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26.4.21

Milton Aires estreia obra cênica de dança-teatro

Curral de Peixe compõe o projeto de pesquisa “Cena-memória: poética de atuação de um ator dançarino”, do paraense Milton Aires. A obra foi selecionada pelo Edital de Atividades Artísticas da Lei Aldir Blanc, da Secretaria de Cultura de Goiânia. A produção é da JamboeJambú, coprodução da ACERCA e apoio do IFG e BACAE. O lançamento é quinta, 29, às 20h, pelo YouTube da produtora.

No cerrado brasileiro, um artista recria ambientes e lugares de sua tenra infância até a vida adulta na Amazônia paraense. Nesse retorno ao passado, corpo e memória são os guias para um encontro com suas origens. A casa antiga nas margens de um rio, as primeiras experiências de aprendizado em família, as construções de amor, afeto e identidade. As alegrias, despedidas e saudades. 

Resultado do Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Licenciatura em Dança do IFG - campus Aparecida de Goiânia, a obra cênica de dança-teatro estava prevista para estrear em 2020,  com apoio do Edital PROEX / IFG InspirArte 2020, mas com a necessidade de isolamento social imposta pela pandemia da COVID- 19, que instituiu ao mundo inteiro uma pausa e interrupção das atividades presenciais e de aglomeração, tudo foi adiado. 

“Após três meses da pandemia no Brasil, foi perceptível que a quarentena não seria tão breve e que aquele estado de exceção perduraria sem prazo para terminar”, diz Milton Aires, que nasceu em Ponta de Pedras, no Marajó, fez carreira no teatro e dança, em Belém, e que desde 2015, vive em Goiânia (GO), onde além de estudar, criou a JamboeJambú Produtora, junto com Patrick Mendes.

As atividades foram reiniciadas em meados de julho, através de um aporte aprovado no Edital InspirArte, um programa emergencial de fomento a ações de Arte e Cultura no período de isolamento promovido pela Pró-Reitoria de Extensão do IFG – Instituto Federal de Goiás. Neste novo contexto a proposta foi atualizar o trabalho prático e adaptá-lo para o formato audiovisual. Etapa feita de forma remota pelo artista criador Milton Aires, que contou com as colaborações fundamentais do artista Patrick Mendes, que assumiu a captação e direção de vídeo, e a orientação artística de Tainá Barreto, por meio de encontros virtuais.

O desafio então passou a ser a composição para essa outra linguagem, fenômeno que naturalmente alterou a dramaturgia e as paisagens que passaram a ambientar a cena-memória em Curral de Peixe, avesso da cena-memória. Produção que obedeceu a um ciclo próprio de experiência prática. “Num primeiro momento estudamos o roteiro partindo de uma observação dos espaços da casa e quintal, que se mostraram potentes a ocupação das cenas, seguido de ensaios pontuais e testes de câmera que auxiliaram na reconfiguração do roteiro para a versão audiovisual” comenta Milton.

O passo seguinte foi trabalhar a direção de arte do espaço para atender às necessidades do novo roteiro. A ambientação e adaptação cenográfica para cada acontecimento de modo que os ambientes aludissem as imagens poéticas de um trapiche, ponte, um lago, curral de peixe e quintal de interior, paisagens essenciais que compõem a narrativa construída.

Já na última fase vieram os processos de gravação e edição das imagens capturadas, norteados por elementos da criação de vídeo-dança e videoarte, bem como, da experimentação própria da linguagem audiovisual. “Um momento prazeroso do trabalho e de enorme maturidade também. Percebemos que o encontro da cena presencial com a linguagem do vídeo se deu ali. A adaptação do trabalho reflete nosso contexto, atualiza e traduz o processo de criação enquanto obra audiovisual, transmitindo um último e necessário aprendizado, as possibilidades de um trânsito entre as linguagens na arte contemporânea” comenta Patrick Mendes, um dos realizadores.

FICHA TÉCNICA

Produção: Jambo e Jambú

Coprodução: ACERCA

País, ano, duração: Brasil, 2021, 27'

Com: Milton Aires

Direção: Milton Aires e Patrick Mendes

Orientação artística: Tainá Barreto

Serviço
Curral de Peixe, Avesso da Cena-memória Obra autoficcional de Milton Aires Estreia nesta quinta-feira, 29 de abril e ficará disponível até dia 1 de maio de 2021), no Canal YouTube / jamboejambu. Informações acesse: https://linktr.ee/curraldepeixe

Mais sobre Milton Aires aqui no blog:

22.6.11

Makunaíma de Milton Aires estreia em BH e retorna a São Paulo em julho

Enasio de Makunaíma para o Cenas Curtas de BH
Depois de apresentá-lo na I Mostra Amazônida de Experimento Teatral em São Paulo (maio), o ator Milton Aires leva “Makunaíma: Em a Árvore do Mundo e a grande enchente” para Minas Gerais, onde participa nesta quinta-feira, 23, como um dos selecionados, do 12º Festival de Cenas Curtas, do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte. 

O Festival de Cenas Curtas já foi espaço de criação para importantes grupos mineiros de renome nacional, como o Espanca! e a Cia. Clara, e há alguns anos mantém um diálogo com outros festivais pelo Brasil, criados sob influência de seu formato, como: a Mostra Cena Breve (Curitiba/PR), Festival Dulcina de Cenas Curtas (Brasília/DF) e o Festival Breves Cenas (Manaus/AM).

Este ano, penas 16 cenas participam do projeto, que já se tornou referência de experimentações no cenário cultural de BH. Milton concorreu com outras 103 propostas vindas de 13 estados diferentes. A programação do festival conta, ainda, com debates, festas, shows e um hotsite com a cobertura completa do evento.

“Makunaíma: Em a Árvore do Mundo e a grande enchente” mostra situações cotidianas e metáforas, que ambientam o universo de histórias do herói Makunaíma, recontadas num jogo entre o narrador, seus objetos e a plateia.  A curta cena de Milton se baseia nas histórias sobre a origem do mundo contadas a partir dos mitos indígenas e mostra as aventuras de cinco irmãos em busca de comida numa época de escassez na Amazônia.

Dramaturgia de David Matos
 O trabalho conta com pesquisa, criação e atuação de Milton Aires, dramaturgia e consultoria cênica, de David Matos e pesquisa em vídeo-doc. e fotos de Luciana Medeiros, com música de Leonardo Venturieri e tem como colaboradores os atores e criadores Nando Lima, Lucas Alberto e Yasmin Marques.

Sampa - Após a apresentação na capital mineira, Makunaíma já tem outra agenda fechada em São Paulo, abrindo a Mostra de Inverno de Experimento Teatral do Espaço Luz do Faroeste e que acontecerá ente 02 e 30 de julho, sempre aos sábados, reunindo ainda os espetáculos Red Bag (PA), Depois Daquela Noite (SP) e Quase Lá (SP). 

A pesquisa para “Makunaíma: Em a Árvore do Mundo e a grande enchente” iniciou em abril deste ano, quando Milton Aires estava fazendo o curso “O Visível e o Invisível no Trabalho do Ator-Dançarino”, ministrado pelos professores Carlos Simioni (LUME) e Tadashi Endo (Mamu Butoh Centre), realizado no Teatro de Tábuas (Campinas-SP).

A cena proposta ao Festival de BH faz parte de um projeto de montagem maior, que ainda está em construção e busca de apoio e patrocínio para se concretizar. Intitulado inicialmente, de “Makunaína”, o processo de pesquisa e elaboração navega na fronteira entre o teatro e a dança.


