 80, 90 e início dos anos 2000, até onde eu sei. Fiquei curiosa e quis saber mais do Cláudio como tem sido para ele e para a categoria essa adaptação da linguagem do teatro, que é essencialmente uma arte feita em público, para essa linguagem digital. 

“Os anos de 2020 e 2021 são dois momentos de se reinventar, de aprendizagem, pois muitas coisas desconhecíamos, e ainda estamos descobrindo que nova maneira é essa de fazer teatro, ainda mais a gente que é de uma geração mais antiga, é muito digficil. O teatro em sua essência precisa do público para acontecer. E como é o teatro para uma câmera? Se não tem o público presencial, é teatro mesmo?”, questiona. 

“Quem não saiu da área de vez, teve que aprende a adaptar a linguagem de teatro para a câmera. Tivemos que aprender a lidar com questões não só de produção mas de operar coisas que não estávamos acostumados. Estamos aprendendo, descobrindo e criando outros limites. Estamos na estrada”, complementa.

E não foi só no teatro essa reinvenção. No audiovisual, embora o produto final pode seja digital, mesmo não podendo se aglomerar em uma sala de cinema, o fazer também é essencialmente presencial. “Acho que todo artista teve que criar alternativas para sobreviver, desde a adaptação ao digital até ir trabalhar numa área que não é a sua, como alguns amigos que tenho e que se tornaram entregadores de Ifood”, conclui já depois de ter montado tudo no palco do Sesi para a apresentação que estará no Youtube.

Sobre os espetáculos

O espetáculo teatral Solo de Marajó é inspirado na obra do romancista marajoara Dalcídio Jurandir – um dos maiores expoentes da literatura e da cultura Amazônica na região norte do Brasil. Já entrevistamos Cláudio Barros e postamos várias matérias sobre este espetáculo que, em 2019, completou 10 anos em cena e fez suas últimas apresentações presenciais com público.

A Cia de Teatro Madalenas apresenta Marahu espetáculo cênico performático focado no hibridismo das linguagens teatro, música e artes visuais valendo-se da técnica dos viewpoints construído a partir das poesias do poeta paraense Max Martins (1926 – 2009).  O experimento cênico destaca três características marcantes da poesia de Max: o parnasianismo, a influência da cultura oriental e o erotismo. A partir dessas características os atores construíram o tempo e o espaço da ação. 

Honorata, do Grupo Palha traz um personagem da realidade, e que nesta ficção irá viver entre a infância, juventude e fase adulta os seus percalços. Nas entrelinhas, a história irá mostrar que desde os tempos primitivos até o momento presente a violência contra a criança se apresenta como um fenômeno social e cultural de grande relevância, e em diferentes sociedades as formas, as mais cruéis e as mais sutis, se diferenciam. 

No Brasil e em especial na região amazônica podemos distinguir uma violência estrutural, cujas expressões mais fortes são o trabalho infantil, a existência de crianças vivendo nas ruas e em instituições fechadas, uma violência social, cuja mais vivas expressões se configuram na violência doméstica; uma violência delinquencial, na qual as crianças são vitimas e atores.

A Companhia Bricbrac é especializada no Teatro de Formas Animadas (Bonecos de fio, Fantoche, Sombra chinesa e outros), desenvolvendo temas adultos e infantis em suas peças. 

A companhia iniciou em 2008 com o processo de pesquisa da linguagem da “supermarionete” e na anulação do ator, buscando as origens históricas e religiosas do teatro de bonecos. O nome da companhia vem do francês bric à brac (conjunto de objetos de arte).  Os personagens do folguedo conhecido como Boi Tinga, de São Caetano de Odivelas, no Pará.

Ribeirinhas, do Grupo de Teatro e Pesquisa Papa Xibé, é um espetáculo que retrata o cotidiano de mulheres a partir de um olhar intergeracional, nos trazendo a infância, a juventude, a vida adulta e a idosa, vivenciada pela atriz Karoline Morgana. Escrita por Diego Alano Pinheiro, o autor e diretor, faz um recorte de gênero e passa por temas invisibilizados das nossas populações ribeirinhas, tais como, crenças, mobilidade, acidentes, exploração de crianças, fenômenos naturais como o das terras caídas, entre outros, valorizando a nossa sociodiversidade e cosmologia Amazônica.

A I Mostra de Teatro – Narrativas do Norte, um projeto selecionado pelo Edital de Festivais Integrados – Lei Aldir Blanc Pará através da Secretaria de Cultura - SECULT, Governo do Estado, Ministério do Turismo e Governo Federal.

Para assistir

De 9 a 13 de junho

https://m.youtube.com/channel/UCeyDwS7BwSMN9tLV0LrlaoQ

Seletivas para a 3a ediçao do Festival Rio Ouricuri

O Festival Rio Ouricuri – Música, Arte e Sustentabilidade lança chamada para as seletivas de bandas e artistas. Mais de 15 mil em cachê serão oferecidos. A data de inscrição para as bandas é até o dia 11 de junho. Já as apresentações artísticas e empreendimentos criativos podem se inscrever até o dia 18 deste mês.

O Festival Rio Ouricuri traz, em 2 dias de evento, realizados virtualmente, uma programação gratuita acessível e inclusiva com apresentações musicais, dança, Feira agroecológica, Feira Criativa, palestras e oficinas alinhados aos três eixos do festival: música arte e sustentabilidade.

Em sua terceira edição, o Festival contemplará 10 bandas musicais e 6 artistas performers. Cada artista ou banda receberá R$ 1.000,00 de cachê. O Festival ainda irá expor no site 10 empreendimentos criativos gratuitamente. Segundo o coordenador geral do Festival, Geovane Máximo, a ideia é fomentar a economia criativa e dar espaço para iniciativas autorais e inovadoras, seja na arte, música ou sustentabilidade.

Para participar, os interessados precisam preencher um formulário no site: https://www.festivalrioouricuri.com.br

Serviço

3º Festival Rio Ouricuri. Data: 27 e 28 de Agosto. Realização: em formato virtual. Classificação: 18 anos.Onde: Canal do Youtube do Festival

7.6.21

Cineasta investiga a Terceyra Eztetyka de Glauber

João Arthur, 30, está dissertando sobre "A Terceyra Eztetyka de Glauber Rocha", em seu mestrado no PPGCine/UFF, em Niterói, RJ, tendo como linha de pesquisa Histórias e Políticas. Já conversamos com ele aqui sobre seu longa “Males Sem Terra”, premiado em 2018, no Festival Internacional de Cinema do Caeté, o Ficca. Na entrevista a seguir, também falamos sobre a importância dos festivais e seus novos formatos em tempos de pandemia.

Glauber Rocha apresentou seu primeiro manifesto do Cinema Novo, no “Seminário do Terceiro Mundo”, realizado em Gênova, Itália, em 1965. Nele estão os principais ideais políticos e estéticos explorados pelo cineasta ao longo de sua filmografia. Depois da Eztétyka da Fome, Glauber  apresentou a Eztetyka do Sonho, numa conferência realizada em 1971, no Congresso na Columbia University, em Nova York. A terceira Eztétyka está latente em sua obra, mas não chegou a ser escrita e finalizada pro ele, em vida, desafio sobre o qual João Arthur se debruça e propõe jogar luz.

