17.8.17

Territórios da Arte inicia mapeamento em Belém

Começou o “Territórios da Arte”, em Belém do Pará. O encontro vai até sexta-feira, no ICA - Instituto de Ciência da Arte da UFPA, na Praça da República, e no sábado, 19, no Espaço Cultural Coisas de Negro, em Icoaraci, com uma roda de conversa e de carimbó. Deve encerrar tão potente quanto iniciou. Anne Dias, Berna Reale, Gutti , Wlad Lima e Auda Piani deram início aos diálogos. 

O projeto da Universidade Federal Fluminense, a UFF (RJ), em parceria com a Funarte, pretende mapear experiências de coletivos de cultura, artistas e produtores culturais, nas cinco regiões do país, criando em cada uma delas uma cartografia afetiva. É o que se fará nestes próximos dias. A quem interessa? É só chegar, as inscrições agora são presenciais.

Não foi à toa que Belém entrou na rota do mapeamento. Essa cadeia produtiva não é recente, remonta aos anos 1970 quando muitos grupos de teatro e um movimento intenso nas artes visuais, cinema, música e fotografia iniciaram com o propósito de chacoalhar a cena, mais recentemente, novas configurações surgiram, com novos coletivos artísticos, espaços culturais e outras formas de se produzir e viver da arte, o que chamou atenção de Leonardo Guelman, Superintendente do Centro de Artes da UFF e gestor do projeto, incentivado pela professora paraense Elis de Miranda, que coordena o projeto de implantação do Galpão Cultural da UFF\Campos.

O Holofote Virtual vem acompanhando essa produção em Belém, que mesmo nos momentos mais difíceis, nunca deixou deixa de existir. Todos terão, de certo, uma contribuição importante para o Territórios da Arte. O objetivo é desvendar os mais novos arranjos produtivos, criados ou reinventados pelos coletivos culturais, artistas independentes e produtores, que no seu fazer artístico lidam com política pública, ou, na verdade, se reinventam com a ausência desta, sem deixar de reconhecer que os Direitos à Cultura também fazem parte das obrigações do poder público.

É preciso conhecer mais a cena para reinventar também esta relação. Esse é o maior dos objetivos do Territórios, instrumentalizar a própria Funarte no aprimoramento e criação de editais que atendam a sempre mutante cena da produção cultural em um país, atualmente, instabilizado em todos os setores.

As potencialidades de uma cultura em ação coletiva e afetiva

A primeira rodada de conversa foi mediada pelo próprio Leonardo Guelman, que trouxe para a abertura do encontro, vivências na arte, pelo teatro, performance, ocupação artística, produção e ativismo cultural.

Até sexta-feira, muitas outras experiências estarão na roda, como a (r)existência de espaços independentes do Casarão do Boneco, que surge como sede do grupo In Bust Teatro com Bonecos, referência em pesquisa sobre o teatro de formas animadas na região Norte; e mais recentemente vem se mantendo de forma coletiva, reunindo grupos de teatro, artes visuais e circo, que atuam no espaço, realizando programações de fluxo contínuo, abertas à comunidade, atendendo geralmente ao público infantil.

A Casa dos Palhaços, inaugurada em 2010, segue como espaço de produção e apresentações do Grupo Palhaços Trovadores, que também realizam  oficinas e  recebem grupos em circulação pela região.  Mais recentemente, o surgimento da Casa Velha, que reúne coletivos de música e atores do pensamento da arte urbana e de periferia. O Estúdio Reator que desenvolve um trabalho na área da performance,  arte e tecnologia. Há ainda a Associação Fotoativa e o Instituto Arraial do Pavulagem, para falar de atuações de décadas.

Muitos espaços vieram à tona, revolucionaram, mas acabaram fechando como o Espaço do Coletivo Dirigível de Teatro, em 2016. Hoje, enquanto grupo, seus integrantes atuam no Casarão do Boneco. Um ano antes, em 2015, o Grupo Cuíra também ficou sem sede, deixando a cidade órfã de suas temporadas de espetáculos. E há a Casa da Atriz, espaço de uma família de artistas que se abre esporadicamente com espetáculos.

As redes sustentáveis e suas conexões

Entre os projetos desta cena, surge, em 2013, o Circular Campina Cidade Velha, que reúne espaços auto gestionados por produtores culturais, empreendedores da economia criativa e artistas independentes, situados nos bairros antigos de Belém e que vem trazendo novos significados à revitalização do Centro Histórico de Belém. O Circular será um dos temas da sexta-feira, no eixo Direitos à Cultura.

A experiência do Coletivo Aparelho, em sua ocupação no Mercado do Sal, também é fantástica. Trabalha a arte e o social envolvendo as comunidades que vivem naquele entorno portuário, área de risco social alto, e que hoje, vem ganhando novos horizontes no campo cultural. Mais recentemente criou uma biblioteca comunitária em um dos boxes do mercado, contado, hoje, com mais de 600 livros, que agora psssam por sistematização e catalogação. O projeto foi exposto, ontem, na roda.

Na pesquisa, recentemente a atriz e professora Nani Tavares defendeu tese em que traçou um mapa para colocar estas iniciativas em Belém em conexão umas com as outras, resultando no site Redes Espaços Artísticos. Ela fala hoje sobre sua pesquisa.

Em julho, outra iniciativa, desta vez em parceria com o NAEA - UFPA em parceria com o Casarão Viramundo,  apoio do Holofote Virtual e Projeto Circular, reuniu em duas oficinas gestores e artistas, em busca de compreender melhor essa nova forma de lidar com o universo da arte no campo político. E há ainda o Projeto Camapu.