Narrativas indígenas sobre a criação do mundo
De acordo com Milton, este projeto tem como princípio, a investigação e o método de pesquisa mimese corpórea e dança pessoal, através da observação das atitudes e costumes de animais e habitantes de comunidades indígenas da amazônica.

Para isso, assim que retornou de São Paulo, no início do mês de maio, Milton realizou, com recursos próprios, uma expedição pelo Marajó, onde visitou duas comunidades na cidade de Ponta de Pedras.

“A inspiração para esse projeto surgiu a partir do contato com uma publicação sobre narrativas indígenas, que reúne mitos cosmogônicos e lendas de heróis, contos, fabulas de animais e narrativas humorísticas. Originárias das tribos Taulipangue e Arekuná, da área cultural norte-amazônica, essas histórias foram recolhidas pelo estudioso Theodor Koch-Grünberg e publicadas em Berlin no ano de 1916”, conta o ator, que também se utiliza da própria vivência na região marajoara onde nasceu.

Para o Festival de Cenas Curtas, portanto, o exercício apresenta as narrativas do herói Makunaíma com abordagem mais performática. “Essa experiência será um laboratório prático, que servirá como um termômetro para nortear os caminhos que a montagem possa tomar a partir do contato com o público”, explica.

Ágora Mandrágora
Trajetória – Todo este processo que o ator vem vivendo inicia com a retomada de seu trabalho com o grupo Usina Contemporânea de Atores, na peça "Ágora Mandrágora". Nessa montagem, ele reencontra artistas e amigos, com os quais firmou parcerias importantes, como Alberto Silva Neto e Nando Lima

Em seguida, surge a montagem de "Eutanázio e o princípio do mundo", onde o ator dividia com o público uma historia de seus avós, um trabalho que marca sua relação mais intensa com a cena e com a atuação, mas principalmente com a pesquisa.

Logo depois vem o processo de pesquisa e montagem do projeto "À Sombra de Dom Quixote" e o surgimento do coletivo Miasombra, do qual ele é o idealizador. “É onde encontro com as pessoas incríveis, que compraram uma idéia e a tornaram sua marca. Ali consigo ver o trabalho de cada um que esteve participando do processo”, diz Milton.

Teatro é uma coisa que vem marcando a vida do ator desde menino, quando assistia as manifestações culturais de sua cidade natal, Ponta de Pedras, no Marajó. “Lembro de sair para ver a Farra do Boi e outros cortejos. Isso sempre me encantou”, conta.

Eutanázio e o princípio do fim
Aos 10 anos, ele fez a primeira oficina de teatro levada ao Marajó pelo projeto chamado “A barca da cultura”, da Fundação Tancredo Neves e desde aí não parou mais.

“Tudo que eu fazia eu envolvia teatro, todos os trabalhos da escola, para mim, tinha que ter teatro. Depois me envolvi com grupos de lá, mas ainda não era o suficiente. Lembro do envolvimento de minha mãe com a televisão. Ela assistia novela e eu ficava ali, vendo com ela, achando o máximo ver aqueles atores vierem tantos personagens”, lembra Milton.

Formação - Como se já soubesse de seu destino, um dia ele disse à mãe que queria vir para Belém estudar. “Era desculpa e um ano depois por aqui, já comecei a fazer teatro. Conheci a Fundação Curro Velho, no final dos anos 90. Lembro que muita gente se formou por lá, naquela época. De lá pra cá é um fio que vai puxando o outro”, diz. 

A formação mais longa que teve, porém, foi com Paulo Santana, na Unama, onde se envolveu em vários cursos até conhecer o Usina de Animação (Jeferson Cecim) e o In Bust Teatro com Bonecos, marcando sua experiência com o teatro de animação, e depois o Usina Contemporânea, de Alberto Silva Neto, em 1999, e mais tarde um pouco veio também o contato com a dança com sua participação na Companhia de Investigações Cênicas, de Danilo Brachhi, despertando ainda mais seus estudos em torno dos movimentos corporais.

O trabalho de ator de Milton Aires também passa pelo cinema. Ele fez “Guerrilha do Araguaya”, de Ronaldo Duque e “O Sol do Meio Dia”, de Eliane Caffe, em uma cena com Chico Diaz, aliás, uma das poucas que não foram cortadas, tendo os atores paraenses em cena.

À Sombra de Dom Quixote
Nem tudo foi ou é tão fácil como pode parecer. “Tem um duplo desafio aí. Um é o de inserir neste mercado, numa cidade que não te dá tantas oportunidades e por isso precisas ir criando tuas estratégias.

O outra é superar os limites, as dificuldades pessoais, principalmente para alguém que vem do interior, com a falta de incentivo ao estudo. Para seguir a carreira de ator eu tive que superar o limite do contato com a leitura, a literatura, a dramaturgia. Antes eu tinha muita dificuldade de trabalhar com isso. Mas não teve outro caminho, pois são estas as ferramentas mais importantes, se é a profissão que quero seguir”, afirma.

Há dez anos de carreira profissional, Milton Aires continua cavando estratégias, inscrevendo projetos em editais e propondo relações de parcerias. “Hoje eu fico feliz, pois tenho trabalhado com o que quero e como eu quero. Existe uma reunião de parceiros, o próprio ‘À Sombra de Dom Quixote” é reflexo disso. Eu jamais teria conseguido fazer este projeto sem estas pessoas. Foi o primeiro projeto em que fiz o exercício de pensar a idéia e escrever o projeto de forma coletiva e compartilhada”, conclui. O segundo projeto também nesta direção já está se configurando com "Makunaíma". É aguardar para ver!

20.1.11

Coletivo reflete a poesia de Dom Quixote através do teatro de sombras

A estreia é nesta quinta-feira, 20, mas ontem já houve uma prévia para convidados. A temporada, no Espaço Reator, vai de 20 a 23, e ainda nos dias 29 e 30, em janeiro, e nos dias 05 e 06 de fevereiro, sempre às 20h30.

O imaginário poético do famoso cavaleiro de uma obra escrita há 400 anos pelo dramaturgo e poeta espanhol Miguel de Cervantes foi o mote escolhido pelo coletivo MiaSombra para construir “À Sombra de Dom Quixote”.

Contemplado pelo Prêmio de Teatro Funarte Myriam Muniz, o trabalho vem sendo desenvolvido há cinco meses pelo coletivo MiaSombra e agora traz ao público um resultado inusitado para o tradicional teatro de sombras, arte praticada milenarmente, tendo como berço o oriente.


Integrando o campo do teatro de animação, o teatro de sombras geralmente utiliza marionetes, bonecos, objetos e máscaras, além de técnicas relativamente simples, tendo uma tela branca onde um foco de luz se acende e sombras de silhuetas de figuras humanas, animais, ou objetos, recortadas em papel, são projetadas em conjunto.


Mas em “À Sombra de Dom Quixote” tudo ficou mais ousado. E através de das várias experimentações realizadas nos meses de agosto, setembro e outubro de 2010, nos laboratórios ministrados por David Matos (dramaturgia), Iara Regina (iluminação) e Aníbal Pacha (cenografia e bonecos para teatro de formas animadas), o espetáculo ganhou uma tecnologia específica, brincando com as cenas como numa montagem audiovisual.


Os bonecos, por exemplo, ao invés de meros recortes em papel, são coloridos e ganharam tridimensionalidade nas invenções do coletivo, coordenado nesta área por Maurício Franco, refletindo resultados a partir do que foi experimentando no laboratório de teatro de formas animadas com Aníbal, que vem do Grupo In Bust Teatro com Bonecos e hoje também é professor da Escolade Teatro e Dança da UFPA - ETDUFPA .

Outra nuance que traz a diferença neste trabalho é o da luz, que no espetáculo é manobrada pelo iluminador Thiago Ferradaes.


