8.3.21

FEMEA: boas ideias e projetos artísticos femininos

Empreendedoras selecionadas

A FEMEA - Feira de Empreendedorismo, Música e Arte da Amazônia comemora o Dia Internacional da Mulher com uma vasta programação, que inicia hoje com feirinha digital de negócios criativos femininos, já no site, e ganha força às 19h, quando estreia a FEMEA TV Web, trazendo apresentações musicais e entrevistas. Tem ainda mesas de debate, programas de WebTV com entrevistas e shows musicais, oficina e workshops. Um emaranhado de boas ideias e de muito talento numa rede tecida somente por mulheres. Até 14 de março, em formato gratuito e virtual.  O projeto foi premiado pelo edital Festivais Integrados da Lei Aldir Blanc-PA e Secult-Pa. Confira tudo no site www.femea2021.com.br. 

No meio desse fervo de atividades, o site reserva um espaço especial para divulgar o trabalho de 20 empreendedoras virtuais, um catálogo de lojinhas, todas geridas por trabalhadoras autônomas, e ainda haverá a exibição de 8 vídeos com performances artísticas de mulheres. Entre as selecionadas a Gisele Monteiro, Inesita e Nega Ysa .

Entre as empreendedoras, está Sylvia Medonça - cabeça por trás da marca Belamazônia Grafismos em Cuia. “Meu pai também era artesão. Ele desenhava escudos de time em cuias. Ali começou meu interesse. Para mim, descrever a Belamazônia é muito simples: é dizer da beleza da floresta, da importância da mata e dos frutos – estes que servem de base para meu trabalho artesanal”. Sylvia é pesquisadora de grafismos diversos, como das etnias Kayapó e Assuriní e também da arte marajoara. 

E a lista de produtos que compõe a feirinha da FEMEA é extensa. Acessórios, bolsas, ilustrações, artesanias diversas, cuidados com o corpo e  a mente, roupas, artes visuais e até doces. A diversidade de produtos mostra bem a pluralidade de iniciativas que mulheres vêm empreendendo nas redes sociais. No site da FEMEA, o público pode conhecer um pouco sobre cada marca e tem acesso direto às páginas de venda e divulgação. 

Carolinne Gomes conduz a marca Mana Mística, de alquimias naturais. Seus produtos são resultado de pesquisas com ervas amazônicas e atuam no campo das terapias holísticas. “Nesse momento tão difícil para todos, essas redes de apoio e conexões na internet estão impulsionando vidas, que precisam continuar apesar de todo esse caos que a pandemia nos trouxe. A FEMEA vem com esse papel magnífico que é de unir mulheres e suas ideias criativas e únicas”.

Para a coordenadora geral da FEMEA, Narjara Oliveira, a feirinha chega para fortalecer ainda mais esses negócios criativos, funcionando como uma grande vitrine. “Uma feira exclusivamente feita por mulheres foi a maneira que encontremos de evidenciar e valorizar trabalhos desenvolvidos por elas, por todas nós. O que aumenta nossa autonomia financeira aumenta também nossa autoestima”, considera.

Música, artes visuais e outras criações

Inesita - Foto: Tereza e Aryanne

Além de selecionar as empreendedoras, a FEMEA também lançou um edital para selecionar oito trabalhos artísticos que receberão uma ajuda de custo e vaga prioritária em todos os workshops e oficina da programação. Os conteúdos poderão ser vistos a partir de amanhã até dia 13, com postagens sempre às 15h no IGTV da @feirafemea , e no dia 14h, às 15h, 16h e 17h! 

Inesita é  compositora, cantora e multiinstrumentista de Belém do Pará. Em 2020, lançou o single Vertical, com cenas gravadas no estúdio Casarão Floresta Sonora, com direção de Léo Chermont. O clipe é uma proposta autoral que atravessa por vários estilos. Mistura de rock com carimbó, ciranda, psicodelia, utilizando nos arranjos a marca dos tambores e guitarras distorcidas. Letras que falam sobre liberdade, desigualdade, mazelas e delícias do mundo. 

Yasmim Braga Ferreira começou a escrever a 8 anos atrás, mas começou a lançar em 2016, no mesmo que se envolveu com o movimento hip-hop como um dos administradores da Batalha do Portal. Dali em diante foi se dedicando e se inspirando nas vivências de uma mulher preta periférica na música. A Arte já abriu caminhos e ensinou a ela a lutar contra todos os medos. Hip-hop é resistência e ela faz parte de tudo isso. 

Já a artista Nega Ysa começou suas rimas a mais de 6 anos. Contando suas batalhas diárias de ser mãe, artista e periférica desabafa em cada verso. Em  "Topo das Pretas", ela traz como principal o cotidiano das mulheres pretas, que lutam e sofrem muito, mas também estão no topo e no centro do mundo. 

A cantora Matemba, também compositora paraense, iniciou a sua carreira musical em 2015 cantando nos batuques culturais, atuando em musicais e participando de batalhas de poesia, trazendo muitas influências de música negra. O videoclipe “Brisa”, que retrata uma das vivências amorosas da artista e traz a narrativa sobre o amor próprio e a libertação de relacionamentos tóxicos.

Gisele Monteiro - Foto Divulgação
Giselle Monteiro é compositora, banjoísta e professora de Artes; paraense residente em Ananindeua-PA, tem atuação na arte e na cultura. Ela traz à FEMEA, a apresentação de Carimbó Montaria, inspirada nessa pequena canoa feita de um tronco escavado utilizado pelos ribeirinhos da Amazônia. 

Glaucia Pinto Ferreira é atriz, professora e diretora de Teatro. Autora e coordenadora do projeto Teatro nas Escolas: espetáculo "A menina que dá com a cara nas paredes” que aborda a inclusão social da pessoa com deficiência visual. 

Ela traz à FEMEA, a performance Alcova, construída no período de isolamento devido a pandemia do covid 19 onde a autora relata momentos de ansiedade, medo, angústia e incertezas após o contágio com o vírus. Trata-se de um desabafo sobre o medo do desconhecido.

Bruna Nascimento começou a fazer dança do ventre aos 18 anos, quando teve independência financeira, pois em sua casa ainda havia muito preconceito em relação a essa arte milenar, barreira que ela consegui quebrar. Há sete anos ela faz aulas regulares, participa de workshops, cursos e palestras voltados para a dança e todos os benefícios que ela agora traz e compartilha na FEMEA.

