17.11.24

Sobre Momo e Alberto Silva Neto

Por Ismael Machado, com 
fotos de Samia Oliveira e Wlad Lima.

O psiquiatra José Ângelo Gayarsa, que se notabilizou por fazer ‘sessões e consultas’ na televisão, costumava dizer que a família- pelo menos a nossa família tradicional ocidental- era fonte das nossas maiores mazelas e traumas psíquicos ao longo da vida. Creio que Nelson Rodrigues assinaria embaixo dessa afirmação com um largo sorriso no rosto. 

É difícil olhar ao lado ou mesmo internamente e não ter uma sensação de que nossas fissuras emocionais não são causadas por esses anos de convivência familiar, negociando emoções, suprimindo dores, alimentando fantasmas de rancores, invejas e solidões. Há saída? Difícil dizer.

Alberto Silva Neto encontrou uma. Ou não, vá se saber, numa filosofia caetânica, de resto um ícone na vida de Alberto. Expor as fraturas e as feridas de um relacionamento com o pai e, por tabela, com um avô não conhecido (e que personagem fascinante) foi um modo de o ator Alberto exorcizar o pai, o avô, a família. Prestar homenagem ainda que às vezes sombria, foi uma solução para alguns demônios, anjos noturnos que podem atravessá-lo em noites perdidas, deitado na rede e olhando a cidade do alto.

Momo, o espetáculo exorcismo, o monólogo das entranhas, a peça divanesca, o teatro testemunho, ou qualquer outra definição que queiramos ou possamos dar é, antes de tudo, um atravessar por um terreno pedregoso. Sim, estamos vendo as águas do mar, a praia lá adiante, mas para chegar até ela, é necessário talvez cortar os pés nas pedras afiadas que nos separam dessa suposta recompensa. Não, não nos iludamos. Como o personagem em determinado momento, precisaremos arrancar fora os calçados e encarar os passos nus.

Alberto Silva Neto é um monstro. É um artista-ator que chegou a um momento de plenitude dramatúrgica onde a palavra assombro talvez seja a melhor a nos definir quando o assistimos em cena. Sou testemunha disso. Alberto fez parte de meu primeiro longa de ficção, Flashdance TF e eu, que sempre o cogitei para o papel desde a escrita do roteiro, admito não estar preparado para o que presenciei de forma tão íntima e tão intensa. Cláudio Barros, outro gigante amado, não me deixaria mentir.

Em Momo, Alberto se despe e se veste. Se traveste de armaduras e as joga longe. Ao encarar a vida e a morte do pai, entre cartas, recortes, missivas que mais parecem uma garrafa jogada ao mar, ele nos amarra ao pé da mesa da escuta. Só que essa escuta não é isenta de dor. Ela nos leva aos nossos próprios assombros, nossos escuros, ali onde algo nos escava feridas, nos atropela memórias.

É dor feito gozo, como cantariam Gonzaguinha ou Djavan, que já abordaram essas funduras em letras musicais. Ou aquilo que Caio Fernando Abreu sempre dizia, sobre a dor de criar algo que é verdadeiro, no sentido não da palavra verdade, mas aquela coisa que não nos deixa mentir quando o espelho nos mira de volta nos sombrios momentos de solidão urbana.⁷

O que Alberto busca e ele costuma enfatizar isso, é ultrapassar a barreira do mero ser-estar ator e ir um pouco além. Ou muito além. Alberto grita e chora e ri e sussurra e se cala. E entre os olhos umedecidos ele sorri e confessa ser teatro o que faz. Mas é uma armadilha também, pois nunca é só teatro. A vida pulsa. No efêmero e no eterno.

Há vícios e virtudes no caminho de qualquer artista. Egos impelidos a criar e dizer e mostrar algo que são como portas entreabertas, janelas que iluminam porões empoeirados, onde o fogo que queima gera uma cinza pouco acessível. Não é uma tarefa fácil sacudir os esqueletos de cada armário.

Em Momo há as compreensões e incompreensões sobre os papéis de cada um numa história masculina. Paternar. O pai, o filho, o desamparo materno, o pai que somos, os filhos que fomos, o futuro e o passado que se embolam. Onde o abraço? Onde o encontro? A voz tonitruante imperativa. A voz do pai. A voz do medo. Da distância, do afeto suprimido. Pai. Descasquemos as peles, arrancando as cascas de ferida. O que nos sobra?

Alberto entrega e pede de volta. Reclama compreensão e aceitação. Esse sou o eu descarnado. Talvez não seja. Talvez seja apenas teatro. Mas se teatro é vida, é a vida que está sendo jogada em nós? 

Ou é simplesmente mais uma folia de momo num carnaval de ruas desertas?

O palhaço chora. E eu o observo de meu próprio picadeiro. Alberto?  Esse quer se equilibrar na corda lá em cima. A pergunta que me faço é: há rede para amparar a queda, se houver?

Ave, Alberto. Te saúdo. 

(Ismael Machado)

14.11.24

MOMO: um rito de cura no Teatro do Desassossego

O ato poético foi apresentado no Teatro do Desassossego, nesta última terça-feira (12), em Belém, para uma plateia seleta, 14 testemunhas. 

Em cena Alberto Silva Neto, 54, compartilha experiências pessoais numa performance que inicia com uma reflexão sobre o ator que, mesmo se transformando em outro, nunca perde a consciência de sua identidade.

O teatro é uma "metamorfose", mas uma metamorfose consciente, onde tanto o ator quanto o público sabem que o ator está ali, interpretando, mas não se transformando no personagem. Esta reflexão prepara Alberto Silva Neto a si mesmo e a suas testemunhas, para mergulhar num ato poético revolucionário, MOMO.

O teatro como a arte de expor a vida. Um lugar de revolução, onde a arte não é fuga da realidade, mas uma forma de enfrentá-la. MOMO surge em 2023, como um espetáculo solo autobiográfico que mergulha nas complexas relações familiares e na busca pelo autoconhecimento.

A dramaturgia é fundamentada em cartas trocadas na década de 1960 entre seu pai, Eduardo, e seu avô, Alberto, além de um texto escrito por Alberto após a morte de seu pai em 2007. Despojada de elementos cênicos tradicionais, a montagem enfatiza a intimidade do ato performático.

Em cena, Alberto busca revelar-se sem disfarces. Partilha com a plateia sua experiência pessoal de maneira crua e verdadeira, criando um espaço onde o espectador não é apenas um observador, mas alguém que é transformado, tocado e desafiado a repensar a própria vida. 