Citei apenas algumas das experiências e situações, existem muito mais. Ontem algumas delas foram expostas, outras ainda estarão no centro da roda, outras se ainda não estão representadas, devem se antenar e chegar na programação, que seguirá até sábado.

Site e publicação reunirão conteúdos dos encontros

O Territórios da Arte está sendo registrado. O material será disponibilizado de forma organizada no site do projeto e numa publicação que será lançada. Por isso, ontem, representantes da Funarte e artistas convidados de Belém e que vieram em caravana do Rio de Janeiro queriam saber, quais experiências e vivencias traria a primeira mesa sobre “Arte de Viver e Viver da Arte”.

Maristela Rangel, Diretora do Centro de Programas Integrados da Fundação Nacional de Artes, depois de ouvir todos da roda e ao abrirem para o debate, as manifestações de pessoas na plateia, disse que reconhece legitimidade em todas as falas.

“Não tenho nenhuma objeção, nem da mesa ou da plateia, no sentido de discordar. Os editais da Funarte há muitos anos, vêm discutindo o Custo Econômico das regiões, inclusive o Custo Amazônico. Este é grande debate dentro da Funarte”, revelou. “Temos editais específicos que precisam ser retomados em relação Amazônia”, complementou.

Auda Piani é ativista cultural, contadora de histórias, produtora e pesquisadora, autora do projeto Mestres da Cultura de Icoaraci, que mapeou mais de 60 mestres da arte do carimbó e da cerâmica, cordão de bichos, entre outros folguedos da cultura popular da Vila Sorriso. Cultura para ela é identidade.

Gutti Fraga, ator, jornalista, e diretor, criador do projeto Nós do Morro, no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, figura de trajetória intensa, entre tantas coisas, foi o responsável por preparar um grupo de 150 jovens atores, dentre os quais saíram os protagonistas do filme “Cidade de Deus”.

Wlad Lima, atriz, cenógrafa, diretora e pesquisadora, que trouxe para a roda sua experiência com espaços de arte, exibiu um teaser do espetáculo realizado logo depois que o Gupo Cuíra fechou as portas de teatro, no bairro da campina. O espetáculo, inusitado, era feito dentro de um ônibus que circula pela cidade, enquanto transcorre a peça.


Berna Reale também integrou a mesa. Perita criminal e performer, nacional e internacionalmente, reconhecida, ela diz que não vive da arte, mas que investe tudo que ganha, para realizá-la.

A artista mostrou trechos de algumas de suas performances, a primeira delas, uma crítica à Ditadura, em que ela, de focinheira, como um ‘canibal’, desfila montada em um cavalo, todo pintado de vermelho, em plena Av. Presidente Vargas, em Belém.

Enquanto falava de sua arte de viver, nos mostrou ainda um trecho da performance que ela fez no Lixão do Aurá, e a mais sua mais recente obra, que está sendo exibida no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo. Contundente, Berna Reale é contundente. Saí do ICA a admirando ainda mais.

Anne Dias, também atriz e produtora, falou da experiência do Coletivo Aparelho, projeto de ocupação artística do Mercado do Porto do Sal, na Cidade Velha, que já citei acima e falou da biblioteca para as crianças das comunidades do Beco Malvina e Beco do Carmo, com centenas de livros já doados que agora estão sendo catalogados.

O projeto da biblioteca chamou atenção da Funarte. Maristela informou que tem uma gerência em sua diretoria, que publica livros na área da cultura - cinema, teatro, literatura, música  - e desenvolve uma campanha de doação, que por meio de um cadastro, bibliotecas comunitárias podem ser beneficiadas recebendo as publicações.

Roda de hoje discute as experiências colaborativas

Nesta quinta-feira, 17, a programação inicia às 15h, com o tem "Experiências colaborativas em Artes - O papel dos coletivos na reconfiguração da cena artístico-cultural nos territórios", com participação de Faeli Chaves de Moraes (escultor, grafiteiro, quadrinista e militante cultural), Ronaldo Silva (Arraial da Pavulagem), Marton Maués (Casa dos Palhaços), Nani Tavares (Rede Espaços Artísticos) e Paulo Ricardo Silva Nascimento (Casarão do Boneco), com mediação de Elis Miranda (UFF).

Em seguida, às 17h, vamos falar sobre "Ritmos do cotidiano: matrizes, reapropriações estéticas e hibridizações", ouvindo as experiências sobre as estéticas da tradição viva, suas resistências e reinvenções através de novos processos de conexões, contaminações e trocas entre diferentes matrizes culturais. 

Os palestrantes serão os músicos Pio Lobato (guitarrista e produtor), Allan Carvalho (cantor e compositor), Hugo Caetano (cantor e poeta. Cobra Venenosa), DJ Juninho Super Pop (Pop Som Aparelhagem), Cláudio da Costa Trindade (Diretor de Ensino da Fundação Carlos Gomes) e Eliana Bogéa (professora e pesquisadora). A mediação será de Marcos Souza (Dir. do Centro de Música da Funarte).

O intervalo será para um café com tapioca e depois voltar à arena para iniciar a nossa "Cartografia cultural: mapa falado colaborativo de coletivos artísticos e expressões culturais", que terá como articuladores, Luiz Mendonça (UFF) e Pierre Crapez (UFF). Vai ser um exercício de muito aprendizado.

Mais informações e programação, na página do projeto Territórios da Arte

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