Não há apenas um, mas vários focos de luz que se alternam não só no espaço da tela branca, mas em cores, aumentando o grau de encantamento e magia visto na tela, um resultado que vem do laboratório da professora Iara, que integra o quadro docente da ETDUFPA.

David Matos, que participou da fase dos laboratórios e segue com o projeto até este momento, optou por uma dramaturgia que foge completamente ao texto de Cervantes. “No espetáculo, através da livre inspiração em Dom Quixote, estamos também falando de ecologia, da necessidade do ser humano se reconectar ao planeta. Estamos falando de paz, de harmonia", diz  David.

"Este grupo ele tem uma coisa que é intrínseca à obra do Cervantes. Dom Quixote não deixa de perseguir o objetivo dele, passe o que passar, encontre ou não a sua Dulcinéia, ele não desiste de cumprir a missão dele e assim é o MiaSombra”, explica. 

Em cena estão os atores sombristas Milton Aires, que também é o idealizador do projeto; Lucas Alberto, que faz o personagem Monstro Moicano e manipula o boneco de uma menina que é entregue para Dom Quixote cuidar; e Márcia Lima, que é Dulcinéia e manipula, junto com Milton Aires, a maioria dos outros bonecos feitos com material reciclado, sucata de computador, brinquedos coloridos, sombrinhas.

São personagens fantásticos que saltam da imaginação de tantos dons Quixotes espalhados pelo mundo. Estão à sombra do cavaleiro, uma sereia, um menino peixe, um caranguejo e ainda a maquete de uma cidade que não por acaso lembra Belém com seus prédios e palafitas. E claro estão em cena o próprio Dom Quixote e seu cavalo Rocinante, representado por um cavalinho de carrossel. 

 O espetáculo também tem um elemento indispensável, o som. A trilha sonora é assinada por Léo Bitar, que há 20 anos trabalha com teatro.

“Fiz uma pesquisa musical ampla. Busquei obras clássicas que já trilharam Dom Quixote, como o Richard Strauss que já compôs uma peça sobre ele. Fui procurar coisas bem folclóricas espanholas, e com influências francesas e árabes, enfim fiz uma pesquisa abrangente, busquei também bandas novas, tocando músicas tipicamente espanholas”, diz Leo.

Para Milton Aires, estrear o espetáculo é apenas o começo de uma longa jornada. “Costumo dizer que este espetáculo é fruto de um projeto que para mim tem uma vida que independe da vida do grupo. O coletivo pesquisa teatro de sombra e estamos descobrindo que acabamos fazendo um teatro de sombra que não é convencional. A expectativa que temos é de ir aperfeiçoando-o e ao mesmo tempo lhe dando outros desdobramentos”, finaliza Milton.

Coletivo - O espetáculo é uma criação do coletivo MIASOMBRA, artistas de diversos grupos de Belém, reunidos com o interesse comum em investigar o teatro de sombras como matéria prima de expressão cênica. Realizado com patrocínio do Prêmio Funarte de Teatro Myriam Munis – 2009; em parceria com: Studio REATOR, INTIMIDIA, Usina Contemporânea de Teatro, Companhia de Investigação Cênica e PRODUTORES CRIATIVOS. Apoio Cultural:  Restaurante Calamares, Lú Refeições, Refry, Hiléia, Sol Informática e Imagética Filmes.

FICHA TÉCNICA

Atores sombristas: Lucas Alberto, Márcia Lima e Milton Aires
Roteiro e criação: Coletivo MIASOMBRA
Direção: David Matos e Maurício Franco
Dramaturgista: David Matos
Direção de arte: Maurício Franco
Desenho de som: Leo Bitar
Iluminação e operação técnica: Thiago Ferradaes
Costureira: Cláudia Silveira
Produção: Leny Monteiro
Assessoria de Imprensa e fotos: Luciana Medeiros
Coordenação de produção: Milton Aires
Consultoria artística de design gráfico: Nando Lima

Condução dos Laboratórios

Aníbal Pacha – Teatro de formas animadas em sombras
David Matos – Dramaturgia da imagem no Teatro de sombras
Iara Souza – Dramaturgia da luz para o Teatro de sombras

Serviço
À Sombra de Dom Quixote. De 20 a 23, e 29 e 30, em janeiro e ainda nos dias 05 e 06 de fevereiro, às 20h30, no Reator – Trav. 14 de Abril, 1053, entre Magalhães Barata e Gov. José Malcher. Ingresso R$ 20,00 com meia entrada para estudantes e artistas. Ingressos podem ser reservados por telefone: 8112.8497 (apenas 30 lugares). Mais informações: MIASOMBRA - www.miasombra.blogspot.com / 



2.9.10

Projeto experimenta o teatro de sombras em Belém

A Escola de Teatro e Dança da UFPA será o palco para a exposição do projeto experimental “À Sombra de D. Quixote”, que iniciou sua jornada no mês de agosto, a partir do Prêmio Funarte de Teatro Myriam Munis – 2009.

A exposição de Sombras vai acontecer a partir das 18h30, na Sala de Interpretação da Escola de Teatro e Dança da UFPA, com entrada franca. O público poderá entrar e sair de um corredor de sombras e experimentar visões sombrias, inspiradoras e sensoriais.

A iniciativa parte da perspectiva interativa do projeto, que é dirigido e coordenado pelo ator Milton Aires, e que reúne ainda uma boa parte dos experimentadores de teatro de Belém, como os sombristas Lucas Alberto e Márcia Lima. Contará com o desenho de som de Leo Bitar, consultoria artística de Nando Lima, dramaturgia de David Matos, operação técnica de Thiago Ferradaes, assistência de produção de Lenny Monteiro e dos laboratoristas David Matos, Iara Souza e Aníbal Pacha.

No início de agosto, o laboratório de dramaturgia, conduzido por David Matos, “foi uma troca de experiências riquíssima, especialmente por que David, com muita generosidade, abriu seu baú de suas vivências artísticas”, diz Milton Aires.

Mas o que se vai assistir nesta quinta-feira, já é resultado do laboratório de luz e sombra de Iara Souza, que vem desde 2004, a partir de uma Bolsa de Criação Artística do IAP, experimentando o teatro de sombras.

De acordo com ela, a necessidade de mostrar o que se vem experimentando, ao público, surgiu porque ao longo de duas semanas, os resultados começaram a se mostrar muito interessantes.

“Nas artes gostamos de deixar o público dar uma beliscadinha naquilo que estamos construindo, por isso decidimos abrir este espaço em forma de uma exposição de sombras, que surgiram a partir de nossas experimentações”, explica Iara.

Iara diz que o teatro de sombra em Belém existe, mas não desta forma que está sendo feito agora no projeto de Milton Aires.

“Estamos experimentando um teatro com objetos, não somente o teatro de sombra figurativo, então eu acredito ser esta uma pesquisa exclusivamente voltada ao teatro de sombra”, considera.

Para Milton Aires, todo este processo tem sido de aprendizado a todos os integrantes da equipe.
“Quando escrevi o projeto tinha uma imagem disparadora na minha cabeça, no caso, o trabalho inspirado em D. Quixote, e o que poderíamos retirar dele, em matéria de sombras. Mas logo depois do primeiro laboratório, as possibilidades se ampliaram , conseguimos resultados diferentes, ainda mais depois deste laboratório da Iara. Então é isso que queremos mostrar ao público, o que já alcançamos e até para ter retorno.

O que as pessoas vão assistir tem tudo a ver com o que é a proposta do projeto, que é fazer desses laboratórios de experimentação e criação, o resultado de uma obra coletiva, não atrelada a nenhuma obrigação de cumprir somente o que esteve no papel”, finaliza Aires.

