25.7.10

Entrevista: a arte do encontro na obra Retruque/Retoque

Há algumas semanas em contato com o poeta Paulo Vieira e com o músico e compositor Henry Burnett, o Holofote Virtual obteve a dupla entrevista que vocês vão ler abaixo, antecedendo o lançamento de Retruque/Retoque, já noticiado aqui, e que acontecerá nesta quarta-feira, 28, a partir das 20h, no Teatro Margarida Schivasappa, projeto Uma Quarta de Música (ingresso R$ 10,00).

A intenção foi construir, a partir das mesmas perguntas, um possível mosaico de informações sobre o olhar de cada um sobre a obra do outro. Fruto de um encontro entre eles, a parceria que surgiu se concretiza agora em celebração lítero musical, com a participação e envolvimento artístico da banda Clepsidra.

Depois de inúmeras trocas de e-mail, o passo derradeiro para esta postagem foi ao vivo e à cores, em uma sessão de fotos realizada na última sexta-feira, 23, no final da tarde, na Praça do Carmo, no bairro da Cidade Velha, espaço-testemunha da primeira conversa entre os artistas.

Ambos, de personalidades diferentes, são em Retruque/Retoque, linhas que se entrelaçam, sendo mais um passo dado em suas trajetórias trabalhadas de forma independente, em geral seguindo por fora do mercado convencional, sempre com obras de qualidade, instigantes.

“Tenho cada vez menos interesse pelo funcionamento do mercado. E não por repudiar o sucesso, mas por não me sentir mais apto ao comércio musical.

Não sei bem porque aos 16 anos, tocando num bar em Belém, senti uma grande tristeza e tomei uma decisão: teria uma outra profissão que mantivesse aquele compositor, em gestação, livre para fazer o que bem entendesse.

Rompi, portanto, cedo com o mercado, que talvez não vá me acolher nunca. Já não me ressinto disso, benesses da idade. Tornei-me professor de filosofia da música... porque abandonar o prazer jamais”, diz Henry.

Sobre a literatura paraense e ser parte dela, Paulo Vieira, se diz desafiado. “Em uma cidade que teve (e tem!) Bruno, Paulo Plínio, Tavernard, Rui, Mário, MM, a tarefa dos novos não é das mais fáceis. Publiquei meu primeiro livro em 2004, ou seja, sou um novato nessa ‘cena’. E não saberia defini-la muito bem. Mas gosto de muitas coisas que estão sendo produzidas aqui”, aponta Paulo.

As aspas, acima, integravam o jogo de perguntas e respostas que compositor e poeta toparam de cara em responder para o Holofote Virtual, sem que um tivesse acesso às respostas do outro, antes de serem publicadas.

Achei que deveria pinçá-las para cá, como elementos a mais de introdução ao que vem a seguir, e também esperando melhor apresentá-los. Ah, sim, o Livro/CD Retruque/Retoque vai estar disponível no teatro no dia do lançamento.

Holofote Virtual: A invenção de Retruque/Retoque... Tudo pronto?

Henry Burnett: De minha parte está pronto, depois desse breve período entre o início da criação e a arregimentação do disco. Acho que ele é mesmo antes o resultado de uma amizade, e menos de uma ligação artística. Esta foi se estabelecendo como acabamento do laço entre nós. Creio que é um negócio meio atípico. Mas um CD de canções que nasce de um livro é atípico por princípio.

Paulo Vieira: Essa ‘invenção’ de misturar música e poesia não é nova. No Brasil é praticada desde os românticos, nos salões... Quer dizer, nem nós, nem ninguém (em Belém?) está necessariamente fazendo novidade ao misturar essas irmãs. No entanto, pessoalmente, sempre tive curiosidade de experimentar meus poemas em canções.

Uns 10 anos atrás até cometi alguns crimes recitando com uma banda de rock, coisa de improviso. Nada cantado. Nem os poemas eram meus, mas de Augusto dos Anjos. E gostei muito do assombro. Mas agora é outra coisa, o cancioneiro trouxe sua personalidade artística para as entrelinhas dos versos, e seu canto amplificou tudo. E a invenção antiga (música + poesia) me parece magistralmente reabilitada no disco Retoque.