Ana Clara Montenegro é artista da dança e da performance. Em 2019 e 2020, lançou duas obras independentes de video-dança; co-criou a performance digital Project.Fail ERROR 404, apresentada em festivais no Brasil e na Alemanha; e colaborou na criação da performance Mimicreatures. Na FEMEA ela mostra um vídeo-performance de improvisação em dança, inspirado em registros de uma performance de longa duração que foi realizada durante a pandemia. 

Serviço

Feira de Empreendedorismo, Música e Artes na Amazônia – FEMEA: de 8 a 14 de março de 2021. Informações e programação: www.femea2021.com.br. Realização da Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo e Governo Federal, Secretaria de Cultura do Pará, Governo do Pará, por meio da Lei Aldir Blanc. Parceria: Holofote Virtual – Comunicação, Arte e Mídia e Senda Produções.

6.3.21

Homenagem ao vocalista da "Insolência Públika"

Régis e Yã (Foto: Dirceu Maués)

Ainda sob o impacto da notícia publico texto de homenagem escrito por um amigo em comum, jornalista que nos anos 1980 e 1990 acompanhou a cena do rock na região metropolitana de Belém, incluindo aí, Icoaraci, onde o rock tinha cena efervescente e peculiar, lugar onde nasceu a primeira banda de punk rock de Belém, a Insolência Públika, da qual Regis, que partiu neste sábado, 06, era o vocalista. Agradeço e abraço Cláudia Águila, que me enviou essas fotos. Aqui, Regis carrega Yã, filho deles. Descanse em paz, meu amigo, Beirute (não) está morta!  

Regis, sagaz insolência!

Por Ismael Machado - Bill

Márcio Cruz me dá a informação. Regis, o eterno insolente público, morreu. Reação de espanto. Confirmar a notícia. E então, um ímpeto súbito de ouvir The Clash. E é isso que faço. Porque o Insolência Pública (depois viria o K) era o nosso The Clash, na Icoaraci perdida dos anos 80. Onde o rock tinha seguidores apaixonados. 

Regi era da Cohab. Ali, com uma turma misturada de início, havia gente que amava rock. O Beto, o Ânderson, o Dudu, o Nonato...a Cohab podia até ser uma zona suja como gritavam Beto e Regis, mas era um setor divertido, com ruas semiescuras, mato aqui, mato acolá e pouco asfalto. 

Quem viu o Insolência e depois quem assistiu as poucas apresentações do ‘O Crack’ lembra: Regi era foda no palco. Aquele visual de punk inglês, aquela acidez no sorriso e na fala, o corpo magro que entendia bem o recado dado por Joe Strummer. 

Fiz uma entrevista com eles a um fanzine que eu editava nos oitenta, a Vevecos, Panelas e Canelas. O vocalista ainda era o Antônio Carlos, o punk cabeludo. As respostas mais ágeis e sagazes eram do Regi. Nesse dia, me explicou a origem do baixo de Beirute, um baixo sinuoso. Falaram de política e anarquia. 

Anos depois, encontro Regis na UFPA e ele estava num escritório júnior, aquelas incubadoras de empresas na universidade. Falou do cheiro e do som da grana que ecoava na Avenida Paulista, uma conversa meio estranha sobre capital, dinheiro, investimento. Fiquei indeciso se gostei ou não daquele papo. Mas entendi o momento dele. E depois, já no período de feitura do livro Decibéis sob Mangueiras, ficamos quase um dia inteiro de entrevistas, entre risadas e lembranças do período, sob o olhar cúmplice da Cláudia, que de quando em quando aparecia na varanda para ouvir um pouco o relato do Regi.

É meio complicado explicar a magia que havia em Icoaraci, nos anos 60, 70, 80 e até 90. Não é à toa que Gil disse ter composto ali a música Refazenda. O estar perto e longe da capital ao mesmo tempo. O modo de ser bucólica e inquieta no mesmo espaço. Uso a palavra magia por falta de outra melhor.

Regi, de certa forma, era um representante disso. Dos que olhavam sem complacência para aquele lugar, mas que ao ter essa ira indomada, acabavam por fazer movimentos que ajudavam ao distrito ganhar uma característica peculiar. São reflexões.

Esses dias vi uma foto de um personagem desses tempos, que estava do outro lado do muro. Era da turma da MPB, mas transitava bem com todos. O Naldo. Está no interior do Rio de Janeiro, cultivando uma bela barba branca. Sinal dos tempos. Assim como vejo as fotos atuais de Beto e consigo visualizar o cara que me vendeu anos e anos atrás os discos Performance Pop e Who’s Next, do The Who, sob a singela afirmação que aquilo já não lhe dizia muita coisa. Punk total. 

E então, nesses tempos tão nefastos, onde a morte não é sentida, onde a falta de humanidade é o motor principal de quem ocupa a presidência da República- e espero que seja por um tempo mais breve possível- há a morte de Regi. E isso me soa estranho, porque sequer parece plausível, pois quando passamos décadas sem falar com alguém ou mesmo encontrar esse alguém, a imagem parece sempre congelada num tempo/espaço específico.

E Regis me traz essa imagem. Um jovem punk que sacudiu um pequeno distrito de Belém e influenciou uma geração de roqueiros dessa cidade. E agora toca London Calling: “A era do gelo está vindo, o sol está sumindo/ O degelo é esperado e o trigo está nascendo fino/Máquinas param de funcionar, mas eu não tenho medo/Pois Londres está afundando e eu vivo perto do rio”.

Clipe : Beiture Está Morta

"Viva a Democracia" inaugura galeria em Quatipuru

É um espaço inusitado, mas muito apropriada ao pensamento que a artista Lúcia Gomes nutre desde 1994, quando inicia sua trajetória tendo a arte como meio e estratégia de mudança, seja do pensar, agir, ver e sentir o entorno e o mundo. Trazendo um título extenso, mas que pode-se resumir à “Viva a Democracia”, a mostra inaugura no dia 11 de março, no pátio de sua casa, no município paraense de Quatipuru, como resultado do Prêmio de Reconhecimento concedido pela Lei Aldir Blanc-Pa. A curadoria da exposição é de Paula Michie Yanaguibashi, que também bateu um papo com o blog.

