22.6.11

Makunaíma de Milton Aires estreia em BH e retorna a São Paulo em julho

Enasio de Makunaíma para o Cenas Curtas de BH
Depois de apresentá-lo na I Mostra Amazônida de Experimento Teatral em São Paulo (maio), o ator Milton Aires leva “Makunaíma: Em a Árvore do Mundo e a grande enchente” para Minas Gerais, onde participa nesta quinta-feira, 23, como um dos selecionados, do 12º Festival de Cenas Curtas, do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte. 

O Festival de Cenas Curtas já foi espaço de criação para importantes grupos mineiros de renome nacional, como o Espanca! e a Cia. Clara, e há alguns anos mantém um diálogo com outros festivais pelo Brasil, criados sob influência de seu formato, como: a Mostra Cena Breve (Curitiba/PR), Festival Dulcina de Cenas Curtas (Brasília/DF) e o Festival Breves Cenas (Manaus/AM).

Este ano, penas 16 cenas participam do projeto, que já se tornou referência de experimentações no cenário cultural de BH. Milton concorreu com outras 103 propostas vindas de 13 estados diferentes. A programação do festival conta, ainda, com debates, festas, shows e um hotsite com a cobertura completa do evento.

“Makunaíma: Em a Árvore do Mundo e a grande enchente” mostra situações cotidianas e metáforas, que ambientam o universo de histórias do herói Makunaíma, recontadas num jogo entre o narrador, seus objetos e a plateia.  A curta cena de Milton se baseia nas histórias sobre a origem do mundo contadas a partir dos mitos indígenas e mostra as aventuras de cinco irmãos em busca de comida numa época de escassez na Amazônia.

Dramaturgia de David Matos
 O trabalho conta com pesquisa, criação e atuação de Milton Aires, dramaturgia e consultoria cênica, de David Matos e pesquisa em vídeo-doc. e fotos de Luciana Medeiros, com música de Leonardo Venturieri e tem como colaboradores os atores e criadores Nando Lima, Lucas Alberto e Yasmin Marques.

Sampa - Após a apresentação na capital mineira, Makunaíma já tem outra agenda fechada em São Paulo, abrindo a Mostra de Inverno de Experimento Teatral do Espaço Luz do Faroeste e que acontecerá ente 02 e 30 de julho, sempre aos sábados, reunindo ainda os espetáculos Red Bag (PA), Depois Daquela Noite (SP) e Quase Lá (SP). 

A pesquisa para “Makunaíma: Em a Árvore do Mundo e a grande enchente” iniciou em abril deste ano, quando Milton Aires estava fazendo o curso “O Visível e o Invisível no Trabalho do Ator-Dançarino”, ministrado pelos professores Carlos Simioni (LUME) e Tadashi Endo (Mamu Butoh Centre), realizado no Teatro de Tábuas (Campinas-SP).

A cena proposta ao Festival de BH faz parte de um projeto de montagem maior, que ainda está em construção e busca de apoio e patrocínio para se concretizar. Intitulado inicialmente, de “Makunaína”, o processo de pesquisa e elaboração navega na fronteira entre o teatro e a dança.


Narrativas indígenas sobre a criação do mundo
De acordo com Milton, este projeto tem como princípio, a investigação e o método de pesquisa mimese corpórea e dança pessoal, através da observação das atitudes e costumes de animais e habitantes de comunidades indígenas da amazônica.

Para isso, assim que retornou de São Paulo, no início do mês de maio, Milton realizou, com recursos próprios, uma expedição pelo Marajó, onde visitou duas comunidades na cidade de Ponta de Pedras.

“A inspiração para esse projeto surgiu a partir do contato com uma publicação sobre narrativas indígenas, que reúne mitos cosmogônicos e lendas de heróis, contos, fabulas de animais e narrativas humorísticas. Originárias das tribos Taulipangue e Arekuná, da área cultural norte-amazônica, essas histórias foram recolhidas pelo estudioso Theodor Koch-Grünberg e publicadas em Berlin no ano de 1916”, conta o ator, que também se utiliza da própria vivência na região marajoara onde nasceu.

Para o Festival de Cenas Curtas, portanto, o exercício apresenta as narrativas do herói Makunaíma com abordagem mais performática. “Essa experiência será um laboratório prático, que servirá como um termômetro para nortear os caminhos que a montagem possa tomar a partir do contato com o público”, explica.

Ágora Mandrágora
Trajetória – Todo este processo que o ator vem vivendo inicia com a retomada de seu trabalho com o grupo Usina Contemporânea de Atores, na peça "Ágora Mandrágora". Nessa montagem, ele reencontra artistas e amigos, com os quais firmou parcerias importantes, como Alberto Silva Neto e Nando Lima

Em seguida, surge a montagem de "Eutanázio e o princípio do mundo", onde o ator dividia com o público uma historia de seus avós, um trabalho que marca sua relação mais intensa com a cena e com a atuação, mas principalmente com a pesquisa.

Logo depois vem o processo de pesquisa e montagem do projeto "À Sombra de Dom Quixote" e o surgimento do coletivo Miasombra, do qual ele é o idealizador. “É onde encontro com as pessoas incríveis, que compraram uma idéia e a tornaram sua marca. Ali consigo ver o trabalho de cada um que esteve participando do processo”, diz Milton.