Um disco nada sofisticado. Sem nenhuma intenção mirabolante, e que, por isso mesmo, merece toda a atenção dos bons ouvintes. Agora, sobre o projeto gráfico da obra, onde o objeto tem formato, fontes, cor e composição diferentes do usual e o disco não vai anexado, mas tem seu espaço pleno de disco com direito a encarte, fotos, “letras”, cifras, etc.

É mais um resultado de minha (agora nossa) parceria com a ilustradora e escritora D’Arcy Albuquerque, minha fada madrinha.

Holofote Virtual: O encontro entre vocês, ainda em 2006...

Paulo Vieira: Milton Kanashiro me convidou para ir com ele ao show “do Henry”, falou assim, como se eu conhecesse o cara. “Eu nunca ouvi falar nesse cantor, Milton”. Mas já havia escutado no rádio, com vivo interesse, a música Chuva op 14:30. Fiquei muito impressionado com o show.

E notei o principal, havia no palco um envolvimento forte e verdadeiro com a poesia, mas despretensioso e nada forçado, ou seja, ele não tinha aquela tônica do artista ‘descolado’ que quer levar poesia para o palco porque poesia é ‘sacada’, e etcetera e tal... Havia, sim, uma forte presença do amor & morte naquelas canções, não de qualquer morte, mas aquela que nutre e dá sentido à vida.

Quer dizer, era um poeta em cena. No bar falamos muito pouco (você pode imaginar: lançamento de disco, vários amigos, pós-show, etc.). Falei mais com o Edson Coelho, poeta (hoje meu amigo também), e parceiro do Henry há mais de uma década.

Mas a amizade com Henry se firmou uns dois anos depois. Numa visita familiar que fiz a ele, na qual gostamos mais de falar sobre nossa nova condição, a de pais, do que sobre artes. João, filho do Henry e Pablo, o meu menino, nasceram, ambos, em julho de 2008...

Henry Burnett: O Paulo me conheceu antes de se apresentar e se dizia fã do Não Para Magoar (meu disco de 2006), e foi se aproximando, no dia do lançamento, como eu descrevo no texto de apresentação. Deu-me um dos seus livros de presente. No meio da conversa eu já sabia quem ele era e o reconhecimento imenso da sua poesia; aí tinha um clima da parte dele que parecia meio “eu sou teu fã”, ao que eu imediatamente retruquei (olha aí o disco nascendo!): “cara, o artista aqui é você!”.

Holofote Virtual: “Retruque/Retoque” inaugura uma parceria para longa data ou é um projeto que se encerra nele mesmo?

Paulo Vieira: O disco Retoque é, como disse o Henry em seu texto de abertura, uma forma de brindar à nossa amizade. Penso que isso (a amizade) é já bastante para ambos, haja ou não outras parcerias.


Henry Burnett: Não planejo canções, mas duvido que não voltemos a compor juntos. O resultado é de uma afinidade ímpar, a rítmica dos poemas, o erotismo, a memória, são temas com ligações fortes e comuns entre nós. Não sei bem avaliar o disco como um produto agora que está pronto, mas intimamente o considero meu melhor trabalho até hoje.

Holofote Vir
tual: Depois que se conheceram como foi que se desenrolou o contato de vocês, até o convite feito pelo Paulo para musicar os 12 poemas?

Henry Burnett: Quase todo via mail e com algumas visitas mútuas, eu vindo a Belém e ele a São Paulo.

Paulo Vieira
: Nosso contato sempre foi raro. E a partir do convite, intenso, pois foi no momento em que estabeleci uma relação muito forte com São Paulo (onde Henry mora). E, falo isso com a mais honesta gratidão, o poeta abriu as portas de sua casa para mim, Pablo e Mariana, por muitas vezes, durante nossas estadas na Paulicéia. Sem falar nos conselhos e orientações acerca da possibilidade de minha transferência para lá, mas essa é outra história...

Holofote Virtual: Paulo, é a primeira vez que tens poemas musicados?