O título da exposição no cartaz soa como uma de suas performances, introduzindo o que seria o arremate e recado principal a ser dado. “PAM Barará Pá TUM! PAM Barará Pá TUM! PAM Barará! PAM Barará! PAM Barará Pá TCHÍÍ! Bacalhau, presente! cerveja, presente! vinho, presente! picanha, presente! Leite condensado, presente! Voltem para os quartéis! Viva a Democracia!”.

Entre as obras registradas em fotos e vídeo que estarão na mostra, cito “Banquete das Águas” e “Outros Caminhos”, de 2001; “Sanitário ou Santuário?”, “Flutuantes”, “Crisalis” e “Olhar de Vivó “, de 2003; “Stop Pedofilia” e “Convescote de Urubus”, ambas de 2004;  “MMMM, de 2005”, “1964BR1985”, de 2008, “Ditadura Nunca Mais”, de 2009; “O Pesadelo do Trabalho Infantil de Todos os Tempos”, de 2010; Projeto “Me Manda Pra China”, de 2010; “Sucuri Engolindo Corruptos e outros bichos papão”, de 2012; “AI 5 NÃO!”, de 2016; “ReplanCHE”e  “#”, de 2017. Há outras, e a mais recente, ela acabou de realizar, em Quatipuru.

“Sou eu de fantasma, só que não uso um lençol, mas sim aquele tecido de camuflagem do Exército. Chama-se ‘Viúvo da Ditadura’. É o trabalho mais novo”, diz Lucinha. “Essa exposição é para mim muito importante pois estou reunindo os meus trabalhos contra a ditadura e contra os atos enlouquecidos do Bolsonaro. É uma exposição de resistência, e outras performances e outros trabalhos. Vai ser na galeria Direitos Humanos. Eu que a criei e é no pátio daqui de  casa, uma coisa muito simples”, complementa a artista.

Viúvo da Ditadura (2021)
A obra que dá título à exposição é um tecido pintado por Lucinha, onde ela derrama um líquido que se assemelha ao do leite condensado. O processo foi registrado em vídeo enquanto era realizado um um galpão, em Quatipuru e o vídeo registro também estará na exposição, fazendo alusão, para quem tiver memória recente ativa, ao escândalo envolvendo despesas alimentícias do executivo em 2020. 

"Pintei com tinta acrílica cor de leite condensado, usando só a lata vazia do mesmo. Na performance eu ofereço ao público os dois tecidos camuflados para fazerem o fantasma viúvo também", diz Lucinha explicando a ação interativa.

Lúcia Gomes nasceu em Belém, passou sete anos de sua vida na Suíça e, desde que retornou ao Pará, se instalou na cidade de Quatipuru, onde vive e trabalha. Lúcia Gomes comemorou os 20 anos de trajetória artística com a exposição Arara Arere Ariri Aroro Aruru, e ampla programação paralela com seminários e mesas redondas, em 2014, no Instituto de Artes do Pará. Foi artista convidada no Salão Arte Pará nos anos 2016, 2017, 2018 e 2019 e em 2020 foi premiada no edital Rede Virtual de Arte e Cultura, pela Fundação Cultural do Pará.

A exposição “Viva a Democracia” ficará montada na Galeria Direitos Humanos, em sua casa, até agosto e haverá uma programação virtual para que o público que não vai poder estar presente, possa acompanhar e ver a mostra. “Ainda estamos organizando. Com a pandemia e a atual situação, ficou um pouco complicado fazer algo agora, mas vamos inaugurar e aqui receber de forma reduzida as pessoas para uma visitação programada”, ressalta. 

ENTREVISTA com a CURADORIA

Viva a Democracia (2021) -
Tecido sobre lona camuflagem
do Exército.

A curadora da exposição, Paula Michie, produtora cultural paraense pós graduada em gestão em equipamentos e industrias culturais, ressalta a importância dessa categoria de premiação por pioneirismo e relevância, ofertada através da Lei Aldir Blanc e da Secult (PA), que possibilitou a realização dessa mostra. 

Depois de viver por 13 anos fora do Pará, atuando em diversas frentes da produção artísticas, principalmente nas artes visuais, ela retornou em 2019 a terrinha. Paula também bateu um papo com o blog sobre a obra e trajetória de Lúcia Gomes, confira a seguir:

Holofote Virtual: Qual a relevância de uma premiação como essa?

Paula Michie: O reconhecimento de artistas de carreiras consolidadas como a de Lúcia Gomes é um ato de manutenção de um patrimônio cultural, histórico e local. Ainda que impossível paralisar a produção artística de mentes em constante criação como essa, a oferta de meios que viabilizam esse tipo de projeto permite que possamos dedicar os cuidados merecidos para revisitar e expor obras de tamanho valor e contemporaneidade. 

Viva a Democracia! entoa um chamado cívico em pleno século XXI. E isto traduz muito da essência da produção aqui exposta, das constantes simbologias impregnadas nas obras e vida dessa artista cujo ativismo é caraterística natural. 

O processo desta curadoria traz, principalmente, a tentativa de traduzir os próprios anseios de Lúcia neste mar turbulento que vivemos o Brasil de hoje. Há uma emergência e uma urgência de dizer, bradar e entoar o que a revolta é capaz de produzir. 

Na supressão de direitos sociais acontecendo ao escancaro de nossos olhos, à revelia dos valores humanos, nos encontramos ditados e censurados por mãos de ferro que gozam da violência social, que nos sangram a existência e o que ainda possa sobrar. É preciso dizer, é preciso gritar. 

"Amai-vos", também na mostra

Holofote Virtual: A mostra faz um recorte artístico da trajetória de Lúcia Gomes. Reúne os registros de suas performances, sempre voltadas a questões da cidadania e dos direitos das pessoas. Tudo isso por meio de expressões da arte. Como você trabalhou esses símbolos presentes nos trabalhos dela?

Paula Michie: A costura dessa narrativa político-social fez-se parecer muito com tudo o que vejo de essência na produção de Lúcia Gomes, como a coluna vertebral onde todo o corpo é sustentado e alimentado: o processo de seleção e revisita da memória de cada obra foi generosamente partilhado entre artista e curadora, evidenciando o caráter democrático onde sua trajetória sempre se debruçou. Uma eterna construção de tudo que é plural, do que seria justo e coletivo para um bem comum. 