Cabe aqui, antes de adentrar na entrevista, uma rápida contextualização. O principal teórico do cinema novo brasileiro iniciou sua formação na segunda metade dos anos 1950, no governo de Juscelino Kubitschek, durante sua política cultural “nacional desenvolvimentista”, que contribuiu para o aparecimento do movimento Cinema Novo, formado por artistas e intelectuais que se voltaram para a conscientização das massas populares. 

Na época, surgiram movimentos culturais, como o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), o CPC (Centro Popular de Cultura), vinculado ao Ministério da Educação, e a UNE (União Nacional dos Estudantes). O CPC contou com a participação dos jovens cinemanovistas que lutavam por uma política cultural de natureza revolucionária, mas que logo, ao serem provocados por Glauber Rocha, romperam com o CPC e depois, o próprio Glauber viria a romper com o Cinema Novo, já prevendo seu declínio, enquanto movimento contra-hegemônico.

Todas essas questões parecem seduzir João Arthur que, antes de enveredar pela área do audiovisual, cursou Comunicação Social na PUC-Rio e, simultaneamente, Ciência Política da UNIRIO. Também neste período tornou-se membro-colaborador do Corujão da Poesia, um encontro de poesia para a libertação de livros que acontece na Região Metropolitana do RJ. Através desse grupo participou de muitos encontros, incluindo saraus em festivais de literatura como a FLIP (Paraty) e em diferentes pontos da cidade, interior do Estado e região metropolitana.  Em 2011, encerrou definitivamente seus estudos nas duas instituições anteriores, optando por continuá-los no curso de Cinema da UFF. 

Desde então tornou-se cineclubista, primeiro dentro da Universidade, depois numa casa coletiva (Palacete dos Amores) onde morava com um grupo de artistas e cineastas. Lá criaram um coletivo independente (Osso Osso) que também realizava filmes.  Após graduar-se na UFF, também se tornou pesquisador da área de cinema, dando continuidade ao seu trabalho acadêmico intelectual até o presente momento. 

Em sua filmografia, realizou "Tudo posso naquele que nunca aparece" (25 minutos, 2013, filme projetado no Cine Arte UFF (programação do FBCU), no MIS/SP, dentre outras exibições independentes; “Males Sem Terra” (73 minutos – 2016) exibido, além de outros lugares, na 11a Mostra Cine BH, Festival Chorume e no IV FICCA, onde ganhou o prêmio de melhor longa-metragem e “O Bobo na Rua” (esboçado em 111 minutos já montados, mas ainda em processo de finalização desde 2019), um documentário sobre o professor Sergio Santeiro, ator, roteirista, professro e grande ativista do cinema brasileiro. 

Holofote Virtual: O que mais te fascina em Glauber Rocha, cuja obra tem sido referência estética, política e social para o cinema? 

João Arthur: Considero Glauber uma figura imprescindível  para o desenvolvimento de um cinema revolucionário sul-americano e de uma “linguagem” nova do cinema no mundo. Além do que, pesquisar e escrever sobre Glauber é estimulante e desafia a produção intelectual de qualquer jovem cineasta. 

Aprendi muitas  coisas na universidade e fora dela, mas só entendi de verdade o que é fazer cinema no Brasil quando me aprofundei na obra cinematográfica e literária de Glauber. Mas eu estudei e sigo estudando cinema, suas teorias ao redor do mundo, as discussões sobre técnica, história, política, estética, etc. Não o considero um “mito do cinema brasileiro” que deve ser “destronado”, como alguns (até mesmo, pasmem, da minha geração) insinuam, mas sim um “destronamento ambulante” que não deve ser mitificado. 

A mitificação de Glauber me preocupa pois o erige a uma posição na maioria das vezes soberba, afastando-o tanto dos estudantes, dos pesquisadores, quanto do público, tornando sua produção mais hermética do que parece. Minha posição é de que Glauber é mais “palatável”, digamos, do que se pinta por aí. Todo o seu esforço em vida foi no sentido de produzir uma interlocução clara e distinta com o povo brasileiro, a fim de que sua contribuição para a libertação e desenvolvimento cultural do país fosse aproveitada em toda a sua potência.

Eu estou também fazendo constantes pesquisas teóricas sobre o cinema de todos os cantos, procurando estudar as teses relevantes que foram feitas até então, principalmente as que provêm dos próprios autores de filmes, no intuito de contribuir, por meio da minha própria produção intelectual, para o avanço e desenvolvimento de uma teoria estética revolucionária para o cinema no terceiro mundo, que dê prosseguimento às lutas por emancipação e libertação social do nosso povo, das quais o cinema faz parte e contribui com vigor. 

Enquanto artista, não consigo conceber que seja coerente apartar a prática  cinematográfica de uma “teoria” como essa. Para mim a prática cinematográfica de quem se propõe a produzir um discurso teórico desse tipo necessita ter a mesma ousadia ou, pelo menos, aproximar-se dela, tendo em vista que as contradições da realização cinematográfica independente na América do Sul atrapalham a eficiência da transmutação das teorias geradas aqui para as práticas necessárias à sua demonstração. 

O que quero dizer é: não adianta os cineastas brasileiros levantarem discursos “pseudodecoloniais” enquanto apresentam obras neocolonizadas do ponto de vista da forma cinematográfica. A única coisa que se consegue com esse movimento é enganar a boa vontade do povo e explorar a ingenuidade da inteligência cinematográfica do público.

Holofote Virtual: O Cinema Novo é uma escola para o audiovisual brasileiro? 

João Arthur: Eu não vejo o cinema novo, especialmente o de Glauber, como uma escola. O cinema novo foi um movimento artístico independente e de vanguarda, mas que não fez escola. Provocou, ao contrário, disputas estéticas no interior da sociedade brasileira, algumas interessantes, outras infrutíferas. Foi sabotado, posto em dúvida, desacreditado, revisado, difamado e adorado. Quem fez escola com o cinema novo foram os gringos, que viram a novidade do nosso cinema e passaram a incorporar suas características, na maioria das vezes de maneira completamente inócua, do ponto de vista da potência estética que aqui ele tinha.

O cinema brasileiro contemporâneo é que estudou na escola do cinema atual estrangeiro. A geração anterior à minha, que é a geração da chamada retomada, ao buscar cada vez mais a profissionalização (que era para poucos, convenhamos) foi ignorando os processos histórico-políticos e estético-econômicos constituintes do cinema brasileiro até então, suas lutas, seus rompimentos e alianças, para se adequarem à “linguagem” padrão que se pode identificar em qualquer recorte sazonal feito num desses festivais internacionais que estampam as vitrines mais cobiçadas do cinema no mundo”, comenta.

A minha interpretação é de que isso aconteceu porque, na cabeça dessas pessoas, a retomada só estaria consolidada quando o cinema brasileiro voltasse aos holofotes internacionais, tal como o Cinema Novo esteve. Porém, o raciocínio que mobiliza essa expectativa parte de uma lógica neocolonizadora, num contexto internacional do cinema muito diferente daquele dos anos 60.

Holofote Virtual: O cinema de Glauber foi consagrado em festivais internacionais. Na tua opinião, estes espaços  continuam sendo importantes para se consolidar um filme?

