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| Luiz Zanin, com Werner Herzog |
O cineasta alemão, aos 68 anos, esteve presente, nesta última segunda-feira, 16, no Instituto Goethe, na mostra que está sendo dedicada à sua prolífica carreira documental, e cuja programação seguirá até sábado, 21 de maio.
Nesta terça-feira, 17, ainda no Brasil, ele participou do primeiro dia de programação do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, da revista "Cult", que acontece até a próxima sexta-feira, 20, no Sesc Vila Mariana.
Deixando transparecer o prazer de estar no Brasil, o cineasta falou de jornalismo cultural, de sua produção cinematográfica, Glauber Rocha e contou ainda inúmeras histórias sobre os bastidores de alguns de seus filmes e de sua relação conflituosa e notória com o ator Klaus Kinski, inclusive narrada no filme “Meu Inimigo Íntimo”.
“Uma vez eu disse que ia matá-lo. A imprensa chegou a afirmar que atirei nele, mas nem estava armado, só o ameacei”, cotou. O ator segundo ele era mais selvagem que os índios. Certa vez os nativos, que não temiam as loucuras de Kinski, chegaram a perguntar a Herzog se ele não gostaria que eles mesmos dessem fim em Klaus.
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| "Vou distribuir meus documentários no Brasil" |
Documentários - Com uma obra oceânica, como foi frisado pelo escritor e crítico de cinema do Jornal O Estado de São Paulo, Luiz Zanim, Werner Herzog possui vários documentários ainda desconhecidos pelos brasileiros. O diretor diz, porém, que está cuidando para mudar a estratégia de distribuição de seus filmes e fazer com que eles cheguem aqui e não fiquem restritos aos Estados Unidos, onde ele ganhou espaço fazendo um sucesso nunca visto antes.
“Faço muitos filmes por ano. Adoro filmar, escrever, dirigir tudo que é cinema e quis fazer isso mais rapidamente, por isso deixei de produzi-los para só filmar. Mas vou retroceder e voltar ao controle da produção para melhor distribuí-los, tendo subtítulos em português e mostrá-los mais no Brasil”, disse.
Sua produção é intensa, só este ano são oito novos filmes, cinco deles devem ser entregues até agosto, revelou ontem à platéia do III Congresso de Jornalismo Cultural, formada por profissionais da área cultural, jornalistas, estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores, professores e demais interessados no segmento.
Foi uma manhã como poucas. Afinal não é todo dia que se tem oportunidade de estar de frente com o diretor de clássicos como "O Enigma de Kaspar Hauser" (1974) e “Fitzcarraldo” (1982) e ainda, de quebra, ouvir suas histórias à respeito da convivência que teve nos anos 70 com o cineasta brasileiro Glauber Rocha, o homenageado do evento este ano.
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| Lembranças da época em que conheceu Glauber Rocha |
“Fiquei hospedado na mesma casa que o Glauber, em 1975, nos Estados Unidos. Ele falava sobre andar a pé, viajar muito, ler e escrever, mas era desorganizado, deixava tudo espalhado, tinha muitos papéis escritos.
Ele chegou a esquecer que já poderia voltar do exílio para Brasil e quando lembrou ficou muito feliz, correu pela casa, espalhando seus escritos todos pela cama, escrivaninha e perdeu milhares deles. Eu recuperei umas 150 páginas. Glauber está no meu coração e para mim, ele continua iluminando o Brasil”, disse à Paloma e Sarah Rocha, a filha e a neta do cineasta que completa este ano, 30 anos de morte. As duas também estiveram presentes à abertura do congresso.
Cult e novas tecnologias - Quando abordou o jornalismo cultural feito no mundo, hoje, Herzog disse que ficou feliz com a homenagem da Revista Cult, que também traz Glauber Rocha na capa da edição deste mês, onde há uma extensa documentação de sua obra.