Clínica do Sensível - prática artística e psicoterapêutica

É nesse contexto que a figura de Wlad Lima, artista-analista, escritora, diretora/cenógrafa de teatro e desenhista, se torna fundamental para entender o impacto do trabalho de Alberto. A apresentação ocorreu no porão onde ela realiza a sua Clínica do Sensível, desenvolvendo uma abordagem que integra práticas artísticas e psicoterapêuticas, oferecendo um espaço onde artistas e não-artistas podem explorar e cuidar de seus processos de criação e de si mesmos. 

Dedicada ao estudo e à prática da arte como ferramenta de autoconhecimento e cura, utilizando a psicanálise como uma lente para perceber o processo criativo, em sua "Clínica do Sensível", ela é guia ao processo artístico de Alberto, entrelaçado com a análise, abrindo uma oportunidade de explorar emoções e experiências pessoais de forma profunda.

A psiquiatria, neste caso, não é disciplina distante da arte, mas uma prática que dialoga diretamente com o corpo e as emoções do indivíduo, o que a torna uma ferramenta poderosa para o processo criativo. Em "Momo" o público é convidado a vivenciar essa fusão entre arte e terapia. E nesta experiência compartilhada, não só testemunhamos um processo de transformação, demos um salto no abismo e mergulhamos num ritual de cura.  

Sobre o ator

Alberto Silva Neto é jornalista, ator e professor com trajetória também como diretor e encenador. Desde 2004, dirige o grupo Usina Contemporânea de Teatro, com foco na pesquisa sobre o trabalho do ator. 

Na UFPA, leciona disciplinas como Teorias do Teatro e Sistemas do Pensamento Teatral, além de coordenar projetos de pesquisa. Com doutorado em Artes pela UFMG, sua prática se une à pedagogia, investigando o processo cênico e a dramaturgia do ator, sempre com ênfase no corpo e na criação teatral.

13.11.24

!PULSA! em ritmo de celebração e despedida

Poperópera, do Grupo Mexa (SP)
O !PULSA! compartilha com o público e artistas do Pará, Ceará, Piauí, SP e RJ experiências artisticas e encontros, ações formativas e debates que refletiram sobre a cultura e o patrimônio da Amazônia.

E ainda não terminou, a programação segue até domingo (17), gratuitamente. Além de espetáculos, exposições e roda de conversa, também tem festa do Coletivo Noite Suja, Ocupação do Aparelho, no Mercado do Sal e um cortejo climático saindo da Av. Bernardo Sayão.

Na sexta-feira, iniciando de tarde, o Espaço EcoAmazônias, situado no bairro do Jurunas, abre a exposição “Brincando com a Luz”, de Miguel Chikaoka, que será acompanhada por uma roda de conversa sobre Arte Coletiva em Movimento, com representantes de coletivos locais.
 
Entre os espetáculos, o !PULSA! apresenta a POPERÓPERA TRANSATLÂNTICA, do grupo MEXA (SP), uma ópera inovadora que mistura dance music dos anos 90 com a épica "Odisseia", de Homero, no Teatro Estação do Gasômetro. Já o Casarão do Boneco traz, na sexta e no domingo, duas atrações, o espetáculo Aguar o Tempo, onde a cia In Bust explora as memórias imersas em um rio-tempo, e a performance Boulevard & Gardênias, com Jefferson Cecim e Dudu Nobre, que reflete sobre a vida e o cotidiano com cenas e personagens criados a partir de imagens fragmentadas.

Aguar o Tempo, da In Bust, no Casarão
do Boneco
No sábado o Cortejo Igara Rito de Passar, com Shayra Brotero e Byxa Du Mato. A concentração será às 18h, na Av. Bernardo Sayão, esquina com Rua dos Mundurucus, e que percorrerá as ruas de Belém discutindo as mudanças climáticas. 

A Casa dos Palhaços apresentará, também no sábado, o processo de construção do espetáculo A Comédia da Mulher Calada que Falava Mais que Papagaio na Chuva. Para fechar, o sábado, penúltimo dia do !PULSA!, com chave de ouro, o coletivo Noite Suja tomará a Casa Apoena, numa festa que celebra a performance Drag e a expressão das narrativas amazônicas e dissidentes.
 
Já no sábado e também no domingo, temos dois espetáculos, o tReta, do Original Bombber Crew (PI), que se apresentará no Teatro Curro Velho e, Altamira 2042, da performer Gabriela Carneiro da Cunha (RJ), que amplifica depoimentos sobre a tragédia da hidrelétrica de Belo Monte, no Teatro Cláudio Barradas.

Altamira, performance de Gabriela da Cunha
A programação do domingo, 17, conta ainda com a exposição Organoléptica, do Coletivo Vadios, na Kamara Kó Galeria, e a ocupação artística do Coletivo Aparelho, às 12h30, no Mercado do Porto do Sal, com o Mercado do Choro e o Pandeiro Livre.
 
A realização do !PULSA! é da Olhares Instituto Cultural e Outra Margem, com patrocínio do Instituto Cultural Vale e Ministério da Cultura via Lei Federal de Incentivo à Cultura. Parceria institucional: Fundação Cultural de Belém, Prefeitura Municipal de Belém, Fundação Cultural do Estado do Pará, Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. Apoio cultural: IBT - Instituto Brasileiro de Teatro
 
Programação Final do !PULSA!

Sexta-feira, 15 de novembro
 
Exposição "Brincando com a Luz" (Miguel Chikaoka)
16h30 - 20h - Espaço EcoAmazônias (Rua dos Tamoios, 624 – Jurunas)
Boulevard & Gardênias, com Jeferson Cecim e Dudu Nobre
18h - Casarão do Boneco (Av. 16 de Novembro, 815 – Batista Campos)
Aguar o Tempo (In Bust Teatro com Bonecos)
18h30 - Casarão do Boneco (Av. 16 de Novembro, 815 – Batista Campos)
POPERÓPERA TRANSATLÂNTICA (MEXA - SP)
19h - Teatro Estação do Gasômetro
 
Sábado, 16 de novembro
 
Organoléptica (Coletivo Vadios)
15h – 18h30 - Kamara Kó Galeria (Trav. Frutuosos Guimarães, 611 – Campina)
A Comédia da Mulher Calada que Falava Mais que Papagaio na Chuva (Casa dos Palhaços)
15h30 - Casa dos Palhaços (Trav. Piedade, 533 – Reduto)
Cortejo Igara Rito de Passar (Shayra Brotero e Byxa Du Mato)
18h - Concentração na Av. Bernardo Sayão, esquina com Rua dos Mundurucus
Altamira 2042 (Gabriela Carneiro da Cunha)
20h - Teatro Universitário Cláudio Barradas (Rua Cônego Jerônimo Pimentel, 546 – Umarizal)
tReta (Original Bombber Crew - PI)
20h - Teatro Curro Velho
Festa Noite Suja (Casa Apoena)
22h - Casa Apoena
 