João Arthur: Na época de Glauber, os festivais eram, como ele mesmo caracterizou, "olimpíadas culturais", onde o intercâmbio de autores independentes de várias partes do mundo alimentava as vanguardas em seus países de origem e colaboravam para que os artistas menos conhecidos, locais, aperfeiçoassem seu ofício de maneira proveitosa e pujante

Hoje em dia já não é mais assim. Essa cadeia de relações foi desterritorializada dos festivais e hoje se encontram sob outros aspectos interculturais que permanecem uma novidade no campo dos estudos sobre o assunto.

Esses festivais internacionais, hoje, são como “bolsas de valores do cinema”. É lá que se negociam as premi-ações dos filmes,cuja valorização tem reflexo direto na moeda nacional que corresponde ao mercado interno cinematográfico de cada paísque os respectivos filmes representam. Então, esses festivais atuam contra a prosperidade do cinema independente local, nativo, autóctone, desidratando-os na raiz, na sua própria concepção enquanto signo da soberania cultural de uma sociedade.

Holofote Virtual: Os festivais hoje estão sendo realizados on-line, como o Ficca, em que você foi premiado. Como você enxerga esse cenário? 

João Arthur:
 Toda novidade tecnológica, toda forma nova de mediatizar o cinema com o público já, de antemão, parte do princípio de que, para funcionar, deve nos explorar. 

A internet e o streaming já estão colonizados pelos “plays”, “plus”, “primes”, “flixs” que são as empresas imperialistas do audiovisual hoje. Eles dominam esse mercado com  tanta eficiência que só através deles é que se tem uma mínima oportunidade de exibir para uma quantidade de pessoas que ultrapasse a lotação de um cineclube. Então diante desse cenário eu só posso pensar que é preciso uma organização da classe de forma que rompamos com essa lógica planificadora.

Os festivais online não pediram permissão para chegar. Por esse motivo não dá pra dizer se são ou não bem-vindos. Foram organizados por força das circunstâncias (tanto a pandêmica quanto a emergência de uma alternativa online ao custo de um festival presencial). Eu, por exemplo, tive pouquíssimas oportunidades de exibir esse filme em festivais no Brasil, e nenhuma oportunidade de dar uma entrevista sobre ele mediante essas exibições. Só estou dando esta entrevista por causa da exibição do meu filme em um festival online... Aliás, sou grato pela oportunidade.

Eu não sei como é para outras pessoas, mas eu já estava muito acostumado a assistir filmes em casa, pelo computador. O problema que enfrento com relação a isso é justamente por causa desse meu costume. Quando a vida virou digital, por causa do isolamento social, e tudo começou a ser feito pelo computador, eu passei a não encontrar mais o mesmo tempo disponível para assistir filmes como antes – seja por conta do cansaço ocular, do tempo disponível, da capacidade do computador de operar em diversas frentes ao mesmo tempo, com muitos programas abertos (edição, escrita, internet, streaming, aulas online).

Para mim uma das grandes características do cinema é justamente a coletividade da sessão, a reunião de pessoas num mesmo espaço, assistindo ao mesmo filme, reagindo simultaneamente à mesma obra, debatendo-a em seguida, bebendo junto, fumando junto, respirando o mesmo ar, sentindo os mesmos cheiros, sendo atrapalhados pelas mesmas adversidades... 

Quando o digital era apenas uma alternativa para assistir mais filmes em menos tempo, eu o considerava bem-vindo. Depois que ele passou a ser a única alternativa para continuar exibindo filmes por conta da situação em que estamos, a disposição para o computador e para os filmes acaba sendo outra, não é mesmo?

Holofote Virtual: É verdade... E me fala sobre a Terceyra Eztétyka do cinema glauderiano, alvo de tuas investigações acadêmicas.

João Arthur: Na minha dissertação eu não proponho tanto uma fundamentação, mas menos ainda nomear o que seria essa terceyra eztetyka glauberiana porque, para mim, ela já está   bem fundamentada na trajetória cinematográfica dos últimos anos de sua vida, e pode encontrar respaldo teórico ao analisarmos os últimos escritos esparsos de sua obra literária. 

O que acredito que me caiba é fazer uma análise desta trajetória à luz do desenvolvimento intelectual de Glauber, levando-se em conta a transformação que lhe ocorreu da Eztetyka da Fome para a Eztetyka do Sonho e considerando os filmes que marcam essa transformação, até chegar aos últimos que, por sinal, não possuem teorias correlatas formuladas pelo próprio Glauber, o que nos leva a considerar a hipótese de que essa “terceyra eztetyka” ficou por ser esmiuçada e rigorosamente organizada tal como foram as outras, cujos textos ele concluiu em vida.

O filme A Idade da Terra (1980) é a expressão mais clara do caráter concreto dessa eztetyka. É através deste filme que, nos idos de 1981, Glauber rompe de vez com o circuito dos festivais europeus, representado na sua célebre passagem pelo Festival de Veneza (o “Coliseu do cinema”), onde escancarou “a guerra da cultura” contra a maquinação imperialista que vinha renovando suas táticas de monopolização do circuito exibidor e fazendo dos festivais internacionais sua vitrine homogênea e ortodoxa. Quarenta anos depois, cá estamos nós “com a bunda exposta na tela – deles – para passarem a mão nela”.

Se me permitem dar um pouco de continuidade à minha resposta sobre os festivais, minha percepção é de que o último ato do nosso mais importante líder do cinema brasileiro no século passado, num dos festivais mais importantes do mundo, última aparição sua a nível internacional, marcado por um gesto corajoso de ruptura com a política colonialista do cinema estrangeiro, foi ignorado em nome da construção de uma retomada do cinema brasileiro calcada nas diretrizes do comportamento do mercado global, como já disse anteriormente.

Quero deixar claro que isso não quer dizer que não devamos inscrever nossos filmes nos festivais estrangeiros ou coisa parecida, mas sim que devemos nos organizar e pautar nosso desenvolvimento cinematográfico por nós mesmos, visando a emancipação e libertação do nosso povo, ao invés de almejar representar o cinema brasileiro para a gringa, divertindo-lhes,dando-lhes elementos para seus escrutínios anacrônicos e arrogantes sobre nosso cinema. 

Um cinema de enfrentamento anticolonial, cujo método seja didático (materialista dialético) e cuja forma seja épica (que conta a história do nosso povo por meio da nossa mitologia), que rompa de vez com o “triste teatro da tese dos Diálogos”, como dizia o velho Oswald, com a mise-en-scène do drama burguês, que desenquadre o “plano americano” no “plano sul-americano” – menos “semi- ótico” e mais pluriótico – (risos).

6.6.21

Nanan Falcão e as histórias de um guarda-roupa

Nana Falcão - Fotos de Victoria Sampaio

“As Histórias que meu guarda roupa guarda” é resultado de anos de pesquisa de Nanan Falcão, e que reúne em cena seus três ofícios, o de atuar, costurar e escrever. A ideia surgiu durante o período em que ela se formava pela Escola de Teatro e Dança da UFPA. A estreia é na próxima terça-feira, 08, com reprise, no dia 17 de junho, sempre às 19h, ao vivo, pelo canal @guarda.histórias.e.roupas, no Instagram. O projeto é um dos selecionados pelo edital de teatro da Lei Aldir Blanc, Secult e Governo do Pará. Na entrevista, a atriz conta mais sobre esse processo e o que envolve toda essa história da origem das roupas.