São justamente estas as poéticas sobressalentes nas interferências artísticas como Amai-vos e Uni-vos, quando a artista propõe a comunhão de um alimento de valor cultural que já anuncia a mensagem do coletivo; Resistência, que projeta uma memória afetiva da guerra de travesseiros que as crianças costumam travar, com a mensagem poetizada no gesto de resistir e AI5 Não, quando atravessa uma mensagem direta e objetiva gravada no artefato artesanal que é a cerâmina paraense. Ela nos oferece a ideia, e a nós é difícil resistir participar. 

Holofote Virtual: Revisitando essa trajetória é impressionante perceber como a artista se mantém fiel a essa linha tênue entre a arte e o ato político. Você mergulhou nos processos dela, como poderia nos traduzir essa força disparadora dela para este tipo de expressão artística?

Paula Michie: Como filha da ditadura, ela nunca se deixa esquecer: sua produção sempre estará preocupada e pronta a relembrar as feridas de duas décadas em que se assaltou qualquer sinal de democracia – pronta a seguir comemorando o seu declínio, com a estranha sensação de vivermos novamente esse inferno social. 

1964BR1985 é uma interferência artística que fala sobre as torturas vividas por prisioneiras daquele regime, assim como Birkenau Auchwitz reproduz, dentro da poética artística, os efeitos psicológicos dessas terríveis experiências. Na indumentária de maruja – marco da cultura paraense que muito versa sobre o feminismo e o lugar ocupado por mulheres, a artista interfere no que é mais característico desse costume para protestar Pelo julgamento dos golpistas e torturadores de 1964: assim suprime as cores vibrantes da maruja para vesti-la toda de preto.

Assim seguem as incansáveis proposições de tudo que sabemos e sofremos, das diversas vertentes sociais desajustadas e violentadas, da condição da mulher, do cidadão, do meio ambiente, da justiça, e principalmente, dos afetos. Lúcia poetisa no gesto da ação e nos desvãos - ora costurando lixo na neve, ora propondo atos de afeto cotidiano, o que ela oferece é sempre uma entrega sincera e extremamente humana, na simplicidade de uma artista que parece não se importar mais com a categorização artística que a reconheçam do que com a infinidade de coisas que ainda precisa compartilhar. 

Serviço

“Viva a Democracia”, exposição de Lúcia Gomes. Na Galeria Direitos Humanos, em sua casa, no município de Quatipuru-Pa – Prêmio Reconhecimento Fotoativa – Lei Aldir Blanc, Secult-Pa. 

Siga no Instagram

@luciagomesqt

 @luciagomes411 

@holofote_virtual

5.3.21

Festival reúne empreendedorismo e música negra

Empreendedores e pesquisadores negros paraenses lançam, em festival on-line, de 8 a 28 de março, o aplicativo de celular Afromap, iniciativa do Festival Exú, coletivo que desde maio de 2019 mapeia os afroempreendimentos Região Metropolitana de Belém, com apoio do edital de Festivais Integrados da Lei Aldir Blanc do Pará. A programação traz música, formação e outras atividades culturais.

Uma vitrine de negócios encabeçados por negros, com objetivo de gerar um mapa, que permita ao usuário se cadastrar ou encontrar essas empresas, estimulando conexões e facilitando a promoção de negócios. 

Ao longo de onze meses, a ferramenta foi testada e redesenhada em pontos identificados para aperfeiçoamento. O trabalho culminou em uma versão atualizada de interface moderna, segura e intuitiva, que dinamiza a conexão entre empreendedores/clientes e impacta beneficamente na geração de renda do setor - o mais afetado pela pandemia. Deu certo, pois já há 160 empreendimentos cadastrados. 

“O Afromap se baseia no fato de que o Pará é o estado do Brasil onde mais pessoas se autodeclaram negras, porém a representatividade delas ocupando atividades criativas e produtivas ainda é baixa. Nesse sentido, um aplicativo que promove conexões busca romper a lógica do isolamento historicamente engendrado pelo racismo, aumentando as chances de desenvolvimento da população negra na Região Amazônica”, destaca Rayo Machado, uma das coordenadoras da iniciativa.

Segundo a pesquisa sobre o impacto da crise sanitária nos empreendimentos do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), pretos e pardos com empresas fechadas ou negócios interrompidos durante a pandemia da covid-19 somam 18%, enquanto brancos correspondem a 15%.

Tainá Barral é coordenadora da produtora cultural Na Cuia, um dos negócios cadastrados no Afromap. Ela compartilha sua expectativa com o lançamento da ferramenta: “Minha expectativa é de expandir o nosso negócio e aumentar nossa visibilidade e conexão com outros empreendimentos. A Na Cuia já atua nessa perspectiva de estímulo aos empreendedores culturais negros e, a partir dessa iniciativa, esperamos uma maior integração”.

Atrações musicais e empreendedorismo na programação

A programação de lançamento do Afromap: arte, empreendedorismo, tecnologia e inovação conta com debates, rodas de conversas, cursos, workshops, feira de produtos do empreendedorismo negro e apresentações culturais de Matemba, Mariza Black, Arthur da Silva, Grupo Toró-Açú, Bruna BG, Banda Samaúma, DJ Tauan, Anastásia Marshelly, DJéia Ananindeusa, Josiel Paz, Juan Silva, Emilly Cassandra e Dama Blackout.

“Pra nós é um prazer estar participando do Afromap, esse projeto que busca expandir a rede de empreendedores negros e ajudar no crescimento dos artistas pretos aqui da nossa região, ainda mais nesse momento de pandemia, onde nós estamos precisando ainda mais do apoio de diversos setores da sociedade”, pontua Naré, vocalista da Banda Samaúma.

“Almejamos com esse festival poder ampliar o alcance de afroempreendedores e artistas paraenses através da formação, das tecnologias sociais e digitais e da arte, bem como conectar a potência da diversidade cultural negra da Amazônia ao mundo”, finaliza Bruna Raiol, também da coordenação do app.

Serviço

De 08 a 28 de março, nas redes sociais e plataformas de ecommerce, streaming e EAD disponíveis em https://linktr.ee/AFROMAP . Baixe o Afromap na PlayStore.

Vai ter "Flor de Mururé" na web no Dia 8 de Março

Inspirado na lenda “Flor de Mururé”, o grupo paraense Carimbó Cobra Venenosa, que seu primeiro videoclipe, em formato de curta-metragem, dirigido por Marcos Corrêa e Priscila Duque. A feminilidade amazônica está presente na obra com a reunião de mulheres cis e trans cantando, juntas, pelo fim do machismo e dos crimes de LGBTIfobia, numa  ode à beleza, às encantarias e ao poder feminino amazônico. O lançamento será nesta segunda, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, às 10h, no Canal do YouTube do Carimbó Cobra Venenosa. 