Domingo, 17 de novembro
 
Organoléptica (Coletivo Vadios)
10h – 13h - Kamara Kó Galeria
Mercado do Porto do Sal (Coletivo Aparelho)
15h - Mercado do Porto do Sal
Boulevard & Gardênias, com Jefferson Cecim e Dudu Nobre
17h30 - Casarão do Boneco (Av. 16 de Novembro, 815 – Batista Campos)
Aguar o Tempo (In Bust Teatro com Bonecos)
18h - Casarão do Boneco (Av. 16 de Novembro, 815 – Batista Campos)
Altamira 2042 (Gabriela Carneiro da Cunha)
19h - Teatro Universitário Cláudio Barradas
tReta (Original Bombber Crew - PI)
19h - Teatro Curro Velho

Serviço
Mais informações:
https://pulsa.art.br

Terreiro celebra Seu Légua e 90 anos de Mãe Lulu

Mãe Lulu
Fotos Divulgação
O Terreiro de Mina Dois Irmãos, celebra, nesta quinta-feira, 14, uma festa a Seu Zé de Légua e aos 90 anos de Mãe Lulu, zeladora de santo da terceira geração da casa. O templo centenário localizado no bairro do Guamá, é o mais antigo em funcionamento de Belém, com 134 anos, e o único terreiro tombado do Pará e da Amazônia.

A programação começa às 15h30, com o debate: “O Direito do Povo de Terreiro: Patrimônio Material e Imaterial”, integrando o “!PULSA! Movimento Arte Insurgente”.

As discussões abordarão a importância dos terreiros e suas manifestações culturais, como patrimônio imaterial, e políticas públicas que possam reconhecer e proteger esses espaços ancestrais. Participam do encontro: Mãe Eloísa de Badé, da quarta geração de mulheres à frente do Terreiro de Mina Dois Irmãos; Pai Amilton, do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa); Babalaô Ivanir do Santos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Pedro Neto, antropólogo; e mediação de Daniel Faggiano, bacharel em direito com mestrado em antropologia.

Após o debate, as comemorações continuam a partir das 19h, com um cortejo e um tambor em celebração à entidade espiritual Seu Zé de Légua, a Festa dos Boiadeiros e aos 90 anos de Mãe Lulu. A programação é gratuita, mas com recomendações de vestimentas - não compareça com roupas pretas, curtas (bermuda, saia e vestido curtos), decotadas e calça apertada.

Filha caçula de Mãe Amelinha de Dom José Rei Floriano, Mãe Lulu de Toy Averekete foi escolhida para dar continuidade às tradições do “Dois Irmãos” em 1963, aos 29 anos de idade. Ao longo de mais de 60 anos de luta, recebeu diversos reconhecimentos, como a Comenda Mãe Doca. Aos 90 anos, repassou a zeladoria do terreiro para sua filha caçula, Eloísa de Badé, mas sua jornada espiritual continua marcada pela luta constante para manter vivos os fundamentos do terreiro e as tradições que suas ancestrais transmitiram.

Ao longo de sua trajetória, mãe Lulu se tornou uma referência para outras casas de axé, contribuindo para a perpetuação dos rituais, da história e da sabedoria dos ancestrais no Estado. Mãe Eloísa de Badé, que leva à frente o legado do “Dois Irmãos” há mais de dez anos, conta que a trajetória do terreiro se entrelaça com a resistência das comunidades de matriz africana diante das adversidades históricas.

“Essa programação celebra a luta incansável das mulheres pela preservação das nossas tradições religiosas e culturais. A defesa do tambor de mina e do legado de Mãe Lulu, Mãe Amelinha e de Mãe Josina, fundadora da nossa casa, visa valorizar as culturas de origem africana no Brasil, especialmente na Amazônia”, diz mãe Eloísa.

No dia 30 de agosto de 2024, o Terreiro de Mina Dois Irmãos completou 134 anos de história, sempre localizado na Passagem Pedreirinha, no bairro do Guamá. Em 2010. foi tombado como território simbólico, de valor histórico e cultural para o Pará, pelo Departamento de Patrimônio Histórico Artístico e Cultural do Estado do Pará (Dphac), da Secretaria de Estado de Cultura (Secult).

Em 2024, o Terreiro de Mina Dois Irmãos foi uma das fontes de pesquisa da escola da escola de samba Grande Rio para o desenvolvimento do enredo “Pororocas Parawaras: As Águas dos meus Encantos nas Contas dos Curimbós”, que vai levar a encantaria amazônica para o Carnaval do Rio de Janeiro.

Serviço

Festa de Seu Zé de Légua e 90 anos da Mãe Lulu

Data: 14/11 (quinta-feira)

Programação

15h30 - Debate “O Direito do Povo de Terreiro: Patrimônio Material e Imaterial”, com Mãe Eloísa de Badé, Pai Amilton, Babalaô Ivanir do Santos, Pedro Neto e mediação de Daniel Faggiano.

19h: Cortejo e tambor em homenagem a Seu Légua e Mãe Lulu

(Holofote Virtual com informações da assessoria de imprensa)

Festival traz oficinas da cultura cinematográfica

Estão abertas até esta sexta-feira (15), as inscrições para as oficinas, workshops e masterclasses que fazem parte da programação do 10º Amazônia (FI)Doc - Festival Pan-Amazônico de Cinema, que ocorre em Belém, de 19 a 27 de novembro. 

A proposta é amplificar as discussões sobre a produção audiovisual feita na Pan-Amazônia e por amazônidas, assim como semear a cultura cinematográfica na região. 

Com o slogan “O cinema de todas as Amazônias na luta pela floresta em pé”, o Amazônia (FI)Doc vai reunir produtores, diretores e interessados em audiovisual numa rodada de debates. Na oficina “Montagem autoral com foco na Pan-Amazônia”, o produtor cinematográfico e montador Renato Vallone vai falar da criação cinematográfica, especialmente na montagem e na edição, e das narrativas transformadoras capazes de enfrentar as dinâmicas eurocêntricas e hollywoodianas, sutis ou explícitas, que ainda persistem no audiovisual sul-americano. “Analisaremos filmes que se recusam a seguir os padrões de legitimidade do circuito global elitista e que se erguem como potentes expressões de resistência e criação”, disse Renato.