“Estou impressionado com a vivacidade desta revista que possui um discurso inteligente”, elogiou e disse mais. “Há pouco ou nada como isso nos EUA. Não há crítica, vemos muitas notícias sobre celebridades e na França, bem lá há um discurso muito intelectual. É muito francês... e às vezes essa coisa é complicada para mim”, disse. E foi aplaudido pela pateia.
Quanto às novas tecnologias, ele pondera, mas sabe que precisou render-se a ela para, por exemplo, filmar em 3D “
Caverna dos Sonhos Esquecidos”, documentário que retrata as pinturas que datam de mais de 20 mil anos no interior da caverna de Chauvet, no sul da França. Veja o
trailler.
De acordo com ele, foi necessário se utilizar desta tecnologia, pois as pinturas foram feitas em alto relevo e são de altíssima qualidade artística.
Por este cuidado que precisava ser tomado, Herzog teve que utilizar diferentes técnicas de filmagem. Para preservar a integridade do local, apenas uma equipe, de quatro pessoas, em períodos de quatro horas puderam entrar na caverna e filmá-la. Além disso, todos precisavam usar roupas especiais e tinham movimentos restritos e muito cuidadosos.
Sobre redes sociais, como twitter e facebook, ele diz que não usa muito, prefere estar perto das pessoas e convidar seus atores para um almoço feito por ele mesmo. "Vejo que há benefícios, mas os jovens às vezes estão em uma mesma sala se comunicando pelo twitter", espanta-se.
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| "Glauber não está morto. Ele está vivo, acreditem" |
Brasil - Sobre o cinema nacional, Herzog disse que viu algumas coisas, pois não costuma e nem tem tempo para ver muitos filmes mesmo, diz que vê entre dois a três, por ano, com exceção do ano passado, quando viu uns 20, pois era presidente do júri da 60a edição do Festival Internacional de Berlim.
“Acredito que o cinema brasileiro esteja crescendo, principalmente por causa das facilidades que se tem hoje, você pode comprar uma câmera, filmar e editar em seu lap top. Com 10 mil dólares você faz, hoje, um longa metragem. É só trabalhar e este é o meu conselho”, disse.
Para ser um bom cineasta, segundo ele, é preciso mais ainda. “É preciso conhecer o coração do ser humano. O cinema tem esta missão de desvendar. Você tem que ser poético e fazer uma conexão direta com o público. Através da poesia e do cinema, devemos contar uma história que vá além dos textos. Por isso, voltemos a Glauber. Acreditem, ele não está morto”, finalizou, agradeceu e se despediu de todos, informando que não ficaria mais por causa dos cinco filmes que ele precisa finalizar.
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| Debate com editores Júlian Gorodische e Sylvia Colombo |
Congresso – Herzog deixou emocionado o público que lotou o auditório do Sesc Vila Mariana. Pela parte da tarde na programação do III Congresso de Jornalismo Cultural ainda foram debatidos: “A responsabilidade do Editor” , com participação de Julián Gorodischer, editor-chefe da revista Ñ, do jornal El Clarín (Argentina) e de Sylvia Colombo, ex-editora do Caderno Ilustrada, Folha de S. Paulo, com mediação: Ivan Giannini, superintendente de comunicação social do SESC São Paulo.
Em seguida, o tema abordado foi “Os riscos e ameaças para o exercício do jornalismo cultural”, com Paulo Werneck, editor do caderno Ilustríssima, Folha de S. Paulo; Robinson Borges, editor de cultura do jornal Valor Econômico e mediação de Rodolfo Carlos Martino, coordenador de jornalismo da Universidade Metodista.
A programação do primeiro dia fechou com a palestra: “A Teoria de Lyon”, de Enrique Vila-Matas, escritor espanhol, com Paulo Roberto Pires, escritor e diretor de redação da revista Serrote.
O congresso segue até sexta-feira, 20. Veja a programação,
aqui.
(Holofote Virtual, de São Paulo/SP)