Na próxima semana, a equipe do projeto “À Sombra de D. Quixote” inicia nova jornada, desta vez, imergindo no teatro de formas animadas, com o bonequeiro Aníbal Pacha, do grupo In Bust. O espetáculo, que será o resultado disso tudo, só estreia em novembro. Até lá, muita assombração ainda será experimentada.

Serviço
Exposição de Sombras. Nesta quinta-feira, 02, a partir das 18h30, na Sala de Interpretação da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará - Rua D. Romualdo de Seixas, com a Jerônimo Pimentel. A entrada é franca. Mais informações: 91 8134.7719, 91 8403.2865 e 91 9124.2112.

12.12.11

Um experimento cênico de presente para o público

Inspirados no conto A árvore de Natal na casa de Cristo, de Dostoiévski, o ator Milton Aires e o músico Leonardo Venturieri convidam o público, nesta terça-feira, 13, a partir das 19h, com entrada franca, para a provocação cênica "Por que hoje não é dia de Reis?", na Livraria Saraiva (Shopping Boulevard - Doca de Souza Franco). Além da escolha textual sensível e comovente, a performance tem como objetivo transpor atores e público da formalidade teatral para um estado de jogo e de risco, com foco no acaso e na certeza do imperdível. 

O conto de Fedor Mikhailovitch Dostoievski, escritor russo (1821 - 1881), um dos maiores nomes da literatura universal e considerado um dos fundadores do Realismo, é ambientado em uma noite fria de inverno. Um menino pobre descobre o significado de cada símbolo natalino e quem são os verdadeiros anjos de Cristo. Aos poucos, trágicos acontecimentos são revelados, levando o garoto, de apenas seis anos, a ter um encontro decisivo com a noite de natal.

“Em cima do texto do Dostoiévski, eu proponho algumas provocações cênicas pro Léo e ele me faz provocações musicais a partir da pesquisa que ele vem fazendo atualmente, e juntos vamos exercitar uma visualidade desse encontro. Temos alguns indutivos, ensaiamos algumas coisas, mas muito surgirá das descobertas que faremos no momento da apresentação”, explica o ator. 

Com intervenção visual de Maurício Franco, o experimento cênico de Milton Aires e Leonardo Venturieri traz provocações e improvisos, que esboçam algo que ainda poderá se tornar um espetáculo no futuro. "É uma ideia que deve ter desdobramento pra o próximo ano. Na verdade são apostas que estamos fazendo. E eu acredito que a melhor maneira de perceber, de ter um termômetro é lançar para o olhar do público mesmo que inacabado, esboçado”, diz Milton. 

A ousadia do experimento e do improviso só existe, porém, porque a parceria entre os dois já vem de outros trabalhos, como em alguns dos espetáculos de rua feito pela Companhia Entreatos e em dança com a Cia de investigação Cênica, sem falar que desde o início do ano mais uma experiência vem se desenhando e os aproximando, principalmente em relação às pesquisas de cada um. 

Milton em cena de Makunaíma
Estou me referindo à "Makunaíma: Em a Árvore do Mundo e a grande enchente”, atualmente uma curta cena, repleta de situações cotidianas e metáforas ambientadas no universo de histórias do herói Makunaíma, sobre a origem do mundo. 

Embora o projeto ainda esteja em fase de pesquisa e criação, já teve muita coisa experimentada e, mais, apresentada e reconhecida fora do Pará, como no festival de Cenas Curtas de BH e na Mostra de Inverno de Experimento Teatral do Espaço Luz do Faroeste, em São Paulo. É mais um espetáculo prometido para 2012. 

Em São Paulo desde o início deste ano, Milton Aires passará o mês de dezembro no Pará, onde retoma os contatos com seus pares e aproveita para viajar pelo Marajó, que também serve como fonte de inspiração para Makunaíma. A ideia é que no próximo ano, todos estes embriões surgidos ao longo de 2011 entre Belém e a capital paulista se concretizem em novos trabalhos, densos e fincados na pesquisa, como também aconteceu logo no início de 2011 com o trabalho "À Sombra de Dom Quixote", que resultou no coletivo Miasombra

“Acho que estar em Sampa, nesse momento da minha vida, está sendo estratégico. É um grande desafio profissional, um "puta" aprendizado artístico, que vejo como uma missão. Não sou daquele lugar, tenho uma paixão enorme pelo teatro que fazemos aqui, acredito na potência e na resistência do nosso fazer teatral”, ressalta. 

Para ele, isso se torna um grande diferencial para um ator que sai desta escola e vai para São Paulo, um lugar onde se tem oportunidade de mostrar como os artistas paraenses pensam o teatro. “Para mim, além de aprendizado também, é uma função política nos mostrar artisticamente”, complementa. 

O ator, em pesquisa no Marajó (Ponta de Pedras)
Miolo - Em São Paulo, Milton vem atuando no novo projeto da Cia do Miolo chamado Linha Vermelha, e onde encontrou outros artistas que possuem esse mesmo espírito de criação que ele vem cultivando.

Em processo de montagem que já dura sete meses, ao longo deste tempo, os atores da companhia vêm fazendo um trabalho de treinamento físico e práticas artísticas e teóricas que fazem parte do projeto Linha Vermelha. 

“Estamos estudando técnicas e mantendo uma rotina de ensaios e pesquisa de rua. Depois de nossas ‘férias’ vamos dar continuidade à montagem do espetáculo que estreia em meados de março e ficaremos em cartaz até final de maio, com apresentações em várias praças e espaços na capital paulista”, conclui. 

O Linha Vermelha dá continuidade a um trabalho que a Cia do Miolo vem sendo desenvolvendo desde 2003, o Poética da Cidade, que investiga o teatro no espaço urbano, tendo em vista os modos de relações e acontecimentos que se dão na cidade. Depois de aprofundar este olhar poético, é hora de transformá-lo em dramaturgia, em cena, em teatro.

“É uma pesquisa poética da cidade que agora, pela primeira vez, ganha uma montagem itinerante no trajeto já investigado”, finaliza Milton Aires que reconhece o desafio dramatúrgico do projeto de transformar as histórias investigadas num espetáculo teatral.

21.2.14

Há contações de histórias neste domingo de praça

Leonel Ferreira
Em mais uma ação do Pirão Coletivo, neste domingo, 23, a partir das 11h, haverá contações de histórias, na praça na Praça Barão do Rio Branco (Rua Gama Abreu, proximo à Igreja da Trindade). “A Princesa está chegando”, com interpretação de Leonel Ferreira (Cia Madalenas de Teatro) e “A Fantástica Fábrica de Histórias”, com Milton Aires (Cia. de Investigação Cênica) integram a programação do projeto "Sábado Tem. Domingo que vem", com acesso gratuito ou pague o quanto quiser na rodada de chapéu.

Chega de reclamar da vida, da falta de espaços de apresentação ou políticas públicas culturais para Belém e o resto do Estado. Não só isso. 

O Pirão Coletivo é uma iniciativa que vem consolidar um movimento artístico que acontece na capital paraense, há décadas, promovendo as trocas de artistas entre grupos de teatro e artistas que transitam neste universo. Atores (indivíduos atuantes) que estão dispostos a compartilhar o suor de seu trabalho com o público.

O projeto “Sábado tem. Domingo que vem” deu seu start na semana passada, com a apresentação do espetáculo “O Conto que eu vim contar”, do In Bust, no Casarão do Boneco, uma das sedes oficias do Pirão Coletivo, volta à cena neste domingo, com duas contações de histórias. Desta vez, as interações serão realizadas na Praça da igreja da Trindade, endereço próximo à Casa Dirigível, que também é referência dentro do Coletivo.