Dedicada aos estudos do figurino há alguns anos, Nanan escreveu "As Histórias que meu guarda roupa guarda" inspirada em duas obras. O livro “A Psicologia Da Roupa”, de J.C. Fluguel, escrito em 1930, e “A História Mundial Da Roupa”, do SENAC. O primeiro faz um apanhado de vários estudos sobre a psicologia da indumentária e o desenvolvimento da produção da roupa, como algo que acompanha a humanidade inclusive como forma de comunicação, e isso, antes mesmo que o homem aprendesse a se comunicar verbalmente. O outro é uma espécie de enciclopédia de roupa de povos originários de todos os continentes. A obra faz uma reconstrução das origens primitivas até a atualidade. 

É a atriz que assina também a dramaturgia. Além do contexto histórico, o espetáculo também aborda os significados mais afetivos daquilo que é deixado de herança dentro de um Guarda Roupa. A direção é de Aníbal Pacha, um dos fundadores da In Bust Teatro com Bonecos, que inaugurou o Casarão do Boneco, hoje habitado por diversos artistas e companhias cênicas. Foi lá, em 2015, que ele e Nanan se conheceram. A iluminação e sonoplastia são de Thiago Ferradaes, os figurinos de Íla Falcão e Maurício Franco, que também deu consultoria artística, e arte de Victoria Sampaio, que também assina o registro junto com Raoni Figueiredo. 

O projeto que previa para a sua estreia, duas apresentações em escolas públicas, mas neste momento pandêmico precisou ser adaptado para o formato digital. A ideia ainda é que se possa mais a frente realizar não em apenas esta mas em outras escolas e espaços culturais. Por isso, aviso vocês, se agendem, não vai ficar gravado.

Na entrevista a seguir, Nanan fala de seu processo para criar a dramaturgia de “As histórias que meu guarda roupa guarda” e também sobre seus aspectos que vão além da diversão. Provocativo mas de caráter também educativo, o espetáculo traz elementos interessantes tanto para quem aprecia e estuda teatro ou que simplesmente pensa na roupa como a composição de sua própria identidade. Outra questão relevante do espetáculo é a poética a costura como atividade essencialmente feminina. 

COSTURA, POÉTICA E HISTÓRIA

Holofote Virtual: Conta. Como surgiu essa ideia maravilhosa de contar histórias a partir de um guarda roupa?

Nanan Falcão: A ideia surgiu durante o período em que eu estava na Escola de Teatro e Dança da UFPA e o projeto vem sendo construído já tem um tempinho. O primeiro episódio, contou a “A história da calça”. Escrevi em primeira pessoa e mostrei para o Aníbal. Ele adorou, fez várias provocações e aí saiu a nova montagem, com apoio da Aldir Blanc.  Eu escrevo e mostro pra ele, que vai me apontando o caminho, até que chegamos a essa estética que o espetáculo. A partir daí, o Anibal se tornou um diretor que acompanha todo o meu processo, desde a escrita até a parte mais visual.

“As Histórias que meu guarda roupa guarda” tenta unir esses meus três movimentos: que é o de atuar, costurar e escrever. Eu contraceno com agulhas, jaquetas, vestidos e até acessórios, além de outros objetos. E tem o guarda roupa, que traz tudo isso, na minha dramaturgia, como herança. É quando o espetáculo envolve afeto e memórias afetivas. É uma coisa que a gente não percebe, mas sempre que alguém da família se vai, faz a passagem, fica um guarda roupa cheio de objetos de roupas que a família tem que pensar quem é que vai guardar, quem é que quer aquele objeto que fica, quem vai guardar com amor, pra quem é que faz mais sentidos dar as coisas. 

Holofote Virtual: Vamos falar do Anibal Pacha. Como vocês se conheceram e acabaram montando esse trabalho juntos? 

Nanan Falcão: Anibal é mestre, divo, muso (risos) da vida né? Eu tive vários encontros com ele na vida, sempre o admirei. Minha mãe é uma mulher de teatro que já teve encontros profissionais com Anibal também, então já o conhecia, assim como todos os meninos da In Bust. Sempre fui fã por causa do Catalendas. Eu era uma criança que acompanhava o programa e sempre o vi como um artista maravilhoso que dava a vida a toda essa encantaria, esse encanto dos bonecos. 

Depois ele virou meu mestre (risos) e fui sua aprendiz na Escola de Teatro e Dança da UFPA. Cursei Figurino Cênico, entre 2017 e 2019, quando concluí. Anibal foi meu professor em quatro ou cinco disciplinas; e ainda escolhi uma optativa pra fazer teatro de formas animadas, que era um curso que não tinha minha grade, mas eu achava importantíssimo ouvir o Anibal nesse lugar de professor e de mestre. 

Nosso primeiro encontro profissional, foi quando ele dirigiu a visualidade de “Trunfo”, do grupo Vertigem, misturando as linguagens de teatro e do circo. Eu estava como figurinista junto com ele, que também fez a direção visual, isso foi em 2016.

Holofote Virtual: Quando a gente fala de roupa não tem como não lembrar que por trás dos nossos modelitos, existe uma indústria. Como é que você lida com essas questões na tua profissão de costureira, figurinista e bordadeira?

Nanan Falcão: Eu tenho muitas crises com a indústria têxtil, muitas críticas. Como toda indústria, a têxtil também tem esse formato capitalista global, exploratório, violento. Tem tudo isso de ruim, mas também essa indústria tem uma importância imensa. O processo de industrialização passa pela história da costura também, um trabalho reconhecido como feminino, feito também no dia a dia, também nas casas de família, como se via muito acontecer antigamente. 

E com a industrialização, essas mulheres saíram das residências e começaram também a ir para as fábricas. Os tempos eram de guerra, os homens começaram a morrer em campos de batalha e a mulher precisou assumir outros papéis sociais para alimentar os filhos, manter a família. É quando tem início os primeiros processos que eclodiram no movimento feminista nos anos 1960. Ou seja, falar de costura é também falar de emancipação feminina. Hoje, a costura também é uma forma de várias mulheres empreenderem.  

Isso me incomoda e acho importante falar sobre o uso dos materiais e de como a moda se apropria deles. Essa indústria da moda, muitas vezes, a maioria delas, não tem responsabilidade ambiental, quando continua utilizando produtos nocivos e sem cuidados necessários para proteger os trabalhadores desse setor.  O tecido gera muito pó, sem limpeza. As mulheres trabalham, assim como séculos atrás, com períodos de trabalho de 12 horas de trabalho direto. 

As grandes marcas, que se encontram nos Estados Unidos e na Europa seguem se utilizando da mão de obra do terceiro mundo, onde os trabalhadores não têm nenhum tipo de proteção de cuidado, de nada, com seu bem estar. E tudo isso por uma questão estética, por que é a moda, que é a parte mais mercadológica da indústria, a coisa que vende, que mexe com psicológico, com autoestima, com outros processos também. 

Holofote Virtual: A moda é um capítulo a parte.... Então resume aqui também tua relação com isso e o que pensas do assunto.

Nanan Falcão: Eu, artista, não dialogo, não trabalho com a moda. Eu estudo, mas eu não tomo pra mim, eu não admiro. É um objeto de estudo, mas não está no meu cotidiano, não me encanta assim, a tendência, o mercado, essa construção fashionista. A moda se volta contra nós, mulheres, porque é um processo que escraviza, que torna a gente dependente, porque a moda é uma coisa muito ligada a estética, as aparências, esses valores que ainda oprimem muito a mulher, esse lugar do feminino na sociedade.