Paulo Vieira: É, sim, a primeira, que me ‘credenciou’ também para acessar outra. Durante as gravações do Retoque dei uma letra, “Urublue”, para Renato Torres, líder (ainda é assim que se fala?) da banda Clepsidra, que ele musicou num estalo. Depois outra, a qual batizou de “Ar”, a música é linda, e ele parece gostar dela tanto quanto eu.

Holofote Virtual: O Henry tem parcerias com outro poeta daqui de Belém, mesmo morando em São Paulo. Como consegues manter os vínculos, há tantos anos fora daqui?

Henry Burnett: Engraçado você dizer isso, porque me sinto muito apartado artisticamente de Belém. As parcerias são vínculos silenciosos, sempre com pessoas com as quais tenho trabalhado há muitos anos e com quem partilho um tipo de compreensão da música muito definido.

O Edson Coelho, meu parceiro junto com a Florencia Bernales no disco Interior (2007), foi o primeiro cara com quem compus, ainda adolescente e pedreirense, por volta de 1989...

O Renato Torres é meu parceiro desde 1997, quando nos conhecemos e ele começou a atuar nas diversas formações que me acompanharam de lá até aqui: o Pai-Ubu e o Clepsidra, por exemplo. O trabalho com ele moldou de diversas formas a sonoridade do meu trabalho posterior e nos tornamos parceiros também.

No caso dele, engraçado, eu muitas vezes fiz o papel de Paulo Vieira, ou seja, entreguei os poucos textos que escrevi sem música, todos concluídos por ele. Não por acaso, o Retoque só foi executado porque é um disco de pessoas que se conhecem muito bem. O Clepsidra arranjou as canções junto comigo e na medida em que gravávamos, sem pré-produção, sem tempo, sem quase nada que não os vínculos eletivos, são eles que me ligam a Belém ainda.

Holofote Virtual: O Paulo tem um blog, Henry Burnett, músicas no myspace. Vocês enxergam e utilizam a internet como instrumento de inclusão no mercado? Ela ajuda a encurtar os caminhos entre uma obra artística e o público...

Paulo Vieira: Olha, Lu, apesar de eu não usar twitter, facebock, orkut, iogurte e outros derivados, acredito, sim, na internet como um espaço de comunicação democrático (me arrisco a dizer isso, num tempo em que tudo é chamado de ‘democrático’, até a maquininha de cartão de crédito...).

Por exemplo, uma pessoa com um real no bolso pode passar uma hora pesquisando seja lá o que for... Sexo, drogas, rock ‘n’ roll, editais de literatura, poetas, músicos, downloads de livros e discos que não pode comprar, e muito mais.

Foi por email que recebi a chamada para o edital Funarte 2008/2009, daí, curioso, cliquei no link e vi o sitio da Fundação, eu nunca tinha visitado, cliquei em ‘ver edital’ e... Portanto, se a internet é formidável no sentido do acesso ao mundo rico e diverso da informação, é ainda mais quanto ao encurtamento das distâncias geográficas.

Henry Burnett: Sim, mas veja como o mercado é simples. Não basta um myspace, um blog e boas canções, é preciso um comportamento próprio ao momento do mercado, é isso que não me atrai: a invenção de um artista direcionado para o que o ouvinte médio atual pede. Seria até simples, bastaria enxertar o estilo da guitarrada ou umas levadas de tecnobrega no Retoque, porque o Brasil está deslumbrado com essa sonoridade, mas seria uma apropriação indébita... pelo menos no meu caso. É, como se diz, a hora da música do norte. Eu, desterrado, ficarei de fora.

Holofote Virtual: Os editais tem sido a plataforma de salvação para os mais novos neste mercado?

Paulo Vieira: Sim. Principalmente para poetas. Para uma editora se interessar por um autor que escreve prosa o cara precisa fazer muito, muito mesmo.

Agora, para uma editora se interessar por um cara que escreve poesia, é preciso que, é... Pensando bem, não é preciso nada, não vai haver interesse. Mercado não está nem aí para o que não vende. Poesia não vende. Salvo exceções, bons poetas só despertam interesse comercial depois de meio século de atividade, ou depois da morte... Portanto, em minha opinião, os editais são a melhor maneira de publicar (‘de graça’) e de ter a chance de ser lido um pouco aumentada.

Holofote Virtual: Banda Clepsidra...