No workshop “Desenvolvimento de roteiro para longa e série documental”, a roteirista Lúcia Tupiassú combina conteúdos conceituais e estudos de casos de filmes e séries para apresentar caminhos para a realização de projetos documentais. “Documentários têm roteiro? O que faz um roteirista de documentários? Como pensar a linguagem e as escolhas narrativas em documentários? Qual a importância da pesquisa na realização de documentários? Série, curta ou longa: qual o melhor formato para o meu projeto? Como montar um projeto de venda? Essas são algumas das questões abordadas nos encontros”, são alguns questionamentos.

A diretora Luh Maza, no workshop “Criação para TV e Streaming”, compartilha de forma descomplicada seu processo criativo no desenvolvimento de séries. Minom Pinho, produtora e diretora, vai coordenar o workshop “Viabilizando filmes documentais para cinema e TV”. Serão abordados os diversos caminhos para viabilizar projetos de documentário em longa-metragem para cinema, TV e VOD e as  estratégias adotadas no processo de criação em sintonia com o mercado. 

Na oficina “Criação, desenvolvimento e comercialização de projetos para TV e cinema”, a produtora e pesquisadora Vanessa de Araújo e Souza apresenta os caminhos para desenvolver e aprimorar uma ideia e transformá-la em produto no mercado audiovisual. “Ao longo da oficina, você aprenderá a estruturar sua proposta, explorar estratégias para se conectar com sua audiência e engajar potenciais investidores e parceiros”, afirmou.

Em  masterclass, a cineasta Maya Da-Rin fala das perguntas que movem o processo criativo, do roteiro à cena. A cineasta abordará questões de estrutura narrativa e roteiro, dando ênfase na preparação e construção das cenas.

A cineasta Marina Person estará à frente da masterclass “Por que temos tão poucas diretoras de cinema?”. Marina contará a história de quando e por que os homens passaram a ocupar os cargos de comando e a expulsar as mulheres do fazer cinematográfico, como os filmes dirigidos por cineastas mulheres estão ganhando espaço e reconhecimento ao longo das décadas, além de relacionar a sua própria experiência como cineasta nesse panorama atual.

Serviço

A programação completa do Amazônia (FI)Doc e inscrição nas oficinas e workshops estão disponíveis nas redes sociais (site e Instagram - @amazoniadoc). Inscrições podem ser feitas pelas redes sociais.

Maffesoli explora o retorno coletivo ao sagrado

"A internet é a expressão da 'comunhão dos santos' pós-moderna". Em nova obra lançada no Brasil, Michel Maffesoli explora retorno coletivo ao sagrado. Referência nos estudos sobre pós-modernidade, "A nostalgia do sagrado" chega ao público brasileiro com edição da PUCPRESS.

O livro, que chega ao Brasil em uma tradução inédita feita pela PUCPRESS - editora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) -, representa uma contribuição valiosa de um dos pensadores mais influentes da atualidade.

Em um mundo cada vez mais fragmentado, onde as relações são desafiadas e a busca por sentido e pertencimento se torna mais urgente, o sociólogo francês Michel Maffesoli nos convida a refletir sobre o significado e a conexão com o transcendente em "A nostalgia do sagrado". 

Na obra, Maffesoli argumenta que essa "nostalgia do sagrado" não implica necessariamente um retorno às religiões tradicionais, mas sim em uma busca por novas formas de vivenciar a vida em sua plenitude. Isso se manifesta através da arte, da música, do convívio social e de outras expressões culturais que evocam o mistério, o lúdico e a emoção compartilhada. 

"O paradoxo da era tecnológica é a crescente busca pelo incerto e imponderável, contrastando com a racionalidade dominante. Essa tendência, particularmente presente entre os jovens, demanda uma perspectiva que valorize a reciprocidade, a partilha e o intercâmbio, evidentes tanto na vida cotidiana quanto nas redes sociais, concebidas por muitos como uma ‘comunhão dos santos' pós-moderna”, explica o filósofo.

Ao empregar o conceito de "razão sensível", que contrasta a frieza da razão instrumental com a importância da intuição, da emoção e da experiência sensorial na construção do conhecimento e do sentido da vida, Maffesoli revela que a vida social é permeada por uma dimensão simbólica essencial, que se manifesta nas interações cotidianas, nos rituais e nas celebrações coletivas.

Examinando a emergência das tribos urbanas, das comunidades efêmeras e de outras formas de sociabilidade contemporâneas, o pensador demonstra como a busca pelo sagrado se manifesta na reconexão com o Outro, que pode ser o sujeito, o meio ambiente ou mesmo o transcendente.  Para ele, a pós-modernidade não sinaliza o fim da religiosidade, mas sim uma transformação profunda em suas expressões, revelando uma procura incessante por sentido e pertencimento em um mundo em constante mutação.

No prefácio da edição brasileira, Maffesoli ressalta a relevância de sua obra para a realidade do Brasil: "Cada vez que vou ao Brasil, fico impressionado com o reencantamento estrutural da vida cotidiana". O autor enfatiza a força dos laços sociais e a importância das relações interpessoais na cultura brasileira, elementos que se conectam diretamente com a temática central da mais recente tradução de seu trabalho.

Maffesoli convida o leitor a repensar a relação entre razão e emoção, indivíduo e sociedade, e entre secularização e reencantamento do mundo. A edição da PUCPRESS de “A nostalgia do sagrado” oferece ao público brasileiro uma contribuição fundamental para os campos da sociologia, antropologia e estudos sobre religião, sendo uma leitura indispensável para aqueles que buscam compreender as complexas interações entre o indivíduo, a sociedade e a busca por significado na era pós-moderna.

Sobre Michel Maffesoli

Sociólogo francês e Professor Emérito da Sorbonne Université, Michel Maffesoli é reconhecido internacionalmente por suas contribuições à compreensão da sociedade contemporânea. Suas obras, marcadas por uma profunda análise da cultura, investigam as transformações sociais e as novas formas de sociabilidade que emergem em um mundo cada vez mais complexo. 

Maffesoli é conhecido por popularizar o conceito de "tribo urbana", um termo que descreve agrupamentos sociais espontâneos e temporários, unidos por afinidades e estilos de vida, que desafiam a ideia de uma sociedade de massas homogênea.

Autor de uma vasta produção intelectual, premiado com o Grand Prix des Sciences Humaines, da Academia Francesa, Maffesoli convida-nos a repensar as dinâmicas do individualismo e do coletivismo na era pós-moderna, explorando a importância do imaginário social, da estética e do nomadismo na construção das identidades contemporâneas. Seu trabalho, fundamental para a compreensão do mundo atual, oferece ferramentas para decifrar os desafios e as oportunidades que surgem em uma sociedade em constante mutação.