Holofote Virtual: Pra gente fechar, me fala sobre esse caráter mais educativo do espetáculo. 

Nanan Falcão: Eu nunca tive essa pretensão, pra mim é muito mais um espetáculo curioso, divertido e provocativo, do que educativo. O Aníbal fala que o caráter educativo desse espetáculo vem do figurino. É interessante para quem aprecia e estuda esses elementos no teatro, como a classe artística, mas para todo mundo que pensa na roupa para compor sua própria identidade. A gente quer também valorizar esse oficio da costura, que não é valorizado em sua poética e importância. Talvez seja esse o lugar do educativo neste projeto, ensinar a valorizar a costura, o ofício, esse trabalho feminino.

Fecant com inscrições para artistas de Altamira

Foto: Jaime Souzza

O Festival Canção da Transamazônica (Fecant) realiza a 1a versão para artistas do município localizado na região do Xingu. Serão distribuídos R$ 19 mil em prêmios em dinheiro. As inscrições podem ser realizadas até dia 13 de junho, gratuitamente pelo site do evento, onde também está o regulamento.

O Fecant Altamira/Kids acontecerá nos dias 2 e 3 de julho, com o primeiro dia dedicado à competição de candidatos infanto-juvenis que poderão apresentar canções de tema livre, e, o segundo dia, para a disputa de composições inéditas e autorais. 

Podem se inscrever ao Fecant Kids os candidatos com idade até 18 anos que residam em Altamira há pelo menos um ano. Cinco vagas são reservadas a residentes dos Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) e cinco vagas a moradores de outros bairros. Os vídeos com as apresentações dos candidatos serão exibidos no canal do YouTube do festival e os 10 mais curtidos pelo público serão classificados. 

Já sobre a competição dos adultos, é necessário preencher o formulário eletrônico no site e enviar arquivos em áudio, letra da música e, opcionalmente, também a cifra. A música deve ser inédita. Serão selecionadas 12 composições por uma comissão julgadora. Os selecionados terão os nomes divulgados em 21 de junho pelos perfis do evento no Facebook (Fecant Altamira) e Instagram (@fecant.altamira) e também pelo mesmo site das inscrições.

Todos os 10 classificados do Fecant Kids receberão troféu e prêmio de R$ 500 cada um. E o melhor intérprete da noite levará um troféu e R$ 2 mil.  Já na na competição adulta, os três primeiros colocados receberão troféus e prêmios nos valores de R$ 5 mil, R$ 3 mil e R$ 2 mim. Também serão premiados o Melhor Intérprete e a Melhor Letra com troféus e prêmios de R$ 1 mil cada um.

O Fecant Altamira/ Kids será transmitido ao vivo pelo canal do Festival Canção da Transamazônica no YouTube. O patrocínio é da Norte Energia, por meio da Lei Semear, da Fundação Cultural do Pará e Governo do Estado. E apoio da Prefeitura Municipal Altamira. 

Mais informações: altamira.fecant.com.br

3.6.21

Vaca Velha aos seis anos se torna Ponto de Cultura

Fotos: Ifarias
Boi de Máscaras, manifestação cultural de São Caetano de Odivelas, a Vaca Velha, durou 10 anos e saiu de cena na década de 80. Em 2015, tornou-se uma associação e, em abril deste ano, um Ponto de Cultura. Para comemorar tudo isso, haverá evento de uma semana em formato virtual e presencial, obedecendo os protocolos da OMS. 

Vou contar essa história. Um grupo de amigos de infância se reencontrou em 2015. Juntos, eles começaram a se lembrar das brincadeiras de criança com a Vaca Velha, boi de máscaras que desapareceu das ruas da cidade na década de 80, deixando saudades que acabaram se transformando em motivação. Há seis anos, resolveu-se não só retomá-la, como formar, a partir dela, uma associação para trabalhar de forma mais comprometida com a cultura naquela comunidade.

Em 2016, conheci dois dos fundadores da Vaca Velha, os irmãos Ivan e Ivandro Farias. Eles trouxeram o brinquedo para uma apresentação em Belém, que contava inclusive com o saudoso Epaminondas Gustavo. Era um carnaval e era também o primeiro ano de retomada da Vaca Velha. Seis anos depois, vejo essa associação com o mesmo ou até maior entusiasmo em levar essa cultura adiante, tanto é que conquistaram o reconhecimento de Ponto de Cultura, a partir dos critérios estabelecidos na lei federal Cultura Viva, de 13 de agosto de 2014. O certificado atesta que a iniciativa desenvolve e articula atividades culturais em sua comunidade, dando acesso e proteção aos direitos da cidadania e à diversidade cultural do país. 

“Não foi apenas um resgate, foi muito mais que isso, além de ressuscitar parte dessa cultura e trazer de volta o que foi perdido na infância, a ideia era realizar algo que trouxesse benefícios para a comunidade Odivelense, com seus mestres, artistas, artesãos”, diz Ivan Farias, da Associação socioambiental e cultural Vaca Velha.

E assim foi. Não a toa a programação se estendera de 6 a 13 de junho, com oficinas, salas de cinema, intervenções artísticas, rodas de bate papo online, exposições fotográficas. No dia 13 de junho, como fechamento dos festejos de aniversário, será realizada uma live. 

“Será algo inovador em nossa cidade. Planejamos uma alvorada, respeitando os protocolos e em formato de live”, diz Ivandro Farias, um dos amigos que fundou a associação, em São Caetano de Odivelas, cidade situada a cerca de duas horas e meia de Belém, a capital paraense. 

No bate papo on line com fazedores culturais de São Caetano de Odivelas serão discutidos os reflexos da pandemia do Covid-19 sobre a manifestação cultural dos bois de máscaras, além do impacto econômico que isso gerou não para os fazedores de cultura, mas como também dos artesãos e ambulantes.

Cultura ambiental para a abrir a programação 

São Caetano de Odivelas se forma por meio de uma vila de pescadores, não a toa o município é famoso também, por oferecer as delícias o mar, a zona do salgado, onde se localiza. Por isso é muito pertinente que a programação inicie, no domingo, 6, com uma nobre ação, a limpeza do leito do Rio Mojuim. 

“A ideia é conscientizar a população quanto a importância da manter o Rio Mojuim limpo, assim liberando mais espaço para o curso da água e esclarecer que o Mojuim não é depósito de lixo. Percebemos muito lixo urbano no leito do rio, importante alertar a população quanto a preservação desse leito, o que é muito impactante ao meio ambiente. Precisamos ter mais consciência sobre a importancia do nosso majestoso Mojuim, sobre preserver a margem e manter o ambiente que vivemos limpo”, continua Ivandro.

Já na Exposição Fotográfica virtual “O Imaginário”, vai mostrar a relação da Vaca Velha com São Caetano de Odivelas e seus pontos turísticos, e também está programada a exibição do Filme “Vaca Velha e o Encontro dos Bois”, de Angela Gomes, roteirista, documentarista, produtora e jornalista, além de professora do curso de cinema e audiovisual – UFPA e Douturanda em Ciência da Comunicação – PPGCom UFPA. O documentário Vaca Velha e o Encontro bois mostra os detalhes do grande evento cultural odivelense, evento que reúne mais de 15 bois de máscaras pelas ruas de Odivelas.