Um menino saiu vestido de menina, foi agredido e teve seu corpo jogado nas águas dos rios da Amazônia. Ao submergir, voltou em forma da flor de mururé, uma planta aquática com características femininas e masculinas, de origem amazônica, muito comum na região do Afuá (Ilha do Marajó - PA). 

O grupo paraense do tradicional carimbó pau & corda misturou elementos documentais e ficcionais, com pitadas de surrealidade, fazendo uma ode ao afrofuturismo amazônico, para conta a lenda da “Flor de Mururé”. 

A narrativa apresenta um episódio ficcional de violência, tendo como protagonista Gabriela Luz, atriz e travesti, que realizou, com a gravação de “Flor de Mururé”, seu primeiro trabalho após a transição de gênero. A trama, permeada pelo afrofuturismo amazônico, mistura elementos documentais e ficcionais com pitadas de surrealidade. 

O vídeo traz também, como personagens, as Orixás femininas Iansã, Oxum e Iemanjá. Participam ainda artistas da cena cultural independente de Belém, donas de casa, travestis, crianças, homens cis e trans, os quais, juntos, mostram que a luta por uma sociedade menos violenta é uma bandeira que precisa ser levantada por todos. 

As gravações aconteceram em Icoaraci e Outeiro, periferia da Região Metropolitana de Belém. A produção, realizada pela Psica Produções, reuniu uma equipe majoritariamente feminina, LGBTQIA+, preta e periférica.

“O mais valioso no processo do clipe é a questão da periferia como potência. É a reunião de pessoas de diferentes idades e gêneros na equipe e no elenco. Foi uma escolha política ter pessoas desse universo, ninguém foi levado para gravar em Icoaraci e Outeiro”, explica o co-diretor Marcos Corrêa. 

“Quando você coloca no Google ‘Icoaraci’, o que mais aparece são os crimes e as violências. A gente quer mostrar que nesses lugares também tem belezas: nas imagens, na praia, na natureza, mas também nas pessoas. No sorriso de uma mulher cozinhando maniçoba no quintal da sua casa, de crianças brincando. Isso é extremamente potente: mostrar o olhar dessas pessoas periféricas, exibindo a sua beleza para o mundo”, conclui.

A música “Flor de Mururé” foi criada a partir da história contada por ancestrais de Naraguassu Pureza da Costa (54 anos), uma figura lendária do Afuá, que manteve viva a tradição ancestral da pajelança amazônica. 

A composição é assinada não só por Naraguassu Pureza da Costa, mas também por Luana Peixe, Lana Beatriz Lima, Luah Sampaio Nogueira, Erika Mayane Bonifácio Ramos, Dandara Nobre de Oliveira Nascimento, Eduarda Gama Canto (fundadoras do coletivo Vacas Profanas). Com os ritmos lundu e carimbó, a música faz parte do repertório do Carimbó Cobra Venenosa desde que foi criado, em 2016, e está presente no seu primeiro álbum, homônimo, lançado em 2020. Para o clipe, ganhou uma nova roupagem.

“É mais que uma música, é um mantra de força, uma oração encantada que conecta as pessoas à questão de gênero. Os versos se desenhando em ritmo movimentam o corpo e nos estimulam uma sensação de liberdade, experimentada na cadência do lundu e do carimbó. Sentimos os tambores. Sentimos a presença da mata. Das águas. Sentimos a força dos encantados, das entidades, dos orixás, ao mesmo tempo que vibramos em uma contemporaneidade que experimentou anos de ocupações, ações coletivas, artivismo, performances e rodas em celebrações e protestos”, descreve Priscila Duque, co-diretora do clipe e líder do Carimbó Cobra Venenosa .

Ficha Técnica 

Música

Priscila Duque: Voz e Maracas

Yago Dias: Banjo

Héron Rodrigues: Percussão & Efeitos

Raíra Maciel: Percussão

Reebs Carneiro: Flauta

Hugo Nascimento (Ugô): Saxofone

Gravação, Mixagem e Masterização: StúdioZ por Thiago Albuquerque

Clipe

Realização: Psica Produções

Direção: Marcos Corrêa

Direção: Priscila Duque

Direção de Fotografia: Cris Salgado e Hugo Chaves

Figurino: Labô Young, Maurício Franco, Roberta Mártires e Cris Salgado. 

Maquiagem: Shayra Brotero

Designer: Mila Fraga

Montagem, finalização e Colorização: Cris Motta

Animação de Artes Digitais: Yan di Maria

Colagens Digitais: Moara Tupinambá

Drone e vídeo dos créditos: Walber Castelo

1ª Assistência de direção: Bárbara Von Paumgartten

2ª Assistência de direção: Mariana Mikaely Corrêa

Paisagem Sonora e Desenho de Som: Rafael Café

Protagonista e roteirista: Gabriela Luz

Consulta de roteiro: Greice Costa

Elenco: Dama das Chamas Circenses (Eli Pinheiro), mãe de santo Rosa de Luyara, Anastacia Marshelly, Shayra Brotero, Carmo Coutinho, Adelaide Oliveira, Maria do Socorro Rodrigues Duque, Astrum Zion, Maria José, Michely Corrêa, Zaira Maciel. 

Conheça mais o Cobra Venenosa

https://open.spotify.com/artist/59imYrya01RkeB2XjcOskX 

https://www.deezer.com/br/album/127207092 

https://www.youtube.com/playlist?list=PLtBAZ-oDY1IV9tdrNAuREIukXnQss2PqD 

https://soundcloud.com/cobravenenosa 

https://www.instagram.com/carimbocobravenenosa/

Integrantes

Priscila Duque – Voz e Maracas

Yago Dias - Banjo

Héron Rodrigues - Percussão & Efeitos

Raíra Maciel - Percussão

Reebs Carneiro - Flauta

Hugo Nascimento (Ugô) - Saxofone

Conheça mais a Psica Produções

https://www.instagram.com/psicaproducoes/ 

https://www.instagram.com/marrcorrea/ 

https://www.instagram.com/prisciladuquemultividas/ 

https://www.instagram.com/kredoqdelicia/ 

Serviço

O Videoclipe será lançado às 10h da manhã no dia 8 der março no Canal do YouTube do Carimbó Cobra Venenosa. 