Da obra da coreana Yoo Young So, “A Princesa está chegando” conta a história de um pequeno povoado que se prepara para receber a visita da princesa do reino.  Para tanto se faz necessário organizar o local que receberá a estimada figura real. A maior cama, o maior tapete, o maior  espelho e um belo quarto deverão ser providenciados com ajuda das crianças da aldeia. Contudo, um acontecimento inesperado surpreenderá a todos.

Livro-Jogo - Já “A Fantástica Fábrica de Histórias” é um jogo de contação de histórias, que propõe mediação de histórias que estariam adormecidas ou presas dentro das crianças, mas que com a brincadeira e o jogo proposto as crianças e adultos vão liberando e com isso o personagem Dingo (funcionário da fantástica fábrica), que vai fazendo uma condução até que as histórias possam se concluir. De acordo com Milton Aires, as histórias contadas servem para alimentar o repertório de histórias da Fantástica Fábrica, mas tudo tem caráter lúdico no enredo da atividade, pois o personagem não é desse tempo de hoje, o que será percebido por suas vestimentas, que o remetem a um passado bem antigo, porém atemporal.

“Nas atividades busco estimular nas pessoas o exercício da criação de imaginário e a inter-relação. É uma ótima brincadeira para adultos e crianças”, explica Milton Aires que se inspirou na técnica do Livro-Jogo, onde a partir de cartas que enunciam a uma história todos são convidados a continuar. Mas não só isso.

“Depois veio a inspiração nas aventuras vividas pelos irmãos Grimm, que transformavam acontecimentos do cotidiano em contos e fábulas. O contato com o público foi transformando a atividade, o que acabou por deixar ela sempre atual, dinâmica e imprevisível”, conclui.  

O projeto “Sábado tem. Domingo que vem” está em seu início e promete novos momentos cênicos na cena da cidade, não só a capital, mas como no interior do Estado, bastando para isso as palavrinhas chaves: parceria, apoio e quem sabe aí (a importante), patrocínio!

Mistura pra todos - Os espaços de realização do projeto "Sábado Tem. Domingo Também" foram escolhidos por mérito de representatividade na cidade. 

O Casarão do Boneco já realiza ações abertas ao público desde 2009, quando deu início ao projeto "Sábado Sim, Sábado Não, tem Teatro no Casarão". Já a Casa Dirigível, aberta ano passado, deu início à várias programações também livres ao público e situa-se em local privilegiado, próximo à Praça da República, onde nos finais de semana a movimentação intensifica-se.

O início de tudo, no sábado passado, foi no Casarão e apesar da chuva, o público compareceu. "Aquele lugar possui atmosfera especial, é encantado e a chuva caiu para abrir os caminhos e limpar o espaço para os quase 30 espectadores, que mesmo depois da chuva, compareceram e aplaudiram e se emocionaram com a apresentação... Em particular, gosto muito de estar em cena com o In Bust, é um jogo sincero, verdadeiro e prazeroso. Tudo isso somado ao conforto da produção do Pirão. É como se a relação teatro, trabalho e prazer não tivesse fronteira, é isto que transborda para o público", diz Milton Aires, da Cia de Investigação Cênica.
 
E assim Belém se especializa em espaços alternativos ou por tendência ou falta de alternativa. "Resistência e vanguarda são duas palavras que as vezes soam desgastadas, mas no caso acho que elas são uma prática  e não teoria ou utopia nesse projeto, assim como em muitos outros exemplos que na cidade vem sendo pulverizada nesses ultimas décadas", comenta Milton.

"Fazendo uma conta rápida são cerca de dez espaços alternativos em funcionamento na cidade e em diferentes seguimentos da arte, com programação frequente, de qualidade e para os mais diferentes públicos. Vejo que isso é um tendência sim: os espaços serem mais alternativos e os trabalhos terem mais liberdade criativa", continua o ator. 

"Assim como um dia a televisão e a impressa escrita perderam o monopólio sobre a informação para a internet que se tornou o espaço principal de democratização da comunicação, acho que o alternativo como escolha de identidade e estratégia política para viver de arte  é o caminho para sermos potentes e influentes no cultivo para o acesso de um arte mais esclarecedora à sociedade", finaliza Aires, que estará em cena neste domingo, 23.

Números de circo, com projeto Vertigem!
1ª Etapa - A programação do "Sábado Tem. Domingo Também" seguirá até junho. Em março já estão previstas para as noites (19h) dos sábados, no Casarão do Boneco, as apresentações de "O Pequeno Grande Aviador, com Dirigível Coletivo de Teatro (01/03), Pinóquio, o mais novo trabalho do In Bust Teatro com Bonecos (15/03) e "La Fábula", da  Espetáculo La Fábula, com Cia. de Teatro Madalenas (29/03). E nas manhãs (11h) dos domingos, na Praça Barãp do Rio Branco (Trindade), números de Circo, com Grupo Projeto Vertigem & Contação da História No Baú da memória, com Michele Campos – Cia. Madalenas (09/03) e o espetáculo "Sucata & Diamante", com Dirigível Coletivo de Teatro (23/03). 

Serviço
Pirão Coletivo - Domingo Tem! (23 de fevereiro) – Contação de História - 11h, na Praça Barão do Rio Branco (Rua Gama Abreu, próx a Igreja da Trindade). “A Princesa está chegando” e “A Fantástica Fábrica de Histórias”. Acesso gratuito. Mais informações na fan Page do projeto:  www.facebook.com/piraocoletivo (curta) e no blogwww.holofotevirtual.blogspot.com ou pelo telefone 3088.5858. 

21.5.14

"À Sombra de Dom Quixote" no Sesc Boulevard

Criado pelo Coletivo MIASOMBRA, o espetáculo, realizado com patrocínio do Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz (2009), em parceria com o Estúdio REATOR, reestreia este ano, com temporada de quinta, 22, a domingo, 25, às 21h, no Centro Cultural SESC Boulevard. 

Em 2011, quando o espetáculo estreou, a equipe do Miasombra, vinha de uma maratona de estudos e experimentações. Pesquisa de materiais, laboratórios, criação de uma dramaturgia para teatro de sombras, o que nenhum dos envolvidos dominava, mas que à serviço da arte, chegaram a resultados próprios, com bonecos de formato tridimensional, sombras coloridas, enfim uma nova forma de construir um teatro de animação.

A partir daquele momento, foi inaugurada a trajetória do coletivo, que segue sua pesquisa em busca de silhuetas que se projetem para além da sombra chinesa, o método mais conhecido neste tipo de dramaturgia. No início deste mês, a técnica do coletivo foi repassada à turma que se inscreveu na oficina ministrada, no Sesc Boulevard. O Miasombra mostrou aos participantes uma carpintaria toda própria, em cima do processo de construção da livre adaptação para a obra de Miguel de Cervantes.

À Sombra de Dom Quixote é uma fabulação contemporânea análoga à realidade fantástica de certos Quixotes, cavaleiros de tristes figuras que encontramos em nossos caminhos. 

Novidades - O espetáculo retorna ao público, repaginado. Os bonecos e cenários receberam novos tratamentos, a partir do trabalho da artista visual e educadora Aline Chaves, responsável pela revisão e manutenção dos bonecos que foram criados, originalmente, pelo artista Maurício Franco.

“Tivemos um cuidado muito grande, na verdade, para não perder a estética original dos elementos de manipulação, preservando a pesquisa de materiais e estilo desses bonecos, que são tridimensionais. A Aline faz a manutenção, sem perder a visualizada anterior das sombras, mas introduzindo materiais outros em prol da durabilidade dos bonecos. 