Henry Burnett: Não é uma participação, no sentido de uma entrada em cena como convidada. O Clepsidra é um elemento chave do disco, e no palco vamos reproduzir os arranjos originais, e também estamos ensaiando algumas surpresas que de algum modo dialogam com os temas do Retoque.

Paulo Vieira: A relação do Henry é de longa data, a minha é muito recente. Hoje, depois de termos ido para o estúdio, posso dizer que entendo bem a confiança quase cega do Burnett nessa banda. Renato, Artur e Panzera, estão ligados ao compositor pela amizade e afinidade musical. Para ter ideia, tudo foi criado no estúdio, tudo. Ninguém levava dever de casa. E o disco foi gravado em um mês.

Henry Burnett: Todos os poemas recitados e cantados estarão no show, mas vamos tocar algumas canções dos outros discos, e algumas surpresas.

Paulo Vieira: O show vai oferecer ao ouvinte / leitor a possibilidade de ouvir (diretamente do disco) a maioria das faixas que eu recito. Optamos por isso para valorizar o trabalho eletroacústico de Rodrigo Ferreira e as vozes delirantes de Iva Rothe em algumas das faixas. Mas eu participarei ao vivo em algum momento. Também foram escolhidas por mim três faixas de outros discos do autor, duas de seu Não para magoar, e uma do Interior, além de uma quarta faixa surpresa.

Holofote Virtual: Pensam em lançar este trabalho fora de Belém?

Henry Burnett: Certamente, mandarei para algumas pessoas que receberam bem os dois discos anteriores, e com a ida do Paulo para São Paulo, teremos muito a fazer por aí.

Paulo Vieira: Sim. Pensar em lançar eu penso: Berlim, São Paulo, Paris, Milão, na Time Square, em Caracas, Buenos Aires, São Miguel do Rio Guamargo, no Bar do Rex em Bragança, Ah, sim! E em Santarém, na beira do Tapajós... Já pensou?... Eu penso.

Holofote Virtual: Próximos passos, independente da parceria...

Henry Burnett: Estou finalizando um novo livro, uma reunião de ensaios sobre música e filosofia, sairá pela editora da UNIFESP final deste ano.

Paulo Vieira: Tenho andado mais interessado em ler do que em escrever. Portanto, na atualidade, e sem muito planejamento, essa prazerosa atividade de leitura tem me ocupado mais. Não tenho, hoje, nenhuma ideia nova para livro, não sei se terei amanhã, ou mais tarde.

Ah!.. Sim, já ia me esquecendo, parece que finalmente, e a muito custo, peguei as manhas de escrever letras de música. Sem me interessar pelas confusões conceituais que giram (bestas) em torno daquela velha pergunta, ‘uma letra é uma poesia?’. Assim, tenho feito isso também, ando escrevendo letras, de quando em quando.

O que tem me levado a entender que ela é somente uma parte de ‘algo’, pois ainda estará destinada ao trabalho de mais alguém, o compositor, e mais outro que arranja, e mais outro e outro, igualzinho ao futebol. Parece que é isso: compor os poemas, para mim, é como fazer algo na condição de escafandrista submerso e só. Agora, compor uma letra de música é como jogar uma pelada com amigos.

3 comentários:

Henry Burnett disse...

Lu,

gostaria de agradecer a chance por essa entrevista e parabenizar você pela qualidade e seriedade da cobertura cultural do seu blog. Um presente de lançamento do nosso livro/disco!

Renato Torres disse...

Lu,

maravilha de entrevista! perguntas certeiras e instigantes, e um clima quase de "tempo real" enquanto os dois artistas vão dialogando/divagando. parabéns pelo blog, e vida longa à amizade e parceria de todos nós!

beijos,

r

ronaldo franco ( RF) disse...

Amigo Paulinho:

Vc é um boníssimo poeta e deve ser um criativo letrista.Como entrevistado (esse > conheço bem) é excelente.Como amigo é um zero bem redondo.rs Sin-ce-ra-men-te!rs
Seu cartaz está em meu blog, irmãozinho.
(Desejo que Belém vá ao lançamento do seu CD.)
Abraços do seu verdadeiro amigo, Ronaldo Franco.