4.3.21

O 2o episódio do videocast As Cartas de Waldemar

O projeto estreou em 15 de fevereiro, marcando 116 anos de nascimento do maestro. E o segundo episódio já está no ar, com  a cantora e museóloga Sônia Nascimento, que nos guia pela fase modernista e as viagens do artista pela América Latina e na Europa. O terceiro episódio será dia 15 e o último, no dia 29 de março, quando completam 26 anos de sua morte. Assista pelo canal de YouTube.

As Cartas de Waldemar é um videocast de 4 episódios sobre a história de vida do maestro Waldemar Henrique contada a partir do ponto de vista das cartas que ele escrevia para amigos e familiares; e que compõem o acervo arquivístico da Coleção Waldemar Henrique do Museu da Imagem e do Som do Pará.

A iniciativa integra o projeto “As memórias de um maestro demasiado humano: museologia e as correspondências de Waldemar Henrique”, que foi contemplado com o Prêmio Rede Virtual de Arte e Cultura 2020, na categoria Museologia, da Fundação Cultural do Pará. 

Dentro de um contexto de pandemia, é importante dizer que o programa foi produzido na sala do apartamento de Sônia Nascimento, com uma equipe composta de 3 pessoas; e conta com depoimentos de personalidades que tiveram momentos inesquecíveis com o maestro, como: Nilson Chaves, Vital Lima, Márcia Aliverti, Madalena Aliverti, Luiz Pardal, Rafael Lima, Paulo Fonseca e Luiz Braga; e uma entrevista sobre a Coleção Waldemar Henrique com Dayseane Ferraz, Historiadora, Antropóloga e Pesquisadora do SIM/SECULT.

A ideia surgiu a partir do resultado do trabalho de conclusão de Sônia. A pesquisa mergulhou nos conteúdos do DVD Coleção Waldemar Henrique, lançado em 2010 pela SECULT/PA, SIM e MIS e os livros “Waldemar Henrique – O Canto da Amazônia” de Claver Filho; “Encontro com Waldemar Henrique” de João Carlos Pereira e “Waldemar Henrique – Só Deus sabe porque” de Sebastião Godinho.

O inesquecível Waldemar

Nascido em 1905, em Belém, Waldemar Henrique da Costa Pereira foi um dos maiores compositores e pianista paraense, de suma importância para a história da música brasileira. Em 1923, compôs suas primeiras canções para canto e piano, “Minha Terra” e “Felicidade”. 

Mudou-se em 1933 para o Rio de Janeiro, a fim de aprofundar seus estudos e construir uma carreira artística. Suas canções tinham como tema a Amazônia, despertando o interesse de vários artistas que gravaram suas músicas. Waldemar e Mara se apresentaram em cassinos, rádios e teatros do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, realizaram excursões pelo restante do Brasil e no exterior. 

Em 1960, o maestro retorna à Belém, onde em muitas contribuições como Gestor Cultural, em vários cargos públicos, entre eles o mais emblemático como Diretor do Teatro da Paz. Com problemas de saúde, se afasta da música e morre em 29 de março de 1995. 

Em suas diversas viagens no decorrer da vida, escreveu dezenas de cartas para familiares, amigos e colegas de profissão. Entre muitos assuntos, adorava narrar suas viagens e os momentos de grande relevância da sua história de vida. O maestro tinha o hábito de reproduzir suas cartas, tendo sempre uma cópia, e, quando não era possível, ele solicitava ao destinatário que este a guardasse para devolvê-lo. 

Nestes escritos um de seus principais objetivos era documentar o cotidiano de suas viagens, como um diário, descrevendo detalhadamente os lugares, eventos, acontecimentos, para que no futuro pudesse reavivar sua memória ao reler seus escritos. Era dono de um grande senso de humor, educado, receptivo. Se emocionou ao ter um teatro com seu nome, ser tema do enredo da escola de samba “Quem são eles” e com a voz de Nilson Chaves cantando suas canções.

Ficha Técnica

Apresentação: Sônia Nascimento

Produção Executiva: Sônia Nascimento e Edvaldo Souza (Realizador Cultural)

Direção, Edição e Designer Gráfico: Pedro Cordeiro

Filmagem e Edição: Lucas Pinto

Make-up: Beatriz Freitas

Mídias Sociais e divulgação: a Equipe

Trilha Sonora: Arthur Moreira Lima interpreta Waldemar Henrique – A Música e o Pará - SECULT/PA;

Imagens e Cartas: DVD Coleção Waldemar Henrique – SIM /MIS/ SECULT/PA.

Serviço

“As Cartas de Waldemar” – estreia 15/02 – 16h – Nas redes sociais - Perfil: @ascartasdewaldemar – Instagram, Facebook e Youtube.  Próximos episódios: 15/03 e 29/03 – 16h.

3.3.21

Álbum de Ruth Clark reforça cena feminina do rap

É com a força da cooperação, da solidariedade e do respeito que a rapper Ruth Clark lança, no final deste mês, o álbum UBUNTU, cercada de um time de artistas que fazem parte de sua trajetória na vida e na arte! O álbum Ubuntu será lançado no dia 30 de março, às 13h, pelo canal de YouTube da artista. O projeto tem apoio da Lei Aldir Blanc-Pa.

"Sou o que sou pelo que nós somos”. A frase é de Ruth Clark, artista com cinco anos de carreira no rap paraense. É assim que ela vibra a voz da periferia em relatos da vida no contexto urbano de Belém do Pará, fazendo música negra de caráter universal, direto do topo do mapa do Brasil.

O álbum Ubuntu contém 12 faixas com beats variados, vai do trap funk ao bombap raiz e tem samples bem brasileiros como o de Pixinguinha na música. O beatmaker responsável é o sempre parceiro de Ruth, Arllanzin no Beat. O disco também conta com as participações das rappers Talita Brooklyn, Agata Soul, Samanta e Nega ysa, além de Geléia MC, Xico Doido e Arllan Trindade.

“O projeto surgiu desde 2017, porém sem renda fixa, me sustentando da arte. Não tive de onde tirar para investir nesse sonho, sempre foi de single por mês ou por mais tempo para fazer lançamentos. E como venho da cena de freestyle tive a honra de conhecer todas essas pessoas que estão no meu álbum. Esse trabalho foi uma forma de unir essa galera que somava comigo desde o começo”, comenta.

