25.11.17

Resistência e tradição da cultura negra no cinema

O blog destaca na próxima semana a Mostra de Cinema NEGRO FICCA, que reúne 10 filmes nacionais e estrangeiros, de autores negros e de temáticas a partir da arte e da resistência negra, com sessões abertas ao público e com participação e comentários dos realizadores André dos Santos, Danilo Gustavo Asp, FranciscoWeyl, e Hilton P. Silva. Parceria da Casa África-Brasil com o Festival Internacional de Cinema do Caeté, sob a curadoria de Francisco Weyl e Hilton P. Silva, a mostra será realizada nos dias 29 e 30 de novembro, às 16h, na Sala de Leitura do Laboratório de Antropologia Arthur Napoleão Figueiredo (anexo ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/UFPA), em Belém. 

Por Francisco Weyl

Há mais relações entre Brasil e África do que possa imaginar a nossa vã filosofia. Nas fronteiras entre estes dois “mundos”, observamos diversos e complexos processos, e fenômenos.  Desde a Irmandade dos Homens Pretos da Ribeira Grande da Ilha de Santiago (Cabo Verde) até a Irmandade de São Benedito (Bragança). Desde os “rabelados” cabo-verdianos aos povos remanescentes de quilombos amazônidas e paraoaras-caeteuaras.
  
Desde a ascensão até a queda da política de expansão pombalina em África e Brasil. Desde a fundação da Companhia do Grão Pará e Maranhão (1755) até a “Viradeira” (1778).
Com o desaparecimento da documentação brasileira da Companhia, entretanto, perderam-se informações de fins do século XVIII e início do século XIX.

Mas ninguém duvida que a mão-de-obra, o conhecimento, e a cultura negra, tiveram importância e influenciaram no desenvolvimento da economia na Região Amazônica. 
A história da escravidão no Pará, de acordo Vicente Sales (2005), tem a marca da resistência de negros e índios pela liberdade, por meio da fuga, da construção dos quilombos e da participação na Cabanagem. Os escravos trabalhavam em atividades agrícolas, e extrativistas, em trabalhos domésticos, nas cozinhas, e nas construções urbanas.  

Lançamento, dia 29.11
O Pará tem mais de 400 comunidades tradicionais quilombolas.  Cerca de 70 delas se localizam no vale do rio Tocantins, mas, apenas 11 comunidades estão legalmente tituladas. Muitos negros subiram os rios e se deslocaram para esta Região, que tem cerca de 60% da população autodeclarada negra.O fato revela o (auto)reconhecimento da ascendência africana no sangue, na língua, e na cultura da Região Baixo-Tocantins, Nordeste paraense.

A pesca do camarão, a caça de animais, e atividades de agricultura familiar (principalmente a produção da mandioca), constituem a base de sobrevivência nessas Comunidades. E hoje sua identidade étnico-cultural se encontra ameaçada, sobretudo pela migração de jovens e pelo envelhecimento dos adultos que ali permanecem, muitas vezes isolados.Consequentemente, há perda gradativa das manifestações culturais, danças e ritmos, mais característicos dessas comunidades”.  

N E G R O - F I C C A
P R O G R A M A

Quarta-Feira, 29 de Novembro

Equidade Racial
(Danilo Gustavo Asp – PA, 33 Min / Prêmio Júri Popular - FICCA 2016)
Documentário, realizado pela Co.InsPirAcão AmAzônic@ Filmes é o registro fílmico de ações pedagógicas de formação itinerantes desenvolvidas nas comunidade do Cigano, Torres, e Jurussaca - pela Coordenação para Igualdade Racial Quilombola da Secretaria Municipal de Educação de Tracuateua/PA.

Feli(Z)cidade 
(Clementino Júnior, RJ - 12 Min / Melhor Documentário - FICCA 2015)
A felicidade na perspectiva de 9 moradores e trabalhadores no Complexo da Maré durante o processo de Ocupação do Exército e a troca para a polícia. 

Conflitos e Abismos 
(Everlane Morais, SE - 15 Min / Melhor Curta-Metragem - FICCA 2014)
Resgate da trajetória artística de um artista sergipano, a estética de seu trabalho, e a sua concepção de universo artístico. A escolha da obra desse artista se dá exclusivamente por conta do tema ao qual o artista se detém: a expressão da condição do homem e pelo modo como seu trabalho se compõe em termos estéticos. 