A oficina de máscaras será com Mestre Antonio Cação, artesão, brincantes, líder de grupo e amante da cultura dos bois de máscaras, considerado o melhor artesão de máscaras de pirrô da atualidade.  

“Não existe inovação sem memória”, acreditam os realizadores dessa programação.  “O foco é promover os saberes e fazeres dos mestres a adolescentes”, diz Ivan.

Já a intervenção artística será com o artista Carlos Nyales, que vive a Vaca Velha desde o embrião, reuniu um coletivo com , David Goes, Byanca Borges, Ana Luize e Deivyd Coimbra para encantar o Ponto de Cultura Associação Vaca Velha, dar o encantamento ao espaço com suas artes.

No domingo, 13, a Vaca Valha saíra de seu curral às 6 horas da manhã acompanhada de um pirrô, um vaqueiro e um cabeçudo, mantendo o distanciamento, e a Orquestra Pipirinha (Orquestra da Vaca Velha) tocando sambas e marchas de boi. A ideia é acordar a cidade ao som dos curimbós, xeque-xeque e instrumentos de sopro tocando as toadas de boi. E, finalizando o dia, será feita a apresentação da Vaca Velha, em uma live show, o artista odivelense Rogerinho RT.

PROGRAMAÇÃO 

06/06 – Limpeza do leito do Rio Mojuim;

07/06 – Exposição Fotográfica virtual “O Imaginário”, de Ifarias;

08/06 – Exibição do Filme “Vaca Velha e o Encontro dos Bois”, de Angela Gomes; 09/06 – Discussão on line “Bois de máscaras e a Pandemia”;

10/06 a 12/06 – Oficina de máscaras com Mestre Cação;

10/06 a 13/06 – Intervenção artística de Carlos Nyales, David Goes, Byanca Borges, Ana Luize e Deivyd Coimbra;

13/06 – Alvorada, Café da manhã, Exposição Fotográfica “O Imaginário”, de Ifarias e Live Show de Vaca Velha e Rogerinho RT.

1.6.21

Teatro do SESI lança projeto cultural no Youtube

Casa de Folha - Foto: Ana Dias

O Teatro do SESI lança nesta sexta-feira, 4 de junho, o projeto Sala de Ensaio, um programa gravado nas dependências da casa de espetáculos, voltado para a valorização da cultura local e com divulgação exclusiva no canal do Youtube do Teatro (youtube.com/teatrodosesipara).

A proposta vem sendo formatada há seis meses e a intenção é receber artistas de diversos estilos e gêneros para apresentar seus trabalhos, o início de suas carreiras, os desafios e conquistas. Além disso, o espaço abordará também um pouco mais sobre a arte musical - seus sons, instrumentos e muito mais.

As gravações são realizadas nas dependências do Teatro, no espaço que dá nome ao programa e que está aberto para gravações, ensaios e outras propostas artísticas. “Temos uma sala de ensaio apropriada para receber espetáculos de música, teatro e dança, para um público de até 50 pessoas, e pensamos que seria uma oportunidade de usá-la com mais frequência e colaborar com quem faz a música e a cultura paraense”, explica Ana Cláudia Moraes, coordenadora do Teatro do SESI.

O Sala de Ensaio se manterá como uma atração regular ao Teatro do SESI, especialmente para o meio digital. Em formato bimensal, terá lançamentos sempre na primeira sexta-feira de cada mês, com curadoria do próprio teatro. Além do programa no Youtube serão disponibilizados conteúdos especiais como vídeos extras, galeria de fotos e os bastidores das gravações no perfil do Instagram @teatrosesipa.  

A atração de estreia é a banda Casa de Folha, formada por Dany Teixeira (voz), André Butter (violão/guitarra), Jassar Protázio (baixo) e Isma Rodrigues (percuteria). Para a gravação a banda contou ainda com a participação especial dos músicos Marcos Sarrazin (flauta e saxfone) e JP Cavalcante (percussão). A apresentação de estreia é da jornalista Carol Amorim.

Na estrada desde 2010, a banda lançou o primeiro EP, ‘Bangalô’, em 2016. O estilo da banda segue a fusão dos tambores afro, em um jogo sonoro entre o regional e as influências de jazz, pop e música urbana. As composições que nascem dessa reunião de amigos falam sobre amores, dissabores e crenças.

Em 2020, ao completar 10 anos de carreira, a banda lançou o single ‘Na brea. Na breja’, um afrobeat com flertes de carimbó, guitarrada e cultura pop. Os músicos também lançaram um minidocumentário com imagens da trajetória musical.

Serviço

Teatro do SESI lança o programa Sala de Ensaio. Nesta sexta-feira, dia 04 de junho, às 12h, no canal youtube.com/teatrodosesipar

30.5.21

Papo com João Arthur diretor de Males sem Terra

João Arthur, diretor de Niterói-RJ
O cineasta bateu um papo com o blog na ocasião em que exibiu seu filme, no Festival Internacional de Cinema do Caeté. O papo foi longo e resolvi dividir em sua etapas de publicação. Nesta primeira parte da entrevista, o cineasta fala sobre o processo de produção de seu primeiro longa, premiado como melhor longa metragem do Ficca, em 2018, e reexibido este ano, dentro da Mostra Oitava Maravilha.

“Males sem Terra é o resultado da minha percepção sobre todos os filmes que tinha visto nos principais festivais brasileiros e estrangeiros, dos quais a maioria eu não gostava ou contra os quais tinha questões de princípios, estéticas, políticas e artísticas. É assim que o situo no contexto cinematográfico da minha geração”, diz o diretor nascido na cidade de Niterói/RJ, em 1990, onde reside até hoje. 

João Arthur cursou Comunicação Social na PUC-Rio e Ciência Política, na UNIRIO, até que em 2011, deu continuidade aos seus estudos no curso de Cinema da UFF. A partir daí, tornou-se cineclubista, morou na casa coletiva Palacete dos Amores com um grupo de artistas e cineastas que criaram o coletivo independente Osso Osso, que entre outras coisas também realizava filmes. Após graduar-se em cinema, seguindo sua pesquisa na área hoje no mestrado no PPGCine/UFF, cuja linha de pesquisa é: Histórias e Políticas – com um projeto original sobre a Terceyra Eztetyka de Glauber Rocha.

Cena de "Males sem Terra"
"Males sem Terra" é seu primeiro longa-metragem. Estreou em 2016, por meio de edital da Prefeitura de Niterói, no Festival Chorume, e no ano seguinte chegou a ser exibido na Mostra Cine BH. 

Em 2018, o filme vinha sendo exibido de forma clandestina, informal e até marginalizada, por falta de convites e seleção no circuito exibidor oficial, até que o cineasta, roteirista, ator e também professor da Universidade Federal Fluminense (RJ), Sérgio Santeiro, falou para João Arthur, que o FICCA, o Festival Internacional de Cinema do Caeté, estava com seleção aberta e o aconselhou a inscrevê-lo e não deu outra, "Males Sem Terra" recebeu o Prêmio de Melhor Longa Metragem. 

Este ano, o festival realizou uma edição comemorativa, entre março e abril, com apoio da Lei Aldir Blanc. Online, como todos os demais festivais hoje em dia, o evento exibiu 20 filmes que já haviam sido premiados na Mostra Oitava Maravilha e o filme de João Arthur foi um deles, exibido pelo canal de Youtube do Ficca, onde ainda pode ser visto. O filme cai bem ao gosto cineclubista, com questões para longos debates. 