Serviço

A nostalgia do sagrado: o retorno do religioso nas sociedades pós-modernas

Organizador/Autor: Michel Maffesoli

Editora: PUCPRESS

Outras informações: www.pucpress.com.br

12.11.24

Estúdio Reator reabre na programação do PULSA

IAIA Quebrada, de Nando Lima
Fotos: Danielle Cascaes
Fechado desde a pandemia, o Reator abriu as portas nesta semana, com dois espetáculos de performance, integrando a programação do !PULSA! Movimento Arte Insurgente que realiza desde o dia 9 de novembro, a 3a Edição em Belém. 

Na segunda-feira (11) foi apresentado IAIA QUEBRADA e na terça-feira (12) a performance Black Rock, propondo ao expectador criar a própria dramaturgia a partir das provocações criativas de Nando Lima, sobre o universo urbano Amazônico. 

A performance IAIA QUEBRADA Episódio Antes que Você impactou o público que esteve no espaço para ver a estreia. O performer Nando Lima, diretor do espetáculo e idealizador do Reator, trouxe à cena a experimentação em multilinguagens, especialmente a relação com as mídias, que é sua assinatura. No caso de IAIA, a performance apresentou os resultados do uso da Inteligência Artificial para Nando provocar o pensamento em uma Amazônia no ano de 2227. 

Com os performers Dudu Lobato, Danilo Bracchi e Renan Rosário, o espectador de IAIA QUEBRADA "navegou" pela criação de Nando ao som de um motor de barco, trilha sonora com música tradicional e popular, projeções, imagens e manifestos. No centro da sala um praticável, meio passarela, meio pista e que, ao final, se tornou a mesa de um banquete coletivo com vinho (claro!), frutas e pipoca. 


Para Nando, IAIA QUEBRADA "tanto pode ser um problema, quanto uma ginga. Pode ser o que vem ou é da quebrada, a borda das coisas". Neste movimento que vai para as bordas, Nando falou sobre a parceria com o Pulsa. "Tem tudo a ver justamente por  essa questão da insurgência das coisas que estão nas bordas. Coisas que não estão necessariamente dentro das regras mais aceitas".

Neste movimento de experimentar novas tecnologias, Nando construiu a visualidade de IAIA passando pelo filtro da inteligência artificial com o comando de pensar como seria a Amazônia no futuro. "Comecei a tentar traduzir através da Inteligência Artificial, esses pensamentos que eu tinha sobre essa questão Amazônica.  Sonoridades, imagens, videos, todas esses arquivos que constróem a visualidade, as ideias, a tradução passaram pela inteligencia artificial", contou.

"É uma figura inquietante que parece sempre estar caminhando à frente do seu tempo", disse o professor e artista visual, Alexandre Sequeira, que é um dos colaboradores no processo de criação da performance IAIA. Sequeira está entusiasmado com a reabertura do Reator. "É um espaço gerador muito incrível. Eu conheço o Nando há muitas décadas.  Ele propõe há muito tempo essa relação com as mídias e com o espaço cênico. Então é um lugar que a gente tem que celebrar e torcer pela vida longa". 

Estética Nando Lima e resistência

Para o ator Cláudio Barros, que também esteve nesta segunda no Reator, trabalhos como o de Nando Lima são marcantes e precisam deixar de ser invisíveis ao grande público. "O Pulsa traz para a cena artistas que desenvolvem um trabalho muito importante durante décadas como o Nando. Fazia tempo que eu não reencontrava o Nando. É um artista que começou a sua história no teatro praticamente junto comigo", lembrou. "Hoje em dia, após passar por várias estéticas do teatro e inúmeras experiências, o trabalho do Nando está tão maduro que a gente olha determinado trabalho e reconhece uma estética Nando Lima", opinou.

"É um espaço que é casa, que é sonho e que há quase 15 anos é um lugar importante na cidade, de convergências de propostas que esgarçam as fronteiras.  Já vi música dialogando com o visual, já vi sombra. Um pouco de tudo que eu já vi aqui é muito surpreendente", declarou Valéria Andrade, atriz e professora da Escola de Teatro e Dança da UFPA. (ETDUFPA). "É muito boa a sensação de assistir um trabalho aqui considerando o tempo significativo que o Reator ficou fechado para o público", completou.

Destacou-se na noite, também, a homenagem inesperada com a projeção de nomes de artistas que hoje estão na memória, entre eles, o diretor de teatro Paulo Faria, falecido em setembro. Cláudio Barros se mostrou emocionado com a reverência. 

"Foi uma coisa muito generosa no trabalho apresentado. Ele faz com que outras gerações percebam artistas que não estão mais entre nós fisicamente, mas o seu trabalho está na gente. Como Ronald Bergman, como Walter Bandeira. Como muitos outros, que ele joga luz", afirmou o ator Cláudio Barros.

O !PULSA! segue até o dia 17 de novembro, com uma programação abrangente de espetáculos, workshops e debates. Para mais informações e ingressos (gratuitos) aos espetáculos, acesse pulsa.art.br.

Serviço

A realização é da Olhares Instituto Cultural e Outra Margem, com patrocínio do Instituto Cultural Vale e Ministério da Cultura, via Lei Federal de Incentivo à Cultura. Parceria institucional: Fundação Cultural de Belém, Prefeitura Municipal de Belém, Fundação Cultural do Estado do Pará, Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. Apoio Cultural: IBT - Instituto Brasileiro de Teatro. 

SAIBA MAIS:

Site: https://pulsa.art.br/

Instagram: https://www.instagram.com/pulsamovimento/

Folder: https://pulsa.art.br/wp-content/uploads/2024/10/PULSA-GUIA-A3-grade-de-programacao_compressed.pdf

Ingressos: https://pulsa.art.br/edicao-3/ingressos/

(Holofote Virtual com reportagem de Railídia Carvalho)

Tecno Barca leva o Cine Catraia ao Cine Dira Paes

Nesta e na próxima quinta-feira, o projeto Tecno Barca Bailique, selecionado pelo edital Banco da Amazônia, se expande na cidade para oferecer, gratuitamente ao público, a Mostra Cine Catraia, na sala Cine Dira Paes, localizada no Palacete Pinho, no bairro da Cidade Velha. A realização é da Associação Gira Mundo. Anote: dias 14 e 21 de novembro, das 14h30 às 16h30​. 