Ruth diz que esse trabalho também traz como significado “as emoções que os jovens da periferia sente, de não ser levado a sério” e que deseja alcançar novos públicos. “Quero fazer sons com pessoas que admiro, trocar vivências, viajar e dar um conforto digno para meus pais”.

A rapper acredita que a produção do rap em Belém vem crescendo e envolvendo também um corpo de artistas mulheres na cena. “De 2015 pra cá, vem predominando muito mais mulheres, e isso tem tomado um rumo muito local. Estamos falando mais da nossa terra, dando valor nos artistas daqui. Focar na qualidade que entregue esse material ao público”, conclui. 

Ubuntu é uma antiga palavra africana e tem origem na língua Zulu (pertencente ao grupo linguístico bantu) e significa que “uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas" e é isso que cada uma dessas participações significa no disco somando sua experiência, fazendo desse trabalho a confraternização de uma verdade comum a juventude periférica. 

Conhecida como Ruth Clark Mc, Ruth Souza, iniciou sua carreira artística na Fundação Curro Velho como cantora e atriz no musical "A Revoada". Ao longo de sua trajetória, participou ainda de releituras como "O Auto da  Compadecida" e se consagrando protagonista da peça "A Mulher Vestida de Sol'.

Paralelamente ao teatro, amadureceu suas poesias, e em 2016, passou a fazer suas primeiras apresentações em Batalhas de MC's da cidade. Mulher negra ativista, periférica e moradora do Bairro do Una, usa suas letras para empoderamento negro e feminino.

Dona das composições "Ubuntu" e "Gente Preta I e II", suas músicas já alcançaram públicos dentro e fora da capital. Tendo participado de eventos consagrados na cidade como "Rock in Rio Guamá" e abrindo shows de cantores de relevância nacional como Nego Max e MV Bill. Em 2019, seu clipe "Gente Preta II" foi um dos selecionados para a 12ª Mostra Curta Audiovisual, de Campinas/SP. 

UBUNTU

Direção de Arte: Niltoc

Beats: Arllanzinho

Gravação de voz: BOOM Record

Mix e master: Arllanzinho

Patrocínio: Lei Aldir Blanc

Serviço

Lançamento do Album UBUNTU. No canal Ruth Clark – YouTube – No dia 30 de Março de 2021, as 13h. Para seguir no Instagram: @ruthclarkmc

Vídeos premiados que ousam em mudar o mundo!

Transição de gênero, bullying e comunicação não violenta são os temas abordados nos vídeos premiados no Edital Juventude Ativa com recursos da Lei Aldir Blanc. Bento Barreto, Fadiany Cardoso e Ranier Rocha concorreram, cada um com uma proposta diferente, mas todos compartilharam experiências nesses temas. Os vídeos serão lançados esta semana de março nos perfis do Instagram dos premiados, confira no final da matéria e vá lá conferir! 

“Fui Bia, sou Bento”, “Ninguém merece bullying” e “Não quero ter razão. Eu quero é ser feliz” são os títulos premiados.   O logger Bento Barreto, que até pouco tempo era Beatriz, conta sua experiência na transição de gênero estimulando os jovens a seguir o caminho de autoconhecimento com coragem e determinação. Como ele mesmo define “esse é um processo delicado, muito solitário que requer cuidados, proteção e apoio, em especial da família”.   

O bullying se apresenta de diversas maneiras e a produtora Fadiany enfrenta, até hoje, rejeição social pelo seu cabelo. Ela expõe a maneira pela qual tem conseguido se aceitar e superar isso. “Tem sido libertador falar sobre o meu cabelo. Como pode ainda existir pessoas que gostam de diminuir os outros por não aceitá-las como são?”, reflete Fadiany.

Ranier Rocha, que é músico, reconhece uma importante faceta desta premiação que é a sensação de dividir o prêmio contratando outros jovens para atuar profissionalmente no projeto, e assim “gerar renda durante a pandemia, quando as oportunidades para a juventude diminuíram mais ainda”, ele conclui.

Radiantes com a possibilidade de contar suas histórias e estimular outros jovens no seu protagonismo, os premiados chamaram Yan Dalpra para assinar a direção de fotografia dos vídeos, que nos explica: “são vídeos curtos, mas provocativos para a reflexão, e um novo olhar sobre essas questões tão presentes no nosso cotidiano”  

A premiação é destinada à produção de conteúdos autorais independentes a serem desenvolvidos pelo público jovem, visando a promoção, o fortalecimento da cultura de paz e do protagonismo juvenil. O edital foi coordenado pelo Movimento República de Emaús, em parceria com a Secult Pará, e os três jovens receberam apoio técnico da CRibas Soluções.

Agenda de lançamento

  • Fui Bia, sou Bento, de Bento Barreto  - Dia 6/3, às 18 h no Instagram @beisonfire
  • Ninguém merece bullying!, de Fadiany Cardoso - Dia 8/3, às 18 h no Instagram @fadianycardoso
  • Não quero ter razão. Eu quero é ser feliz!, de Ranier Rocha - Dia 13/3, às 18 h no Instagram @ranierrocha

Projeto leva oficinas de artes visuais para o Marajó

O projeto Cinema no Marajó é uma iniciativa do Grupo de Pesquisa em Antropologia Visual VISAGEM da Universidade Federal do Pará e que foi selecionado pelo Edital de Audiovisual – Lei Aldir Blanc Pará 2020.

A população ribeirinha das cidades de Melgaço e Breves, no Arquipélago do Marajó, recebe neste primeiro semestre oficinas de fotografia e de cinema, além de uma mostra cinematográfica. A oficina de Fotografia Mobile tem como objetivo produzir imagens com câmeras de telefone celular, que deverão compor uma galeria virtual dentro do site do projeto. A oficina de Introdução ao Audiovisual vai utilizar as câmeras de celular. O resultado deverá também compor a Mostra de Documentários, a última agenda da proposta do projeto Cinema no Marajó. 

O evento será um momento para exibir produções selecionadas e premiadas pelo Festival do Filme Etnográfico do Pará e outros festivais do Brasil, além da produção que será realizada nos dois municípios. Os curtas, os médias e os longas-metragens que entrarão na mostra estão em fase de seleção e estarão disponíveis na plataforma digital onde todos poderão acessar e assistir em uma programação super especial. 