“Deveriamos tê-lo debatido de verdade em um local apropriado à época que ele foi lançado, mas as curadorias ao redor do país não se interessaram por fazê-lo, à exceção do Francisco Weyl (FICCA), do Francis Vogner, Pedro Butcher e Marcelo Miranda (o trio do CineBH) e da Clara Chroma e Cleyton Xavier (Chorume)”, complementa João Arthur, que traz ainda, na filmografia, "Tudo posso naquele que nunca aparece" (25 minutos, 2013) e “O Bobo na Rua”, em processo de finalização desde 2019.  Vamos conferir a entrevista.

João Arthur (foto do perfil no Fabeook)
Holofote Virtual: João, como surge o seu primeiro longa metragem e como ele foi realizado?

João Arthur: O primeiro contexto de realização desse filme que gostaria de demarcar é o universitário. Males sem Terra é um filme independente de um jovem artista, feito na base do grito, ou seja, de maneira forçada quando, à época que estudava cinema na UFF, o corpo docente não estimulava a prática de longas-metragens – cá entre nós, depois da experiência do meu filme e do filme de Catu Rizo, que é contemporâneo ao meu, o Departamento de Cinema da UFF apertou ainda mais as regras para impedir longas- metragens pela via das disciplinas específicas para a realização cinematográfica. Apesar de ser um filme de um estudante universitário, se tivesse dependido da universidade para sua realização estaria até hoje com ele na mesa, “em processo”.

O segundo contexto é o político. Este filme foi escrito entre 2012 e 2015 e filmado entre 2014 e 2016, ou seja, durante os turbulentos anos das jornadas de junho e da traição republicana que deu início à intervenção militar nos três poderes do Brasil. Minha intenção era produzir um filme que olhasse essas questões sob outra ótica que não a da narrativa pelega de muitas das obras brasileiras que via naquele momento. Por ter finalizado ele logo depois que a Dilma foi deposta, não pude explorar esse assunto de maneira apropriada (coisa que intento fazer nesse meu próximo filme), então considero Males sem Terra um filme sobre as jornadas de junho e suas contradições.

O terceiro contexto é a emergência climática, que é meu tema único, uma ideia que pretendo desdobrar para o resto de minha vida, em meus filmes. No Males sem Terra eu só apresentei essa ideia, deixando claro a maneira como vejo essa questão, do ponto de vista filosófico e político, mas que também desdobro neste próximo filme.

Cena de "Males sem Terra"
Holofote Virtual: Fala um pouco da concepção do roteiro e da estética do filme? 

João Arthur: Para realizar esse filme me bastou uma ideia. Essa ideia está representada em dois frames do filme. O primeiro frame é o do plano sul-americano, que é aquele do indígena mirando uma flecha em direção à plataforma de petróleo. Aquela para mim é a perspectiva originária do nosso povo, a visão de 500 anos atrás, de dentro do território, ao ver o invasor chegando para ceifar a plumagem da terra e carburar o sangue da Deusa. À exceção do short do indígena, dos prédios ao fundo com o avião decolando no Santos Dumont e da plataforma de petróleo, todo o passado do Brasil é, ao mesmo tempo, agora. No lugar dos prédios, foi uma floresta; no lugar do aeroporto, o forte Coligny; no lugar da plataforma, a nau Capitânia ou a Santa Maria, a Nova.

O segundo frame é a da insurreição poética do professor linchado (qualquer desses frames montados ao longo do filme), que para tentar interromper o espancamento grita desesperado que não é ladrão e sim professor de história, no que um dos agressores o desafia a “contar uma história, já que ele é professor”, e insiste dizendo pra que seja a da “revolução francesa”. Quando um clarão se forma em torno do professor e ele levanta para falar, não conta a história da revolução francesa e sim a história do nosso povo.

Eu sonhei com esses dois frames, antes de pensar em fazer um filme. Foi a partir deles que tudo se originou. Foi motivado por eles que uma narrativa se impôs ao filme, no fim das contas. A estrutura narrativa dele deriva disso, mas não é tão “própria” assim, na minha opinião. Eu vejo esse filme muito como um diálogo que eu tentei fazer com meus contemporâneos, tanto da minha própria geração quanto da geração que me antecedeu. Muitos dos elementos que eu critico nesses outros filmes eu degluti no Males sem Terra da forma que eu achava que eles realmente deveriam ser aproveitados.

Cena de "Males sem Terra"
Holofote Virtual: Quanto tempo levaram as filmagens, que  dificuldades foram encontradas ao longo da produção?

João Arthur: Foi minha  primeira experiência com longas-metragens e de toda a equipe. Era um filme que eu propunha não carimbar logo marca s em sua constituição imagética – o que significa investimento, fomento, etc, ou seja, era um filme independentíssimo –, o processo de produção teve que ser adaptado aos momentos em que conseguíamos acertar as condições mínimas para cada set em específico. Isso dependia dos horários dos atores e da equipe – que trabalharam de graça –, dos ensaios de determinadas cenas e como elas iam se constituindo, das condições dos equipamentos que usávamos, do período em que poderíamos adquirir emprestada uma determinada lente, refletor, lapela, e assim por diante.

O que eu tenho de memória certamente é a distância de 1 ano que levou entre o primeiro bloco de filmagens e o segundo. O primeiro bloco foi filmado com base em materiais que eu já tinha em mãos, como para compor um determinado arranjo que apriori já estava na minha cabeça. O segundo bloco foi filmado com base na montagem do primeiro bloco, como para complementar e amarrar o sentido do filme como um todo. Desta forma, o roteiro foi reescrito quando retomamos as filmagens. O roteiro estava sempre “esquartejado”, à medida que eu ia escrevendo o essencial ficava tão gravado em minha cabeça que na maioria das vezes levávamos o texto para o set, mas resolvemos muitas das coisas sem recorrer a ele diretamente, à risca. À medida que íamos filmando a montagem se solucionava na minha cabeça, e o modo de filmar outras cenas ia se desenhando apartir dessa pré-montagem.

Cena de "Males sem Terra"
Um exemplo disso é a cena das Barcas Rio-Niterói que resultou em um especial desconforto do ponto de vista das relações públicas do Grupo CCR Barcas com o curso de cinema da UFF, afetando principalmente os estudantes que procuraram filmar lá de maneira, digamos, formal, oficial, depois de nossa experiência. 

Por termos nos esquivado a todo momento do “guarda-costas” que o Grupo CCR colocou para vigiar o nosso set (que, além de não sair da nossa cola questionava-nos, a todo momento, o motivo de filmarmos determinada cena ou de gravarmos determinado som diegético que advinha das dependências das Barcas como, por exemplo, obras, burburinhos, etc., chegando até mesmo a questionar como montaríamos uma coisa com a outra ressaltando a preocupação  da empresa de ter sua “imagem” prejudicada por qualquer montagem que “desse a entender” ao público algo que não lhes interessava do ponto de vista da propaganda, vejam vocês... 