O projeto foi lançado em outubro, com a exposição “Tecno Barca Bailique”, aberta até 20 de dezembro, no Espaço Cultural Banco da Amazônia. 

Selecionada pelo edital de apoio cultural da instituição, a mostra propõe a imersão em uma década de vivências artísticas nas comunidades do Arquipélago do Bailique, no litoral do Amapá, refletindo a interação entre arte, educação e meio ambiente. Visite. São 23 obras, incluindo 15 fotografias, 7 vídeos e uma instalação sonora, organizadas em três ambientes. E tem visita gratuita de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. 

Já a “Mostra Cine Catraia”, complementando a exposição, desloca o projeto do Espaço Cultural do banco da Amazônia, no bairro da Campina, para o Palacete Pinho, na Cidade Velha, trazendo uma seleção de filmes que refletem as realidades e desafios enfrentados pelas comunidades do Pará e do Amapá. A curadoria é de Rayane Penha.

Encantes (AP), de Alessandra Oliveira
Com temáticas que se entrelaçam, as obras oferecem um mosaico rico em narrativas e visões sobre questões socioambientais, culturais e identitárias da região. Cada filme aborda diferentes aspectos da vida local, desde a busca por recursos naturais até as memórias de comunidades ribeirinhas, contribuindo para uma compreensão mais profunda dos dilemas enfrentados por seus habitantes.

Essa diversidade de histórias busca enriquecer a experiência do espectador, mas também promover um diálogo sobre a sustentabilidade, a preservação das culturas e as urgências sociais presentes no cotidiano amazônico. E também será uma oportunidade ao público de entrar no Palacete Pinho, que foi restaurado e reabilitado, sendo hoje sede da Escola Municipal de Artes, vinculada à Secretaria de Educação.

Oportunidade para conhecer

O Palacete Pinho, onde fica o Cine Dira Paes, é um exemplar significativo da arquitetura do período Belle Époque, construído em 1897 pela família do comendador Antônio José de Pinho. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o edifício destaca-se por suas características arquitetônicas que refletem o auge econômico do Ciclo da Borracha.

Em 2024, restaurado pela Prefeitura de Belém, passou a abrigar a Escola Municipal de Artes do Núcleo de Artes, Cultura e Educação (Nace) / Secretaria Municipal de Educação, oferecendo aos estudantes da rede municipal oportunidades de aprendizado em música, teatro, dança, cinema e outras manifestações artísticas.

Confira a programação dos filmes:

Açaí (Amapá)

Direção: André Cantuária

Duração: 18:27 minutos

Classificação: 12 anos

Sinopse: Dionlenon, um homem de 30 anos, busca dois litros de açaí para o almoço, mas enfrenta uma viagem inesperadamente longa.

Cabana (Pará)

Direção: Adriana de Faria

Duração: 13:39 minutos

Classificação: 12 anos

Sinopse: No coração da floresta amazônica, uma mulher da revolução cabana recebe uma visita indesejada.

E nós tínhamos água à vontade (Amapá)

Direção: Carla Antunes, Jami Gurjão, Thaise Medeiros e Rodrigo Aquiles

Duração: 6 minutos

Classificação: 12 anos

Sinopse: Um retrato do impacto ambiental causado pela instalação de hidrelétricas, mostrando a vida dos moradores de Ferreira Gomes diante da seca do Rio Araguari.

Encantes (Amapá)

Direção: Cassandra Oliveira

Duração: 21 minutos

Classificação: 12 anos

Sinopse: Memórias e lendas de Laranjal do Maracá, onde a vida da comunidade entrelaça passado e presente, refletindo sua relação com as cavernas sagradas.

Uma escola no Marajó (Pará)

Direção: Camila Kzan

Duração: 21 minutos

Classificação: 12 anos

Sinopse: Um dia na vida dos alunos da Escola Sítio Porto Alegre, que enfrentam desafios diários, incluindo a falta de combustível para o transporte escolar. 

Serviço

Mostra Cine Catraia: 14 e 21 de novembro de 2024, 14h30 às 16h30, Cine Dira Paes – Entrada pela R. São Boaventura, 135- Cidade Velha, Belém-PA. + Exposição TECNO BARCA BAILIQUE, aberta até dia 20 de dezembro, com visitas guiadas de segunda a sexta-feira, 10h às 16h, no Espaço Cultural Banco da Amazônia, Av. Presidente Vargas, 800 - Belém-PA. Mais informações: tecnobarcas@gmail.com / Instagram: @tecnobarcabailique


10.11.24

Organeléptica abre !PULSA! desafiando os sentidos

A abertura da mostra na Kamara Kó Galeria marcou o início do “Circula que Pulsa”, dentro da programação do !PULSA! Movimento Arte Insurgente. 

A exposição “Organoléptica” integra uma série de ações culturais que já estão desde ontem (09) ocupando diversos espaços de Belém, até o dia 17 de novembro, com arte, performances, debates e oficinas em espaços públicos e culturais independentes da cidade.

O movimento das artes visuais que vem se renovando dentro das faculdades, ganhou  nesta semana uma vitrine muito simbólica e potente, a Kamara Kó Galeria, um dos espaços inseridos na programação de um movimento que, insurgente, dialoga diretamente com a sede de jovens artistas, emergentes de uma cena que, por tradição, em Belém, traz em sua veia o hibridismo e a ousadia. 

O coletivo Vadios - Foto de Bianca Brandão
O Vadios, coletivo convidado do !PULSA! Movimento Arte Insurgente, embora tenha uma trajetória relativamente curta em Belém realiza a sua segunda exposição, intitulada "Organoléptica", nome que remete à percepção dos sentidos que guiam o público visitante.

Trabalhando com a ideia de imersão sensorial, o coletivo pretende fazer com que o público não apenas observe, mas sinta as obras, em suas inúmeras possibilidades. “Aqui, a proposta é que o público veja o som, sinta as sombras. O nome 'Organoléptica' surgiu de forma quase intuitiva, ligado a essas sensações corporais, essas percepções que nos conectam para além de um conceito lógico.”, diz Naclara, uma das artistas integrantes do coletivo.

De acordo com Naclara, aluna do curso de artes visuais da Universidade Federal do Pará (UFPA) e uma dos 9 integrantes do coletivo Vadios, essa exposição é um desdobramento da primeira, cuja essência já abordava temas como temporalidade, morte e as passagens da vida. “Estamos falando de fases da vida, de transições, de momentos que marcam o nosso existir”, comenta.