A coordenadora do projeto, Denise Cardoso, explica que a ideia é fomentar o interesse e a produção em audiovisual principalmente entre os jovens para que eles possam descobrir novas oportunidades e entender outros contextos da realidade que os circunda através desta poderosa ferramenta.

“O desejo é de incentivar produções audiovisuais na região dessa forma contribuímos para a criação de uma tradição de exibição, produção e interesse pelo tema, também mantendo um contato permanente com as comunidades através das redes sociais, criando um repositório, o site oficial do projeto, com as produções audiovisuais da região”, aponta.

Antropóloga, Denise atua na Assessoria da Diversidade e Inclusão Social da UFPA, participa do Grupo de Estudos sobre Mulher e Relações de Género Eneida de Moraes (GEPEM). Ela coordena o Comitê de Antropologia Visual da Associação Brasileira de Antropologia (CAV/ABA), o Laboratório de Antropologia Arthur Napoleão Figueiredo (LAANF) da UFPA, o Grupo de Estudos sobre Antropologia Visual e da Imagem (VISAGEM) e o Grupo de Estudos sobre Populações Indígenas (GEPI). Tamb'rm já participou como conselheira ad hoc da Secretaria Especial da Presidência da República para Mulheres (SPM) e do Comitê de Ética em Pesquisa da UFPA. 

Serviço

Projeto Cinema no Marajó. Site: https://cinemanomarajo.grupovisagem.org/ + Instagram: @cinemamarajo.

2.3.21

TEIA lança curta sobre a ancestralidade feminina

Estreia neste sábado, 6, “Alumiá”, curta metragem realizado pelo TEIA - Teatro Experimental de Insurgências Amazônicas –, em coprodução com Wan Aleixo e Gabriel Tantacoisa. O projeto, contemplado pelo edital Preamar, da Fundação Cultural do Pará, será exibido às 19h, com acesso gratuito no canal do YouTube do grupo.

O TEIA desenvolve trabalhos com temas e histórias sobre a cultura amazônica e seus personagens fictícios ou reais, experimentando as linguagens teatral e audiovisual. Sua primeira montagem foi um espetáculo sobre a vida do ator e cantor Walter Bandeira, em 2018: “Walter Bandeira – Sem Pecado e Sem Perdão”. 

Em 2020, o grupo ganhou o edital Preamar de Arte e Cultura através do Governo do Pará/Fundação Cultura do Estado e iniciou uma nova pesquisa, abordando o tema de mulheres nordestinas que migraram para a região da Amazônia no início do século passado. O projeto, por conta da pandemia, mudou de nome e também se tornou unicamente audiovisual. 

Antes chamava-se “Maria Retirante” e estava sendo concebido como um espetáculo teatral, mas estreia como curta, intitulado “Alumiá”, que tanto significa iluminar, como também deriva da palavra “Alumiação”, rito que ocorre nos interiores do Pará no dia 02 de novembro, onde centenas de pessoas se dirigem aos cemitérios para cultuar seus antepassados por meio da ornamentação das sepulturas com flores, coroas e velas. 

No filme, somos guiados pelas tarefas cotidianas de Antônia, interpretada pela atriz e diretora Iracy Vaz, que em meio aos seus afazeres, se prepara para o dia da Alumiação, tecendo as coroas fúnebres para honrar os seus mortos, mas durante a tarde, recebe duas visitas muito esperadas para uma conversa sobre ancestralidade, trânsitos migratórios, família e força feminina. A equipe conta ainda com as atrizes Pauli Banhos e Andreia Rezende que também assina o figurino, Tarcisio Gabriel e Wan Aleixo nas filmagens, direção de fotografia e edição. 

“A minha personagem segue em busca de sua ancestralidade. Ela vai ao encontro da memória de sua linhagem feminina. Essa personagem, na verdade, é arquetípica, pois todos nós deveríamos investigar os feitos das mulheres do passado, seja no âmbito micro, dentro das nossas próprias narrativas familiares, seja no âmbito macro, nas narrativas históricas. Pois, esse protagonismo feminino sempre existiu, mas foi invisibilizado dentro das narrativas oficiais, ou até mesmo, nas narrativas familiaes”, diz ela que também assina o roteiro do curta.

Filmagens foram realizadas em Santo Antônio do Tauá

Pauli Baños, Iracy Vaz e Andrea Rezende
Foto: Wan Aleixo

As gravações ocorreram no final de janeiro, na cidade de Santo Antônio do Tauá, escolhida pelo fato de ter sido fundada por migrantes nordestinos. Além disso, a narrativa foi inspirada na história real de duas cearenses que migraram o município paraense no início do século XX. 

“Filmamos com uma equipe bem reduzida para não criar aglomeração. A escrita do roteiro do curta já foi pensada para esse contexto de pandemia. Um elenco apenas com três atrizes, uma equipe pequena e a maioria das cenas foram gravadas dentro da nossa própria casa de família”, comenta.

As filmagens, em meio à pandemia, foram realizadas na antiga casa da família de Iracy.  Maria Quitéria e Ana Lourenço eram bisavós de Iracy Vaz, diretora e atriz do filme, o que confere ao conteúdo do curta uma dimensão autobiográfica e ancestral. 

“Para mim foi muito importante, pois já faz um tempo que tenho compreendido o processo artístico como um processo que traz uma dimensão de cura. E trazer a memória das minhas bisavós por meio das personagens Ana e Quitéria é pra mim um processo de cura de feridas do nosso sistema familiar, da cura das feridas dessas mulheres ancestrais que também reverbera em mim. Esse processo é um diálogo entre arte e processos terapêuticos do sistema familiar”, conclui.

Equipe Técnica

Roteiro e Direção: Iracy Vaz

Elenco: Andreia Rezende, Iracy Vaz e Pauli Banhos

Participação especial: Wan Aleixo

Direção de Fotografia: Gabriel Tantacoisa e Wan Aleixo

Montagem e Edição: Gabriel Tantacoisa

Serviço

O TEIA - Teatro Experimental de Insurgências Amazônicas estreia o curta-metragem Alumiá, projeto contemplado pelo edital Preamar, da Fundação Cultural do Pará. A exibição será neste sábado, 6 de março, às 19h, pelo YouTube do grupo.