Eles estão mais encorpados para a cena, pensando também que eles, após a apresentação, ficam em exposição para o público, no palco da apresentação”, diz Milton Aires, ator manipulador e coordenador de produção do espetáculo. 

A equipe de manipuladores ganhou um novo elemento, o ator goiano Patrick Mendes, que está radicado em Belém. Ele foi convidado para a manipulação, substituindo o ator Lucas Alberto da Cunha, que não está mais morando em Belém. A trilha sonora, criada por Leo Bitar, agora tem no comando o de Thiago Ferradaes, iluminador que, por sua vez, divide a manipulação da luz, com os atores. A dinâmica de apresentação também sofreu metamorfose.

“Estávamos trabalhando em determinado espaço delimitado pelo o que era o Estúdio Reator. Agora, estamos vislumbrando dimensões mais abertas, no Sesc. Estamos felizes em retornar com o espetáculo, estamos movidos por uma saudade e uma vontade que nos faz reviver tudo que já passo e nos impulsiona para este novo momento. Estamos encarando tudo isso como um segundo estágio”, diz David Matos, que assina a dramaturgia e direção.

Constituído de imagens fragmentadas, o espetáculo não reproduz a narrativa original do romance, mas encontros de personagens poéticos com Dom Quixote num cenário ilusório, onde referências de um lugar Belém/La Mancha estão latentes.  

Encenação - Costurada por cartas escritas para um Sr. Quixote, os os atores compartilham histórias de pessoas que se misturam com imagens reais e imaginárias. Além de bonecos coloridos e tridimensionais, os atores manipuladores utilizam chapas de raio X. 

“Descobrimos que ela nos revela o âmago do nosso Dom Quixote, esse lado interior de todos nós, impulsionado por um gigante que vai comendo, tragando a tudo e nos alimentando de tantas informações. A chapa de raio X é o elemento que vem pra dizer onde é este universo. O gigante é o teatro que a todos come, engole e depois vomita. Ficamos diferentes depois disso, que é como as pessoas vão ficar depois do espetáculo”, define David.

“Este é um espetáculo cheio de informações e formação. Dedicamos muito tempo estudando fontes de luz, material para a confecção dos bonecos e a dramaturgia para sombra. Esses são nossos focos principais de trabalho, não nos interessa apenas o resultado, mas pesquisar de que forma esta sombra vai acontecer”, explica Milton Aires.

A ideia, com a nova montagem, é fazer com que o espetáculo circule mais pelo Pará e também pelo país.  O grupo pretende levá-lo a um público mais amplo. No segundo semestre, já há nova agenda, no Teatro Cuíra, por ter sido selecionado pelo Projeto de Ocupação “Pauta Mínima – 2ª Edição” do Grupo Cuíra do Pará.

COLETIVO MIASOMBRA

  • David Matos: Dramaturgismo e Direção
  • Maurício Franco: Direção de Arte
  • Aline Chaves: Revisão e Manutenção de Bonecos
  • Leo Bitar: Desenho de Som
  • Thiago Ferradaes: Iluminação e Operação Técnica
  • Cláudia Silveira: Costureira
  • Luciana Medeiros: Assessoria de Imprensa, Registros: vídeo e fotografia
  • Nando Lima: Consultoria Artística de Design Gráfico
  • Patrick Mendes: Revisão de Arte Gráfica
  • Produtores Criativos: Apoio de Produção
  • Milton Aires: Coordenação de Produção
  • Atores manipuladores: Márcia Lima, Milton Aires, Patrick Mendes e Lucas Alberto (off).
  • Laboratórios: Aníbal Pacha – Teatro de formas animadas em sombras; David Matos – Dramaturgia da imagem no teatro de sombras e Iara Souza – Dramaturgia da luz para o teatro de sombras. 

Serviço
À sombra de Dom Quixote. De quinta, 22 de maio, a domingo, 25, às 21h, no Centro Cultural Sesc Boulevard. Entrada franca.  Agradecimentos: In Bust Teatro com Bonecos – Desabusados Cia. – Andrea Rocha – Andreia Rezende – André Mardock – Cristina Costa – Marcelo Rodrigues – Ester Sá – Manuel Santos – Telma Lima. Parceria: A Trama | Estúdio Reator | Casarão do Boneco | In Bust – Teatro com Bonecos, Holofote Virtual. Mais informações: 91 8134.7719 e 3088.5858.

16.1.11

É imperdível. "À Sombra de Dom Quixote" estreia esta semana

Livre inspiração, em teatro de sombras, da obra Dom Quixote de La Mancha, do romancista, dramaturgo e poeta espanhol Miguel de Cervantes, “À Sombra de Dom Quixote” estréia na próxima quinta-feira, 20, no Espaço Reator, onde ficará em temporada de 20 a 23 e 29 e 30 de janeiro e ainda 05 e 06 de fevereiro, sempre a partir das 20h30.

A montagem é do coletivo MIASOMBRA, que reúne artistas de diversos grupos de Belém. Contemplado pelo Prêmio de Teatro da Funarte Myriam Muniz, de 2009, o projeto iniciou em setembro de 2010, com a realização de Laboratórios conduzidos por Aníbal Pacha – teatro de formas animadas em sombras; David Matos – dramaturgia da imagem no teatro de sombras e Iara Souza – dramaturgia da luz para o teatro de sombras.

Para chegar ao resultado final, os atores e técnicos envolvidos na montagem experimentaram imagens dramáticas inspiradas da obra de Cervantes, que ao longo do processo foram livremente recriados para o teatro, na busca por um diálogo com a cena contemporânea do Teatro de Animação em Belém-PA.

De acordo com Milton Aires, idealizador do projeto, o espetáculo não se utiliza das narrativas escritas como se lê no romance, “mas é uma fabulação contemporânea análoga à realidade fantástica de certos Quixotes, cavaleiros de tristes figuras que encontramos em nossos dias”.

“À Sombra de Dom Quixote” propõe o encontro com um clássico da literatura mundial, capaz de construir essa relação de afeto entre linguagens. A natureza humanitária e imagética descrito por Cervantes em sua obra é a fonte de inspiração para as imagens dramáticas que surgem por detrás do pano.

Aires explica que a história inicia com a suposta morte ou desaparecimento de um Sr. Quixote, que habitava as margens de um rio, numa zona periférica de uma urbana Belém. “As únicas heranças que possui são cartas que foram deixadas para traz”, reforça.

“Buscamos interfaces entre o real e irreal ao qual submetemos o protagonista Dom Quixote e o ilusionismo característico do teatro de animação. O estado de jogo surge desse encontro da literatura, imagem estática, com o teatro, imagem em ação”, explica Milton.

Agradecimentos - O MiaSombra agradece a parceria com: In Bust - Entreatos - Marina Mota - Walter Freitas - Cristina Costa - Andrea Rocha- Evanha Vieira - Marcelo Rodrigues - Ester Sá - Jhonny Russel - Vandileia Foro - Jaqueline Souza – Malu. Apoio cultural: Studio REATOR, INTIMIDIA, Usina Contemporânea de Teatro, Companhia de Investigação Cênica e PRODUTORES CRIATIVOS.

Ficha Técnica: Atores-sombristas: Lucas Alberto, Márcia Lima e Milton Aires; Dramaturgista: David Matos; Direção de arte: Maurício Franco; Desenho de som: Leo Bitar; Iluminação e operação técnica: Thiago Ferradaes; Produção: Leny Monteiro;  Assessoria de Imprensa e fotos: Luciana Medeiros; Coordenação de produção: Milton Aires; Consultoria artística: Nando Lima.