Gapuiando - Identidades e saberes do Rio-Mar de Abaeté (Lançamento)
(Francisco Weyl - PA - 26 Min )
Na cidade dos homens fortes e valentes de Abaeté, a vida humana é atravessada pelas águas. E o rio signo cultural dissemina e exerce uma prática social. No trabalho, no lazer, no movimento das embarcações e de seus rios, furos e igarapés, pela sua estética e encantamento, neste ir e vir das gentes, o rio-mar de Abaetetuba, expressa beleza, fronteira, território, e saberes dos povos das águas.

Samba de Cacete: Alvorada Quilombola
(André dos Santos e Artur Arias Dutra – PA, 26 Min, 2016)
O Samba de Cacete é uma manifestação cultural ainda preservada em comunidades quilombolas do baixo rio Tocantins, Amazônia paraense, que envolve música, canto e dança com elementos dos batuques afrobrasileiros. O documentário, selecionado para o Festival de Cannes, França, em 2017, registra essa manifestação cultural quase desconhecida no Brasil, na comunidade quilombola chamada de Igarapé Preto, no município de Oeiras, região nordeste do estado do Pará.

Quinta-Feira, 30 de Novembro

Caboverdeanamente 
(João Sodré -  Moçambique / Portugal - 50 Min) 
Lundu. Do coração de África para o Mundo, uma forma musical transforma-se no contacto com outras culturas. Da sua miscigenação nascem o Fado e o Samba e a música do planeta começa a tornar-se global. Lundu. Música, dança, semente cultural que brotou das mãos dos escravos oriundos de África, passando por Cabo Verde, e vindo a disseminar no Brasil e Portugal, está é a sua história. Através de um conjunto de relatos de músicos, concertos e viagens até ao berço da humanidade, percorremos a história desta dança que é um estilo de vida, esta melodia que é um ritual, uma cultura.

Guiné-Bissau, colorido de ritmos e movimentos 
(Hilton P. Silva - PA -  8,5 Min)
Uma abordagem na linha do “docuficção” com uma perspectiva etnovisual, antropológica e arrojada sobre movimento, dança, ritmo e cultura na Guiné-Bissau, pequeno país lusófono da África Ocidental, a partir de imagens colhidas em tempos diferentes, por diversos atores sociais, e interpretadas por olhares artísticos-estéticos-criativos, que envolvem a produção realizada por novos talentos regionais e a colaboração de guineenses que vivem na Amazônia. 

Guiné-Bissau - A esperança dos foliões 
(Júlio Silvão Tavares - Cabo Verde - 20 Min)
O Carnaval é a mais emblemática manifestação étnico-cultural da Guiné-Bissau, símbolo de unidade deste povo martirizado pela instabilidade política, social, paz e desenvolvimento. Os foliões eufóricos e desbundados marcham pela paz e assim animam, contagiam, fascinam e seduzem. É o povo a manifestar o que lhe vem na alma, a sua alegria e tristeza, a mostrar a sua força e apelando ao resgate dos valores sublimes que outrora serviram de protesto contra tanto derrame de sangue e de suor na gesta da luta pela libertação, independência e construção da Pátria amada.

Coeur cosmic comes toutes les femme 
(Misá, Cabo Verde - 10 Min)
Misá e o projeto do sexto continente se envolveu desde 1996 a realizar duas aldeias criativas com residências artísticas, é uma grande escada evolutiva na sua diversidade de consciência tanto nível Nacional como Internacional, seu objetivo é "Semear o mais belo de cada ser humano para uma humanização em harmonia com a paz alegria e Liberdade".

Terra, Terra 
(Paola Zerman, Cabo Verde - 37 Min)
Documentário musical dirigido por Paola Zerman em colaboração com a diretora, a jornalista Albertina Rodrigues, e a "Casa da Música" Ocean Cafe. Através das vozes de Ulisses, Sílvia Medina, Nazálio Fortes, Ettore Ferro e muitos outros, o filme mostra a cultura e a identidade artística da Ilha do Sal (Cabo Verde).

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