Nova geração das artes visuais em Belém
Foto: Bianca Brandão
O conceito da exposição foi construído ao longo das atividades preparatórias, que incluíram rodas de conversa e oficinas, trazendo à tona diferentes perspectivas sobre a vida e a morte. “A exposição é o reflexo dessas individualidades, que se unem como órgãos de um corpo coletivo”, explica Naclara, a riqueza de perspectivas que surgem de um grupo jovem, trazendo experiências e recortes muito distintos de cada um.

A exposição contou com o apoio de figuras chave como o curador Pablo Mufarrej e a galerista Makiko Akao, além de Alexandre Sequeira, artista visual e professor da faculdade de Artes Visuais da UFPA, que colaborou com os alunos e na articulação da realização da mostra, como consultor artístico do !PULSA!, na fase das escutarias realizadas, no início deste ano.

A exposição "Organoléptica" está aberta ao público e pode ser vista até o próximo domingo, 17 de novembro. De quarta a sábado, das 15h às 18h30 (com microfone aberto às 16h) e no domingo, das 9h às 13h. A Kamara Kó Galeria fica localizada na Trav. Frutuoso Guimarães, 611, no bairro da Campina, oferece entrada gratuita. O !PULSA! é uma realização da Olhares Instituto Cultural e Outra Margem, com patrocínio do Instituto Cultural Vale e Ministério da Cultura, via Lei Federal de Incentivo à Cultura. 

Resumo do Primeiro Dia do !PULSA!

Workshop Narrativas do Afeto - Crítica que 
Pulsa, com Kil Abreu - Foto: Bianca Brandão
O !PULSA! Movimento Arte Insurgente iniciou sua terceira edição em Belém com uma programação intensa e diversificada no dia 9 de novembro, promovendo conexões entre a cultura local e práticas artísticas contemporâneas de várias regiões do Brasil.

Pela manhã, o festival abriu com a exposição “Organoléptica” do Coletivo Vadios na Kamara Kó Galeria, trazendo uma experiência sensorial e visual marcante. Paralelamente, na Casa da Linguagem, o workshop “Narrativas do Afeto - A Crítica que !PULSA!”, ministrado por Kil Abreu, incentivou uma abordagem afetiva e inovadora para a crítica artística. Na Associação Fotoativa, Jaya Batista conduziu o encontro “Troca de Saberes e Diálogos em Produção Cultural”, promovendo reflexões e práticas colaborativas.

Uyra Sodoma, performance/Pç das Bandeiras
Foto: Danielle Cascaes
Durante a tarde, o público pôde prestigiar a performance “Ponto Final, Ponto Seguido” de Uýra Sodoma, que ocorreu na Praça da Bandeira, abordando questões ligadas ao meio ambiente e à identidade. Também à tarde, Centro Cultural Bienal das Amazônias foi palco de um debate sobre ativismo territorial, reunindo ativistas e artistas para discutir o papel da arte na transformação social.

À noite, o destaque teatral ficou por conta do espetáculo “Parem de Falar Mal da Rotina”, com Elisa Lucinda, que trouxe ao Teatro Margarida Schivasappa uma reflexão sobre a beleza do cotidiano e das pequenas coisas. Encerrando a programação do dia, o Baile do Mercado animou o Mercado Porto do Sal com apresentações de brega, a Quadrilha Fogo no Rabo e DJs, celebrando a cultura popular paraense em uma noite vibrante.

Programação do Dia 10 de Novembro

Elisa Lucinda em Parem de Falar Mal 
da Rotina - Foto: Danielle Cascaes
No segundo dia, o festival continua com mais atividades, incluindo a segunda apresentação do espetáculo “Parem de Falar Mal da Rotina” de Elisa Lucinda, às 19h, no Teatro Margarida Schivasappa (Centur) Av. Gentil Bittencourt, entre Rui Barbosa e Quintino. A programação traz ainda outros eventos culturais que ampliam a conexão entre a arte e o ativismo social.

Semana Completa de Atividades até 17 de Novembro

O !PULSA! segue até o dia 17 de novembro, com uma programação abrangente de espetáculos, workshops e debates. Para mais informações e ingressos (gratuitos) aos espetáculos, acesse pulsa.art.br.

Serviço

A realização é da Olhares Instituto Cultural e Outra Margem, com patrocínio do Instituto Cultural Vale e Ministério da Cultura, via Lei Federal de Incentivo à Cultura. Parceria institucional: Fundação Cultural de Belém, Prefeitura Municipal de Belém, Fundação Cultural do Estado do Pará, Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. Apoio Cultural: IBT - Instituto Brasileiro de Teatro. 

SAIBA MAIS:

Site: https://pulsa.art.br/

Instagram: https://www.instagram.com/pulsamovimento/

Folder: https://pulsa.art.br/wp-content/uploads/2024/10/PULSA-GUIA-A3-grade-de-programacao_compressed.pdf

Ingressos: https://pulsa.art.br/edicao-3/ingressos/

(Luciana Medeiros  - Holofote Virtual – Com Arte Mídia – Belém-Pa)

8.11.24

!PULSA! traz espetáculos gratuitos e desafiadores

Monga - Foto: Ligia Jardim
São onze montagens teatrais, de artistas, que se preparam ou desembarcam em Belém de 9 a 17 de novembro  para o encontro multicultural !PULSA! Movimento Arte Insurgente. 

A entrada é gratuita em todas as programações, com reservas de ingressos pelo https://pulsa.art.br ou SYMPLA. 

São comédias, performances, monólogos e  instalações carregam no DNA, a combinação de linguagens artísticas, experimentação, insurgências e narrativas decoloniais que vão ocupar os teatros Margarida Schivasappa, Waldemar Henrique, Cláudio Barradas (UFPA), o Teatro do Curro Velho e o Teatro Gasômetro, além do Espaço Reator e o Casarão do Boneco.

Parem de Falar Mal da Rotina (14 anos) abre a mostra. A divertida reflexão sobre o cotidiano, é conduzida pela atriz, poeta e cantora capixaba Elisa Lucinda (RJ), que encontra o público paraense nos dias 9 e 10 de novembro, no Teatro Margarida Schivasappa, às 19h, em uma conversa despojada sobre a rotina e a compreensão dos desejos e decisões de cada um de nós no dia a dia. 

A peça, 20 anos em cartaz, vista por milhões de pessoas, se transformou em livro e Elisa Lucinda recebeu em 2020 o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cinema de Gramado, pelo conjunto da obra. Em 2021, tomou posse na Academia Brasileira de Cultura, ocupando a cadeira de Olavo Bilac.

mEU pOEMA iMUNDO
Outro espetáculo que traz mais uma mulher em cena é mEU pOEMA iMUNDO, com Andréa Flores (Pará), que encena uma mulher gorda que habita um espaço subterrâneo e marginal, em criação cênica e cínica com as cadeiras-cadeias-aberturas de seu mundo imundo, enquanto produz vida à revelia dos padrões esperados na sociedade. 