Serviço
“À Sombra de Dom Quixote”. De 20 a 23 e 29 e 30 de janeiro e 05 e 06 de fevereiro, sempre a partir das 20h30, no Espaço Reator - Trav. 14 de abril nº 1053, entre av. Governador José Malcher e av. Magalhães Barata. Ingressos através do celular 91 – 8112.8497 - R$ 20,00 (ambiente climatizado, com 30 lugares). Mais informações: MIASOMBRA - www.miasombra.blogspot.com / miasombra.teatro@gmail.com; Studio REATOR - www.reator.art.br


2.10.14

Miasombra estreia com novidades no Pauta Mínima

A arte milenar de contar histórias com sombras é o foco do grupo Miasombra que surgiu com a pesquisa desta linguagem para a montagem do espetáculo “À Sombra de Dom Quixote”, em cartaz, a partir desta quinta-feira, 2, até domingo, 5, com sessões sempre às 20h, no Teatro Cuíra  - Edital Pauta Mínima.  Em sua terceira temporada, o espetáculo se mostra, mais uma vez, revisitado, sempre experimentando luz e sombra e trazendo novos resultados. 

A experimentação em busca de resultados que contemplem as novas apresentações é o desafio do grupo. A cada nova dimensão física de espaço, um novo espetáculo. O Mia Sombra formatou "À Sombra de Dom Quixote", no Estúdio Reator (2010/2011), e o reinventou na temporada no Sesc Boulevard (maio de 2014).

“Outro dia conversávamos sobre uma companhia de teatro que se apresenta com o mesmo espetáculo, há mais de dez anos e de como eles o resignificam, sempre que o mesmo é encenado. Desejo isso para o nosso espetáculo. A renovação sempre”, continua Milton Aires, que integra tanto o universo da encenação, como o da produção, dentro do projeto.

“O  Cuíra é o maior espaço que vamos ‘enfrentar’. E o processo de experimentação que norteia o projeto, está ligado às potencialidades e dificuldades que os espaços nos impõe a cada montagem. Desta vez, as necessidades de resoluções técnicas vão estabelecer um confronto direto com a nossa relação com o espetáculo no sentido de termos que abrir mão de alguns elementos estéticos”, considera David Matos, o diretor, que assina também a dramaturgia do espetáculo.

Em cena, a história de Dom Quixote, ganha um novo viés. A ideia do projeto era buscar a essência desse cavaleiro que existe em cada um de nós e não recontar a história do personagem. 

“No espetáculo, nossos cavaleiros enviam cartas ao Sr. Quixote para que ele não desista de seu sonho, de sua Ducineia. E é como se estas cartas fossem enviadas a nós mesmos, aos nossos Quixotes internos, para que não desistamos de nossos sonhos e desejos”, observa Milton Aires.

 “A sombra é um personagem que nos leva ao encontro com um quixote que estaria situado em uma pós obra do Cervantes, à sombra, a margem ou em algum lugar não muito claro”, diz ele. 

“O teatro de sombras, nesse espetáculo, nos ajuda a chegar próximo dessa imagem de um sonho inacabado. Nesse sentido outros elementos somam-se a sombra, como a presença dos atores e bonecos, tão importantes para a encenação, como a Luz e a escuridão”, complementa o ator que realizou, em 2009, um sonho, ao concretizar o espetáculo, ao aprovar seu projeto no Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz. Ali um desafio se impôs não só a frente de seu núcleo iniciático, mas a todos que foram se envolvendo e formam hoje o coletivo.

À sombra do Oriente - O teatro de sombras é uma das mais antigas manifestações teatrais do Oriente, presente em países como Índia, Indonésia, Tailândia, Sri Lanka e China. Por isso é que durante muito tempo, tanto na Europa quanto aqui no Brasil, nós conhecíamos o Teatro de Sombras como Sombras Chinesas. 

O interesse por essa arte vem crescendo de modo significativo no país, nos últimos anos, o que é possível confirmar quando nota-se a existência de grupos dedicados a ela em São Paulo, nos trabalhos da Companhia Quase Cinema, o Grupo Sombras e Lendas e a Companhia Fios de Sombra; em Curitiba, com o Grupo Karagowzk; em Porto Alegre, com a Companhia Lumbra Teatro de Animação. Há ainda grupos que montam vez ou outra um espetáculo com sombras. 

Não é o caso do Miasombra, cujo interesse é o teatro de sombras só que com um querer a mais. “Nós já experimentamos e continuamos a experimentar este espetáculo, mas agora acho que chegou a hora de assumir. Queremos fazer cinema, com o teatro de sombras”, disse David Matos, durante um dos ensaios do grupo para esta nova temporada.

De fato. A reprodução da realidade já não é o que estimula os artistas, que se interessam pela recriação do real, utilizando diversos processos criativos, como a sombra de silhuetas recortadas em diversos tipos de materiais; a sombra obtida com objetos tridimensionais; e as sombras corporais. E isso tudo junto, bem pode ser cinema.

“O trabalho que faço nas oficinas de roteiro que ministro têm influenciado cada vez mais no espetáculo, porque nossa pretensão sempre foi dar ao espetáculo uma característica de narrativa cinematográfica. Estamos cada vez pensando nessa transformação da dramaturgia teatral para a estrutura dramática do cinema”, explica David Matos, diretor, que assina também a dramaturgia grupo.

O Miasombra mistura todos estes processos, fruto de um dramaturgismo, que Milton Aires explica caber perfeitamente na figura do direto David Matos. “O dramaturgista é uma especie de "demiurgo" que acompanha, orienta e evidência peculiaridades da carpintaria da criação de um processo teatral, conduz de forma colaborativa o processo. David, além de ser o nosso olhar de fora da cena, o diretor do espetáculo, também exerce esse papel em nossa rotina de trabalho. Ele significa, provoca questões e cria junto conosco as resoluções estéticas e dramatúrgicas que o espetáculo deve ter e como essa criação vai chegar até o público”, diz Milton.
    
Através da coletividade e compartilhamento de informações, o grupo ainda tem mais planos para o seu Dom Quixote, que continuará sua jornada. Para David Matos, tudo é possível, pois a maior dificuldade que inviabilizaria qualquer projeto seria a falta de generosidade, e quanto a isso não há dificuldade para o grupo.

“Porque é isso que somos, é o que fazemos entre nós, é o que doamos para o projeto: generosidade. Seja ela de tempo, conhecimento, limitações, tudo. Nos reencontros ou quando estamos longe é isso que nos une. Simples assim”, finaliza David.

Serviço
À Sombra de Dom Quixote”, de 2 a 5 de outubro, no Teatro Cuíra - Rua 1 de Março, bem na esquina da Riachuelo. O ingresso custa R$ 10,00 com meia entrada a R$ 5,00, para estudantes. Mais informações: 91 8134.7719.

21.8.10

Entrevista: Usina estreia seu mergulho em Dalcídio Jurandir

No início desta semana, Alberto Silva Neto, diretor do Grupo Usina Contemporânea de Teatro, convidou jornalistas, amigos e artistas que quisessem assistir os ensaios de “Eutanázio e o princípio do mundo”, que estreia hoje (21), e fica em cartaz até setembro, aos sábados e domingos, sempre às 20h, no Instituto de Arte do Pará, com entrada franca.

Era um ensaio corrido, com início marcado para o meio dia. O convite, aqui, foi aceito e a alma, alimentada. Na sala de dança, a concepção visual de Nando Lima; a iluminação de Sonia Lopes; o desenho de som de Cláudio Melo e a dramaturgia de Paulo Faria, paraense radicado em São Paulo, colocam o público em um cenário de atmosfera amazônica e marajoara.