Teatro é uma coisa que vem marcando a vida do ator desde menino, quando assistia as manifestações culturais de sua cidade natal, Ponta de Pedras, no Marajó. “Lembro de sair para ver a Farra do Boi e outros cortejos. Isso sempre me encantou”, conta.

Eutanázio e o princípio do fim
Aos 10 anos, ele fez a primeira oficina de teatro levada ao Marajó pelo projeto chamado “A barca da cultura”, da Fundação Tancredo Neves e desde aí não parou mais.

“Tudo que eu fazia eu envolvia teatro, todos os trabalhos da escola, para mim, tinha que ter teatro. Depois me envolvi com grupos de lá, mas ainda não era o suficiente. Lembro do envolvimento de minha mãe com a televisão. Ela assistia novela e eu ficava ali, vendo com ela, achando o máximo ver aqueles atores vierem tantos personagens”, lembra Milton.

Formação - Como se já soubesse de seu destino, um dia ele disse à mãe que queria vir para Belém estudar. “Era desculpa e um ano depois por aqui, já comecei a fazer teatro. Conheci a Fundação Curro Velho, no final dos anos 90. Lembro que muita gente se formou por lá, naquela época. De lá pra cá é um fio que vai puxando o outro”, diz. 

A formação mais longa que teve, porém, foi com Paulo Santana, na Unama, onde se envolveu em vários cursos até conhecer o Usina de Animação (Jeferson Cecim) e o In Bust Teatro com Bonecos, marcando sua experiência com o teatro de animação, e depois o Usina Contemporânea, de Alberto Silva Neto, em 1999, e mais tarde um pouco veio também o contato com a dança com sua participação na Companhia de Investigações Cênicas, de Danilo Brachhi, despertando ainda mais seus estudos em torno dos movimentos corporais.

O trabalho de ator de Milton Aires também passa pelo cinema. Ele fez “Guerrilha do Araguaya”, de Ronaldo Duque e “O Sol do Meio Dia”, de Eliane Caffe, em uma cena com Chico Diaz, aliás, uma das poucas que não foram cortadas, tendo os atores paraenses em cena.

À Sombra de Dom Quixote
Nem tudo foi ou é tão fácil como pode parecer. “Tem um duplo desafio aí. Um é o de inserir neste mercado, numa cidade que não te dá tantas oportunidades e por isso precisas ir criando tuas estratégias.

O outra é superar os limites, as dificuldades pessoais, principalmente para alguém que vem do interior, com a falta de incentivo ao estudo. Para seguir a carreira de ator eu tive que superar o limite do contato com a leitura, a literatura, a dramaturgia. Antes eu tinha muita dificuldade de trabalhar com isso. Mas não teve outro caminho, pois são estas as ferramentas mais importantes, se é a profissão que quero seguir”, afirma.

Há dez anos de carreira profissional, Milton Aires continua cavando estratégias, inscrevendo projetos em editais e propondo relações de parcerias. “Hoje eu fico feliz, pois tenho trabalhado com o que quero e como eu quero. Existe uma reunião de parceiros, o próprio ‘À Sombra de Dom Quixote” é reflexo disso. Eu jamais teria conseguido fazer este projeto sem estas pessoas. Foi o primeiro projeto em que fiz o exercício de pensar a idéia e escrever o projeto de forma coletiva e compartilhada”, conclui. O segundo projeto também nesta direção já está se configurando com "Makunaíma". É aguardar para ver!

6 comentários:

Pessoal do Faroeste disse...

muito bom

preamar riacho doce disse...

É sempre um prazer trocar impressões, idéias e dialogos com Milton Aires, esse jovem que mergulha de cabeça no fazer teatral e vem se tornando uma das pessoas que vem contribuindo com a nova cena teatral da Cidade de Belém. Uma pessoa sem amarras, que vai em frente, e mais, não esquece as suas raizes, suas origens e procura estabelecer uma relação de aproximação com o mundo moderno.

Parabéns meu irmão.

M. Aires disse...

Muito bom Lu... que presente!

emoção ao ler a matéria,

Obrigado!

Holofote Virtual disse...

querido, to curiosíssima para saber como foi tudo,ontem... mande noticias.. bjossss amazonicos pra vc!

M. Aires disse...

Lu, me surpreendo a cada dia com o monstrinhos que estamos criando "Makunaíma" parece ter vida próprio. Não sei de onde vem tanta coragem para estar levando esse trabalho, ontem foi uma sensação absurda de um nascer de novo! Cheguei muito bem e a cena deu muito conta do recado... tivemos agora pouco um debate que me fez perceber um pouco mais de como a pessoas recebem o trabalho e como elas fazem suas próprias narrativas a partir do que vou dando de indução com as cenas. Quero muito mostras a repercussão disso pra vocês! beijos

Holofote Virtual disse...

Já imaginava. Quis tanto chegar até aí pra acompanhar tudo de perto, mas sei que ainda teremos muito chão pela frente. Te aguardo com as boas novas. Vms nos falando no e-mail, ta? bjos