Posteriormente à nossa passagem por lá, eles optaram por começar a recusar outras autorizações de filmagem que partiam de outras equipes da UFF, alegando  que a experiência conosco provocou “perturbação aos clientes do serviço” e utilizando esse argumento para, indiretamente, cortar relações com outras produções que eventualmente viriam a utilizar o espaço das Barcas como cenário para seus filmes. Não sei exatamente o nível do desgaste que isso provocou entre mim e os outros estudantes – ou entre mim e o departamento, ou até mesmo entre o departamento e o Grupo CCR. Nem se essa objeção da empresa permanece em vigor ainda hoje, meia década depois das filmagens do Males sem Terra.

Cena de "Males sem Terra"
Outra questão importante que gostaria de pontuar brevemente é o contexto de resistência e retomada indígena da Aldeia Marakanã. O caso da Aldeia Marakanã marcou muito aqueles anos de revolta, pois no caso do Rio de Janeiro as situações que ocorreram naquele período foram também o estopim para muitos dos protestos. 

Os integrantes do movimento estiveram sempre presente nos grandes protestos do centro do Rio, assim como algumas das figuras marcantes daqueles tempos estiveram presentes em muitos dos conflitos deflagrados na aldeia pelas forças repressivas do Estado. Na época das filmagens do Males sem Terra eles não estavam na aldeia, pois haviam sido despejados por ordens do ex-governador Sérgio Cabral. As cenas que aparecem no filme foram feitas num congresso intercultural indígena organizado por eles na UFRRJ como forma de resistência visando um plano de retomada (que acabou acontecendo à época da prisão de Cabral).

Atualmente a Aldeia Marakanã sofre novamente com ameaças de despejo e sabotagens jurídicas em plena pandemia tendo, agora, como antagonista um novo personagem, dessa vez bolsonarista, mas igualmente estúpido e truculento, o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL-RJ). Mas esse sujeito desprezível será moqueado na história política do BR assim como foram todos os outros, porque a magia é forte, real e sobrepõe qualquer objetivo racista.

Cena de "Males sem Terra"
Holofote Virtual: E como  está hoje sua produção, você tem planos para o futuro?

João Arthur: Os projetos que tenho neste momento são “presentes”, o que está no futuro é a sua  realização (risos). O mestrado eu estou fazendo em paralelo com o desenvolvimento desses projetos, pois acredito que são movimentos complementares, apesar do desgaste que é escrever visando duas práticas literárias completamente opostas, ainda mais no meio de uma pandemia e diante de um governo genocida. Não posso dar muitos detalhes sobre os filmes porvir, mas adianto que é mais de um.

O que está mais próximo da realização neste momento eu comecei a escrever por incentivo do saudoso Luiz Rosemberg Filho, pouco antes do seu falecimento – a quem também dedicarei a obra, que será filmada quase toda em Niterói/RJ, utilizando a paisagem modernista caracterizada pelas obras de Niemeyer na cidade em contraste com o ambiente neobarroco da Guanabara. Um filme sci-fi tropical embalado por um enredo sobre a distopia da política atual no nosso país e cujo tema principal é a emergência climática global: o “antropoceno”. Este filme se chamará “A Gaya Gaiola”.

Outros filmes estão encontrando seus esboços aos poucos, à exceção de um outro projeto, mais ambicioso, que contará a história da fundação da cidade de São Paulo, Rio de Janeiro e Niterói simultaneamente, durante o período de aproximadamente uma década, que marcou a primeira invasão europeia organizada nas terras de Pindorama cujo enredo compreende as passagens de personagens históricos como Anchieta, Brás Cubas, Villegagnon, Hans Staden, por exemplo. Porém a narrativa estará voltada para o protagonismo de personagens indígenas históricos, tais como os morubixabas Kunhambebe (primeiro líder da Confederação dos Tamoyos), Aymberê (que o sucedeu após sua morte), Pindobuçú, Coaquira, Araraí, jovens guerreiros como Jagoanharo, Parabuçú, Komorim, bravas mulheres como Iguassú e Potira, além de Tibiriçá e Araribóia, contra quem lutaram. 

Será um filme grande demais para caber em uma única obra e, por essa razão, até o presente momento, ele está dividido em três partes e me custará o trabalho de uma década inteira para ser concluído, segundo meus cálculos, a depender das oportunidades de financiamento que me surgirem. Por ora sigo na labuta da densa pesquisa que envolve a escrita do argumento e do roteiro desta trilogia, bem como da organização de sua pré-produção. No meio desse caminho, outros filmes menores e menos complexos podem surgir com força, podem encontrar conjuntura favoráveis para serem realizados, mas não há como, neste momento, prever muita coisa com relação a isso.

João Arthur (foto do perfil no Facebook)

Holofote Virtual: Vamos falar da atual conjuntura da cultura brasileira, política e perspectivas com a  Lei AldirBlanc. Qual é a sua análise?

João Arthur: Não estou em condições de fazer uma análise geral no sentido de dar conta das questões que envolvem a aplicação da lei a nível nacional, mas pelo que pude notar em meu território, foi o que permitiu uma certa continuidade da produção cinematográfica independente, principalmente a de baixo orçamento, incluso curtas metragens, oficinas, aulas online, etc.

Aqui na minha cidade, uma parte desse montante foi direcionada para um objetivo um tanto quanto inusitado e de caráter realmente emergencial: o prêmio Erika Ferreira (em homenagem a uma atriz e diretora teatral da cidade, que faleceu vítima da covid-19 no início da pandemia). Esse prêmio (cujo valor por cabeça era pequeno se comparado a    outros editais que foram lançados no Estado do RJ) visava distribuir renda o mais rápido e com o mínimo de entraves e complicações para o maior número de artistas possível. 

A  maneira que eles encontraram de fazer isso foi premiando a ideia. Não era necessário, por exemplo, prestar de contas do dinheiro recebido e de como foi gasto, nem havia o compromisso de que o artista entregasse uma obra pronta como conclusão do processo, a seleção não levava em conta, por exemplo, as probabilidades e possibilidades que o artista tinha de realmente realizar por completo sua ideia, bastava que ele comprovasse que permanecia trabalhando nela, apresentando um relatório de desenvolvimento depois de algum tempo do dinheiro entregue.

Inusitado porque, se eu não estiver enganado, creio nunca ter visto um prêmio em dinheiro desse tipo para artistas independentes no Rio de Janeiro. Eu costumo fazer severas críticas ao modelo obsoleto e anacrônico dos editais Brasil afora. Por exemplo, amaneira como eles enxergam o artista do cinema e suas exigências contábeis que não levam em consideração a heterodoxia de uma produção cinematográfica independente diante da cornucópia de maneiras e modos de produção que temos em desenvolvimento simultaneamente no país. 

Nós artistas e produtores aqui na ponta nunca daremos conta de amortecer os impactos da falta que faz uma agenda  nacional de valorização dessas questões. O que podemos fazer é o máximo que nos couber, com afinco, rigor estético e coerência política. Eu, por exemplo, filho de uma migrante nordestina, mas nascido e criado na Guanabara – onde tenho profunda raiz, produzo minhas obras, sobre a qual direciono o foco de minhas escaramuças, intervenções públicas, debates políticos e estéticos sobre o cinema – nunca imaginei que minha primeira entrevista sobre o Males sem Terra, quase cinco anos depois da primeira exibição pública do filme, seria dada a um veículo de imprensa do Pará por ocasião de ter ganhado um prêmio em Portugal, dentro de um festival amazônico. A vida é cheia de surpresas. E sou grato por elas.

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