A atriz é professora efetiva da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará, onde coordena o projeto de pesquisa “Curupirações Cênicas: poéticas de re-existências e regimes de colonialidade nas artes da cena na Amazônia”. A montagem poderá ser vista nos dias 10 e 13 de novembro, no teatro do Desassossego, na rua Dr Malcher 287, na Cidade Velha. Pouquíssimos lugares. Corra.

Já, a história de Julia Pastrana (1834-1860), mexicana que ficou conhecida vulgarmente como mulher-macaco, é o ponto de partida para a multiartista Jéssica Teixeira (Ceará) questionar os padrões do nosso imaginário. O espetáculo Monga (18 anos), que poderá ser visto no Teatro Waldemar Henrique nos dias 12 e 13 de novembro, às 20h, promove reflexão e provoca o público a partir da história da mexicana que se tornou inspiração para Freak Shows e circos espalhados pelo mundo. Jéssica faz do próprio corpo estranho a principal matéria-prima de investigação dramatúrgica e cênica.

Multi Linguagens e interações com o público

IAIA Quebrada
E o que seria a Amazônia em 2227? Como a arte interpreta uma perspectiva da cidade de Altamira em 2042? Os questionamentos motivaram os espetáculos performáticos do paraense Nando Lima (Pará) com a performance\instalação IAIA QUEBRADA a Pérfida da Jângal (16 anos) que será apresentada no dia 11 de novembro, às 20h, no Estúdio Reator. 

Criação de Nando Lima, a cena é dividida em episódios e utiliza pesquisa em arte, tecnologias da performance e incorpora influências da Inteligência Artificial em linguagens e áreas técnicas como dramaturgia, cenografia, figurinos, sonoridades e vídeos para propor ao público um percorrer o universo Amazônica naquela cronologia.

Nando é performer, diretor teatral, cenógrafo, artista multimídia e produtor. O Estúdio Reator, está situado na travessa 14 de Abril 1053, São Brás, e também vai receber a Black Rock, no dia 12 de novembro, às 20h. Na performance, o tema impermanência é explorado por meio de ações criadas com imagens, objetos e sons. A concepção é de Nando Lima e os registros em foto e vídeo são de Dudu Lobato.

E ainda teremos o MEXA (SP), que apresentará POPERÓPERA TRANSATLÂntica (18 anos), que propõe construir uma ópera unindo a dance music dos anos 90 e as experiências e histórias pessoais das integrantes ao poema épico Odisseia, de Homero. O Mexa atua há 9 anos na cidade de São Paulo, pesquisando as fronteiras entre realidade e ficção, autobiografia, teatro documentário e borrando limites entre arte e vida. A apresentação no !PULSA! será nos dias 14 e 15 de novembro no Teatro Estação do Gasômetro (Av. Gov. Magalhães Barata, 830 – São Brás). No dia 15 haverá interpretação em LIBRAS.

Altamira - Foto: Nereu Jr.
Já a performer Gabriela Carneiro da Cunha (Rio de Janeiro) traz para a cena da instauração performativa Altamira 2042 (16 anos) caixas de som que amplificam depoimentos de ribeirinhos, lideranças indígenas, militantes sociais e diversos atores sobre a tragédia da hidrelétrica de Belo Monte e os impactos para a região que tem Altamira como a cidade que traz as marcas na geografia física e humana provocadas pela barragem. 

A performance da artista poderá ser vista nos dias 16 e 17 de novembro, respectivamente, com LIBRAS e audiodescrição, às 20h e às 19h, no Teatro Universitário Cláudio Barradas (Rua Cônego Jerônimo Pimentel, 546, no bairro do Umarizal. 

O corpo que !PULSA! arte 

tRETA 
Foto: Maurício Pokemon
Original Bomber Crew (SP) é uma organização de práticas, pesquisas e produções da cultura hip hop que traz  nos espetáculos a realidade da juventude periférica, entre outros temas. Ao longo dos anos, tornou-se referência por seu trabalho de formação e criação em danças de rua, performances, batalhas e intervenções urbanas. 

Chega ao !PULSA! com dois espetáculos: VAPOR (LIVRE), ocupação infiltrável com apresentações nos dias 13 e 14 de novembro, às 20h, no Teatro Curro Velho (Rua Professor Nelson Ribeiro, 287 Telégrafo) e tReta, uma invasão performática dias 16 e 17 de novembro, no Curro Velho. No sábado, a performance começa às 20h e no domingo será às 18h.

O grupo In Bust Teatro com Bonecos traz para o !PULSA! o espetáculo Aguar o Tempo (10 anos). Na trama, em uma noite imaginária, todas as pessoas participantes do espetáculo se reúnem em roda para um encontro com as memórias que submergem e emergem em um rio-tempo, águas passadas e águas futuras atravessam o território de cenas fluidas, em transformação, a cada vez que forem vivenciadas. 

Aguar o Tempo  - In Bust
Foto: Edson Elias
Aguar o Tempo é conduzido por quatro atuantes dentro da roda, responsáveis por narrar as histórias: Adriana Cruz, Anibal Pacha, Cincinato Jr e Paulo Ricardo Nascimento, e dois atuantes em torno da roda: Cris Costa, produtora, e Thiago Ferradaes, apoio técnico. O In Bust se apresenta no Casarão do boneco ( Av. 16 de Novembro, 815 – Batista Campos) nos dias 15, às 18h30, e 17 de novembro, às 18h.

No mesmo Casarão do Boneco, acontece o espetáculo BOULEVARD & Gardênias (14 anos) | Performance com Jef Cecim & Dudu Lobato nos dias 15 e 17 de novembro, respectivamente, às 18h e 17h30. A performance Boulevard & Gardênias, criada coletivamente, foi parcialmente inspirada na peça Paparazzi, do dramaturgo romeno Matéi Visniec e seu universo de desencanto. Em cena, o ator/manipulador Jef Cecim e Dudu Lobato conduzem-se entre imagens quebradas e personagens falsos, ideias grotescas e inclinações ao bizarro do cotidiano.

O !PULSA! é uma realização da Olhares Instituto Cultural e Outra Margem, com patrocínio do Instituto Cultural Vale e Ministério da Cultura, via Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Para saber das demais programações, como debates, intervenções, ocupação, bailes, exposições e festa, acesse o site www.pulsa.art.br ou o @pulsamovimento