As sessões são para, no máximo, 45 pessoas. Entrando no espaço cênico da nova montagem do Usina, sente-se logo o remanso da maré e a velocidade do tempo, na ilha do Marajó, testemunhas dos conflitos de Alfredo, personagem interpretado pelo ator Milton Aires, e das histórias de Eutanázio, contadas por Felícia, Raquel e Irene, interpretadas por Nani Tavares, Valéria Andrade e Vandiléia Foro.

Com o patrocínio do Ministério da Cultura, o projeto propõe uma versão cênica para algumas histórias narradas pelo romancista Dalcídio Jurandir em seu primeiro livro, “Chove nos campos de Cachoeira”. A realização conta com apoio cultural de Instituto de Artes do Pará, Academia de Danças Ana Unger, Hotel Regente.

A ideia de levar à cena o universo de Dalcídio está nos planos do Usina há 12 anos. A oportunidade veio com o prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, da Funarte, em 2009.

Além da montagem do espetáculo, a ação incluiu pesquisa de campo no Marajó, e realização de oficina e apresentação de “Parésqui”, espetáculo anterior, no município de Ponta de Pedras.

Foram meses de trabalho, com ensaios e um seminário, o ponto de partida de tudo, ainda em fevereiro deste ano. “Fizemos um longo mergulho. Em certos momentos parecia que não íamos aguentar. Mas estamos aqui, prontos pra mostrar, em carne e osso, a que chegamos”, diz o diretor do espetáculo, Alberto Silva Neto.

Pergunto a ele como lhe fica agora a obra de Dalcídio, depois deste mergulho profundo. O diretor me diz que "a obra do escritor é um abismo para dentro do ser humano”, e que ele continua se sentindo como um leitor apaixonado, que sempre terá diante de si um infinito a desvendar.

O espetáculo é delicado, suave e, ao mesmo tempo, impactante sob o ponto de vista estético, denso sob o da dramaturgia. “Espero que nosso espetáculo contribua para aproximar esse genial escritor paraense de mais e mais pessoas. Precisamos ler Dalcídio Jurandir”, enfatiza.

Depois da temporada de estréia, a expectativa do grupo é circular com o espetáculo. Anda não há nada previsto mas, na intenção de viajar com a peça, o grupo projetou uma estrutura simples, pensada pra facilitar os deslocamentos e se adequar aos mais variados espaços, sem perder sua poesia.

Após os últimos ensaios, e na expectativa da estreia, Alberto Silva Neto respondeu a entrevista que segue abaixo, realizada pelo Holofote Virtual para seus leitores. Saiba um pouco mais sobre como o encanto amazônico dalcidiano se projetou na encenação do Usina.

Holofote Virtual: O universo de Dancídio Jurandir, em Chove nos Campo se Cachoeira, está muito presente nesta montagem, ma sé difícil imaginar como conseguistes condensar desta maneira um texto tão denso quanto extenso...

Alberto Silva Neto: Buscar inspiração num romance pra criar a cena teatral é fazer escolhas. Não dá pra abarcar a complexidade de um romance em uma hora de espetáculo. Decidimos, primeiramente, que iríamos contar duas histórias paralelas, a do menino Alfredo e a de Eutanázio.

O primeiro sonha com o futuro, o segundo é atormertado pela lembrança do passado. Pensamos, também, que a história de Alfredo poderia ser contada por ele mesmo, enquanto a de Eutanázio seria narrada por três mulheres de sua vida: Raquel, Irene e Felícia.

A ausência dele se faria presente. Assim, o elenco mergulhou na obra e extraiu dela aquelas palavras que gostaria de fazer também suas. Como eu posso "me dizer" pelas palavras de Dalcídio?

Depois veio a participação importante do Paulo Faria, como dramaturgo, que ajudou a organizar essas falas pessoais numa estrutura, que no fim contou com a colaboração de todos. Acho que o resultado de todo esse processo faz com que o universo dalcidiano povoe, de certa forma, o espaço cênico.

Holofote Virtual: Em pouco mais de uma hora, o espetáculo parece dar conta do romance, foi a sensação de uma primeira impressão que tive. Como vocês chegaram a isso? E do que sentirias falta, ainda no texto, na encenação?

Alberto Silva Neto: Nem sei dizer quantas versões diferentes fizemos dessa dramaturgia. Todo dia mudávamos frases de lugar, trazíamos novas ou jogávamos fora cenas inteiras. Foi o jogo da criação cênica que definiu o que seria dito. E a potência de gerar imagens ricas a partir dos fragmentos escolhidos. Hoje, sinceramente estou satisfeito com o resultado. Tenho convicção de que essa é a nossa melhor versão para a obra que escolhemos para induzir essa criação. O que não significa que não pensarei diferente amanhã.

Holofote Virtual: Há um recorte de vida pessoal do ator Milton Aires, que faz um paralelo do tempo da infância de Alfredo. Qual foi teu intuito em utilizar esta linguagem no espetáculo?

Alberto Silva Neto: No caso do trabalho com o ator Milton Aires, que nasceu no Marajó, escolhi revelar, em cena, as histórias pessoais que foram contadas, como exercício para buscar experiências de vida dele que pudessem servir ao trabalho.

O resultado é que na dramaturgia final ora ele narra Alfredo, ora conta histórias de vida reais, que no final das contas se parecem muito com a ficção dalcidiana. Nesse sentido, é muito corajosa a atitude do Milton, de se contar assim, é comovente de tão delicado o trabalho dele.

Holofote Virtual: Pude ver em “Eutanázio”, um pouco das linguagens utilizadas também em Parésqui, Mandrágora e o Solo do Marajó, todos dirigidos por ti. Fala um pouco sobre esta construção, como um traço ou uma marca de direção tua.

Alberto Silva Neto: De fato há semelhanças, e percebo que existe um fio estético unindo essas encenações. Ainda não sei falar muito disso. Mas posso dizer que uma referência muito forte são os conceitos de espaço e objetos vazios, de um encenador inglês chamado Peter Brook.

A cena é um espaço como uma folha em branco, na qual você vai escrever as cenas ressignificando o tempo todo o corpo do ator e os objetos cênicos. Já a presença dos atores em cena assume a função de mostrar que os criadores são também testemunhas do ato dos companheiros de criação.

É muito bonito ver um ator assistindo ao colega enquanto ele atua, e também saber a hora de desaparecer, mesmo estando o tempo inteiro ali, presente.

Holofote Virtual: Ao ver o resultado de um projeto, que levou meses de preparação, penso nos obstáculos naturalmente impostos pela longa duração do processo e que só podem ser vencidos se o trabalho de todos os envolvidos for feito em conjunto e com certa paixão. Como é que tu vês isso como o diretor?

Alberto Silva Neto: O teatro é uma arte coletiva. Quem não compreender isso está perdido. Cedo ou tarde descobrirá o erro. E nós, no Usina, temos isso como premissa: todos são criadores.

Foi assim que tivemos, além do Milton, as atrizes Nani Tavares, Valéria Andrade e Vandiléia Foro, todas mergulhadas em desafios pessoais na relação com o trabalho, muito guerreiras, muito decididas, muito apaixonadas.

Depois a equipe, com Nando Lima na concepção visual, Cláudio Melo no desenho de som, Sonia Freitas na iluminação, e outros tantos parceiros cenotécnicos, operadores, produtores, que foram e são, todos eles, fundamentais pro resultado final.

Teatro é assim: muitas falas convergindo para uma única concepção cênica, que deve ser capaz de abarcar, ao mesmo tempo, a unidade e a multiplicidade desses muitos olhares. Esse talvez seja o grande desafio dos encenadores.